A consistência da narrativa curta
                                              nas confluências do século XXI
                                      jorge pieiro

 

 

1.        
      Sirvo-me deste texto para provocar algumas questões, assim como para democratizar idéias e, principalmente, revelar um cenário literário que se expõe ainda em plena e franca realização no Brasil. A tentativa de fazer essa abordagem sobre uma recente amostragem de nossa literatura, tenciona  aglutinar aquilo que ainda se molda. Trata-se, pois, de uma tarefa, se não árdua, pelo menos instigante, mesmo diante de execráveis valores culturais em vigor.
      Para alguns, desde a década de 50, a arte e, por delimitação, a nossa literatura, vive a anomalia da pós-modernidade. Se me permito admitir essa afirmação, encontro respaldo no vazio que a classificação encerra. Afinal, o que é o pós-moderno? Se já é pós, o que acontecerá depois? Alguns até já anunciam o pós-tudo. O pós-tudismo? Já, de longe, acenara Tristão de Ataíde a também um impróprio “neomodernismo”.
      Acredito serem fantasiosas essas classificações e, conseqüentemente, os enquadramentos, por permitirem apenas o rastro das possibilidades do que, eventualmente, possa ser produzido; como se a partir das obras, a criação de rótulos se instalasse como verdade absoluta. Ora, isto é uma inversão de valor. Não é possível admitir que qualquer rótulo se sobreponha à própria criação.
      Ser pós-moderno – referindo-se apenas a narrativas -, por acaso, é ter pouca pretensão de originalidade e crítica? É prescindir de um estilo próprio, fazendo uso da padronização, da repetição, da homogeneização? É subverter as formas narrativas por meio da combinação e apropriação de gêneros modernos e clássicos, tentando construir um gênero massificado? É misturar técnicas da linguagem jornalística; da TV, do cinema, dos quadrinhos? É imitar textos consagrados, valorizando temas como loucura, sexo e violência?
      Dos conceitos de moderno, modernismo e modernidade, e a reboque, os que se permitem o prefixo pós, estamos fartos! Desde o final da idade média, vivemos modernidades. Parte da inteligência humana vem manipulando esses conceitos e, cada vez mais, causando confusão.
      Mas deixo de lado essas possibilidades teóricas para encarar os textos narrativos de alguns autores brasileiros surgidos a partir da década de 90, que adotaram a brevidade do relato como tendência da ficção.


2.
      Ao contrário do que findo por dizer – os enquadramentos são nocivos, porém, inevitáveis - é cedo ainda para se pensar na estilização de um novo período literário, assim como na canonização de alguns autores do nosso entorno temporal, até mesmo por que se evidencia mais um período de transição e, como tal, incompleto e desnorteado. Porém, já se faz tarde para que não se possa debruçar sobre algumas evidências que se cristalizam desde a última década do milênio passado.
      Essa linha de raciocínio é a que se me afigura para tentar responder a uma questão aberta em minhas reflexões. A pergunta acompanha um dos tópicos valorizados e não desenvolvidos pelo escritor Ítalo Calvino, em sua obra Seis propostas para o próximo milênio (Companhia das Letras, 1990), que reuniu as conferências de Harvard, que seriam pronunciadas nos anos de 1985 e 1986. Calvino delineou alguns tópicos e escreveu cinco conferências, tendo como temas Leveza, Rapidez, Exatidão, Visibilidade e Multiplicidade. A sexta conferência - denominada Consistência - seria escrita durante a permanência do escritor naquela universidade. Seria, pois a viagem definitiva e não programada deixou órfãos os leitores desse último texto, e os ouvintes de suas conferências.

      Pois é pensando nessa Consistência, ausente do texto de Calvino que, pretensiosamente, empresto-me a este ensaio. É certo que as certezas delimitam, porém, considerando os anos 90 como período de recuperação da narrativa curta, admito que alguns exemplos aqui citados creditarão o devido valor ao assunto.

