relativas
                                                     normalidades
   raymundo silveira

 

 

                        sonambulismo


            Levanto-me dormindo para sair de casa. Sei que estou dormindo.
Mas sei também que quero sair. Ouço alguém perguntar pra onde vou.
“Ora, pra fora de casa”. “Não vai se vestir?” “Já estou vestido”. Tiro o
relógio de pulso para não sentir repulsa do pulsar do tempo. Saio pra rua.
É madrugada. Sei que é madrugada. Embora o sol a pino brilhe sobre
mim. Corujas dormem e andorinhas esvoejam. Sei também que agora é
ontem. Embora pra mim seja hoje. Só pra mim. O pretérito imperfeito virou porvir. Mais-que-perfeito.

            Sigo meu caminho. No meio da rua, acrobatas dão saltos mortais. Para trás. São homens idosos. Todos usam brincos, tranças rastafari, piercing... Alguns acenam me chamando e gesticulam pedindo que eu também dê saltos mortais. Para trás. Também, através de mímica, respondo que não posso. Bem que gostaria de acompanhá-los. Mas tenho de seguir em frente. Poderia dar saltos mortais. Contanto que fossem pra frente. Além disso, não uso brincos, nem tranças, nem piercing. Sentiria-me um estranho. Um intruso.

            Lamento não ter tomado essa providência e decido fazê-lo amanhã-hoje. Que para eles será ontem. Então, amanhã (que para eles é hoje), virei também dar saltos mortais para trás. Fico pensando nas vantagens. Agora não haveria nenhuma. Hoje-amanhã, talvez... A alvorada prevalecerá sobre o ocaso. E uma tempestade de tardanças desabará sobre o exército do tempo. Que afundará num mar de fantasias. Sinto medo do tempo. Apenas porque ele caminha para frente. Gostaria de possuir um cronômetro cujos ponteiros invertessem a trajetória. Como seria feliz se o tempo andasse para trás!

            Continuo dormindo. Entretanto, tenho consciência de tudo o que se passa. Sei o que quero. Dormir, nunca me impediu de ter consciência do que faço. Atravesso a Desembargador Moreira e sigo pelo calçadão do Hospital do Exército. A praça em frente está deserta. Dou duas voltas completas e me dirijo para a agência bancária mais próxima. Tenho de sacar dinheiro. Um guarda me olha como se eu fosse um fantasma. Quando digo o que quero, responde que àquela hora será impossível realizar qualquer operação. Praguejo baixinho.

            Saio do Banco. Sinto que o guarda me olha com a mesma estranheza. Não me volto, mas tenho certeza disso. Começa um crepúsculo sereno. Manso entardecer. De repente, nuvens escuras turvam o horizonte. Agora, o Nascente se incendeia. Ao invés de anoitecer, amanhece. Rio, só de lembrar que este verbo se aplica muito mais a mim do que às outras pessoas. Como o meu dia agora é amanhã, nada mais lógico que amanheça. Para os outros, o que está mesmo é hojecendo.

            Por falar em lógica, ela só existe enquanto dormimos. Com efeito, o que é a lógica? Nada mais do que os princípios que regem o raciocínio e a coerência. Admito que alguém possa raciocinar melhor acordado do que dormindo. Não é o meu caso. Já a coerência é impossível na vigília. Vejam um exemplo disto. Ninguém é capaz de ter conflitos enquanto dorme. A menos que esteja sonhando. Sonhos não contam. São realizações simbólicas de desejos de quando se está acordado. Portanto, a coerência absoluta só é possível quando se dorme profundamente. Sem sonhar.

            Inverto o caminho e retorno para casa. Alguns moradores do meu prédio estão saindo. Para trabalhar, talvez. E olham pra mim com a mesma estranheza do guarda da agência bancária. Já sei do que se trata: não estou usando brincos, piercing, nem tranças. Tenho de providenciar isto logo. Amanhã, talvez. Ou seja, hoje para eles. Tenho de me deitar um pouco para acordar.

11/03/2005

 

 

 

 

                                                                insanos


          Sempre fui uma pessoa normal. Descobri, de repente, que sou a única normal neste lugar. Até ontem, bem ou mal, me comunicava com alguém. Embora boa parte me evitasse. Não por minha culpa, evidentemente. Hoje todos amanheceram insanos. Acordei cedo e desci à portaria do prédio. O porteiro estava petrificado. Sequer esboçava, na fisionomia, algo que denotasse qualquer emoção ou sentimento. "Não está me reconhecendo?" Falei. Confirmou com três inclinações da cabeça. "Está doente?" Outros três meneios laterais: que não, que não, que não. Só!

