Luiz Gama
              vida e obra
                josé arrabal

 

            Na história da inteligência brasileira não há personagem
mais instigante e original do que o ex-escravo, poeta, jornalista,
advogado e combativo militante negro Luiz Gama, autor da obra
“Primeiras Trovas Burlescas”, publicada em bem cuidada reedição
pela Martins Fontes há quatro anos.

            Sua vida de escritor e publicista combativo surpreende, sobretudo, por ter sido bem sucedida num meio social totalmente adverso às suas condições e possibilidades pessoais.

            Luiz Gonzaga Pinto da Gama nasceu na Bahia a 21 de junho de 1830.

Consta que é filho natural de mulher negra da Costa do Marfim, uma quitandeira livre da cidade de Salvador chamada Luiza Mahin.

            De se pai, nada se sabe, senão que era um fidalgo de tradicional família baiana.

            De Luiza diz-se que tinha leitura, sendo, provavelmente, uma fiel muçulmana, pois referências históricas a comprometem com a Revolta dos Malês, acontecida em 1835, quando negros maometanos se levantaram contra a escravidão, na Bahia.

            Há também registros de sua participação na Sabinada de 1837, ocasião, em que, frustrado o movimento revoltoso, Luiza, sob forte perseguição policial, teria fugido de Salvador para o Rio.

            No ano seguinte, viu-se expulsa do Brasil, sob a acusação de ser uma africana rebelde e turbulenta.

 

ESCRAVO EM SÃO PAULO 

            O menino Luiz, aos dez anos de idade, é vendido como escravo pelo próprio pai, transferindo-se para as mãos do comerciante paulista Antonio Pereira Cardoso, dono de uma pensão na capital da província.

            Ainda escravo, o moleque aprende a ler e escrever por obra graça do estudante Antonio Rodrigues do Prado Júnior, um dos pensionista de seu senhor.

            Ativo e inteligente, convencido de seu direito à liberdade, aos 18 anos Luis Gama, provavelmente ajudado pelos jovens hóspedes da pensão, foge do mando de seu dono. Em seguida, aparece alistado na Guarda Municipal, onde ganha a simpatia e a proteção de uma das maiores autoridades de São Paulo, o Conselheiro Furtado, catedrático da Faculdade de Direito e Chefe da Polícia paulista, de quem o moço negro se torna ordenança.

            O rapaz permanece na tropa por seis anos, chegando à patente de cabo de esquadra. Abandona, porém, a carreira militar, após ter passado um mês preso por insubordinação. Não deve, contudo, ter perdido as boas graças do Conselheiro, que arranja para o protegido o emprego de amanuense, na Chefatura de Polícia de São Paulo.

            Autodidata esforçado, Luiz Gama por essa época, se não freqüenta qualquer curso regular, mantém, por sua vez, estreita amizade e convivência permanente com os moços da Faculdade São Francisco, partilhando de suas idéias radicais libertárias, em torno da liderança do poeta e professor de Direito José Bonifácio, o Moço, sobrinho do Patriarca da Independência.

            Em 1859, destaca-se no ambiente cultural da cidade, ao publicar seu livro de poesias “Primeiras Trovas Burlescas”. Obra que encontra grande receptividade na imprensa e junto ao público leitor, sobretudo por rimar contra alguns costumes literários da maré romântica, fazendo uso da sátira de costumes e acentuando com irreverência e humor os ideais iluministas da jovem intelectualidade paulista.

            Desde então cresce a estrela de Luiz Gama na cidade. Brilho que alcança a Corte três anos depois, com uma segunda edição do livro no Rio de Janeiro, sede do Império.

            Sua obra poética ataca com áspera e hilária ironia os hábitos urbanos conservadores, a justiça, os políticos, a Guarda Nacional, os privilégios da Igreja, os barões e impunidade dos poderosos. Não poupa sequer o Imperador. E, sobretudo, se expõe como uma radical defesa da raça negra, de sua linguagem, hábitos, valores, estética e inteligência, desferindo vigorosos ataques contra os preconceitos escravocratas da sociedade branca dominante.

 

JORNALISTA RADICAL 

            O poeta respeitado torna-se jornalista combativo. Defende as mais ousadas teses progressistas, principalmente a abolição do trabalho escravo. Funda jornais e revistas satíricas. Abre escolas gratuitas para crianças pobres. Cria bibliotecas. E se junta ao movimento anti-monarquista, participando como militante polêmico e inquieto de todos os encontros, comícios e congressos que culminam na fundação do Partido Republicano, em 1873.

