Cego
                                        na porta da igreja
                                                                            miguel carneiro

 

 

Uma cidade sem cego
é uma cidade sem bolso
Imprópria à exploração
de algodão-doce
Pedra de isqueiro
Lixa de unha...

Uma cidade sem cego
nem quer Deus
lá pés pisar!

 ( Elder Oliveira
in
Cafundó de Malungos
e Vapores e outros poemas )
 


[ A poeta Maria da Conceição Paranhos, que com ternura
ensinou a reamar a caatinga, e a Dr. Gilson Ney Lima Passos,
dedico esta conversa de cego. ]


 

             Raro o dia em que ele não estivesse com a capanga de couro cru feito um aió, e o bocapio de palha encardida de pindoba, que ficavam recostados na secular parede e adobe cru de travessa, na suntuosa igreja, orago de Nossa Senhora da Conceição, no sobocó de Tocós, no rumo de quem vai para Juazeiro da Bahia. Uma cuia vermelha de queijo-prato de Minas na mão ele estendia, pedindo esmolas aos devotos.

            Naquela manhã, sábado, dia em que se louva a Mãe do Filho de Deus, Pe. Dário Di Ciesco, de seu altar, estava alheio ao que acontecia na porta de sua igreja. Aquela vila é sempre visitada por Pedro baiano da Hora e seu guia, um taiocuinha nascido no setém das margens do Verde de Baixo, que tocava flauta de taboca, uma espécie de pífano da região do Bendegó, nos sertões de Canudos, na Bahia. O cambéu tinha seus oito anos, cabelo cortado no topete, camisinha de anarruga azul, calça de brim meia-coronha, sandalinha de rabicho nos pés estropiados de topadas e esbarrões pelos escuros caminhos dos sertões.

            Pedro Baiano da Hora vivia na maciota, encangando grilo, cozinhando galo, no cerca-lourenço, e não largava seu peditório nem pelas intempéries, quando o tempo se mostrava com a cara do istopô caiano. Buscava naquelas feiras defender o pão de cada dia,  comia pelas portas o pão que um dia Caifás amassou. O povo estropiado, meio a reboque, ouvia sua emboança, quase que meio obrigado, pois por ali era a passagem da porta principal do venerável templo.

Era um falatório esquisito, histórias de muitas feiras, recolhidas no lombo da língua, guardados na cachola do coco, no morro de sua cabeça, no tempo em que ele próprio um dia ouvira em São Raimundo Nonato, no Piauí, terra de Didinha Lourdes Pita Benevides. 

            Conversa vai, conversa muita que não leva a nada e só faz boi dormir. Aquela cantilena de despacho que se ouvia na porta da igreja se estendia pela manhã e chegava à serra do Bugio e atingia a Chapada Diamantina com sua cordilheira do Espinhaço do Cavalo.

            O cego então começa seu falatório:

            “Tinha um coronel de nome Trazíbulo, estabelecido na fazenda Tanajuá, lá em São Raimundo Nonato, que se pensava que todo mundo era boi-do-cu-branco, de uma pessimidade fora dos rumos. Não tivera filhos e nem deixara herdeiros. Tinha sim a velha mulher, uma senhora baixinha e gorda de nome Celina, que já tinha amarrado o facão, mas continuava ralhenta, ranzinza, surucucu-malha-de-sapo, acordando sempre de oveiro virado. Ela era a própria cascavel enrodilhada na beira do pote de sua própria cozinha. O coronel era senhor de meio mundo de baés, alvações, catueiros, criações, saqués e merinos. E era um tipo canjinho, pabo, de suro preso, metendo-se a ser o único cobé daquele ermo. Lidava com seus pataqueiros com crueldade, dava-lhes o de comer baeta num casco de cágado para humilhá-los. Era a encarnação do demo de novo na face da terra”.

            “Numa Sexta-Feira da Paixão, mandou seu pobre vaqueiro Pixilinga ordenhar seu precioso rebanho bovino. Todo mundo sabe que na Sexta-Feira da Paixão só se faz reza, só se faz penitência, pede-se clemência a Deus pelo que fizeram com seu Amado Filho cá na terra. Mas para o mirco aquele que se negasse a cumprir suas ordens seria levado para o mourão e ali  amarrado e açoitado com chibata de vergalho seco de boi”.  

            O pobre Pixilinga, lhe respondeu:

            - Meu sinhô, vosmecê se esqueceu do dia de hoje?

            Ao que o miserável patrão com a alma embotada de brubito, disse-lhe:

            - E daí? Vá e não discuta comigo, seu Vilide!

            “E na primeira teta que o pobre homem puxou na espera do espumoso líquido branco cair na vasilha, desceu sangue, sangue que foi enchendo o balde. E empachado, encaminhou-se para o avarandado para entregar ao coronel o fruto de seu trabalho, recolhido naquela manhã baça”.