3.
      O dicionário Aurélio é sucinto e pouco esclarecedor, com relação ao termo, pelo menos no âmbito do que aqui reflito. No entanto, sempre é possível vislumbrar novas perspectivas. No item dois do verbete Consistência lê-se que é a “concordância aproximada entre os resultados de várias medições de uma mesma quantidade”. Logo a seguir, em sentido figurado, é “perseverança, firmeza, constância”.
      Seguindo a definição de dicionário, as aproximações de textos de vários autores, já podem sugerir essa concordância em termos de temas e utilização da linguagem para a construção das narrativas curtas. De uma série de textos lidos de vários autores, algumas palavras e efeitos se destacam como temáticas: o sobressalto, o medo, a dor, a saudade, a ilusão, a angústia; mas também o fastio existencial, a obsessão, a neurose, o desequilíbrio, a insensatez, a fúria, o delírio, a morte – que, ao lado das anteriores, são reflexos das violências cotidianas; além dos enigmas e atmosferas fantásticas, talvez frutos de perplexidades e ausência de rumos.
      Mas, o que entendo por Consistência, se emprego a palavra como um valor literário a ser preservado no curso deste novo milênio? O que diria Calvino?

      Entendo que a consistência do texto literário é resultado de dois procedimentos. O primeiro, de ordem estrutural, é aquele que encerra o limite temático com uma linguagem acessível, contundente e aberta à intervenção reflexiva do leitor. O segundo, de ordem conceitual, que permite uma aproximação com a vida, que a represente, que deixe à mostra as vísceras, de modo a garantir uma espécie de repulsa ou transferência, mesmo que invisível, no leitor.
      A consistência deve ser percebida sempre de forma dicotômica, mesmo sabendo que a imaginação humana supera a dialética. Mas é necessário que haja aproximações e distanciamentos, presenças e ausências, sublimações e sofrimentos para que a revelação do instante se coagule em outro instante, produzindo uma visão epifânica. Dois exemplos disso: um, no conto “A procura”, do mineiro Carlos Herculano Lopes:

 

Ela emitia sons estranhos e vivia pelos cantos da casa; ora por cima do armário, às vezes debaixo das camas ou perto de alguma lata. Sempre sua mãe a encontrava apenas com a cabeça para fora, dentro do vaso sanitário. Preocupada com essas manias da filha, resolveu levá-la a um analista. Este, após anos de tratamento, conseguiu convencê-la de que ela não era um rato, mas sim uma jia, de espécie já em extinção. Então, para preservar a raça, ela andou durante anos pelos mais distantes lugares, à procura de um companheiro. Hoje, Sofia e Ricardo, sem incomodar ninguém, vivem dentro de um tanque, na parte externa da casa. (In: Coração aos pulos, Record, 2001).

 

e outro de trecho do conto “Gaspar”, do carioca Leonardo Vieira de Almeida:

           

Uma luz azulada emana dos tanques de vidro, dispostos ao longo das paredes do cômodo. Dentro deles, corpos femininos flutuam, como peixes em aquários. Os olhos globulosos, penetrantes, observam Gaspar.

As mulheres, imersas na solução que lhes conserva a carne, têm a pele esbranquiçada, certas partes do corpo cobertas por nódoas, as bocas exibindo arcadas de poucos dentes, as gengivas como esponjas de sangue pisado. Uma mulher extremamente gorda e velha ocupa um dos tanques. Sua mãe.

Gaspar comprime o corpo de encontro ao vidro. A velha lembra-lhe um peixe cinzento e engelhado. Mas os olhos, chatos e brilhantes, são ainda olhos vivos. Fixam Gaspar. E flutuando no líquido azul, devassam sua intimidade, abrem sulcos em sua carne, até atingirem-lhe os ossos.

Então, Gaspar cai de joelhos diante do tanque. Encosta a boca no vidro e beija sua mãe.

Foi daí que saiu. Expulso do corpo podre e inchado, mas não para dentro da água. Em vez disso, a terra úmida, teve de sentir o corpo ensangüentado preso pelo cordão umbilical ser quase digerido pela lama. E, nitidamente, lembrava-se dos coveiros, acima dele, enquanto a chuva tornava a lama mais frágil, ainda distinguia suas pás entre as pernas de sua mãe, as mãos tentando desesperadamente empurrá-lo para baixo. Ouvia o barulho das pás e das ferramentas, dos cabos das pás empurrando-o para a lama, os estalos das línguas dos coveiros.

E aqui está. Gaspar tenta imitar os movimentos de sua mãe, enquanto os olhos dela, como tenazes, quebram-lhe os ossos. Gaspar construiu o laboratório pouco antes de sua mãe se afogar. (In: Os que estão aí, Íbis Libris, 2002).

