... em silêncio
                                                             léo mackellene


 

 

O mal jamais será vencido, a menos que o Grande Bosque marche contra ele. Tu, morto revoltado, não te levantes até que o bosque tenha se levantado.                                           Macbeth, Shakespeare

            Quando a flor rompeu o asfalto, poucos perceberam que ali era o primeiro sinal de que as coisas vivas (que não somos nós) se rebelariam. Todos os poemas são profecias e Drummond é um grande poeta. Somos a morte suprema de tudo o que existe. Tudo o que tocamos morre. E a natureza das coisas se rebelará, se levantará contra nós,

porque a natureza iniciou os preparativos de sua luta secreta e subterrânea desde o começo.                                                                                       A Cachoeira das Eras, Carlos Emílio Correa Lima

            Não lhe dão atenção, mas a flor não quer atenção. De nós, ela nada mais espera. Ela não chora a indiferença de quem passa por ela e não a percebe, como diz Quintana. É melhor que seja assim, é melhor que ela, agindo, esteja em silêncio, não seja vista, esteja nas sombras. Pois o silêncio é uma árvore que cresce sorrateiramente.

            As verdades se manifestam através de vestígios, o espetáculo é uma mentira.

A história dos movimentos sociais de contra-cultura que visavam o questionamento do sistema foram absorvidas pelo mercado, ou seja, perderam seu valor de contestação justamente por aquilo que existia em torno desses movimentos, iluminando suas idéias: o espetáculo. Todo o novo, o inusitado, está ameaçado pela absorção do mercado. Tudo isso já o sabemos. O que talvez não tenha sido dito é que os movimentos sociais que lidam com as pessoas menos favorecidas têm agido de maneira equivocada.

Acostumados com a idéia da produção fordiana, em série; angustiados pela urgência na mudança do sistema; em contato com meios de comunicação de massa; visando “catequizar” o maior número de pessoas possíveis, os movimentos têm optado pelo estardalhaço, pelo microfone, pelo grito, pelo protesto descarado; reflexo do desespero em que se encontram os engajados; manifesto, esse desespero, em protestos de rua e coisas do gênero. Os engajados não poderiam levar outro apelido que não fosse o de histéricos.

No império Romano, em tempos republicanos, os soldados avançavam em formação perfeita e obedeciam a uma única voz, em absoluto silêncio, um silêncio assombroso que apavorava os nossos inimigos.                                                                                     O Anel de Átila, Albert Salvado

            Numa guerra, não se mostram as armas que se tem, principalmente se se está em desvantagem (como nós). Quando se faz isso, dá-se tempo do inimigo se organizar, dá-se a ele a possibilidade de defender-se a altura das armas apresentadas. Num tribunal, tanto a defesa quanto a acusação guardam seus argumentos para a hora da batalha, o julgamento final.

With the lights out it’s less dangerous                                           Smell Like Teen Spirit, Kurt Cobain

            Além disso, se a mídia oficial peca por sua parcialidade direitista (mesmo que se auto-proclame democrática, tanto quanto os Ianques se auto-intitulam Libertadores do Iraque), a mídia alternativa peca pela linguagem rebuscada, pelos termos pouco conhecidos por quem está fora de contexto, quem não acompanha discussões políticas sobre a conjuntura local, nacional e internacional. Como diz Voltaire, “antes de instruir, é preciso persuadir” e pra persuadir, é preciso seduzir. Dessa forma, ao invés de reunir os estudantes ainda não despertados, se os afasta, quando se utiliza dessa linguagem a pouco referida.

            A verdade se expressa em singelezas, ela está em toda parte, em silêncio, sob a pele escamosa das palavras. Os soldados de Birman que derrotaram Macbeth escondiam-se atrás de moitas, árvores utilizadas como disfarce.

É o silêncio que nos protegerá, é o silêncio que nos permitirá agir com calma, clareza e sabedoria: o escondido, o anonimato. Não o covarde, mas o astuto. A revolução não será televisionada, já disseram. Não podemos sair por aí, pelos quatro cantos do mundo divulgando nossas idéias como beatos enlouquecidos que transformam sacerdotes em bobos da corte, por conta do desespero que sentem ao perceber que a sua santa e amada verdade está perdendo adeptos. A euforia só distrai e desarma.

Na França de 1789, os burgueses não saíam aos quatro ventos promulgando suas idéias de Revolução. Eles se organizavam secretamente, silenciosamente. É que além do perigo de, se fossem pegos, serem acusados de subversão, eles não poderiam sair por aí expondo seus trunfos, suas armas, para o inimigo.

E quando a casa se edificava, faziam-na de pedras lavradas e perfeitas; e não se ouviu martelo, nem machado, nem instrumento algum de ferro, enquanto ela se edificava. A casa se erguia em silêncio.                                                                                                                                         III Reis, 7

E como haveremos de nos comunicar em silêncio?

Ora, enquanto você lê este texto, que voz você escuta? Quando lemos, nos comunicamos em silêncio. É no texto, é na literatura que podemos encontrar o silêncio. Flutuando no abismo imenso que há nas palavras. Há um silêncio de tudo reverberando dentro de cada coisa que há no mundo. Mas, ora, como ler isso que está em silêncio? Consultando os poetas, porque o poeta é para ver aquilo que está além do limite da visão. Um poeta é para ver o que virá. Todo poema é uma profecia, repito. Um poeta é para fazer justiça com as próprias mãos, porque a luta com as palavras, ao contrário do que diz Drummond, a luta com as palavras não é uma luta vã. Eis os africanos do movimento Negritude, aprendamos com eles!

