O livro dos
                                         mais pequenos silêncios
                     léo mackellene

 

 

Se queres sentir a felicidade de amar,
esquece tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação
não noutra alma
só em Deus - ou fora do mundo.

As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
porque os corpos sim se entendem,
mas as almas não.

( manuel bandeira )

 

                                                                prólogo

curva-se o garçom do tempo
para o cliente que paga apenas vivendo
e oferece erectilmente:
sensações ou sentimentos?


                                                                interlúdio

A sensação
é a vibração de um som
que vem de fora
e nos toca

O sentimento
é a reverberação de um som
que está dentro
e nos controla.


                                                                1

Entra.
Este é o meu jardim de desertos
sem portas ou janelas, entra.

não te espanta que não haja palmeiras aqui?
...também não cantam mais os sabiás.

Entra e senta
que o mundo é secular e ele pesa.
Olha que o abrigo do poema é o poeta
e vice-versa.

ESPERA... é só o silêncio pedindo licença,
                   velho mensageiro do invisível.

Agora já podes entrar. Senta.

todas as coisas se revelam no escuro
enquanto acendo um ponto de fuga e puxo
içamos o fogo da terra até os olhos

é lindo o jeito como tu fecha os olhos,
como se fechasse as portas da tua casa

vai até ali,
o espelho é o rosto dos rios,
já disseram.
Prostra-te ali e
diante do espelho
fecha os olhos e vê,
aponta o que está inerte.

CALMA... o movimento é a voz do silêncio
                  transbordando sobre tudo o que há,
                  tudo o que deve haver

é quando as luzes do universo se apagam
que as coisas se tornam puras, obscuras, secretas
(são os poemas que ocultam
a vida subterrânea de todos os segredos)

dancemos na escuridão desses caminhos,
dancemos que os espíritos antigos nos afagarão

Não tema!
O barulho das portas rangendo
é só o sentido das palavras se movendo dentro de nós

Exala silêncio teu beijo absurdo
e cego também eu
sinto os suaves gestos do infinito
sobre meu rosto ríspido, urdido de vestígios
(os mais sutis segredos trago guardados aqui)

em falso piso em falso,
passo de quem volta a caminhar depois de anos de hesitação
(o caminho se descobre caminhando,
não é o que dizem?)

Piso em falso sem saber onde morar
faço morada dos abismos que encontro ao caminhar
pouco importa então onde moro
não moro em lugar nenhum

importa aonde eu vou

Sempre assim,
continuamos. Nada mais.
E tudo acontece sem o nosso consentimento.

(nos aproximemos na dança
que já a canção termina
nenhuma canção pode soar pra sempre)

sozinho, me guio sozinho
sob os pequenos dedos do invisível
(se tudo só parece,
tudo está escondido)

tua pele exalando esquecimento,
enigma do impossível

O universo imenso se reordenando sobre mim
pra te acomodar entre minhas velas mais distantes...

(ainda dançamos a essa altura.
Mais três passos
e paramos.)

Olha...teu enigma sabe o indizível silêncio:
           sugerindo!
           Arte de reinventar o que existe.

Todos os poemas são profecias
e eu fiz um poema pra ti.
Verdade, fiz um poema pra ti.
Quer ouvir?


                                                                2

Um velho sábio que mora dentro da morte
me olhou uma vez disse
“o fogo deseja o frio
mas não pode tocar o gelo
sem feri-lo.

Isso é verdade, eu sei...

Mas a realidade é irrelevante no âmbito dos desejos
(é sincera a palavra
que vem manchada de sangue
e nos revela)

Teu medo é uma sombra,
teus segredos camuflados
com os invisíveis arbustos do teus silêncio.
Me ensina essa língua risonha e muda
que diz e não diz
cala e sugere?

Olha a janela em frangalhos aberta pra ti
é aqui que eu te encontro
no que sobrou do teu cheiro
no que se apossou do meu peito, sem receio, de mim.

(Metade de mim o amor devorou
sou apenas parte daquilo a que chamam de mim.
Metade eu esqueço,
metade padece diante de ti.
Vestígios de ti por toda minha carne,
esquecer...
pensamento que padece)

Contemplá-la enquanto dorme
é prender que o universo é inteiro
uma respiração incessante
a se expandir que se contrai
e vejo tua pele,
o pergaminho mais antigo que pude tocar

Olha,
o corpo é uma parede que nos reveste
um muro que nos impede de tocar a alma
só a palavra, minha querida,
só aquilo que significa pode alcançar a alma
a palavra é a maneira de tocar o outro
quando o outro está longe.