            O cego Pedro Baiano se empolgava a cada ocasião quando ele relatava a história que um dia ouvira do familiá perfumado. Pegava o porrete que o conduzia, batia no chão do adro como que confirmando sua veracidade, e lágrimas vinham em seus olhos marejados, enovoentos do brilho da luz que nunca vira. Era só treva no universo de da Hora. E prosseguia: “O mundiado Trazíbulo era caxinga, adquirira o aleijão numa montaria, na tentativa de laçar um boi misterioso que aparecera em suas terras. E que o levara a usar muletas. E meio coxo, disse ao vaqueiro recebendo a vasilha”:

            - ‘Vou fazer deste leite uma chama para eu criar um canguim responsador, debaixo da minha cama’.

            “De posse do velho Livro de São Cipriano, páginas puídas devido ao manuseio, o coronel passou a executar seu propósito. Ele foi criando no estrume quente de cavalo um filho do Lubião. Primeiro foi botando os chifres, depois o falo e os pés de bode. Tinha a figura de um lagarto e foi metido dentro de um canudo de marfim. E o coronel foi alimentando o capeta com ferro e aço moído. Era aquela pequenez que se deslumbrava dentro do buxo para espanto dos que um dia viram a horrorosidade”.

            “Mais num responso o brubito traiu o Coronel Trazíbulo. Foi num crime de mundéu, de emboscada dentro da caatinga fechada lá de São Raimundo Nonato que ele se derrotara. Ele soubera através de seu responsador que sairia vitorioso daquela empreitada e caminhara com seus jagunços para o oco da caatinga para dizimar seu desafeto. Tratava-se de um tangerino, xambouqueiro, tangedor de boiadas, de santo forte, pegado com Santo Antônio de Lisboa, afugentador de demônios. Tudo porque uma vez no ano o tangerino usava de uma pequena manga de terra dos domínios do brubito coronel para deixar as reses de sua boiada descansarem, antes de seguir rumo ao Piauí, atravessando o rio São Francisco. Trazíbulo já tinha mandado avisar ao miserável tangerino que apesar de criar seu gado solto na imensa caatinga fechada, tudo aquilo em volta era de sua propriedade, apesar de não haver cerca de arame farpado para delimitações. A emboscada seria um sucesso de acordo com as instruções do familiá, mas para quem se junta ao Cão um dia tem seu troco, seja aqui ou noutro mundo”.

            “O tempo ficava turvo, e nas horas das ave-marias, o tangerino alertado por um dos capangas do próprio coronel, aguardou o bando de parabélum cheio até a boca. E por trás duma moita de caçutinga disparou todo o pente da arma. O coronel catexingue não teve tempo nem de se defender. E ali bem perto de seu terreiro caiu baleado na praça. O tangerino sumiu no mundo que ninguém deu mais notícias”.

            O povo que tudo ouvia, tirava da algibeira uma moeda, jogava na cuia e o tilintar do vil metal fazia com que o cego tirasse da cabeça o velho chapéu de couro para saudar o devoto:

            -Baricada subá!

            Pedro da Hora refestelava, buscava fôlego, coçava suas pernas de borquilho, batia em seu rejeito e emendava outra história acontecida naquela mesma terra onde ele estava pisando. Era uma história que os mais moços não sabiam. O guia cutucava o cego, dizia alguma coisa no seu ouvido, e os dois pegavam a taioca e começavam a solfejar uma velha canção em que o meninozinho com sua voz indefinida cantava acompanhando seu amo:
 

                                                          Conheça, cabra, conheça
                                                          Que o brabo também se amansa
                                                          Primeiro nasceu viola
                                                          Segundo sala de dança
                                                          Que a moça corta o cabelo
                                                          E mulher sacode a trança
 

             O cego parava de tocar, cuspia de lado bem próximo da sua própria capanga e emendava:

            “Houve tempo no Tocós que não chovia, não havia um pé de nuvem no céu. Mandacaru virou ouro. Se comia até sapitaca, manzá, biba e cururu rodão. Foi na década de sessenta quando a invilia tomou conta do mundo. Todo o rebanho se acabou, para se beber um copo d’água tinha que se cavar uma minação no leito salgado do Rio Sacraiú, quem tinha meia quarta de farinha dentro de casa se sentia um felizardo, quando batata de umbu e gravatá deu serventia. Foi nessa quadra que o fazendeiro mais rico da região, coronel Antônio Paranaguá, que meio zuruó, acoitado na Fazenda Toca da Onça, fez vista grossa ao castigo que afligia todos, e quis comprar a chuva nas mãos de Deus. Na mão de Oscar Chulinha, na pequena cidade, ele adquiriu um caixão de anjo, um esquife azul que seria para enterrar um infante. Em frente a sua babilônia se descortinavam dois imensos monólitos que quinhentos homens não rolavam terreiro abaixo. Não havia um pé de nuvem, não havia vento que soprasse do norte, que indicasse chuva. Era aquele paradeiro de dá dó no cristão. Parecia um castigo dos céus aquela quadra de tempo nos anos sessenta”.

