anais em
                                             gramas
                                                             daniel glaydson

 

 

Fizeram muros altos, cinzentos
— esconderam a terra.
Mas o quadrado azul está presente
Sempre.
( Maura Lopes Cançado )

 

        tertu i lara (ou 4 mitos místicos)


I

A poesia é
o mútuo auxílio
de dois bons e honestos
burros
que se coçam mutuamente.

Isto é:
o autor e o papel.


II

escovei a dentadura do caos
ressuscitado da verdade

espantei o ócio da vaidade
lambida de tornaviagem

vesti-me de horror
embriagado em estética

divulguei a depressão do segredo
em páginas de absinto

inventei o obsoleto do absurdo
sem crendices místicas

enquanto olhava paredes sem quadros
e não batia fotografias


III

ser

como um peido de Príapo
que espantasse as feiticeiras

mas que deixasse vir as Fúrias e as Sombras


IV

velha andando sacola na mão olhos no asfalto
um elogio da                            l
                                                o
                                                u
                                                c
                                                u
                                                r
                                                a

 

 

 

 

             # zero


imemoriais instantes de descobertas
a contagem dos segundos e o arrastar do tempo
sem passar sem andar a durar

uma vida ilusoriamente esticada
alongada como os olhos de um japonês
realizada como o budismo de um monge

horas descritas seculando segundos
milenando minutos desabrochando rosas
atravessadas no vermelho da lua

memoráveis instantes de epifanias
no aniversário dos números o tédio da vida
e a solução encurtada num impulso norueguês

      sendo assim
      meio que herzóguiano
      eu era uma vez.

 

 

 

 

                relógios


Naquela casa o tempo
havia se perdido
em algum passo do passado
poço de pretéritos

Não eram
os móveis de mogno em desenhos cacheados
as fotos em cinza e amarelo
as imagens santas, os crucifixos
os objetos de marcas extintas
que gritavam assim

Eram
três relógios de parede
um após o outro
ponteiros parados
em três versões de horas eternas

Eram
cada qual
no seu instante inabsolvível
parados ponteiros
em três eternas versões de horas

marcando o exato horário de morte
do pai, da mãe, da filha
única.

 

 

 

 

                brincar com armas


Que seja o óbvio

e não rosas ou flores encarnadas,
o esboço ferino que vejo
entre as mãos juntas
da silhueta alta, magra, deformada
através da cortina molhada.

Prefiro um assassinato,
com golpes viscerais e pungentes,
a uma paixão

 

 

 

 

Daniel Glaydson, nasceu em Picos, Piauí; criou-se em Campos Sales, Ceará; e atualmente hiberna em Sobral, Ceará. Tem poemas publicados em antologias nacionais, além de artigos em jornais e revistas. Foi finalista no III Prêmio Literário Livraria Asabeça (SP), 4º lugar no Prêmio Paulo Eiró de Poesia (SP) e Menção Honrosa no 8º Prêmio Missões (RS).

 

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