(mas cuidado,
a palavra também é a maneira de afastar o outro
quando o outro está perto.)

Calma.
O amor só é abismo pro fraco
se o amor é um fogo como dizem
o desejo enlouquecido de encontrar os teus mais íntimos mistérios
aqueles arbustos ali, cegos

Ora,
um poeta é para ver o invisível
é para imaginar o inatingível
não importa o quanto doa
─ seus lábios estão calejados ─
ele avança e apanha um ramo de sol

Ah! A dolorosa beleza dos segredos alheios!
                                    dos silêncios inteiros!

à triste beleza daquilo que escrevo
teu medo sussurra como um vento:
protege do sol intenso tuas flores
e elas se multiplicarão agradecidas

E assim, me contenho...
paro onde estou, aqui
até ser convidado a sair

Enquanto isso, entra.
Estou aqui
vivendo secretamente em mim.

Entra só um instantinho.
Eu sei, só as ilusões são eternas.
Dancemos então
só essa última canção
que nessa noite sem fim
nenhuma canção é pra sempre
tudo nasceu pra ruir.


                                                                3

Entre os arbustos do invisível
o último poema jazia esquecido.

Encerrado o baile
finda a festa e a dança
o universo volta sorrateiro
à sua natural, caótica insignificância

(nossos pés se desfizeram pelo chão
e há rastros por toda parte
rua por rua,
lugar por lugar)

O jardim se recolheu indeciso,
como um molusco que se esconde na concha,
quando a grade noite escondeu a cor das flores

Os sons,
tons eles cavalgando o ar,
já se dissiparam
já deixaram de soar
fizeram-se pálidos, depois soturnos, transparentes
perderam a consistência e ser
e se desfizeram
até a textura indefinida daquilo que morre.

Agora,
galhos secos tremem no salão
vazio de ilusões que se perderam
um pedaço orgânico de palavra se contorce e pulsa ali no meio
mas logo morrerá por completo
sensações sem sentimentos e
sentimos e sensações
tudo por findar afinal

São as coisas cumprindo
o estranho rito de existir e terminar
o sol se consumindo
em sua infinda função
de anoitecer e ressuscitar

Sem o apelo dos sons
o silêncio se desnuda e se revela por inteiro:
outro amor abortado
se acaba e desabam as paredes do templo que se erguia em silêncio

O corpo sucumbe ao nada
à folha caída,
arrancada do velho livro de poesia

(cada um de nós é um poema inacabado
porque tudo é inacabado)
jazem as palavras que nem nasceram
envelhecidas no papel em branco

(é a falta de amor que nos envelhece, é a sua falta.
mas a falta, minha querida,
a falta também passa)

Guardo em mim, assim
o último poema
teu último gesto sobre meu rosto ríspido,
urdido de vestígios

escombros de castelos de areia
construídos no fundo do mar

guardo em mim, aqui
tuas unhas negras
trabalhando o que existo
modelando o que pressinto
refazendo os meus sentidos...

Desviada a minha estrela
deslocada a linha reta
apenas a sombra derradeira
do beijo de um por vir que já desperta

aqui,
um segundo
é a eternidade doendo.
 

 

 

 

Léo Mackellene é professor de Literatura Comparada e de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade Estadual Vale do Acaraú. Tem poemas publicados na revista Arraia Pajé-Urbe (nº 3) e textos em impressos alternativos.

 

;:;;

;;:

+ LITERATURA

  ]  poesia  ]  Angel Cabeza  ]  Fabrício Carpinejar  José Aloise Bahia  Léo Mackellene  Marc-Olivier Zimmermann  ]
Solange Rebuzzi

  (  conto  (  Carlos Emílio Corrêa Lima  (
Danielle Stéphane  Miguel Carneiro  (    Nilto Maciel  Raymundo Silveira  (
Rosel Ulisses  Tania Alice Feix

 

ADJACÊNCIAS

§  memento  §
 §  Cordeiro de Andrade por Dênis Melo
 §  Luiz Gama por José Arrabal

}  artigos  }
Daniel Glaydson desavessa canonices
Léo Mackellene silencia os revolucionários
Nete Benevides desperta mulheres de Ibsen
Soares Feitosa ecologiza anjos augustianos

 

:;;

;;:;

.: editorial :

 Bonfim                    Glaydson                      Pimenta

.: contato .

 famigerado@famigerado.com