            “Mas o coronel vivia metido em seu terno de linho diagonal alheio ao sofrimento do povo. Pensou que o vil metal comprava tudo. Se dinheiro comprasse felicidade no céu, os ricos teriam mansões, e no caixão, uma gaveta para levar toda sua fortuna. Nosso Senhor já disse que é mais fácil um camelo passar por um fundo de uma agulha que um rico entrar no Reino dos Céus”, emendava o cego em seu falatório.

            “Batia uma hora da tarde naquele calor infernal, e o fazendeiro metido com a Anhangá, no meio da praça de seu terreiro, abriu a tampa do pequeno esquife que tinha comprado, e colocou um maço de dinheiros, pedindo então a Deus que lhe mandasse chuva por aquela quantia depositada dentro do caixão”.

            “O fazendeiro parecia que não tinha conhecimento do que dizia a décima quinta Surata do Livro do Alcorão, a de Alhijr de número sessenta e nove: “Tomai a Deus e não me afronteis”. Mas o esquisito Antônio Paranaguá com toda a sua bruzudangas só podia se estrepar. Galo cantou fora de hora, cachorro latiu desesperado naquela hora infame. Sentado no avarandado de seu palacete, Paranaguá esperou o resultado de seu estranho pacto. Desceu uma tempestade que fez cair água naquelas terras durante uma semana. Foi um verdadeiro dilúvio que bateu o saruá. Os  pesados monólitos que ficavam em frente à casa do coronel vieram na enxurrada rolando, rolando e derrubou sua própria casa. O Rio Jacuípe tomou a praça do mercado municipal no caminho para Mumbuca e não ficou uma ponte que a tempestade não derrubasse”.

            O povo que a tudo ouvia ficava boquiaberto com o palavreado do velho cego mulçumano. Ninguém sabia onde aquele tangolomango aprendera aquele fraseado. Era brocardo que Pedro da Hora recitava de causar espanto a todos em volta. Sabia-se que na manhã da feira o cego surgia com o taiocuinha em cima dos caminhões de verdureiros que vinham do junco. Na altura da antiga usina Aliança, o cego dava a mão na estrada para pegar carona. Seus pais foram escravos no Recôncavo, eram de uma família de negros maleses mulçumanos. Entre uma história e outra, o cego falava em voz alta: “Ali-ramudo-li-lai”, depois, chamava o guia, cochichava algo no ouvido e juntos começavam a cantar:

 
                                                  Quando eu vim de lá de casa
                                                  Na seca de novecentos
                                                  Meus burros morreram tudo

                                                  Só ficou meu sendeiro jumento
                                                  E o jegue véi, por o osso duro
                                                  Ficou no terreiro roendo monturo

                                                  Tenho meu jumento sendeiro
                                                  Tenho meu artifício jogueiro
                                                  Eu não me importo com isso
                                                  Fogo, jumento e artifício


            Guardavam os pífanos e o cego limpava o suor da testa, se apoiava no bastão que era feito de xaréu de fumo, e emendava:      

            “Nas terras do Candeal, após o Rio Castelo, no lado oposto à fazenda de Luizinho Malafaia, tinha um palacete moderno com mais de cem janelas de estilo colonial. O dono era um homem dos lados de Feira de Santana, de nome Tabaréu, tinha feito a fortuna com agiotagem e jogo de bicho. A casa fazia gosto de apreciar. Mas dentro dela nunca ninguém conseguiu morar. A casa era mal-assombrada, se dizia que a noite se ouvia em volta da casa um barulho de correntes se arrastando, pelas vidraças se observava o cair de pedras, e dentro da própria casa uma vaca preta surgia mugindo. Virou um pandemônio. Ninguém conseguiu morar dentro daquela bela mansão. Com o tempo, o próprio vento foi se incumbindo de bota-la abaixo. E na paisagem ficou plantada aquela ruína que o próprio tempo também se esmerou para que as gerações futuras tivessem conhecimento de que a agiotagem é uma das pr´ticas condenadas por Deus e pelos antigos profetas. A ganância não leva a nada, só à própria derrota”.

            E o cego com sua prosa inundava o velho adro enquanto o povo naquele aperta-cunha se aglomerava no estreito, a ouvir aquela espécie de Anjo-Corredor ou de Judeu Errante relatar suas bramuras e deixar por aquela terra seu sumetume.


