A estrela
      na Curva da Morte
                                                             rosel ulisses vasconcelos

 

 

Há uma estrela na Curva da Morte, uma estrelinha apenas, um ponto de luz. Poucos sabem disso, além de mim; os outros só vêem trevas. Seu brilho solitário não é capaz de rivalizar com as sombras das cruzes que, ao cair da tarde, se espreguiçam no asfalto.

Nem sempre teve a Curva esse nome; antes, pelo que me consta, não possuía nome algum. Era um trecho de estrada como outro qualquer, numa época em que asfalto era luxo e o trânsito mínimo. Ademais, havia outras curvas perigosas ao longo do percurso. Mas nenhuma delas teve competência para construir sua fama. A exceção foi a Curva da Morte.

A estrada ligava inúmeras fazendas entre si e todas ao município. Aqui e ali, alguns raros povoados interrompiam a monotonia do sertão. Da primeira tragédia ninguém se esquece. Foi nos idos do cinqüenta e oito, ano em que a estiagem assolou a região. Uma família inteira de retirantes – o pai, a mãe e a avó, dois moleques e a pequena, ainda de colo – jamais chegaria ao seu destino. Na altura da Curva, o caminhão de Maciel Ferraz perdeu os freios, inexplicavelmente. Jurou o motorista (mas quase ninguém lhe deu crédito) que os transeuntes ignoraram a sua buzina, nem sequer ameaçaram se esquivar da morte, esperaram resignados pelo lance fatal...

Na década seguinte, seria o próprio Maciel a vítima. Dizem alguns que dormiu ao volante, o que é o mais provável. Seja como for, a condução sobrou na Curva. Deram com o pau-de-arara de rodas para o alto, quinze metros ribanceira abaixo. A carroçaria, por sorte, ia desocupada, o que não chegou a servir de consolo para a família do morto.

Igualmente triste foi o caso de Núbia Mariano, a “viúva-virgem”, como para sempre ficou conhecida. Ao retornar da festa nupcial, em fazenda de propriedade de seu pai, perdeu o esposo na Curva da Morte. Um frondoso juazeiro que margeia a estrada traz ainda no tronco a marca da batida. Mariano não se refez jamais. Vive só, trancafiada em seus pensamentos, mergulhada em luto permanente.

Cruz após cruz, a fama de lugar amaldiçoado foi se cristalizando. Com a modernidade vieram o asfalto e a sinalização, mas também o trânsito se intensificou e outros acidentes sucederam. A Curva tornou-se um mito nas redondezas. É fato certo – e isso posso atestar – que os mais supersticiosos a evitam a todo custo, mesmo que o desvio implique em considerável aumento do percurso. E aqueles que por lá passam não o fazem sem antes se benzerem.

Mas, há vinte e cinco anos, algo bem diferente ocorreu na Curva da Morte. Um certo Sr. Lúcio, estabelecido há algum tempo em fazenda de nome Viradouro, escapou por um triz de se acidentar no local. A manobra, porém, foi suficiente para danificar-lhe a caminhonete. Seria o fato um simples contratempo se não estivesse sua esposa no derradeiro mês de gestação. Em verdade, os dois se dirigiam justamente à maternidade do município. E eis que ali mesmo, naquela beira de estrada, um menino robusto viu o dia pela primeira vez. Sendo o primeiro filho do casal, recebeu o nome do pai, como manda a tradição nestas paragens.

Não faço idéia de quantas tragédias tem a Curva em sua conta, já que somente as maiores costumam ser lembradas. Decerto outras mais ocorrerão, fomentando a crendice popular. Mas eu sei que há ali uma estrela, uma estrelinha apenas, um ponto de luz. Os outros só vêem trevas, só vêem as sombras de um punhado de cruzes, que todas as tardes se espreguiçam no asfalto da Curva da Morte.

 

 

 

Rosel Ulisses Silva e Vasconcelos é natural de Resende-RJ, cidade em que reside atualmente. Graduado em Letras pela Universidade Federal do Ceará, titulou-se, em 2001, mestre em Letras/Literatura Brasileira, também pela UFC. Tem publicados os seguintes contos, em geral após participação em concursos literários: “A Morte esteja conosco” (IV Prêmio Literário Cidade de Fortaleza, em 1994); “O Tirano de Pedra” (V Prêmio Literário Cidade de Fortaleza, em 1995); “A Missa de Evilásio Cintra” (IV Festival Universitário da Cultura - UFC, em 1996, e publicado pela Editora ALBA, de Varginha-MG, em 1998); “O zero” (publicado pela Editora ALBA, de Varginha-MG, em 1999); “Dédalos” (I Prêmio Domingos Olímpio de Literatura, em Sobral-CE, em 2000); “Passos do tempo” (II Prêmio Domingos Olímpio de Literatura, em Sobral-CE, também em 2000).

 

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