Graal
                carlos emílio corrêa lima

 

               - Água de vinho.
               - O que é isso?
               - Veio do cosmos. Costura e falta.
               - Não entendo.
               - Água incandescente de vinho.
               - Mas o que é isso?
               - Uma espécie de operação em tridentes.
               - Continuo não percebendo o que você quer me dizer.
               - Esta água. Olhe.
               - Um pequeno lago vermelho em suas mãos. Faz muito
tempo?
               - Faz muito tempo o que?
               - Que isso aconteceu, de suas mãos se transformarem
 em recipientes dessa água de vinho que não sei absolutamente o que vem a ser.
               - Não, utilizei-as agora para responder à sua pergunta.
               - Mas mesmo você mostrando agora suas mãos estendidas, espalmadas com essa água que você diz ser de vinho, eu não consigo compreender.
               - Eu falei água de vinho.
               - Sei, e daí?
               - Daí você percebe clara ou vermelhamente que é uma água especial, praticamente encantada.
               - Estranho, mas enquanto caminhamos pela rua, mesmo você agitando suas mãos do modo como está fazendo, você não derrama o líquido.
               - Não seja precipitado, isso não é um líquido comum. Experimente.
               - Como assim?
               - Toque em minhas mãos, me cumprimente, seja educado.
               - É muito estranho mesmo. Nada aconteceu. Nem senti a água de vinho, como você afirma, mas ela continua aí.
               - Ela é intocável até pela polpa dos olhos. E dá um sono muito ágil.
               - Transfira-a para mim... as duas porções.
               - Com todo o prazer. Mas não precisa outra coisa a não ser você desejar ardentemente que essa água ocupe as suas mãos. Tudo começou naquela outra esquina. E para você, assim que você me fez o pedido. Não precisei deixar de ter os meus lagos manuais. Você agora os tem, do mesmo modo. Continuemos, começo a ficar interessado em suas indagações. Você se lembra que eu falei que a água de vinho veio do cosmos. Mas o cosmos não significa uma origem num espaço muito infinito, gênese em desconhecida distância. Falei também em costura e falta. É que é um tecido. Há fiandeiras, máquinas de tecelagem para essa água. Mencionei também uma operação em tridentes. Isso nem mesmo eu ainda entendi, saiu-me rapidamente dos lábios. Acho que você compreende. Esconda-se. Vamos. Vem um daqueles carros. Eles podem perceber que estamos com as mãos preenchidas por água de vinho. Na verdade, é isso que eles perseguem, agora sei. Tivemos sorte.

               - Você me parece estar fazendo uma arqueologia da repressão acrescentando um dado novo. Esse líquido que transportamos não pode provocar suspeitas. E tenho medo de guardar em minhas mãos rebeldes água de vinho. Água de vinho subitamente. Mas vamos sair da confeitaria, o carro já vai longe.
               - Pelo ar frio, pelos túneis, água de vinho, com ardor, água de vinho. Ajeite a gola de sua jaqueta. Ainda não se dispersou a presença do carro. Você consegue relembrá-lo? Qual era a sua cor? Movia-se rápido na direção do Norte ou do Sul? Vejo que estou dormindo. Vejo que estou no interior de meu corpo de sono e mesmo por isso permaneço andando ao teu lado, triste porque percebo agora onde estou. Percebi com lonjura.
               - Novamente você me põe no vazio. O que você quer dizer?
               - Qual foi a primeira palavra que eu disse quando começamos a ter consciência, quando você me olhou, sentiu-se perto de mim, ao meu lado, e continuou a andar quase no mesmo passo que o meu por esta imensa avenida dessa cidade que nos cerca por todas as direções com seu ruído de expansão belicosa, aterrorizante? Escute. Você ouvia, sentia isso antes?
               - Não, me custa acreditar. Estou ouvindo, toda a cidade é um ruído de formas em movimento.
               - Você se lembra onde estava antes, o que éramos antes de você ouvir água de vinho de meus lábios humanos?
               - Não.
               - Então porque me pergunta o que é essa água de vinho em nossas mãos? Me diga!
               - Não sei. Você pronunciou as palavras, veio-me a pergunta, automática.
               - Admiro a sua pureza. Tem um bar ali na esquina. Vamos nos sentar em uma das mesas e resolver o problema. Sente-se de costas para a rua se você não se incomoda. Prefiro ficar nesse canto de frente. Olhando para o trânsito.
               - É sem fim.
               - Pela madrugada diminui. Passam apenas aquela espécie de carros. Ei, não vire a cabeça. Não seja tolo. Por enquanto está impune. O que vamos pedir?
