O Narrador
               josé arrabal

 

 

                                                 ( A )

            ...ele entrou na cidade madrugada adentro montado em
dois cavalos, um pé em cada sela, cinzento e branco: cavalgando
feito vento pelas ruas de todas as intimidades desconhecidas,
atravessando avenidas, percorrendo becos, relinchando nos ba-
nheiros, pasto, pastando em quartos, saltando além dos relógios,
por cavalgar, cavalgar, cavalgar: a cidade esperando, dele, sem-
pre, um pedido de socorro para levá-lo ao mercado nos seus dois cavalos, feito duas fotos que se perpassam: na foto dicá, a dilá, na dilá, a dicá: um sentimento numa, noutroutro sentimento, por cavalgar e contar história do povo reunido na cidade, na praça da cidade, cavalgando em torno como sempre, é sempre assim, é sempre assim, quando: entrando na cidade, ele percorre a praça em cavalgada, assim sendo, feito duas fotos perpassadas, fotos do tempo preste tempo nelas, ele travessado disto: fatos revelando no que vão se atravessando por tempos assim se armando nas travessias de encontros: imagens indo saindo por toda revelação dessas fotos diferentes: uma feita de dentes, outra de fantasias: e dessas fotos se fazendo andar, no encontrar o povo da cidade, na praça da cidade, lá sempre reunido, assim: e nele: a cavalgada por que se pode ser no estar do escolher, por esse mar do lado de lá: e o povo da cidade, no buchicho, bochichando, entre os dentes, querendo suas sementes: e ele contando histórias pela praça adentrando nos espaços só por cavalgar, por cavalgar e cavalgar: eu vim aqui pra lhes contar história do lugar:

( B )