          Abro a caixa do correio abarrotada de correspondências. Nenhum dos remetentes existe. Jogo tudo fora. Saio para caminhar. Sempre detestei caminhadas. Faço-as para não parecer mais diferente do que já me acham, os anormais. Rua deserta. Logo mais, surgem três homens vindo em sentido contrário ao meu. Caminham como robôs. Lentos passos que repasso na memória e associo a um passado tenebroso. E inclinam os ombros para um lado e para o outro. Como pingüins.

          Mais tarde encontro outras pessoas. Nenhuma me dirige palavras. Se as interpelo, nunca falam. Limitam-se a reagir como o porteiro do prédio. Todos concordam com o que digo. Quando afirmo qualquer coisa, respondem com gestos de lagartixas: que sim, que sim, que sim. Quando nego, como um gato enxugando a cabeça.

          Por volta de meio dia, sinto fome. Entro num restaurante. Enfim, alguém disposto a falar comigo. Certamente, por causa da expectativa de vender. De lucrar. Todos são assim. Mas estou enganado. O garçom chega à mesa e me estende o cardápio. Sem pronunciar um cumprimento. Pergunto se ali não se fala aos clientes. Que sim! "Então fala comigo?" Que não! Sempre como a lagartixa e o gato. "Por quê?" Enfim, um gesto diferente: um dar de ombros. E se retirou, levando o menu.

          Continuo sentado à mesa. Uma hora depois vem o gerente e me manda ir embora. Assim: sacudindo as mãos. "Quero comer. Estou com fome. Posso pagar". Que não! Retiro o dinheiro do bolso e lhe estendo. Que não! Insisto e ameaço. Enfim ouço um som de voz humana: "Você não é gente!" Indignado, vou até à porta e aceno para dois transeuntes. Que me olham assustados. "Por favor, me ajudem. O gerente deste restaurante acaba de dizer que não sou gente. Digam pra ele o que sou". Olham-me, agora, com indiferença. Imploro. Afinal, concordam em entrar.

          "Senhor, aqui estão duas pessoas que podem provar que sou gente". O gerente as interroga apenas com uma expressão inquiridora. Ambos meneiam as cabeças: Que não! E saem, imediatamente, caminhando naqueles passos de pingüins. O gerente me encara, ameaçador. Mímicas de "cai fora". Estou morto de fome. Saio para o meio da rua. Agora, além da fome há um vento gélido a soprar. E me tremo de frio
!

 

 

 

 

                             mãos


            Jamais pensei em suicídio. Quero dizer: não no significado convencional da palavra. Ao mesmo tempo, vivia pensando nisso. Vou explicar. Não quero cometer suicídio do corpo inteiro, apenas de uma parte. Digo melhor, de duas. Em outras palavras: quero suicidar minhas mãos. Já não suporto conviver com elas. Sinto mais repugnância do que do suor, da urina, das fezes, das melecas do nariz... Em suma, de tudo o quanto o corpo rejeita. As mãos estavam para mim, assim como as unhas estão para algumas pessoas. Convive-se com as unhas porque são um mal necessário. Muita gente as odeia, mas não manda extrair porque, bem ou mal, cumprem uma função. Assim eram, para mim, as mãos. Cumpriam funções, às vezes, indispensáveis. Isso, ao invés de me gratificar, me aborrecia. Como um benfeitor a quem odiamos por nos sentir constrangidos pela humilhação do favor recebido. Estava permanentemente calçado com luvas. Preferia exibir todas as outras partes do corpo do que estes miseráveis apêndices. Mesmo sabendo do mal necessário que representavam, já cogitei de mandar amputá-las. Não encontrei quem quisesse fazer. Só então, pensei em cortar eu mesmo... Por que ainda não o fiz? É simples: ao separar uma delas, não haveria mais como decepar a outra. Ou seja, nem para isso servem, essas desgraçadas... Sentia um complexo de culpa terrível. As misérias que pratiquei na vida foram por sua causa. Desde quando amassei fezes, até o cumprimento que sou obrigado a trocar com pessoas que me enojam. Enfim, todos os atos abomináveis que cometi foram com as mãos.