            Defende a instauração da República como conseqüência de um forte movimento popular. E combate com intransigência crítica as intenções políticas retrógradas da oligarquia rural escravocrata que se aliava ao republicanismo.

            Poeta e jornalista vigoroso, Luiz Gama, mesmo sem o diploma superior da Faculdade São Francisco, obtém registro provisório de Advogado. Passa então a defender gratuitamente, na capital, no interior do Estado e mesmo na sede do Império, as mais diversas causas dos escravos.

            Consta que ao longo de sua vida, com argumentos jurídicos conseguiu a liberdade de uns 500 negros cativos.

            Era uma espécie de “terror dos fazendeiros”. A Luiz Gama, inclusive, atribui-se a convicção de que “perante o Direito, é justificável o crime de homicídio na pessoa do senhor”.

            Claro está que toda essa militância rebelde e radical não se deu sem dificuldades ou duras atribulações. Por varias vezes, o polêmico publicista enfrentou processos e prisão. Chegou a ser acusado de “agente da Internacional Comunista e fomentador de insurreições de escravos”, em 1871,  quando acontecia, na França, a Comuna de Paris.

            O valoroso ex-escravo que se tornara destacado homem público tinha, porém, a seu favor a imprensa independente, a simpatia da juventude liberal, o respeito dos políticos progressistas e o poder da maçonaria, onde ocupava cargo de relevo. A isso se somava a firme admiração do povo paulistano e mesmo carioca, que considerava Luiz Gama como uma espécie de incansável titã libertário contra os desmandos dos poderosos do Segundo Império.

            Ao morrer, em 24 de agosto de 1882, registra a crônica jornalística de época que seu funeral foi o mais concorrido e jamais visto igual, na cidade de São Paulo.

            Nos meses que se seguiram, foram incontáveis as homenagens póstumas prestadas a sua memória por todo o país.  

 

UM ORFEU DE CARAPINHA 

A Coleção “Poetas do Brasil”, coordenada pelo Prof. Haquira Osakabe (Unicamp) para a Martins Fontes, é um trabalho de grande seriedade que com justiça vem recebendo crescente atenção dos leitores.

São volumes que reúnem, sob extremo cuidado e pesquisa apurada, a produção de alguns nomes emblemáticos da poesia brasileira.

Há quatro anos, juntou-se à coleção a obra completa do poeta negro Luiz Gama (1830-1882), com a reedição exemplar de seu livro “Primeiras Trovas Burlescas”, a que se somam outros poemas do combativo abolicionista publicados nos vários jornais em que atuou profissionalmente. Quase sempre sátiras.

Também se encontram reunidos no título da Martins Fontes, conforme estiveram presentes nas edições originais da obra, dez interessantes poesias épicas do político e escritor José Bonifácio, o Moço, companheiro de lutas libertárias e protetor de Luiz Gama.    

Cresce de importância a publicação, por trazer um exaustivo ensaio sobre o escritor negro (de autoria da Professora Lígia Fonseca Fernandes, que organizou a obra), uma vasta cronologia de sua vida, uma curiosa documentação icnográfica e uma bibliografia de apoio.

Com esta edição da Martins Fontes, Luis Gama, enfim, encontrou sua hora e sua vez para os leitores de nossa poesia. Fato muito significativo, se considerarmos que são raras e esgotadas as outras edições que, mais ou menos, reúnem a produção do poeta.

 

PRESENÇA E CONTROVÉRSIA 

O baiano Luiz da Gama costuma chamar a atenção como escritor, no mais das vezes, por ter sido ex-escravo e por sua vida quase lendária de militante radical e rebelde intransigente, jornalista e advogado comprometido com as causas da abolição da escravatura e proclamação da República.

Pode-se especular, contudo, que tais aspectos biográficos contribuíram para que ele fosse, no decorrer do tempo, colocado um tanto à parte e visto com desprezo pela história oficial da literatura em nosso país. Desprezo que se acentua pelo costumeiro desdém que muitos ensaístas conservadores manifestam frente à sátira como modelo poético.

Já os que admiram Luiz Gama tendem a superestimar sua poesia. Procuram avaliá-la a partir da duvidosa consideração de que o poeta seria uma espécie de precursor nacional das ideologias norteadoras da identidade negra e da negritude, no Brasil.