            - era uma vez uma lagoa de cristal transparente, ele por ela olhando a lagoa de cristal, os peixes nela nadando e tudo se vendo nela, lá dentro no adentro dela e tudo quanto é peixinho de toda a cor bonitinho nadando entre os cristais da lagoa de cristal, pessoas se aproximando e vendo o raio de sol na lagoa penetrando para além da superfície do cristal bem pelo adentro da lagoa até lá embaixo, raio de sol travessando vagarzinho entre os traços dos cristais dessa lagoa, cidade de gente simples, o agente do correio sua pança sempre sonsa distribuindo postais de lá para cá as pessoas todas elas se escrevendo e ele de pança sonsa pondo em cartas cada selo tudo selo colorido e na mulher desse agente cada seio tudo seio mais parecido recheio de pêssego adocicado, ele sempre perfumado no perfume desses pêssegos, a trança daquela moça que morava atrás da escola e o chefe da estação sendo um gordo viajante sempre tocando viola, sempre viola na mão e o homem da farmácia o seu bigode dourado cofiado cofiado mas muito desconfiado, examinando os doentes, diziam, porque viviam no jardim da casa dele duas dúzias de duendes cozinhando os remédios da magia da farmácia e seu bigode dourado, o velho advogado careca nobre safado falando por cutuvelos solucionando questões tomando chá e conversa por todos os seus botões de sua camisa branca sempre que sempre vestia e o médico local sempre plantando flores umas flores engraçadas, cada uma, cada nome, sempre uma gargalhada, ele tinha dentadura um cavanhaque lustrado um cabelo penteado com pente tão bem talhado de um galho de alfazema, a enfermeira local uma loura tão vivida que só curava ferida, ferida de coração, mel no seu algodão, a senhora do puteiro sendo comadre do padre que nunca rezava missa e só vivia tomando por seu cálice furado licor de romã maduro trago típico local, as senhoras da cidade um punhado de doceiras doces de toda maneira nossa que agitação um quindim na sua mão: imagine que faziam com sabor inigualável um petisco apreciado por toda a população a cocada de maçã: e os velhos da cidade, essa cidade sem não da lagoa de cristal, eram velhos tão supimpas todos engravatados contando histórias vividas de um passado já lá longe as histórias que contavam logo histórias esquecidas ficando delas lembranças de tremenda confusão tudo de pontacabeça com o presente na mão, ninguém ficando sozinho naquela cidade não, cidade tão diferente doutra cidade por perto que diziam chamar Hum, só Cidade do Hum, e na praça da cidade a lagoa de cristal os peixinhos da cidade furtacor de caracol e o olhar daquela gente sempre indo até o fundo da lagoa colorida, olhar de gente pra gente, olhar com gosto de vida e o sol jogando seus raios pelos cristais da lagoa, em cada cristal passando um arco-íris formando, arco-íris de mil cores miraflores no arco-íris, cada peixinho passando por cada cor se tintando, todo o mundo iluminando, o olhar dessa lagoa, lagoa de todo mundo na lagoa de cristal, à noite todos nas suas, lua por lua, três luas nessa cidade encantada, seu povo uma molecada, molecagem vadiada, ninguém sabia de nada, na cidade cavalgada uma árvore de fogo vermelho feito dourado, o olho do corpo inteiro nessa cidade estrada e um sol todo raiado na lagoa penetrado por tudo mostrando as faces por tudo mostrando os peitos por tudo mostrando os braços por tudo mostrando as mãos pica bunda pernas pés, as cavernas das mulheres sempre abertas pra tocar por elas se viajar, os homens dançando livres e as três luas da cidade nas ruas intimidades, três luas iluminando duas luas coloridas, além das três luas, duas, pela vida das pessoas pelas ruas da cidade onde o código penal, lendando o que lendava, lendava por sua lenda falando com precisão que ninguém além dali podia mesmo saber da cidade procurada dos duendes e a fornada de remédios sem doenças, a cocada de maçã, sendo preciso entender que ninguém além da terra podia mesmo sentir, sentir tornado o saber da lagoa de cristal de seus peixes coloridos, mas a notícia correndo atravessando as paredes por cumprir as profecias doutras terras tão limites cavalgando por estradas em matagais indo além cortando longas planícies fazendo desfiladeiros, a notícia indo até mesmo até que indo à pé ao povo do deus divino zona do sacrificado gente do desprazer da lagoa de cristal e de repente todo mundo e toda gente começando a juntar gente, chegando outros chegados um escarcéu carregado, o povo do deus divino, um olho em cada dedo, cada dedo dó de dado, na barafunda das culpas gente querendo ter a lagoa de cristal na lagoa mergulhar e nela se estirar por lençóis de piquiniqui regado com carne morta a carne do deus divino mel em lata pão prensado peixe seco sangue triste, em tudo o bem e o mal trazendo em tudo o pecado em tudo só vendo dor e culpa e tal e tal, essa turma da tristeza na lagoa de cristal sujando suas entranhas, estranha gente esse povo deixando lá na lagoa a sujeira de suas almas, a alma deles nos corpos, um pessoal enrolado um bom-dia ensimesmado que não come nunca a fruta deixando ela apodrecer pra depois então comer, essa gente do pecado suja a lagoa de dor papel de seda manchado um punhado de cadernos toda a forma de saber todo o modo de se ter por se ser encarcerado, um punhado de mesuras por tudo aquilo querer somente o seu não querer, no ser não sentindo ser, como escrituras caladas que nunca mostram o que sentem só querendo não querer o sim tomado por não sempre dito por alguém: o deus divino sereno trazendo a culpa na mão, fazendo da cruz a vida com virgens na madrugada policiando a orgia, orgia sem alegria subindo em glória a escada por anjos toda castrada e o povo todo na praça o povo do deus divino dessa Cidade do Hum, no não o seu coração, pra lagoa de cristal seu quinhão só de tristezas, a lagoa um telhado suja por se lavar nela todo o prazer agora feito pecado, ela antes colorida lagoa pra toda vida que vem de água escorrida do fundo de uma caverna catatau de cada qual cata tônico e tal do fundo dessa caverna mais que nunca de cristal e o povo do deus divino suja a lagoa de bens suja a lagoa com o mal e o povo do lugarejo limpa as bordas lustra o centro do cristal e o povo do deus divino cega a lagoa com o mal cega a lagoa com bens sujando tudo outra vez, o cristal já esburacado ferido todo sangrado o sol deixando o seu raio já descer sacrificado sacrificando os peixinhos num azul acinzentado, lá no fundo da lagoa um lodo bravo nascendo ela nem mais se valendo duma beleza vermelha em fim de tarde possível, nessa lagoa assustada em si o acontecido vivido vivenciado, o povo da cidadela um povo então já irado com toda aquela imundice com todo aquele bendisse da limpeza se afastando da lagoa de cristal, tensão pro povo passando, dela lagoa assustada por si agora grimpada, percebendo o percebido a transparência perdendo cada dia e cada dia e o povo não se entendendo o povo representando o povo não mais se lendo e a lagoa trincando com trincado o seu trinado, rachando os seus mil cristais, mais opaca ela ficando, o seu dentro não deixando ser tocado por alguém, crispa as frestas dos cristais, uma rede assim formada, por dentro iluminada, no rosto toda trincada, a lagoa mascarada no rosto toda trincada, a lagoa mascarada do povo do deus divino assim lagoa guardada, o raio de sol secando, no trincando dos trincados certas pessoas chegando no lugarejo por tudo por prazer ela limpando e ela com mais pecados por tudo feito pecado penetrando nos trincados do cristal já sem trinado e nela já se guardando essa lagoa grimpada o olhar lá da lagoa um olhar que é mais de nada e desde então só chovendo dos olhos dessa lagoa chuva grossa chuva cega que tanto se vê chover e o povo do deus divino satisfeito pra valer com o trincado da lagoa por pecado o de ser em si e por si se ver e toda a tranqüilidade e toda simplicidade em toda festa do mundo sendo preciso viver pra lagoa distrincar, nessa cidade lagoa desta história só restando a história, mesma coisa, tudo uma trança de coisas por tranças sacrificadas, o povo não se importando, a lagoa mais sujando, a lagoa mais trincando sua vidraça por culpas, já na linguagem de tudo o dito, dito cifrado, no dito, dito não dito, um dito nunca falado e ele no cavalgar desta história da lagoa de lá e deste lugar e a praça toda emproada de povo empovoada e todos dele esperando um pedido de socorro para levá-lo ao mercado e ele no cavalgar se lembrando da lagoa com sua face trincada ainda que gargalhada pro povo todo a pergunta vocês gostam da história que a história determinou:?