            Hoje, quando mais precisava, deixaram de cumprir uma tarefa sublime. Estão enfaixadas. E em carne viva. Melhor dizendo, quase sem carne alguma. Ainda assim me decepcionaram como nunca. Se encontrasse alguém que fizesse o favor de amputá-las de vez, nem sei do que seria capaz para retribuir. Lá fora, a noite era um breu. Uma vastidão de nuvens da cor de chumbo enchia o céu e tinha o formato de torreões superpondo-se uns aos outros sob uma espécie de véu de aparência fibrosa. Eram cúmulos-nimbos. O som dos trovões sugeria uma fantasmagoria gigante urrando de dor. Apenas o lampejo dos raios interrompia as trevas, por alguns segundos. O ar enregelado se movia transformado num vento forte que soprava sem cessar e assobiava. Os sibilos se misturando com o grasnar de bandos de corujas rasga-mortalhas. Sobre o pijama, vesti um sobretudo preto. Calcei botinas de borracha, pus uma pá sobre o ombro e saí. Não pensava: seguia os instintos. Não caminhava: movia-me como um robô. Tomei o caminho do cemitério. Meu vulto turvo se confundia com a escuridão. As botas abafavam o som das passadas. E a placidez da aguardente dissimulava os tremores do corpo e aplacava os tormentos da alma. Seguia o rumo, assim como um ébrio que jamais se perde no caminho de volta pra casa. Pois, para mim, não havia outra casa, exceto o lugar onde haviam depositado o corpo daquela com quem convivera durante quase trinta anos.

            Quando Leilah foi enterrada, o lugar onde morávamos se transformou em algo tão estranho quanto intolerável. As paredes, o quarto de dormir, a cozinha pareciam nunca terem existido antes. Leilah tinha sido sepultada há sete dias. Contava como certa a capacidade de fazê-la ressuscitar. Assassinei-a lentamente com ácido arsênico adicionado ao leite, em pequenas doses diárias. Tinha uma amante a quem não podia abandonar. Algum dia minha esposa haveria de saber. Então, preferi matá-la a ter de fazê-la passar por tamanho sofrimento. O muro do cemitério já fora baixo. Quando correu na vila o boato de que as sepulturas estariam sendo violadas, alguém se encarregou de elevar. Não havia, portanto, como escalar, senão com a ajuda de uma escada que não havia. Amontoei um pedregulho. Restos da obra que permaneceram nas imediações. Depois de várias tentativas frustradas, pus-me a gritar: "Leilah". E escutava de volta: “lah, lah, lah”. Leilah ouvira e respondera. Portanto ainda vivia. Estou certo de que a enterraram viva. E me aguardava, sufocada, para salvá-la. Aquele som me transtornou. De repente, senti força e agilidade de uma fera ferida. Repeti várias vezes o nome da minha mulher: “Leilah!” E ela respondia sempre: “lah, lah, lah”.

            Terminei por galgar o muro, após um esforço sobre-humano. Só depois de pular pra dentro do cemitério me dei conta de que a pá tinha ficado do lado de fora. Ainda assim, corri para a sepultura. Agachei-me, colei o ouvido contra a terra e escutei um coração a pulsar. O coração de Leilah. Desesperado, pus-me a cavar com as mãos. Nada me detinha: As bátegas da chuva torrencial que começou a cair. A inutilidade dos primeiros esforços. Nem as dores das feridas que se abriam nas malditas mãos. Cada vez mais profundas e sangrentas. O aguaceiro, aos poucos, foi tornando a terra permeável. Enchi-me de esperança. Então, continuei cavando sem parar, com mais vigor e rapidez. Removi muita lama. Depois, senti um cheiro esquisito. Cheguei a descobrir parte do caixão que continha a minha amada. Mas as odiosas mãos fraquejaram. Apesar da dor, esfreguei uma contra a outra e escutei o ruído de ossos atritados. Foi neste instante que tudo terminou. O portão do cemitério se abriu e entraram pessoas focalizando com lanternas. Correram na minha direção. Ainda tentei reagir. Mais uma vez, as amaldiçoadas mãos não me atenderam. Sinto nojo. Quero me ver livre dessas miseráveis. Vou arrancá-las agora..
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Raymundo Silveira, nasceu em Massapê-CE. É médico e escritor. De novembro de 79 a junho de 90, foi membro do Conselho Editorial da Revista FEMINA, órgão oficial da Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia, onde publicou cerca de meia centena de artigos científicos. Suas atividades na literatura convencional tiveram início com o advento da Internet, onde publicou mais de trinta livros eletrônicos. Tem, também, textos editados em numerosos sites sob a forma de Contos, Crônicas, Ensaio, Crítica e Poesia. Um deles, o italiano Progetto Letterario Internazionale DOMIST, traduziu alguns dos seus escritos para o Inglês, Francês, Espanhol, Italiano e Alemão. Recebeu alguns prêmios. Entres estes, o que mais o orgulha é o que lhe foi conferido pela Associação Médica Brasileira, em reconhecimento pelos trabalhos que tem publicado em defesa das mulheres.

 

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