                                                  Beira do rio, terra de mata medonha
                                                  Viola de jacarandá
                                                  Clavinote merece coronha
                                                  Beira do rio, moça que dança e não bambeia
                                                  Viola de jacarandá
                                                  Clavinote, coronha e meia 
 

            “Nessa caatinga de meu Deus há muita cacimba roubada. Água que some dum dia pro outro e o cristão não sabe para onde foi. Rio dormindo tem muitos por esse sertão afora. Coisa de gente malvada que pensa que tem o dia de são-nunca-de-tarde, deixe os patos passarem que muita coisa que aconteceu ainda acontecerá”.

            “Waldemar Curadô foi o melhor mandingueiro dessas bandas, seus bebés batiam forte e não havia uma de suas filhas, que ouvindo seu adarrum não demorava em incorporar seu santo. Numa noite de chuva de estrelas, se ouvia ao longe Waldemar cantar em seu salão, com seu vozeirão truviscado”.
 

                                                  Eu vou virar cavalo e jegue
                                                  Pra comer vocês tudinho...
 

            “E as abiãs de saias rodadas, respondiam”:
 

                                                  Que hora é Dindinho?
                                                  Que hora é Dindinho?
           

            “Quando batuque de negro era proibido nessa terra, e qualquer bebé batendo no oco da noite da caatinga estrelada era uma afronta a qualquer delegado-calça-curta, Herculano tomou cadeia, passou uma noite no xilindró. Foi num tempo em que professar a religião dos pretos constituía um acinte para qualquer branco, tempo das perseguições, de cabeça baixa, de preto limpando “os quartos” dos brancos e virando a cara de lado . Foi nesse tempo que nasci e ainda alcancei dois marungos cujos nomes eram Balduíno e outro Zé Camarão, que vieram no mesmo tumbeiro junto com meu pai. Meu velho pai haussá, de carapinha branca ainda alcancei trabalhando na usina Itapetingui, levando feixe de cana nos troles. Foi o melhor troleiro daquelas bandas.

            “Na noite velha, perto da hora da visagem, os bebés batiam forte em louvor a Xangô. A polícia logo soube daquele batuque e para o meio da caatinga do Barreiros se dirigiu para prende-los. Ao dar voz de prisão a todos no salão, foram de quarto em quarto, ver quem tinha se escondido. E nos quartos do fundo da casa, descobriu uma mulher grávida gemendo de dor. Perguntando o que se passava, a mulher respondeu que estava sentindo as dores do resguardo. Os policiais intrigados chegaram mais para perto da cama, e de fifó em punho alumiaram o vulto, e viram que a mulher de pano amarrado na cabeça e de vestido, na verdade era Herculano que estava se escondendo da ordem de prisão, se fazendo de mulher grávida, mas ele tava mesmo era piririca. Desse dia o povo o nomeou Herculano Parido e assim ficou jalecando nessas terras até dar uma filha para Terto do Patos casar, de Herculano e seu povo eu nunca mais ouvi falar”

            E o cego baiano passava a mão no rosto, tirando o suor, chamava de lado o taiocuinha, e o cair de moedas na cuia o fazia trazer um sorriso na face de contentamento pela empreitada daquele dia. Parecia que tudo o que tinha dito não fora em vão, quem sabe se suas histórias de lição de moral um dia não vinham a ser postas em prática por qualquer um daqueles devotos que o arrodeava. O taiocuinha tirava do matulão um maracá e o pitiar subia no ar, o cego pegava na taioca e emendavam uma quadra. Era uma chula que ele aprendera na Vereda do Jacaré, terra do escritor Altamirando Camacam:
 

                                                  Valei-me Nossa Senhora
                                                  Mãe de Deus da Conceição
                                                  Não falo mais em barulho
                                                  Com aquele Horácio do cão
 
                                                  Fiquei logo encurralado
                                                  Quando avistaram São Bento
                                                  Caracol e Catuaba
                                                  E o Poço Quiabento
                                                  Batendo o chão e gritando
                                                  Que metesse o pé pra dentro.
 

            O sol se firmava cada vez mais no céu azul sem nuvens. O cego mais se parecia com um histrião da comédia dell’arte. Aquela sua vestimenta espalhafatosa, com remendos de várias matizes no fundo das calças, davam-lhe o aspecto de uma personagem medieval. Era um tipo cismado, cheio de não-me-toques.

            O cego dava um delatamento, chamava o taiocuinha no canto do ouvido e socavam umas quadras de viola dos violeiros Manoel Neném e Antônio Aurélio de Morais, e eis que o cego emendava:
 

                                                  De quatro coisa no mundo
                                                  Já vivo muito abusado:
                                                  Trocar cavalo na feira,
                                                  Fazer negócio fiado,
                                                  Andar com gente ruim,
                                                  Dar murro em cabra safado.
 