      O conto breve de Carlos Herculano Lopes soa estranho – trata-se de uma fábula? De uma alegoria? De um delírio? -, mas não perde a coerência. E, de qualquer forma, remete o leitor a pólos de indecisão: isto é vida ou morte? Dessa maneira é também o pequeno trecho de Leonardo Vieira de Almeida, que por si, já se poderia confundir com o próprio modelo narrativo do gênero, completo, como se desfiado de suas outras circunstâncias. Assim, teríamos um conto dentro do conto? São dois exemplos da dicotomia que imagino com o valor da consistência, salvo melhor juízo.

4.

      Nelson de Oliveira, um poderoso contista, ousou arregimentar em torno de duas antologias – Geração 90: manuscritos de computador e os transgressores  (Boitempo, 2001 e 2003, respectivamente) – 29 narradores. Atrevido, e, com certeza, parcial, resolveu torná-los os melhores contistas brasileiros surgidos no final do século XX.
      Foi uma empreitada audaciosa, e, de certa forma, oportunista, haja vista o momento em que o mercado editorial acenava para a publicação de livros de contos e de antologias. Contudo, muito pertinente. Permito-me dizer que um escritor pode falhar, mas a sua obra, não. E neste caso, Nelson de Oliveira, não como escritor, mas articulador, pode até ter falhado, mas conseguiu revelar e possibilitar intercâmbio de vários escritores espalhados pelo Brasil. E mais, instigar o olhar crítico sobre a produção recente. Com certeza, engoliu muitos sapos, mas também recebeu algumas pérolas.
      Mas o que vale, pensamento à parte sobre a constituição de uma geração ou não – são sempre impróprias essas delimitações – é a conjugação de mentalidades consistentes em torno de obras tão díspares e singulares.
      O antologista, no prefácio, acentua sobre as obsessões temáticas de cada autor, que aqui, saliento em nomes completos que apresento ou relembro; que devem ser experimentados, amados ou odiados, enfim, julgados.
      Resume Nelson que os autores reunidos na primeira antologia
 

São artífices de seu tempo, em conluio com a economia cinematográfica (Marçal Aquino, Fernando Bonassi), com o erotismo obsessivo e desregrado (Marcelo Mirisola), com o lirismo que subjaz no cotidiano (João Carrascoza, Rubens Figueiredo, Cíntia Moscovich), com o mágico e o grotesco (Amilcar Bettega Barbosa, Jorge Pieiro, Mauro Pinheiro, Pedro Salgueiro), com as neuroses urbanas (João Batista Melo, Carlos Ribeiro), com o engajamento social (Luiz Ruffato), com a cadência da poesia (Marcelino Freire, Altair Martins), com os desvãos miúdos do cidadão comum (Sérgio Fantini, Cadão Volpato)


      Em Geração 90: os transgressores, em que reúne narrativas mais longas, o organizador aponta como interseções entre os autores escolhidos, além de terem estreado na década de 90, o nonsense, a ironia, a insanidade, a fragmentação lírica, o fluxo da consciência, as divagações cínicas e rancorosas, a delicadeza do absurdo, o gosto pela prosa mal-comportada e o desprezo pelo discurso linear
Nesta antologia, além de Altair Martins, Marcelo Mirisola e Jorge Pieiro, acrescentem-se os nomes de Ademir Assunção, Edyr Augusto, Arnaldo Bloch, Ronaldo Bressane, Simone Campos, Luci Collin, Fausto Fawcett, Claudio Galperin, Ivana Leite Arruda, Daniel Pellizzari, André Sant’Anna e Joca Reiners Terron.
      Vale dizer que é possível encontrar consistência nesses autores, mesmo que esse conceito não encontre respaldo pela generalidade ou pela forma de expressar, paradoxalmente, seus manuscritos em computador ou a discutida transgressão em pleno século XXI, que pode parecer anacrônico. Independentemente de manifestações ideológicas, o momento atual permite que se cumpram esses escrutínios. O homem, o escritor é o seu tempo! E não adianta tentar fechar-se em cânones, ou simplificar autores como epígonos de canonizados.
      O próprio Nelson de Oliveira, que se eximiu da antologia, é autor de dois contos, pelo menos, cujo enriquecimento do texto literário ocorre por intermédio da linguagem. Falo de “Qüiproqüó na Sé”, da coletânea Os saltitantes seres da lua (Relume Dumará, 1997); e de “Zede, o gado”, de Treze (Ciência do Acidente, 1999), que ora apresento. Reparem no que a leitura dessas imagens acústicas podem proporcionar:
 