               - Conhaque ou vinho.
               - Não me faça rir. O vinho nós já temos. O vinho do transporte e da trégua.
               - Você quer dizer que podemos beber de nossas próprias mãos?
               - Claro. Veja o que eu estou fazendo agora mesmo. E não tem fim, como o trânsito.
               - Mesmo quando o trânsito parar?
               - Ainda não sei mas acho que não existe nenhuma relação.
               - Você me disse mais coisas novas que aumentam minha perplexidade. Tudo é tão vago.
               - Tudo tão distante também.
               - Continuo não compreendendo nada. Vamos sair daqui, dessa cidade, desse lugar horrendo, hipnótico.
               - Ah! Você sentiu agora onde está realmente? Você sentiu o que é? E também o que você é? Talvez pelos carros ou pela nossa conversa?
               - Por tudo, principalmente por estar aqui. É. E também por conversar com você. Mas deixe-me experimentar essa água de vinho.
               - Experimente de minhas mãos. Em concha. Gostoso?
               - É, sim, mas parece que não adianta. Já não podemos nos mover daqui.
               - Oh! Estou vendo que percebeu a função antiga, predecessora desse líquido, como você falou. Já não lhe é tão misterioso.
               - Mas não consigo me lembrar de nada da minha vida antes de você pronunciar a expressão.
               - Parece que não estamos aqui, não é?
               - Sim.
               - Não precisa derramar lágrimas de vinho, amigo. Não precisa fazer nada. Ali vem afinal o garçom. Como eles são engraçados. Observe. Olhe para as mãos dele na bandeja. Não têm nada, não têm o líquido.
               - Mas antes eu não o tinha também. Foi você quem me deu.
               - Não, de modo algum. Foi você que o quis. Há uma diferença. Só que no presente momento estamos de acordo, a água de vinho não adianta mais nada. Não serve mais do que para beber. É o melhor vinho do universo. Esteja certo. Deste universo. Serve de passagem somente uma vez. Nós não sabíamos e agora estamos nessa cidade como se estivéssemos acordados e como se pudéssemos de fato dialogar, refazer os planos. Mas já não podemos.
               - Deve haver uma saída. Se a água sumir de nossas mãos talvez algo se passe.
               - Um momento, amigo. Vou eu mesmo chamar o garçom. Se eu for até onde ele está ele não vem à nossa mesa.
               - Prefiro que você fique. Vamos esperar. A conversa está preenchendo meus vazios, me interessando.
               - Esta conversa não serve para nada. Você nunca vai compreender porque eu falei água de vinho. Nunca.
               - Por favor, estou angustiado. Sentindo nas escalas da roda girante do vazio sopros de fome e de sede.
               - É. Faço até uma autocrítica. Conversar não precisa ter uma utilidade. Você tem razão.
               - Estranho é que vez por outra no espaço de uma palavra me surge no lugar que ela deveria ocupar um imagem que não estou conseguindo transmitir.
               - Eu sei. Trata-se de um fenômeno normal numa situação como essa nossa. Você não sabe de onde veio e muito menos eu. Talvez estejamos mesmo em outro lugar e aqui só estejam nossos corpos conversando. Talvez nem seja adequado a gente deixar escapar qualquer palavra, elas podem ser nosso sangue, nossa vida mesmo. Uma espécie de ar.
               - Eu não tinha pensado nisso. Preciso então dizer tudo com muita cautela.
               - É, chamam essa atitude de verdade.
               - Mas em que mundo?
               - No mundo onde há nossa água de vinho. Mas espere, você me disse que está vendo umas imagens no espaço das palavras que se pensam. São relâmpagos?
               - Sim, agora mesmo vejo relâmpagos sobre o mar.
               - Sim, a mesma coisa, veja aquele que parece desenhar uma letra fulgurante, rápida como o tempo. Mas veja, veja, veja, são a base de minhas palavras e das suas. Toda vez que pronunciamos alguma coisa é porque vemos os relâmpagos. É porque são essas detonações luminosas.
               - Nossos relâmpagos se cruzam numa lentidão de segundos, se engancham e pronuncio isso com tuas palavras-relâmpagos. O mar se ilumina extensivamente. Nossas mãos sobre a mesa pois sobrevoamos o mar. Aguda correspondência.
