feuilles
                                                                                       mortes
                                                  tania alice feix

 

 

 

                                                       godot / eclipse


          Naquele tempo, a vida dele, como a minha, como sempre, era a criação, era teatro, era literatura, e, durante o ensaio, a gente ficava filosofando, no intervalo, de mãos dadas, cigarros acesos, me dá um trago, por favor, tentando entender quais eram são os abismos, os recalques da existência, falando besteiras, enquanto todo mundo pensava que a gente estava filosofando, e era engraçado. 

          Agora - fotografia contrastada - que você voltou para a sua prisão dourada, exilada de mim mesmo, sinto o cheiro da noite em decomposição, enquanto teus passos atravessam outras esquinas, e teus braços procuram  o esquecimento em outros abraços. Chamamos de “silêncio” a música que não conseguimos mais ouvir. 

          A gente ficava lá, com os nossos amores passados e presentes nas costas, como na peça de Beckett, esperando Godot, imergidos no deserto dos Tártaros, no pé de uma árvore de forma humana, falando das nossas esperas ancestrais, daqueles instantes, passarelas para a eternidade, que não se tinham se construído nunca, porque um dia, sem razão nenhuma, as pontes estavam rompidas entre a vida e a compreensão da gente.  

          Você, e só você, sabia cativar as sombras dentro de mim, e agora elas me perseguem, me devoram, enquanto olho pros outros, que se agarram na vida como se ela valesse a pena de ser vivida. 

          Tudo isso, a peça, as conversas, era uma necessidade, uma consolação da infância, mãos estendidas, tapetes de lã para descansar, um pro outro, nos tornávamos aos poucos um ombro para se apoiar, um porto de chegada, o instante ou, melhor, o termo que, de repente, justificava todas as ausências anteriores, sensualidade infinita. Encontro. O encontro, a presencia dele, e a minha, de repente, fizeram com que o ar tinha ficado mais respirável, a existência mais suportável, os pesadelos mais leves.
          Era uma realização na altura de nossas expectativas, uma luz que iluminava a nossa viagem no fundo da noite, uma oração ouvida no fundo do túnel metafísico, um orgasmo existencial, crucificação cor de rosa, uma constância no marasmo das dúvidas.
          Isto se conjugava a consciência que a maior parte das esperas conseguem se conscientizar somente no dia em que elas se encarnam...  

          Shangri la perdido. O teu fantasma dentro de mim, quando a noite chega, e não passa, pergunta pro meu se ele acredita ainda nos seres humanos. 

          A data do encontro com a nossa própria história parecia ter sido sempre adiada por todas as esperanças enxertadas nos encontros, pouco espaço, desejos irrealistas, todos os “ame-me” em vez de “eu te amo” tantas vezes escutados. Perguntas em vez de respostas. E sempre mais, nada a fazer. Onde estava Godot, antes? Encontros que valem a pena?
          A gente sabia que este valia. 

          Valia, sim. Vivemos na lama, mas antes, eu conseguia ver as estrelas: elas estavam suspensas no teu olhar. 

          No espaço infinito das temporalidades que se entrechocavam - infâncias amolgadas, adolescências massacradas, desilusões adultas -, continuava o silêncio, a solidão, a dúvida e o calor oprimente das traições. A pessoa que não voltava mais, a palavra nunca pronunciada, a obra prima irrealizável, o infinito inacessível.
         
A idade da fé nos possíveis continuava atemporal: restava o humor, a delicadeza última do desespero em frente do que não parava de se deixar esperar, os nossos sorrisos tenros sobre nossas obstinações patéticas, forma de cataplasma realista diante de nossa incapacidade anterior de nos reinventarmos a cada instante.  

          A realidade foge de mim cada dia mais, a única coisa que eu sabia fazer, era compô-la com nossas palavras, mas até essas palavras, eu não consigo mais encontrá-las. Caminho vazia, arrancada do teu abraço insubstituível. Li um poema, lembrei de te: “Te aborto todos os dias e continuo grávida”.    