                                                  Cumi que quase me acabo
                                                  Pão que o diabo amassô.
                                                  Agora como o diabo
                                                  Já que do pão num sobrô.

 

            “Houve um Alexandre. Era figura de proa, comerciante de peles, espichava, fazia o boludório dele, botava para curtir, picava cinza, tirava o couro, tinha seu próprio curtume.

            Maninho tinha ido para o andar de cima. Só havia lembranças de seu nome. Eu falo isso de boca pequena, quem aqui ouvir essa história e passar adiante não me chame para dá prosa. Falo o que ouvi. Eu não sou cofre ou baú para guardar segredos. Tem, sim, algumas encomendas que eu próprio não gosto de carregar.

            Era uma sexta-feira de noite clara com estrelas cadentes descendo no céu. Na rua Joaquim Távora, o velho Maninho era senhor de uma casa assombrada, na qual morava sua filha Santinha, casada com o espanhol Álvaro Carneiro de Oliveira Figuerêdo, Alvarinho dos Milagres das Candeias, pois uma vez virou um carro de romeiro e o que se viu foi garrafa benta por todos os lados. Pela manhã, Santinha e Alvarinho fizeram as malas e se mandaram para sua fazenda Lagoa do Boi. Casa fechada, ninguém entrava nela, salvo os ladrões. E eis que a lavadeira bateu na porta e um senhor baixinho com óculos e de suspensório a atendeu:

            - Santinha viajou para os Tocós, pode entrar. Deixe a roupa lavada em cima da mesa e leve a trouxa de roupa suja que está em cima da cadeira da sala.

            Na segunda feira, a filha chegou do interior e, intrigada, não sabia quem tinha aberto  a porta de sua casa para deixar entrar a lavadeira. A dúvida só foi solucionada quando na sexta-feira a velha Chica de Cassemirim trouxe a tal trouxa de roupa da semana. E indagada sobre quem abriu a porta, ela olhou para a parede da sala e disse:

            - foi esse homem desse retrato, dona Santinha. Ele me disse que a senhora tava em Tocós, mas que poderia deixar a trouxa limpa e levar a suja”.

            E o cego, ilustrando sua retórica, aumentava a voz no adro e sentenciava.

            “E ainda tem gente que pensa que morto não volta, volta, volta tanto que o coronel Maninho apareceu diversas vezes por essas bandas. Se foi por castigo, ninguém sabe dizer. Antino do Bugio, vivia no pé de serra feito imperador do Sacraiú, disputando com Isidoro Joaquim dos Santos, a hegemonia política da região. Governava o município com mão de vaca, como figa, sem dar folga. Antino Bugio era um tipo avexado, que vivia na base do rompante. O que vinha no morro da cachola, ele sapecava na cara. Não tinha limites nem mancômetros. Bebia de uma forma de chamar cachorro de ‘cacho’. Era daquele tipo malino pro povo. Se alguém batia à sua porta atrás de um adjutoriamento, ele de mãos para trás feito um Caifás, negava a prerrogativa. Rezava duma forma que ‘Ao Vosso Reino tudo’, para os outros depois do batente de sua porta, “Nada”. Chibunguinho, de chapéu baeta virado, bigodão do cão, e uma beata de fumo de corda apagado no canto da boca, tomava as ruas bisbilhotando a vida alheia. Seus vaqueiros o temiam. E seus agregados viviam de cabeça baixa diante de sua tirania. Dia de feira seus pataqueiros remediavam a sorte. No alforje escanchado na garupa do animal. Levavam somente uma quarta de farinha, um pacote mínimo de sal ordinário e duzentos e cinqüenta gramas de charque baiano. Era toda a sua feira para o miserável passar a semana com a mulher e a casa cheia de filhos. Bateu a estiagem, chuva que era bom, sumiu. Não havia um pé de nuvem no céu. Era a quadra da década de sessenta. A seca terrível que não deixou um pé de mandacaru em pé, para dar comida ao gado”.

            Quando Deus manda a seca é porque no Reino dos Céus seus filhos na terra desandaram.

            “Alef, Lam, Mim, Ra”.