               - Diga outras palavras mas bem devagar para ver o que acontece. E o mais louco é que não precisamos fechar os olhos. Nem seria saudável, pressinto. Os relâmpagos disparam em torno em volta da cabeça do garçom japonês que se aproxima, formam o halo. Dá vontade de brincar com os corpos das pessoas utilizando essa artimanha congênita. Mas me diga antes que ele chegue com o cardápio uma só palavra bem devagar.
               - Relâmpago.
               - Agora ocorre outro episódio nesse fenômeno. Quando você disse relâmpago bem devagar eu é que vi o seu relâmpago. O que você viu?
               - Eu vi uma única mão no espaço, elétrica, de gases sonolentos, de vapores longínquos, vermelha estendendo-se em luz desde uma profundeza que não posso conceber. Moldadora.
               - O que você quer dizer?
               - Ela molda as coisas, não sei explicar melhor.
               - Veja, enquanto vou dizendo essa frase insípida "o garçom resolveu voltar para dentro do restaurante, fez que ainda não nos viu",vai se formando uma multidão de raios sobre o mar. É quase apavorante.
               - E se tentássemos fechar os olhos?
               - Nem tente, não conceba fazer isso. Pressinto que é perigoso, muito. Eu te imploro, não feche os olhos, pelo menos enquanto tivermos certeza de que temos essa dúvida.
               - Ah! Você intuiu o que eu estou intuindo secretamente. Que basta fechar os olhos e a água de vinho desaparecerá das palmas de nossas mãos.
               - Sim, foi exatamente isso. Estamos pensando em conjunto desde que você uniu todos os relâmpagos seus com os meus. Nossas mentes, se é que podemos falar agora de mentes, se coligaram, como halos, anéis.
               - É, o importante foi começar essa investigação.
               - Você percebeu que continuamos conversando sem nos preocuparmos sobre hipótese há bem poucos instantes formulada.
               - É, mas não podemos fazer outra coisa pois agora sou obrigado a ler as palavras atmosféricas, faíscas pervagando sobre o mar e essa leitura é minha fala que você já deve sentir um tanto exasperada.
               - Sim, o mesmo sinto eu. Mas, me diga, qual é a cor desse mar incomensurável, eterno?
               - Vermelho. Da mesma cor de nossa água de vinho. Mas você não pode estar certo, saber que esse mar é eterno. A fonte. Isso não.
               - Como não posso se estou só gritando a verdade?
               - Não precisa se levantar. Eu vou chamar o garçom, pessoalmente.
               - Disse que vinha logo? Por que você não o trouxe até aqui?
               - Ele não compreendeu uma só palavra. Falamos uma língua desconhecida. Acabo de descobrir. Vamos sair dessa mesa e vamos para dentro. Aqui está começando a ficar muito frio.
               - Mas antes me diga, você ouviu o som dos raios sobre o mar em silêncio?
               - Não, nem poderia ouvir. Eles são estas palavras que você e eu estamos ouvindo agora sendo proferidas.
               - Quer dizer que nossa língua é de trovões?
               - Sim, trovões mínimos, labiais. Vêm de uma tal distância que se transformam em palavras.
               - Você entendeu uma coisas? Eu sei mais sobre aquele assunto e você sobre esse, somos simbióticos.
               - Que assunto?
               - Água de vinho.
               - Ah.
               - Essa mesa é redonda, amarela, me faz bem. Sentemos aqui.
               - Você ainda acredita que eles nos perseguem por causa da água de vinho que transportamos conosco? Os carros.
               - Acho que sim. Desde o princípio, e não estávamos aqui, que toda essa parafernália sistemática foi se engendrando por um motivo único e final. Quase tudo foi proibido ou vedado. Tudo foi se ocultando. Não podemos ficar muito tempo nessa cidade totalmente ilimitada. Por isso mesmo. O motivo desde o início era esse. Silêncio, passa novamente um daqueles carros.
               - Aonde?
               - Ali, por aquela abertura no toldo. Está vendo?
               - É, mas já está indo embora.
               - Virá outro. Acho melhor pôr as luvas. Acho que estão com você, no bolso do casaco.
               - Como você se lembra?
               - Não sei, saiu a idéia. E esse garçom que não vem. Há quanto tempo que estamos esperando ser atendidos?
               - Uns quinze minutos.
               - Pois é. Mas estou calmo. E você?
               - Também.
               - Não tenho mais o que dizer. Prefiro ficar calado. Escutar você lentamente.
               - Também não tenho muita coisa mais pra dizer. Já devem ser mais de dez horas. A cidade, no entanto, funciona, máquina trituradora. Seu ruído não diminui, de colméia metálica respirante.