Vale dizer que ainda hoje até mesmo a crítica mais especializada se divide a respeito de sua obra.

Há os que não hesitam em considerá-lo um poeta menor, ainda que reconheçam que o ex-escravo foi em vida um escritor extremamente bem conceituado.

Outros comparam Luiz Gama a Gregório de Matos Guerra. Muitos até o consideram superior.

Distante de quaisquer deméritos preconceituosos ou de fáceis exaltações míticas, a edição da Martins Fontes procura encontrar um lugar justo e preciso para situar a obra do poeta na literatura nacional.

O que Luiz Gama produziu como poesia foi sátira política e de costumes. Escreveu, igualmente, alguns poemas líricos, mas, sendo por excelência um escritor engajado, coloca-se de maneira apaixonada como observador crítico, irônico, imediato e cotidiano do Segundo Império.

Deste patamar, alcança uma poética de feitio tão inconformado, quanto divertido, sendo, no fundo, um ousado moralista social.

Combate a corrupção política, a hipocrisia e os desmandos dos poderosos, o “branquismo” dos mulatos, os abusos do baronato e do clero, a inépcia do poder judiciário. Também ridiculariza certos comportamentos urbanos submissos às novidades da moda. Não escapam da acidez aguda de seus versos hilários os doutores, os magistrados, os políticos, os militares, os nobres, os conselheiros da Corte e até mesmo o Imperador.

 

BELEZA NEGRA 

Sua estrela guia é toda uma compreensão um tanto carnavalizada dos ideais iluministas de liberdade, igualdade e fraternidade, expressos de modo radical e intransigente, com traços de caricatura:

“Se temos Deputados, Senadores,
Bons ministros e outros chuchadores
Que se aferram às tetas da Nação
Com mais sanha que o tigre, ou que o Leão;
............................................................................
Não te espantes, ó Leitor, da pepineira,
Pois que tudo no Brasil é chuchadeira!”
 

Não livra sequer a si mesmo de suas ironias: 

“Quero que o mundo me encarando veja,
Um retumbante Orfeu de carapinha,
......................................................................
Nem eu próprio à festança escaparei;
Com foros de Africano fidalgote,
Montado num Barão com ar de zote(...)” 

E nem se leva muito à serio como poeta:

“Faço versos, não sou vate,
Digo muito disparate,
Mas só rendo obediência
À virtude e à inteligência”.
 

Claro está que sua bandeira privilegiada é o combate ao racismo escravocrata existente na sociedade brasileira.

Sua sátira e mesmo sua lírica, com vasta liberdade criadora, são, sobretudo, falas de um escritor negro a favor de sua gente.

Por sinal, é o primeiro poeta do Brasil a cantar a beleza peculiar da mulher negra e a fornecer respeitabilidade estética aos hábitos, valores, vocabulário e linguagem da comunidade afro-brasileira. Cultura que dispõe em pé de igualdade com as referências literárias européias.

Contudo, se Luiz Gama dignifica o negro, sua meta ardorosa de escritor iluminista será fraternalizá-lo com os irmãos brancos, nacionais ou estrangeiros, na perspectiva da igualdade social.

Em suma, suas aspirações libertárias são universalistas e modernas.

Como se fosse uma espécie de vate antropofágico multicultural, Luis Gama apreende, polemiza, mistura, devora e devolve, em sátira ou lírica, o cotidiano do Segundo Império. Elabora seu modelo de poesia popular com seus sinais de ocasião, o que algumas vezes dificulta o diálogo com nossos dias.

            Mas, ainda hoje é divertido ler a sátira de Luiz Gama, ou é pungente e emocionante entrar em contato com sua lírica. E, sem dúvida, estudar sua obra como sintoma de um tempo torna-se uma justa necessidade, para melhor compreendermos o desenvolvimento da história da inteligência brasileira em seus compromissos e procedimentos críticos.

 

 

 

José Arrabal, jornalista, escritor, professor universitário e tradutor. É natural de Mimoso do Sul-ES e descendente de espanhóis. Vive atualmente em São Paulo-SP. Dentre os mais de 30 livros publicados, destacam-se Teatro: Anos 70 (1980); Stalin (1986); A lenda do cristal encantado (1987); O nariz do Vladimir (1989); O livro das origens (2001); Lendas brasileiras vols. 1 e 2 (2001 e 2004); Histórias do Japão (2004), etc.

 

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