            O cego dizia essas palavras com uma entonação de choro, em mais sublime respeito. E emendava:

            “São noventa e nove os mais belos atributos de Deus. Já trilhei veredas que eu não sei onde encontrei pernas para caminhar. Jalecado já me vi no ermo do tempo pedindo sempre misericórdia ao meu Bom Deus. Não adianta se arvorar e se meter a besta com o império do mal. A sentença divina tarda mas chega. Gente que se meteu a trazer nos cantos da unha toda a sua maldade, um dia Deus lhe corta a cartilagem do que resta de seus chifres imundos e lhe puxa para o andar décima. Lá, ele ou ela, de cabo baixo andando de um lado para o outro, não tem como contestar o Tribunal Divino. Nessa hora não há dinheiro acumulado na terra que se constitua defensor. Mas se por onde ele andou um dia bateu os olhos no manto azul de nossa Senhora, há de chegar misericórdia e perdão para essa alma aflita. Se sabe que há na Surata d’A Família de Imran, de número quarenta e cinco, lá se pode lê: ‘E de quando os anjos disseram: Ó Maria, por certo Deus te dê alvíssaras novas felizes com Seu Verbo, cujo nome será Jesus, o Messias, filho de Maria, nobre neste mundo e no outro, e se contará entre os bem-aventurados. Falará aos homens ainda infames, bem como na maturidade, e se contará entre os virtuosos’. Assim está escrito no livro de Deus, e assim se confirmará. Mas para Antino que se negou em vida a saciar a sede do povo naquela quadra de seca, o castigo viria depois. No fundo desceu casarão existia um grande caldeirão com água que Deus mandava, mas Antino não permitia que ninguém saciasse sua sede. Passado um tempo antino faleceu e depois de morto sua alma não encontrou paz. A cada crepúsculo o povo observa, quando vai apanhar água em seu caldeirão, o vulto de Antino rodando em círculo sua bendita água sem poder dela beber. Foi o castigo que Deus deu a ele e depois tem gente que ainda nessa vida vive de negar as coisas a seu semelhante”.
 

                                                  Nessa vida topei com muitos cegos,
                                                  alguns que não tinha valia.
                                                  O mais famoso deles,
                                                  é o cego da academia.
                                                  Vê, julga e sentencia,
                                                  é o cego mais vagabundo,
                                                  esse cego de minha terra Bahia
.
 

            “Todo mundo ta cansado de saber que Sizino é o lobisomem dessa terra, não adianta tapar o céu com uma peneira, que o arco do infinito é maior do que o olhar de cada ser humano. Para quem mora em seus suntuosos castelos e joga os ossos de seus faustos banquetes pelas janelas de peitoris de Carrara para os mendigos se saciarem, um breve alerta: há de chegar o tempo em que vai faltar comida na dispensa dos ricos, e Lázaro baterá nas portas de cada um atrás de uma esmola. Ai daquele que negar! O que relato, eu ouvi numa feira distante, onde almocreves e tangerinos negociavam cavalos roubados, e ciganos vendiam tachos de cobre. Quem tiver a desdita de me contestar, que me mostre a prova, nesses camboeiros de setembro, nunca vi um para emendar meu discurso. Fogo-Corredor, Embaa-tatá todo mundo tem na memória que no meio da caatinga assombrada, ainda queima macambiras e gravatás por almas de pagões, e ainda se acha o rastro dessa assombração. Areia-Gulosa, na beira do Rio Jacuípe, no rumo da fazenda da Volta do Rio, de Cilo Gordo, é que mais se encontra nessa cabeça de porco. Come o gado, come o homem, é pior que mulher sem vergonha, que não tem homem nenhum que lhe satisfaça. Sizino tava com treze anos e fora gerado filho de um compadre mais uma comadre, coisa que Deus abomina. Quando completou treze anos, numa sexta-feira saiu de noite e se espojou na cama de um jumento. Foi o bastante para adquirir o fado, e ter seu encanto perpetuado nessas caatingas de meu Deus. Pálido, magro, de orelhas compridas e nariz levantado, teve sua estampa assustando muita gente nesse sertão. Coisa de queimar palha benta, fazer o pelo sinal e dizer: ‘Desconjuro, cão’, três vezes. Se numa noite de terça-feira, chegando na hora da visagem, já passando a boquinha dos caifuis, e você topar com Sizino invultado, lembre que ele tem de percorrer sete adros de igreja de cemitérios, sete vilas acasteladas, sete partidas do mundo, sete outeiros, sete encruzilhadas, para depois de suor pingando no seu corpo de bicho, e pelos por toda a palma da mão, readquirir sua fisionomia humana, após voltar ao espojadouro que lhe fez lobisomem. Graças a Deus que por aqui nunca passou Lucas Evangelista dos Santos, o maior bandoleiro dessa região, que durante vinte e cinco anos aterrorizou os sertões dos Tocós”.

