Para que esses olhos
                                                                            arregalados?
  nilto maciel

 

 

 

Arnóbio de Barros andava armado da cabeça aos pés: revólver amarrado à perna, outro na cintura, pistola junto ao peito. Maria de Fátima, sua mulher, devota de Nossa Senhora, rezava toda noite. Nenhum mal acontecesse ao delegado. No entanto, aconteceu. Ou quase se deu a desgraça. Homem assaltou loja. O comerciante tremeu e entregou dinheiro, relógio e outros bens. Os dois empregados não tugiram nem mugiram. O bandido fugiu. Para uns, usava máscara.

Quando se sentava atrás da mesa, Arnóbio pedia café, enquanto punha na gaveta as armas. Lambia as bordas da xícara e tirava os sapatos. Ligava para Fátima. Tudo em paz? E folheava autos. O crime da Rua Morgue. Não gostava de literatura, mas conhecia de nome alguns escritores. Predispunha-se a ler um ou outro, estimulado por colegas. Lesse O Processo, de Kafka. Não conseguia ir além da primeira página. Preferia alisar as armas, contar os projéteis, falar de crimes e castigos. Quando chegasse o retrato falado do bandido da luz vermelha queria ser o primeiro a vê-lo. Sim, senhor. Precisava ficar só e brunir as armas assinaladas com as letras AB. O ajudante, no entanto, deu meia-volta: o retrato do assaltante da loja... Arnóbio se irritava com frases compridas: trouxesse o retrato. Abrigou o revólver na gaveta e esperou a novidade. Passados dez segundos, o auxiliar abriu a porta e olhou para o governador aposto na parede, dois palmos acima da cabeça do delegado. Na xícara mosca lambia os lábios de Arnóbio. O governante parecia sorrir de tudo e de todos, das identificações, das informações, dos traços fisionômicos, dos bandidos, dos insetos, da polícia.

O delegado mandou o rapaz se retirar e abriu o envelope. Aquele rosto não lhe pareceu estranho. Voltou-se para o retrato do governador. Calçou os sapatos e se dirigiu à porta. Não o importunassem durante os próximos vinte minutos. Deu duas voltas na chave e retornou à cadeira. Pôs sobre a mesa o retrato falado: testa ampla, olhos arregalados, bigodinho preto, queixo redondo. Dirigiu-se ao banheiro e se postou diante do espelho. Se estivesse com uma das armas, daria um tiro naquela testa ampla.

Durante dias e meses Arnóbio dormiu mal, olhos fixos no retrato do assaltante da loja. E se arquivasse o inquérito? Fátima se retorcia na cama. Para que aqueles olhos arregalados? Para te ver melhor. Ela suspirava, como se rezasse a Nossa Senhora. Ele alisava o bigodinho, como se afagasse a pistola. Melhor incinerar os autos.

O tempo escorria pelos pés do delegado, abria e fechava a porta, trazia e retirava o ajudante. O tempo espantava as moscas da xícara, folheava autos, afagava armas. O tempo mantinha o sorriso do governador, apresentava retratos falados, comentava crimes desvendados e misteriosos. Até chegar o dia em que Arnóbio de Barros levou para casa os autos e o retrato falado do assaltante da loja e os queimou. Cortava o mal pela raiz. À noite, arregalou os olhos e viu a piedosa Maria de Fátima coberta de lençóis. Apalpou o queixo redondo, mirou as armas e abraçou com força a mulher.

 

 

 

Nilto Maciel nasceu em Baturité-CE, em 1945. Foi um dos criadores, em 1976, da revista O Saco. Publicou, entre outros, Itinerário (contos, 1974); A guerra da donzela (novela, 1982); Estaca zero (romance, 1987); O cabra que virou bode (romance, 1991); Navegador (poemas, 1996); A rosa gótica (romance, 1997); Pescoço de girafa na poeira (contos, 1999); A última noite de Helena (romance, 2003). Edita a revista Literatura desde 1991.

 

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