Indicações para um cânon
                            poético nacional
                              
                                             daniel glaydson

 

 

 

O que podemos considerar “melhor” poema quando se trata de literatura brasileira? Diante da proposta deste trabalho, essa é uma questão fundamental – sua fragilidade aparente oculta um emaranhado de determinações históricas e, conseqüentemente, político-sociais.

Vejamos: falar em “melhores” poemas brasileiros, até meados do séc. XX, consistia basicamente em reportar-se ao que se encontrava sempre estampado nas “grandes” antologias – mais conhecidas como florilégios ou parnasos no séc. XIX –, que surgiram logo após a Independência como uma tentativa de estabelecer o cânon literário do país, caracterizando-se via de regra por um viés nacionalista e conservador. Cem anos após seu estabelecimento definitivo, que se deu com Varnhagen na década de 1850, esse tipo de antologia poética continuava disseminando preconceitos típicos de uma visão “academicista”, o que se tornava evidente por banir “corpos estranhos”, como um Sousândrade, como os simbolistas, e até mesmo grandes nomes do nosso Modernismo, amados e odiados à época[i].

Reformas educacionais e suas conseqüentes alterações na concepção dos livros escolares, além da própria mudança na visão do homem sobre o mundo após duas guerras devastadoras, resultaram numa nova forma de pensar o “melhor” poema desde a segunda metade do século passado. Resolveram-se alguns problemas e criaram-se muitos outros. A partir de uma concepção simplista e historicista do ensino de literatura, a poesia dita canônica passou a ser aquela que melhor exemplificava períodos ou movimentos literários: poesia como recurso didático apenas – perde-se a capacidade de discernir entre o valor de uma obra e sua função.

Para exemplificar: se os simbolistas podem agora inserir-se definitivamente nos cânones, deles conhecer-se-á apenas Antífona ou Violões que choram de Cruz e Souza e A Catedral de Alphonsus de Guimaraens. Assim termina por parecer bastante simples a seleção dos clássicos: quanto mais escrachadas estiverem as “características principais” do período no corpo do poema, maior sua probabilidade de entrar para a posteridade. Um outro exemplo do equívoco dessa concepção, este beirando o sarcasmo, estaria no caso de Mario de Andrade: algumas dessas “antologias escolares” chegam ao cúmulo de trazer dele apenas trechos do prefácio de Paulicéia Desvairada, “interessantíssimo” manifesto modernista. Poemas, nada. E engana-se quem pensa que essa forma idiopática de se elencar o que haveria de “melhor” na produção dos nossos poetas não atinge as universidades.

Sofremos de uma interpretação equivocada do que seria clássico. Talvez uma desvirtuação da idéia de T. S. Eliot, pela qual um clássico deveria “expressar o máximo possível da gama total de sentimento que representa o caráter do povo que fala essa língua”[ii]. Na verdade, o que se vem levando em conta é a expressão do “máximo possível da gama total” de mandamentos estéticos ou até mesmo substancialistas passageiros e inerentemente inconstantes. Já ensinava Ezra Pound: “um clássico é clássico não porque esteja conforme a certas regras estruturais ou se ajuste a certas definições (...). Ele é clássico devido a uma certa juventude eterna e irreprimível”[iii].

Hoje, considerando a aceitabilidade de pensamentos críticos na linha da Estética da Recepção, gerando assim uma valorização no papel do leitor enquanto agente da obra literária, enquanto alguém que não apenas lê um poema, mas precisa “ser lido” pela Poesia para que haja uma verdadeira fruição artística, “selecionar as flores” tornou-se tarefa quase irrealizável – cada sentido de cada ser tem sua forma própria de representar as “flores”, os “melhores” poemas. Dessa forma, ainda que detectado o que há de falho nas vias até então adotadas, a solução para uma antologia ideal não se mostra facilmente. A raiz do problema está no próprio caráter ambíguo, contraditório e ao mesmo tempo harmonioso da Poesia: eterna mas efêmera, universal mas intrinsecamente íntima.