          O abandono da fé modernista em uma felicidade accessível nos devastava, projeção constante voltada para o futuro, testemunho do presente, se deitávamos os olhos no espelho do tempo.
         
O projeto mais autêntico teria sido de não formulá-lo, o que a gente fez, a oração mais eficaz a de não rezá-la, a promessa mais sincera nunca pronunciada. Só cumprida... “Palavras, palavras...” E o que fizemos. Claro, pensávamos no amor...
         
Evidentemente, havia ladrões, ladrões de sonhos, ladrões de palavras, ladrões da eternidade, ladrões de silêncio e de serenidade. Esta projeção intensa, quando a maçaneta da porta baixava... Será que era Godot? 

          A lei da gravidade me puxa pro chão de maneira irreversível. A teoria da relatividade é invalidada pelo teu silencio.  

          Talvez teria sido simplesmente suficiente fazer o luto das malditas esperanças para constatar que o presente, enfronhado na expectativa, existia.
         
Antes do Sesc, o telefone tocava, nem ele, nem eu respondíamos.
         
Tínhamos compreendido que Godot não viria, tínhamos acabado de esperar.
         
E cada dia, antes que se separem definitivamente os nossos caminhos, empurrávamos a porta da sala de ensaio do Teatro São João, e a vida de repente retomava todos os seus contornos: o sol estava atrás.

 

 

 

 

                                    de vez em quando, eu penso no vento
 

Desconstruindo os muros até o sonho amanhecer...
Meu amor, meu grande amor, e agora?
( Fausto Nilo )


          
 Nesta época, o vento da Serra soprava em cima da gente e não nos levava mais pra canto nenhum, e tudo começou a ficar simples, evidente, como um beijo de cinema americano, um baião de dois, uma neblina na Serra, ou meu olhar pra ele, tão simples que ele perguntava invariavelmente: “O que foi?”.

            O que era, mesmo?

Uma evidencia clareando, momentos bons, redes balançando na Meruoca com a gente comentando os poemas do criador do site Famigerado, as musicas de Geraldo Azevedo “Se você vier”, lembranças, risadas, águas de coco, momentos de delicadeza; o quotidiano, com aqueles gestos discretos que continham toda nossa historia, inúmeras e pequenas felicidades silenciosas, reverso das nossas dores silenciadas, e passadas.

Num desses momentos, disse para ele:

“Eu tenho medo, se eu morrer, de não ter te dito suficientemente o quanto eu te amo, então falo agora, te amo.”

Brega?

Ele estava dirigindo, duas lágrimas desceram no rosto dele, e eu soube então que meu avião podia cair, eu podia voar da moto, ter um infarto, não tinha problemas, porque ele tinha entendido.

A minha frase era um espelho daquele sentimento que a gente tinha buscando, buscando, o tempo todo, e que a gente tinha finalmente encontrado, tanto que a gente se permitia o luxo de brincar, como se éramos anjos postos na eternidade, como se o tempo não cansasse de esperar por nos.

Mas nem Romeo e Julieta têm final feliz: e as nossas asas, como os aviões, quando chegam perto demais do sol, dão uma de Icaro, derretem, e, durante a queda, com o vento rasgando o rosto e o sol cegando, durante um segundo, antes do fracasso, a gente sabe que um dia disse “tu” para a eternidade e se sente feliz, porque sentiu, pensou e falou aquilo, dentro de um carro cinza perto da Igreja do Patrocínio, em Sobral, um dia de chuva tropical, às nove horas da manha, num momento quase eterno, vivemos, sim, vivemos, amor.

 

 

 

Tania Alice Feix é atriz, diretora da Cia de Teatro "Atemporal 33", dramaturga e professora-doutora de Letras e Artes da Universidade Estadual Vale do Acaraú.

 

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