dois contemas de
                                                          remorsos e um esgar
                                                                                   jorge pieiro

 

 

        comemoração de um remorso


1.
a estação de trem está tão fria!
e esta cruz?
aguardo, aqui, com esta cruz enrolada em folha de jornal, sentado sobre o batente da estação, esta cruz que levo ao meu irmão, o trem.
porque vou matá-lo novamente, como já o fiz há dez anos.
carrego comigo essa lembrança, para sentir o frio de uma morte, como sinto aqui.
matei-o, porque ele não teve coragem suficiente para me matar.
tomei-lhe a faca e arranquei suas vísceras.
depois, fugi.

2.
será tarde quando o trem chegar?
de nada adianta essa ponta afiada, como uma estaca, desta cruz?

3.
há três horas e quarenta e sete minutos que tento morrer. se não o faço, presumo ao amor que tenho pelos meus. minha mão morreria de dor, meu pai de loucura e minha irmã de absurda incredulidade. e você, mãe?
refuto a idéia, mais ainda, por causa do meu próprio medo de morrer com a dor.
cubro-me de horrores.

(  texto édito: 1989, de fragmentos de panaplo  )

 

 

 

 

                sem remorso


sem pestanejar, rasgou todos os papéis.

meu irmão nunca concebido rasgou todos os papéis dentro de meus desejos. ouvi o seu grito, quando há anos, muitos anos atrás, levei a cruz com a ponta afiada para enterrar novamente no seu peito, à espera de um trem de panaplo. mas agora sua insânia é diferente. não é mais aquele que morreu quando me deixei despencar no mundo em silêncio. ele voltou mais afoito, como nunca. por qual razão, não sei. sei.
sem pestanejar, rasgou todos os papéis.
e dentro deles, minha letras, minhas cores, meus acentos circunflexos, minha interrogações, minhas totêmicas perplexidades, meus inválidos substantivos, sujeitos a provas cabais, minhas conjunções. rasgou meu verbo. por qual razão, não sei. sei.
sem pestanejar, rasgou todos os meus papéis. todos.
todos, simplesmente todos.

(  texto inédito: 2005, para nacos de...  )

 

 

 

 

                     era uma...

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(Sandro Dalpino)

Escolhi a pior história para contar. Não discordarei dos senhores se me fustigarem palavras desavindas por conta disso. Paciência! A vida e a literatura estão vazias, do mesmo modo que a ineficiência das nossas falas em torno dessas fogueiras abstratas. Se prefiro abrir o leque das idiotias é por que, como ouvintes, é o que merecem. Desculpem-me a arrogância. Ou não. Êi, não saiam já. Esperem... A impaciência é improdutiva, ovo goro, pista falsa. Esperem pelo epílogo desta história. Haverão de entender por que me disponho a ser apedrejado por mamutes – se é que há mãos neles atiçadas -, mas a eles prefiro, ao estrondo do estouro, àqueles que apenas regurgitam em forma de aceitação. Perdão, mais uma vez, dito agora em voz alta. Na verdade, nenhum dos senhores é culpado pela insanidade, pela apatia, pela negligência intelectual. Vítimas, apenas vítimas. E pergunto, pois, será que entenderiam, encontrariam o momento oportuno para um revide ou galopariam, apenas, ao largo de uma desastrosa inocência. Se me entendem... Pois retomo o princípio: Verbo! Verbo de uma história que se não poderia pensá-la como tal, com tal analogia sagrada. A minha história não tem a menor graça. Uma vida amorfa, comum. Agora, que estamos cientes... Não, não se vão ainda, pois assim perderão a grande oportunidade de me saber inválido diante de uma platéia. Enfim...

  (  texto inédito: 2004, para entropia com...  )

 

 

 

 

Jorge Pieiro  nasceu em 1961, em Limoeiro do Norte (CE). Escritor, mestre em literatura brasileira (UFC); professor de Literatura e sócio-diretor da Letra & Música Comunicação Ltda. Publicou Ofícios de desdita (novela, 1987), Fragmentos de Panaplo (contemas, 1989), O tange/dor (poemas, 1991), Neverness (poemas, 1996), Galeria de murmúrios (ensaio, 1995) e Caos portátil (contos, 1999). Possui contos, crônicas, ensaios e resenhas publicados no jornal O Povo, de Fortaleza, e em outras publicações nacionais e estrangeiras. Integra as antologias Geração 90: manuscritos de computador (Boitempo, 2001), Geração 90: os transgressores (Boitempo, 2003), Os cem menores contos brasileiros do século (Ateliê, 2004), Antologia de contos cearenses (FUNCET/Imprensa Universitária/UFC, 2004).

 

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+ LITERATURA

  )  conto  )  Jorge Pieiro  )  José Arrabal  )   Luciano Bonfim  Nelson de Oliveira

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ADJACÊNCIAS

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