A luta com as palavras é uma luta travada no nível dessa guerra ideológica contemporânea, a neo-Guerra Fria entre blocos, a guerra semiótica prevista por Marx. Eis o campo de batalha dessa guerra semiótica: a sala de aula, o ambiente revolucionário por excelência. É ali que a revolução se processará; entre alunos e professores. O próprio termo “educação” vem do latim Educere, que gerou espontaneamente (por conta da sua conotação) uma palavra curiosa em português: indução. Quando um professor se omite, ele permite que o sistema prossiga sua jornada. Nada é imparcial. Nem nas ciências exatas existe imparcialidade. Somos humanos: parciais, limitados, restritos, subjetivos...

Viver é política. A cada momento que se coloca um assunto, uma atividade, em sala de aula é importante a reflexão sobre ela. E cada ação, cada relação construída em qualquer ambiente: em casa, no bar, no teatro, no ônibus, na sala de aula, é uma projeção, um reflexo do todo, do macro, das estruturas sociais em voga ali. É um contra-censo achar que o homem pode viver isolado. É impossível fugir da polis. A cidade está dentro de nós. O homem é um ser que relaciona e se relaciona. A essência humana é a política. Portanto, educar é uma ação política, politizadora. As verdades em que eu acredito estão vinculadas a uma ideologia, qualquer que ela seja. A ideologia não está além da realidade, não é algo para o simples deleite, não é coisa pra passar o tempo ou pra ficar só divagando sobre alguma-qualquer coisa como um bom aristocrata fazendo a sua digestão. Não. A ideologia é a base sobre a qual serão construídas todas as nossas ações. Ali é o terreno fértil da própria vida.

Quem rege o funcionamento dos estabelecimentos de ensino? A que papel a universidade foi reduzida hoje senão o de formar profissionais? Sua razão histórica, a de formar livre-pensadores, indivíduos críticos, aptos a pensar sobre o mundo a sua volta se perdeu. As universidades, converteram-se nos órgãos de treinamento, ou melhor, órgãos de adestramento de mão-de-obra para o mercado. E vinculados a quê podemos encontrar os moldes “educacionais” dos cursos seqüenciais que vêm sendo implementados pela UVA? Vinculados às solicitações neoliberais norte-americanas&aliados s/a, nas figuras de um BID ou de um FMI.

A sala de aula é o ambiente revolucionário por excelência porque ali estamos lidando com a formação do indivíduo. A base de todas as suas ações e atitudes perante si mesmo e perante o mundo. A educação é a base do ser, isso é indiscutível. A sala de aula é o ambiente da reflexão sobre o mundo e sobre suas coisas. Uma sala de aula, apesar de vivermos num mundo abstrato, que nos quer distantes, individualistas, separados, fragmentados e tudo o mais especializado sugerido pela atual organização da ciência; uma sala de aula não pode estar isolada, separada da vivência cotidiana dos indivíduos. A abstração científica gera uma abstenção da realidade, uma alienação (Fromm, 1959). A especialização científica é o meio pelo qual o homem procura saber cada vez mais sobre cada vez menos, até chegar ao limite absurdo de se saber tudo sobre nada. A abstração nos afasta, nos separa, nos individualiza, nos isola, nos exila, nos impede o contato mais próximo. Quando a teoria, a filosofia, o conteúdo não estiver voltado para o fim último do conhecimento (que é a sabedoria da vida, ou seja, guiar o homem); quando os conteúdos não estiverem voltados para esse fim é porque são INÚTEIS.

O ensino é, portanto, um momento de reflexão política. Não importa se a aula é de literatura, de arte, de filosofia, de biologia, de geografia, enfim. Fazer pensar. Não é esse o objetivo da universidade? Discutir, por exemplo, a literatura como literatura, é traí-la, é fechá-la em si mesma. A literatura não quer ser discutida, ela quer discutir.

Ora, mas o que é a escola senão um centro para a formação dos indivíduos que vão ser “úteis” àquela sociedade? E o que é o professor senão aquilo que Althusser ou Durkheim já disseram, um aparelho ideológico?

            Imaginemos um jogo de xadrez onde um adversário, apenas, à medida que jogasse, contasse para o outro seus planos, suas estratégias. Quem provavelmente perderia o jogo? Não se pode dizer que se sabe. “Os burros vivem muito”, já dizia George Orwell.

Eu não lhe digo tudo sobre mim. senão de que jeito vou ficar? seco, sem vida, sem segredos, dentro de uma imensa aflição. É preciso guardar segredos. Um homem tem que ter suas entranhas.                                                                    A Cachoeira das Eras, Carlos Emílio Correa Lima

“Um tigre não sai para caçar rosnando atrás de sua caça”. O medo não paralisa a vítima, espanta-a. “O tigre caminha calmamente” mesmo que sua fome seja tamanha, “e no momento exato, ataca”, sai às ruas. Aprenda com isso. Junte-se ao Rei, junte-se a ele, seu inimigo, já que ainda não pode com ele, não pode vencê-lo. Aprenda sua forma de pensar, saiba o que ele sabe, entenda seus medos, entenda suas fortalezas e, principalmente, as fraquezas do rei, seja seu amigo mais íntimo... mas tudo em silêncio, um silêncio profundo, quase absoluto. Coma de boca fechada, engorde, posicione suas pedras primeiro. O jogo se processa em silêncio. Temos uma única chance e ela é sempre a última. Apenas no último momento do jogo, e que é único, é que se pode falar.

            Xeque-Mate... e o rei está morto.

 

 

 

Léo Mackellene é professor de Literatura Comparada e de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade Estadual Vale do Acaraú. Tem poemas publicados na revista Arraia Pajé-Urbe (nº 3) e textos em impressos alternativos.

 

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