Vânia gosdava de gandar, de deglamar boezia, de valar em búbligo. Gueria zer abrezendadora de delevizão. Bas, bra zeu dezesbero, era vanha, buido vanha. Dão gonzeguia dizer, diande das bessoas, no drabalho, em caza, uba údiga vraze que voze gombledamende límbida, indeligível. Guiz o desdino, infelizmende, gue ze gazaze com um zenhor alebão, Franz, gorredor da bolza de valores, gue, além de velho, era buido buido gago. Vanha e Gagago, azim eram gonhezidos oz doiz, em doda a barde. Adé gue gombraram um gado. Bazaram, endão, a zer jabados, zem gue zoubezem, de Vanha, Gagago e Zede. Zede vidas? Dão, dão. Zede badas. O gado era um bijo basdande exódico, guaze vandásdico, dinha, realbende, zede badas volheadas de ouro e um rabo buldigolorido. Gosdaba de gozinhar, lavar e bazar. Gobia bougo, dão bebia, dão vumava e guaze dão zaia a doide, além de vregüendar bondualbende a miza, aos dobingos. Valava inlgêz vluendemende e era um vrango abreziador de óberas. Borém voi bosdo no olho da rua borgue dinha o bézimo ábido de roer as unhas, brinzibalmende as dos oudros. Ah! gue valda Zede nos vaz. Ninguém brebarava um esbaguede gom bresundo e ervilha gomo ele. Dinguém zabia zervir, belhor do gue ele, um bom vinho dindo. (In: Treze, Ciência do Acidente, 1999).   

      Também autor de Naquela época tínhamos um gato (Companhia das Letras, 1998), e do recente Sólidos gozosos & solidões geométricas (Record, 2004) e das narrativas de O filho do crucificado (Ateliê, 2001), em Treze, o numeral homônimo representa a quantidade de contos curtíssimos, que se suplantam pela concisão, pelo insólito, pela dose surrealista que encerra, pelo grotesco sublime - se assim, paradoxalmente, é possível a expressão. Com isso, Nelson de Oliveira não apenas revê o minimalismo, como também reinterpreta a topologia do caos e a perplexidade de seus habitantes.

5.

      Nelson de Oliveira, uma vez convidado pela Universidade de Lima, levou alguns brasileiros em seu texto. Afirmou que a prosa tornou-se menos racional, mais ligada ao onírico. Mas, acrescento, por isso, não menos consistente. O que ele defende, é que o texto tornou-se menos apolíneo e mais dionisíaco. Entre eles, cita a narrativa do mineiro Luiz Ruffato, autor de dois bons livros de narrativas curtas: Histórias de remorsos e rancores (Boitempo, 1998) e (os sobreviventes) (Boitempo, 2000). Dele, inevitável é não pensar que o conto “Decisão” não tem uma relação forte com o conto “Estória de seu Armando e de seu amor” (In: Mundinha Panchico e o resto do pessoal), do cearense Juarez Barroso, cuja obra foi reeditada, por completo e em volume único, pelas Edições Demócrito Rocha. Apresento, no entanto, um trecho, entre tantos!, consistente, a meu ver, do conto “O segredo”, da segunda coletânea:

Sonhava assim seu funeral: é uma tarde de domingo (morreria num sábado, para que ninguém precisasse perder o dia de serviço), céu anil, nenhuma nuvem. Poucas pessoas acompanham o cortejo (não fazia questão de multidões, choro, desespero, nada disso. O doutor Divaldo Sobrinho e o Geraldo da Farmácia seguem à frente, mãos firmes sustentando as alças do caixão, auxiliados por dois colegas do Colégio. Em seguida, dois funcionários da Prefeitura, um carrega uma vitrola a pilha; outro, um disco. Vencida a ladeira íngreme, a planura do cemitério. Uma quaresmeira ensombreia o terreno escolhido, quitado em módicas prestações. Lá embaixo, a cidade, inocente, descansa. Junto ao jazigo depositam o esquife e sobre a laje colocam a vitrola a pilha. Solenemente, o disco é retirado da capa. Silêncio. O Geraldo da Farmácia liga o aparelho. A música irrompe soberana: abraça comovida os túmulos próximos, ignorando se lápides de mármore ou cruzes destroçadas; afaga os operários que fazem hora-extra na Industrial; aninha os rapazes e moças que brincam despreocupados nas piscinas do Clube do Remo; invade os carros e ônibus que chegam da Rio-Bahia pela Vila Minalda; nina os velhos que dormem em suas cadeiras-de-balanço sob as amendoeiras na Vila Teresa; refestela-se com os meninos que jogam bola no campo do Brasil; regozija-se com os namorados que se refugiam no Horto ou na Ponte do Sabiá; acompanha, mais além, as mulheres que vão catar gravetos, para cozinhar e lavar roupas, lá pelos lados de Camargo... O silêncio. O doutor Divaldo Sobrinho põe-se, então, a fazer o elogio ao morto, recheando seu discurso de latinismo e erudição. Devagar, o coveiro assenta os tijolos, lacrando a gaveta. (In: (os sobreviventes), Boitempo, 2000).