Não sendo compromisso deste texto propor uma nova antologia, parece interessante alçar ao menos algumas considerações sobre o panorama deixado pela poesia brasileira no século passado:

Arraigado campo de batalha entre a velha dicotomia literária “formalismo x substancialismo”, nosso séc. XX, prodigioso no surgimento de grandiosos poetas, sai ferido de ambos os lados. Da disputa entre os defensores da poesia enquanto forma e aqueles que a tinham como meio conteudístico, podemos constatar hoje que um dos quocientes resultantes está em certo preconceito, vindo principalmente da crítica e transmitido ao público leitor, que atinge todos aqueles que levaram essa peleja ao extremo: de um lado, os concretistas; de outro, os poetas engajados. Ainda que os apogeus destas correntes não tenham acontecido precisamente no mesmo momento, elas são sem dúvida galhos antônimos de um mesmo caule: a poesia brasileira tentando encontrar sua expressão numa era conturbada, de velhas ditaduras e novas tecnologias. Pelo que se vê agora, entre a poeira que ainda se aquieta, sobreviveram sem mácula versos não integrados a quaisquer dos extremos: o lirismo personificado de Manuel Bandeira, Carlos Drummond, João Cabral, Ferreira Gullar, etc. Valendo lembrar que tanto Drummond quanto Gullar iniciaram “extremistas”, o primeiro engajado, o outro concretista, “amainando” depois; e que J. Cabral ameaça os dois extremos com Morte e Vida Severina.

Quiçá falta ainda um olhar mais isento, distanciado sobre essa disputa: reler versos de um Haroldo de Campos

                                            de sol a sol
                                            soldado
                                            de sal a sal
                                            salgado
                                            de sova a sova
                                            sovado
                                            de suco a suco
                                            sugado
                                            de sono a sono
                                            sonado
 
                                            sangrado
                                            de sangue a sangue 

ou de um Moacyr Félix

                                            Querer-me novo é querer-me mais que morto
                                            em mim ou nesta existência que me olha.
                                            É querer-me outro que não este em que me instalaram 

Reler não para prosseguir excluindo, mas para “fazer justiça”.

Afinal, se realmente “os poetas têm sido a memória de seus povos”[iv], como afirma Octavio Paz, devemos parar e pensar cuidadosamente sobre o que é a memória de nosso país, e sobre o que ela deveria/deverá ser. 


 

[i] Ver BOSI, Alfredo. “Prefácio”. In: Antologia de antologias. Org. Maria Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Maria Thomaz de Aquino, Zina Bellodi Silva. São Paulo: Musa, 1995. pp. 23-28.

[ii] ELIOT, Thomas S. De poesia e poetas. Trad. Ivan Junqueira. São Paulo: Brasilense, 1991. p. 94.

[iii] POUND, Ezra. ABC da literatura. Trad. Augusto de Campos e José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix, 1998. p. 21.

[iv] PAZ, Octavio. A outra voz. Trad. Wladir Dupont. São Paulo: Siciliano, 1993. p. 108.

 

 

 

Daniel Glaydson, nasceu em Picos, Piauí; criou-se em Campos Sales, Ceará; e atualmente hiberna em Sobral, Ceará. Tem poemas publicados em antologias nacionais, além de artigos em jornais e revistas. Foi finalista no III Prêmio Literário Livraria Asabeça (SP), 4º lugar no Prêmio Paulo Eiró de Poesia (SP) e Menção Honrosa no 8º Prêmio Missões (RS) e no Prêmio Audífax de Amorim 2005 (ES).

 

;:;;

;;:

LITERATURA

  ]  poesia  ]  Angel Cabeza  ]  Fabrício Carpinejar  José Aloise Bahia  Léo Mackellene  Marc-Olivier Zimmermann  ]
Solange Rebuzzi

  (  conto  (  Carlos Emílio Corrêa Lima  (
Danielle Stéphane  Miguel Carneiro  (    Nilto Maciel  Raymundo Silveira  (
Rosel Ulisses  Tania Alice Feix

 

+ ADJACÊNCIAS

§  memento  §
§  Cordeiro de Andrade por Dênis Melo
 §  Luiz Gama por José Arrabal

}  artigos  }
Daniel Glaydson desavessa canonices
Léo Mackellene silencia os revolucionários
Nete Benevides desperta mulheres de Ibsen
Soares Feitosa ecologiza anjos augustianos

 

:;;

;;:;

.: editorial :

 Bonfim                    Glaydson                      Pimenta

.: contato .

 famigerado@famigerado.com