contos de
                                gatos & cães
                                                                   nelson de oliveira

 

 

         Naquela época tínhamos um gato

 

      Mas não o suportávamos. Ele cagava por toda a parte, fazia ruídos a noite toda, esparramava o lixo na calçada e arranhava as almofadas do sofá. Por isso, nos livramos dele e compramos um cão.

      Era um fox-terrier branco e saudável.

      No primeiro dia em que o vimos, ele nos pareceu tão belo e atraente, tão orgânico, tão cheio de si e de promessas que imediatamente toda a família, em silêncio — quase um pacto de sangue —, jurou tolerar, nele, tudo aquilo que não havíamos tolerado no gato, todos os seus possíveis excessos, manias e atavismos. Mais do que isso, nós, a partir de então, passamos a desejá-lo exatamente assim: nu, sem coleira nem regras.

      Nós o amávamos e o alimentávamos. Às vezes nós o colocávamos numa grande caixa de papelão e o levávamos conosco, naqueles deliciosos passeios pelo campo que nossa família costumava organizar nos fins de semana, a cada verão. Também lhe dávamos banho todas as segundas-feiras, religiosamente, após intermináveis sessões profiláticas sentados ao sol, quando procurávamos e eliminávamos as eventuais pulgas do seu pêlo, conforme instruções do veterinário.

      Fazíamos tudo isso, mas, mesmo assim, ele se recusava a nos amar, a nos seguir pelas ruas do nosso bairro, a uivar para a lua em noites de lua cheia, a perseguir os cães menores e a rosnar diante de visitas e estranhos, como todo cão costuma fazer.

Seu nome era Sansão e seus olhos eram suaves e, ao mesmo tempo, ariscos, como os de um patriarca chinês.

      Jamais ouvimos o seu latido durante todo o tempo em que viveu conosco. Jamais o ouvimos arrastar meias e chinelos pelas escadas, ou chafurdar na terra úmida do jardim após uma noite de chuva, ou urinar nos cantos da cozinha, ou derrubar os vasos e quebrar potes de porcelana também, coisas tão corriqueiras na vida de qualquer cão.

      Pior do que isso. Além de um comportamento pouco ortodoxo, Sansão ainda possuía o inconveniente hábito de perscrutar nossas almas, de avaliar o quanto de irrequieta beleza conduzíamos em nosso interior.

      Freqüentemente, durante uma conversa reservada com meu pai, ou com qualquer outro membro mais próximo da família, imaginando estarmos a sós, a portas trancadas, de repente pressentíamos um observador inoportuno analisando nossos sentimentos, nossos segredos, aquilo que de mais precioso trazemos dentro de nós. Bastava olhar sobre os nossos ombros para descobrir a acanhada presença de um cão, meio oculto na sombra de uma estante, feliz por participar de um acontecimento tão íntimo, tão particular.

      Era como se ele possuísse o dom de transpor portas e paredes, apenas com a força do pensamento.

      Ele existia, era sólido e palpável, mas os olhos apresentavam uma coloração terrivelmente alucinada e transparente, como se neles, mergulhado em suas pupilas quase pré-históricas, estivesse presente, muito bem aprisionado, um reflexo claro e detalhado do dilúvio universal — a catástrofe da vida, borbulhando a mais de cem graus centígrados.

      Mas isso não era fácil de ser percebido, não.

      Poucos de nossa família possuíam paciência e desprendimento suficientes para chegar a essa incrível porém simples constatação. Apenas quando olhávamos fixamente dentro de seus olhos, sem piscar, sem desviar um milímetro sequer do nosso ponto de interesse, por horas a fio, é que percebíamos neles o início dos tempos, a formação do céu e da terra. Durante essa procura, os pensamentos iam fluindo livremente e, ao mesmo tempo, apaziguando-se. O despertar sobrevinha, ao que parece, após uma certa fadiga do pensamento, de um desamparo finalmente aceito e assumido pelas nossas mentes. Então, tudo se iluminava e o nosso cão deixava de ser um acessório, uma parte indesejada da mobília.

      Finalmente percebíamos a sua real presença entre nós.

      Era a verdadeira revelação da sua essência, uma substância abstrata e dinâmica. Nela, nos perdíamos e nos deleitávamos. Por ela valia a pena suportar tudo o mais, a ausência de um latido nas manhãs de domingo, de um chinelo arrastado através da sala, de uma almofada cheia de incisões, de um passeio pelas ruas.

      Todavia, bastava nos distrairmos só por um segundo e — zás! — imediatamente tudo se desvanecia diante dos nossos olhos. As sagradas escrituras e a nossa completa compreensão delas eram substituídas, no ato, pelas patéticas feições de um cão.

      Ele, no mesmo instante, dava meia-volta e se recolhia em sua cesta acolchoada, sem ao menos se despedir, sem sequer, por meio de um aceno com as orelhas, com o rabo, dizer, sei o que estão sentindo, sinto o que vocês sentem, somos irmãos na dor e no conhecimento, na ilusão e no despertar, deixando, em cada um de nós, a desagradável impressão de que, talvez, um periquito teria sido bem melhor.

 

 

 

 

 

               Zede, o gado


      Vânia gosdava de gandar, de deglamar boezia, de valar em búbligo. Gueria zer abrezendadora de delevizão. Bas, bra zeu dezezbero, era vanha, buido vanha. Dão gonzeguia dizer, diande das bessoas, no drabalho, em caza, uba údiga vraze que voze gombledamende límbida, indeligível. Guiz o desdino, infelizmende, gue ze gazaze com um zenhor alebão, Franz, gorredor da bolza de valores, gue, além de velho, era buido, buido gago. Vanha e Gagago, azim eram gonhezidos, oz doiz, em doda a barde. Adé gue gombraram um gado. Bazaram, endão, a zer jabados, zem gue zoubezem, de Vanha, Gagago e Zede. Zede vidas? Dão, dão. Zede badas. O gado era um bijo basdande exódico, guase vandásdico, dinha, realbende, zede badas volheadas de ouro e um rabo buldigolorido. Gosdaba de gozinhar, lavar e bazar. Gobia bougo, dão bebia, dão vumava e guaze dão zaia à doide, além de vregüendar bondualbende a miza, aos dobingos. Valava inglêz vluendemende e era um vrango abreziador de óberas. Borém voi bosdo no olho da rua borgue dinha o bézimo ábido de roer as unhas, brinzibalmende as dos oudros. Ah! gue valda Zede nos vaz. Ninguém brebarava um esbaguede gom bresundo e ervilha gomo ele. Dinguém zabia zervir, belhor do gue ele, um bom vinho dindo.

 

 

 

 

 

Nelson de Oliveira nasceu em 1966, em Guaíra (SP). Diretor de arte, publicou Fábulas (contos, 1995), Os saltitantes seres da lua (contos, 1997), Quem é quem nesse vaivém? (novela infantil, 1998), Naquela época tínhamos um gato (contos, 1998), Treze (contos, 1999), Subsolo infinito (romance, 2000), Às moscas, armas! (contos, 2000), O leão que achava que era domador (conto infantil, 2001), O sumiço das palavras (novela infantil, 2001) e O filho do Crucificado (contos, 2001). Participou da antologia Dois zero zero zero, da Komedi (2000). Dos prêmios que recebeu destacam-se o Casa de las Americas (1995) e o da Fundação Cultural da Bahia (1996).

 

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+ LITERATURA

  )  conto  )  Jorge Pieiro  )  José Arrabal  )   Luciano Bonfim  Nelson de Oliveira

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ADJACÊNCIAS

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