            “Seu Augusto Asclepíades, velho tabelião dos Tocós, dizia que uma tia dele fora ama seca de Lucas, e saiu escorraçada no mundo, depois de seus crimes para se acoitar na Queimada Boa Vista, ao lado do Campo Alegre, povoado de Riachão. Lá no Campo Alegre, tinha uma escrava de nome Lucinda, que estava doente de um quisto na barriga. Gemia feito uma condenada. Seu lamento se estendia até a Casa Nova e ia bater no Ichu. Tempo em que Zefinha, mulher de Manoel Balbino de Oliveira tinha esses agregados todos. Ficava a mulher à noite e o dia gemendo de dor. Foi embora para a Feira e lá morreu. Na noite em que faleceu, surgiu na fazenda Queimada da Boa Vista, gemendo igual uma condenada, gemia enquanto estava convalescente. Era aquela lamúria, aquele gemido de cortar coração. A vela conhecendo o gemido falou”:

            - Ô minha filha, eu já sei quem é você. Amanhã vou ao Riachão mandar Padre Argemiro Guimarães rezar uma missa por sua alma. Descanse em paz.

            “E acordando todos da casa, vararam a madrugada em orações pela alma da escrava. No outro dia, montado num burro choutão, chegou o portador trazendo a notícia de que Lucinda tinha morrido em Feira de Santana. Quem caminha pelo mato se pega com a Caipora, se não se pegar com ela, se perde que não acha o caminho de volta para casa. Todo caçador tem que levar na algibeira um estaco de fumo de corda para dar à caipora, se ela assoviar, o cachorro acua, e o cristão se perde no mato de não achar caminhos. Isso não é prosa de cego, isso é a verdade das caatingas. Todo bom caçador tem que ter ciência do rastro. Saber dividir um rastro fêmeo de um rastro de macho. Se aquele bicho passou foi a pouco, na madrugadinha, ou já faz tempo. Fica feito besta no meio do mato andando de um lado para outro, abrindo vereda e cada vez mais se afundando no meio da caatinga, tendo jurema e carrapicho, furando suas pernas, e até cansanção lhe dando beijos, arre!”.

            O taiocuinha, vendo o cego numa narrativa meio de sinuca de bico, chegou ao ouvido dele e segredou um boludório e, logo em seguida, o cego pegou um realejo dentro da capanga de couro e sapecou uma modinha, pois já tinha passado mais de um quarto de hora que não caía uma moeda sequer na cuia de Pedro:
 

                                                  O Riacho quando enche
                                                  No meio corre um relanço
                                                  De pássaro de pena que voa
                                                  Bonito que eu acho é ganso
 

            “Nessa vida já ouvi de tudo, coisa que meus olhos não puderam enxergar. Certa feita, peguei um trem em Alagoinhas com destino a Barrinha. Passei por Saldália, Itiúba, Vila Nova da Rainha Maria, (a Louca). Vi a Serra das Maravilhas. Estava empapuçado de tanta viagem. Meu guia me futucou, dizendo que subira um sujeito mal encarado, na classe em que a gente viajava. Era um tipo avantajado, uma vara-pau de bigodão na cara feito um cão, um chapéu do pantanal na cabeça e três alforges escanchado no ombro. Sentara em nossa frente sem dizer uma palavra. Meu guia me futucava tanto que tive que dar uma porretada nas canelas dele para ele parar com a curiosidade. Quando o trem parou em Jaguarari, o sujeito se dirigiu me perguntando”:

            - Ceguinho, qual o nome desse deserto?

            Eu respondi a ele dizendo:

            - Pelas minhas contagens, deve ser Jaguarari.

            Ao que ele me respondeu:

            - É, não é nessa merda que vou descer, não.

            “Calado, ele permaneceu na cabina, durante todo o trajeto, o resto todo da viagem. Ao chegar em Barrinha, ele de novo se dirigiu a mim e me perguntou se havia alguma pensão onde ele pudesse tomar um banho e passar a noite. Ao que respondi: ‘ se o senhor me acompanhar, lhe levarei na única pensão da cidade, Lua de Cristal, de Anaides Dantas’. E caminhamos pelas ruas esburacadas. No outro dia tinha a feira da cidade e julguei tratar de algum comprador de peles de animais”.

            “Eu fui dormir na estação, e eu nunca vi em toda a Bahia, uma estação mais linda do que a do povoado de Barrinha, construída por uma companhia inglesa, onde cada porta dessa estação é bordada com almofadas , que dá gosto se apreciar. Se Deus me deu esse destino de viver da caridade pública, não posso nas horas más blasfemar da minha sorte. Cego nasci e acho que cego morrerei, sem ter o privilégio de ver como é a luz de um dia. Eu não sei a noção das cores. Não sei como é o amarelo, o verde e o branco. O preto, imagino que seja isso que vislumbro dentro de mim, sem contornos e sem paisagens. Qual a cor que se estende sobre a coberta que cobre o mundo? Eu não sei explicar como é. O azul nunca tive o privilégio de enxergar.  Eu ando mentindo para o mundo, eu não nasci cego. Cego me tornei, depois que num tribunal de júri levantei um falso testemunho de um crime, botando um inocente durante trinta e cinco anos numa escura e suja cadeia.  Eu disse num tribunal que Torquato preto tinha sido o assassino de Gonçalo. Coisa que nunca aconteceu. Isso se passou no tribunal do júri de Cachoeira. Torquato tinha nascido na minha região. Era um preto de seus dois metros e quinze centímetros, era quase um gigante, desses que só a África, adormecida sobre sublevações e misérias, produz. Eu ganhei um dinheiro de um cabo de polícia para botar Gonçalo na cadeia. Torquato era amante da mulher do cabo.  E um dia, o próprio cabo da polícia militar da Bahia matou sua própria esposa. Torquato na saída da sessão me jogou a praga: ‘Tu te tornarás cego para mais nunca elevar um falso testemunho’. Dito e feito, só duraram seis meses para a cegueira bater em minha porta e eu embarcar dentro dela. O dito mais certo que eu já ouvi na vida sempre foi: ‘Quem faz aqui, aqui mesmo paga”.

