dois poemas de Leblon, voz e chão
                                                 mais uma madrugada
                         solange rebuzzi

 

 

                     Árvores


1


Na linha do olhar
a foto anda em ondas
vagas
Sempre os corpos
soltos
no chão
– asfalto quente
e pretas pedras –

os olhos sobre o corpo
não distribuem calor

*


(alguns dias depois)

o corpo com cheiro de corpo
precipita a morte


2


O vento caminha sobre as
árvores
O verbo
veio com o vento
aos ouvidos

Do alto dos galhos saltam
mesas, cadeiras
florestas

(...) há os homens e os objetos

 

 

 

 

                   Espírito Santo, 26 de dezembro de 2003


José

A casa não é mais a mesma
– o cheiro da casa
mudou

Qualquer lugar guarda notícias
de outros dias

É sempre o sol entrando nas janelas de vidro alto
(O que se pode ver à luz do sol é sempre menos interessante do que o que se passa por
 detrás de uma vidraça
)

Pelos meus dedos
a energia de escrever
as palavras na carta

ligeiras ligeiras

o silêncio faz sombra por perto:
um vazio destendido

Lá fora o poste
sustenta
alguma
l
u
z

 

 

 

 

                Poema da madrugada


1

Perdida no metrô
ela marcha sem fronteiras
uma pressa sem
fronteiras
todos correm – correm
c’est par là – ah non – c’est
par ici
Ah, oui!

Todos têm pressa
uma pressa de todos os dias
todos os gestos
nos pés
poeira
outros povos
outros chãos

c’est par là
ah oui!
mais non
c’est par ici

(um sobe-e-desce
não mais de ruas e avenidas
no metrô
todas
as línguas!)

Et on voit des traces des horizons de l’azur curieux –
c’est bon le vent qui vient de la fenêtre
la clarté me stupéfie


2


A mulher sorri
alimenta o filho-bebê-indiano
olhos de vazia Amêndoa

L’Amande de Paul Celan
est là
dans ce moment au métro
et je suis là aussi
(com o olhar
pequeno e marrom)

A mulher reconhece em mim a mulher
do dia anterior
– à mesma hora:
15:15
na estação
Cité Universitaire

Mas como seguí-la agora
que desceu de repente?
Não saberei dizer o que faz
essa mulher e seu bebê
no trajeto do metrô
jusqu’à station St. Michel-
Notre Dame


(Amande: fruit en forme d’oeil, plein du secret de la mort.
Fruit en forme de larme - a écrit la poètesse Martine Broda)

Paris, 10 de março de 2005.

 

 

 

Solange Rebuzzi nasceu no Rio de Janeiro. Escreve poemas e histórias infantis. Trabalha com Literatura e Psicanálise. É doutoranda em Literatura Brasileira (UFMG). Neste ano de 2005, faz um estágio de doutorado em Paris, na Universidade Sorbonne Nouvelle, Paris III. Publicou: Contornos (Massao Ohno, 1991), Canto de Sombras (7Letras, 1997), Pó de borboleta (7Letras, 2002), Vestes e vestígios (edições Sol, 2002), Leblon, voz e chão (7Letras 2004), e o ensaio Leminski, guerreiro da linguagem (7Letras, 2003).

foto: da exposição "Miséria Invisível", de José Eduardo Barros, fotógrafo nascido no Rio de Janeiro, que já foi apresentado em exposições individuais: na Livraria Contra-Capa do Leblon-RJ (1999) e no Festival de Inverno da UFMG em Diamantina-MG (2002).

 

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