( C )

            ele deixa a cidade cavalgando em dois cavalos vermelho e negro um pé em cada sela, não mais feito duas fotos que se perpassam, indo em cavalgada pelas ruas de todas as suas intimidades percorrendo avenidas, atravessando becos banhado nos banheiros se alastrando pelos quartos saltando os muros pegando estrada: o povo da cidade deixando a praça de volta para casa, cada pessoa de si para si mesmo uma olhada com olhar assim de nada, a semente dele pela praça germinada nele indo por encontrar o perpassar do deixa acontecer de um dia proutro dia noutro dia, o que mesmo ele queria, sendo a pergunta de todo dia do povo lá da cidade só levantando questões numerando profissões demarcando pensamentos, até os que, por falta do que fazer, sem respostas pras perguntas, logo vão pedindo monumentos por todo o acontecido no coitando dos coitados, todos querendo saber o que ele viera fazer e na vadiagem da esquina só um velho, o mais velho dos velhos lá do lugar, enraivecido com tamanha estupidez não suportando o impasse olhando por seu relógio gritando feito um possesso para todos esclarecer diz e diz mais diz e diz: o que ele só quis, com a vinda no cavalgar, foi mesmo contar história trocando a cor dos cavalos: e a cidade então vivendo como tal e dividida no bem e no mal perdida, ele nunca esperando mudanças de histórias dele qualquer coisa se não nele além do que mais lhe dar o prazer de cavalgar lavando as sombras saltando pedras cortando estradas até outra e mais outra estrada indo contando histórias de todas as lendas tristes da história carnificina, assim, em seu cavalgar, indo por se encontrar nos sabores do prazer desse gosto de narrar.

 

 

 

 

José Arrabal, jornalista, escritor, professor universitário e tradutor. É natural de Mimoso do Sul-ES e descendente de espanhóis. Vive atualmente em São Paulo-SP. Dentre os mais de 30 livros publicados, destacam-se Teatro: Anos 70 (1980); Stalin (1986); A lenda do cristal encantado (1987); O nariz do Vladimir (1989); O livro das origens (2001); Lendas brasileiras vols. 1 e 2 (2001 e 2004); Histórias do Japão (2004), etc.

 

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+ LITERATURA

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Luciano Bonfim superinterpreta feitosas
Manoel R de Lima visita linhas de elida tessler

 

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