            “Pois bem, naquela noite quando eu dormi na estação de Barrinha, eu intuía que no semblante daquele cavaleiro o cão estava embotado. Ele trazia a desgraça para aquelas que vinham repletas de dizimação. Instalou-se na cidade e ficou a morar por ali. Logo se soube que aquele homem que desembarcou naquela sexta-feira, antevéspera da feira da cidade, era um capataz de um comendador italiano. E aqueles três alforges que carregava no ombro estavam repletos e monetas do templo da deusa Juno Moneta, e cobertos de estranhos propósitos. O estranho cavaleiro comprou um terreno naquele descampado onde ninguém queria conta e começara a edificar um grande galpão. Logo foram chegando os equipamentos em grandes caminhões e estranhas máquinas que aquele povo desconhecia”.

            “No prazo de seis meses os estranhos propósitos daquele estranho cavaleiro vieram à tona. Foram chegando os técnicos e aquele galpão virou uma charqueada de abate de jegues. Foram matando todos os jegues da região, não sobrou um para contar a história, e pelos caminhos esburacados dos sertões os caminhões saíam no encalço dos jumentos. Jegue que antes não tinha valor nenhum passou a valer ouro. E o abate se deu duma forma tão industrial que a carne era exportada para o Japão, diziam que os japoneses adoravam carne de jumento. E assim, no frigorífico que eles implantaram, os jericos nordestinos eram degolados, depois tiravam o couro, salgavam e colocavam num saco com aquele carimbão de “Made in Brazil”, com destino ao estrangeiro”.

            “Luis Gonzaga, Rei do Baião, levantou sua voz em defesa do jumento brasileiro. Um animal tão sagrado, bom de carga, amigo do nordestino, que carregou Nossa Senhora com o menino Deus para o Egito, fugindo de Herodes, não podia ser dizimado da face das terras brasileiras. O sanfoneiro gravou a canção “O Jumento é Nosso Irmão”, mas o abate de jegues no sertão baiano continuou. O próprio governo brasileiro abriu linhas de créditos através do Banco do Nordeste financiando aquele empreendimento que causava nojo a qualquer nordestino. Quando eles sanaram sua fúria e mataram todos os animais dessa região, fecharam a fábrica e deixaram que o tempo fizesse daquela construção um fantasma na paisagem, uma coisa mal-assombrada. É por isso que quando se passa à noite, perto dos escombros daquela maldita empreitada, se ouve o relincho da alma dos jumentos. E ainda tem gente que diz que jegue só é bom para carregar fardos e dar coice quando derruba o ginete”.

            O sacristão Tirita estava fechando a porta da igreja da soberana padroeira Nossa Senhora da Conceição dos Tocós, só restavam duas pessoas que ainda ouviam o cego. O guia cutucou o patrão, e este, levantando-se do chão exclamou:

            - Que Deus fique com todos!

            E saiu, meio jalecado, guiado pelo taiocuinha para o caminho da feira, era sábado.

 

 

 

Miguel Antônio Carneiro nasceu em Riachão do Jacuípe em 14 de Junho de 1957. Poeta, ficcionista e dramaturgo. Publicou, na França, Poémes (1977), com tradução de Pedro Vianna. Publicou os livros de poesia Pelas Lupas do Jaguaracambé e Outros Poemas (1986), Os Cânticos (1993) e Boca do Tempo (2002). Pela Editora do Brasil publicou o opúsculo infantil No País dos Kiriris (1991). E os livros de contos Esconso e Outras Histórias (Selo Letras da Bahia, 1994) e O Diabo em Desordem (Coleção Apoio, 1999), Sete Cantares de Amigos (Edições Arpoador, 2003). Na internet duas de suas obras no site: www.ieditora.com.br. Inserido com verbete na página 438 volume I da Enciclopédia de Literatura Brasileira de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, Editora Global, São Paulo, 2001.

 

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