      Aqui, presumo a consistência, tanto pela construção independente dentro dos limites maiores da narrativa completa, quanto pelo entrelaçamento da linguagem como representação da vida. Paradoxalmente, a elaboração do desejo da personagem se dá não para a vida, mas pela morte.
      Cita, Nelson, também, o estilo “simples e direto com estocadas fulminantes” do paulista Marçal Aquino, autor de As fomes de setembro (Estação Liberdade, 1991), Miss Danúbio (Scritta, 1997), O amor e outros objetos pontiagudos (Geração Editorial, 1999) e do festejado Faroestes (Ciência do Acidente, 2001). Exemplo? Um texto aparentado com a concisão do guatemalteco Augusto Monterosso – “Quando despertou, o dinossauro ainda estava lá”, que inspirou Marcelino Freire a organizar Os cem menores contos brasileiros do século (Ateliê, 2004). Mostro “Epígrafe: Memórias conjugais”: “Acendi o cigarro. / E só então reparei como o vestido dela era inflamável” (In: Geração 90, Boitempo, 2001). Isto é consistência. É também ironia. É também humor-negro. É a vida oculta.
      De João Carrascoza - leiam-se Hotel solidão (Scritta, 1994), O vaso azul (Ática, 1998) e Duas tardes & outros encontros silenciosos (Boitempo, 2002) - diz que é “um lapidador de sentenças, um filigranista”. O início do conto “Travessia” é de um lirismo que impressiona: 
 

Escurecia. As montanhas, há pouco iluminadas pelo sol, eram agora sombras suaves, e suas formas pontiagudas semelhavam facas rasgando a membrana do céu. A mulher cortava uma cebola na cozinha, num silêncio ainda maior que o das montanhas lá longe, atrás das quais uma vida a esperava, como a árvore espera os pássaros que nela hão de pousar. Saíam-lhe dos olhos uma lágrima, e se o menino entrasse naquele instante e a visse chorando, fácil seria lhe dar uma desculpa, embora ele, filho de quem era, soubesse por esses saberes que não se ensinam – já no sangue lhe correm desde o primeiro grito -, que ela estava mentindo. Mas o menino esperava o pai, à porta, sentado na soleira. Dali observava o mundo, que ia de sua casa cravada no vale até as montanhas, em cujo topo os policiais da alfândega mantinham guarda dia e noite. Não compreendia por que os pais viviam dizendo que uma hora teriam de ultrapassar a fronteira. Ali, no vale, era feliz. A terra, seca ou regada pela chuva, não dizia para ele senão terra; a árvore, pousasse ou não nela um pássaro, não dizia senão árvore; a folha estremecendo ao sopro do vento dizia apenas folha; as coisas anunciavam o que eram e, no entanto, ele já sabia que além de terra, árvore, folha, ela diziam somos o que somos, exista ou não quem nos mire, e ele, menino, porque não estivesse tão distante ainda de seu nascedouro, úmido do barro em que o haviam cozido, via imensidão naquelas miudezas. (In: Geração 90: manuscritos de computador, Boitempo, 2001).

      Incluindo-me, afirma o crítico que gosto “de trabalhar com ferramentas de corte e solda”; e conclui que Marcelo Mirisola - Fátima fez os pés para mostrar na choperia (Estação Liberdade, 1998) e O herói devolvido Editora 34, 2000) - é o mais dionisíaco dos contistas do grupo, que a sua existência “seria impensável durante o regime militar”.
      De Mirisola, apenas uma amostra, talvez uma das mais pudicas dentro de sua obra, que se faz consistente pela simplicidade com que o autor transporta o leitor a extremos: perversão? Desajuste? Pornografia? Imaturidade? Desnudamento da linguagem? Insurreição contra a hipocrisia? Leio trecho extraído de “Joana e as gôndolas”: 

Joana não tem bunda afrodisíaca. Antes de tudo é uma bunda entristecida ou quase sartreana em seu estrabismo e gravidade diante das coisas da vida. A elegância dela começa pela bunda. Talvez um vício-de-postura-de-beija-flor ou problema de coluna. Joana é uma mulher elegante e não é suficientemente abstrata, portanto mais elegante como se uma indesejada verdadeira (é o que acontece com ela na fila do supermercado) pudesse chegar a tanto. Ela tem a maternidade gratuita que eu gosto nas mulheres e nem um pouco da presença de espírito hiperbólica de uma Gargamelle antes de parir. Vale que ela é infeliz. Vale que ela sorriu para mim.
Aí faltou violência da minha parte. Uma coisa assim, por exemplo:
- Vou lhe acertar umas porradas. Vou amá-la. Depois quero um ventre branquelo e gordinho para descansar. Que tal? (In: O herói devolvido, Editora 34, 2000).

6.
      Há muitos autores que reacendem a grande explosão do conto dos 90 e de seus arredores, autores que revalorizam o gênero; que, dentro das possibilidades da própria conjuntura, revelam mundos insólitos. Entre tantos nomes - cabe aqui, o registro, ao Rascunho, de Curitiba, que, de alguma forma, ilumina ou destrói a sombra desses tantos autores -, eis alguns mais que não podem ser esquecidos, pois representam, queiram ou não, a própria história atual da nossa literatura de gênero curto: Jorge Viveiros de Castro; Daniel Galera; Tércia Montenegro; Evandro Ferreira; Álvaro Caldas; Carlos Trigueiro; Airton Paschoa; Dimas Carvalho; Luciano Bonfim; Sérgio Fantini; Paulo Betancur; Cláudia Lage; Luiz Paulo Faccioli; Rodrigo Naves; Carlos Ribeiro; João Batista Melo; Paulo Franchetti; Paulo Sandrini; Verônica Stigger, João Filho e tantos... tantos desconhecidos que regem essa orquestra de silêncios!
      É óbvio que registro apenas alguns nomes ligados à narrativa curta, surgidos a partir do anos 90 ou no despontar do século XXI. Se não, estaria apenas armando a minha própria cilada, por deixar de fora tantos outros autores que, desde sempre, declararam-se adeptos do gênero curto e já se acumulam de reverências e lugares certos, em se tratando de uma abordagem mais abrangente.
      Retomando, no entanto, a reflexão inicial, penso que a nova leva de contistas, que soam breves, periféricos, marginais, tradicionais, desestruturadores, líricos, radicais, impressionistas, (re)inventores... consegue traduzir o espírito da nossa época. Não vou fazer comparações com nomes consagrados, nem tampouco participar do silencioso movimento em prol dos deméritos alheios.
      Acredito no que escrevem esses autores mencionados, pelo que já li, isentando-me, desde já, do prejuízo de não poder ter lido tantos outros que poderiam ter sido nomeados. É claro, faltam muitos passos ainda para uma transubstanciação, mas talvez não seja a resposta do oráculo que se pretenda; ou a glória, apesar da vaidade aparente ou latente do ser escritor.
      Penso que por essa atual geração, melhor dizendo, por todos esses pares das curtas narrativas, a nossa literatura já não deve se intimidar diante de outras. Estão esses escritores apenas seguindo os passos, criando espaços. Vale, então, começar a pensar em suas obras, conhecê-las, revelá-las, furando os cercos da distribuição desajeitada e do próprio preconceito contra novos autores.
      Se lembro agora do tema deste ensaio, tenho a audácia de afirmar que Consistência é mesmo um valor literário da narrativa curta escrita na confluência do século XXI.

 

 

 

 

Jorge Pieiro  nasceu em 1961, em Limoeiro do Norte (CE). Escritor, mestre em literatura brasileira (UFC); professor de Literatura e sócio-diretor da Letra & Música Comunicação Ltda. Publicou Ofícios de desdita (novela, 1987), Fragmentos de Panaplo (contemas, 1989), O tange/dor (poemas, 1991), Neverness (poemas, 1996), Galeria de murmúrios (ensaio, 1995) e Caos portátil (contos, 1999). Possui contos, crônicas, ensaios e resenhas publicados no jornal O Povo, de Fortaleza, e em outras publicações nacionais e estrangeiras. Integra as antologias Geração 90: manuscritos de computador (Boitempo, 2001), Geração 90: os transgressores (Boitempo, 2003), Os cem menores contos brasileiros do século (Ateliê, 2004), Antologia de contos cearenses (FUNCET/Imprensa Universitária/UFC, 2004).

 

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