               - Vou balançar meu corpo para ver o que acontece. Sim, neste instante estou me lembrando de uma coisa. Havia coisas completamente diferentes das que agora vemos. Tudo era tão inexprimível e secreto.
               - E não estávamos aqui.
               - Lembro-me que, no alto, você virou a cabeça para mim. Lá embaixo de nossos pés havia uma pequena multidão. Não escutaram. Era muito importante o que você me dizia. Mas ou eu não consegui ouvir ou é porque não posso me lembrar. Eu estava imerso no silêncio de algo que eu lhe pedira. Você se lembra o que você disse para mim?
               - Não, primeiro porque minha lembrança é inteiramente outra. Era que debaixo de uma árvore à beira de um rio... Mas não, agora temos que dizer era uma árvore e um rio mas não era nada disso. Me sinto confuso. Talvez você tenha razão. Tente se lembrar. Use de toda a memória.
               - Espere. Você se lembra do outro. Havia um outro, igual a nós. Imersos na luz.
               - Debaixo do céu, suspensos da terra.
               - Amarrados, encravados. Nossas mãos. Gritavam lá debaixo. Havia uma tempestade.
               - E então, no ápice, você disse aquelas palavras. E logo depois é que você disse água de vinho e eu te perguntei o que era isso, o que estava havendo pois já estávamos aqui.
               - Sim, mas não dá para recordar.
               - Como não dá para recordar? Era a frase mais fundamental, a frase máxima, no meio da curva, do vento mais frio de todo o espaço. A finalidade, a exasperânsia.
               - Olhe, eu não sei mesmo aonde você quer chegar. Pode ser que eu tenha dito uma curta frase longa de significados. Pode ser que eu estivesse lá. Mas não tenho certeza. Quem sabe você não a encontra no interior de um desses milhões de livros escritos neste planeta?
               - Não faça ironias. Você me consolava. Você sabe que eu te amo. Que somos amigos por todo o espaço. Por todas as viagens. As palavras não precisam enfraquecer. Perder a sagrada substância.
               - É, imperecível. Você notou que já não pronunciamos a respiração dos relâmpagos?
               - É mesmo. Tente chamar o garçom, aquele que está passando entre as mesas. Talvez agora ele ou o outro nos possam compreender.
               - Ei, garçom! Quer fazer o favor de vir até aqui. Faz bem meia hora que estamos esperando.
               - Ele acenou para cá. Ele nos compreendeu. Parece dizer que já vem.
               - Não esteja tão seguro assim.
               - De qualquer maneira já estou me sentindo melhor. Sobre o que era mesmo que estávamos falando?
               - Estávamos e estamos conversando sobre tantas coisas confirmadas como inexistentes, seres em desaparição, histórias cujas pistas e fitas ficam cada vez mais corroídas nos instantes mais interessantes, fatos-desacontecimentos.
               - Sei, sei. Sinto-me cansado. Já não me recordo de nada, quase como você.
               - Vamos recomeçar. Viemos de um mundo muito distante. Observo que seus olhos pesam sonolentos.
               - Como se eu estivesse subindo uma montanha refletida por um imenso espelho oval sustentado pelo pensamento trensluzente dos magos.
               - Precisamos ficar atentos rente a uma árvore como essa, ameaçada no interior da cidade sem limites. A cada momento vozes penetram por nós, seres inteiros, utilizam nossos corpos, nos movimentam e nos fazem dizer, sem que quase possamos perceber, palavras que não são nossas.
               - Talvez não pertençam a ninguém. Somos os pássaros dessas palavras.
               - Vamos chegar a um acordo. Como nem eu nem você temos controle algum sobre o que estamos dizendo procuremos não pronunciar qualquer punhado de sons. Que nada a partir de agora seja dito ou significado. Pronto. Concorda?
               - Sim, não diremos mais nada. Resistiremos.
               - Eu, que fiz a proposta, não consigo, não posso ficar mais muito tempo prendendo os maxilares. Perdoe-me. Estou a ouvir todos os sinos do universo. Quanto mais tento manter a boca fechada mais ouço os carrilhões, sua maré metálica infinita ensurdecedora. As palavras querendo ultrapassar-me.
               - Já comigo ocorre o silêncio tão expansivo que sinto-me a mente suspensa, balão de sopros, sobre a grande cidade da Terra.
               - A grande cidade da Terra ocupa todo o planeta?
               - Sim, já não há espaços em branco, os linotipos urbanos preencheram todo o planeta.
               - Luzes e luzes por toda a parte?
               - Sim, infinitamente. Superpondo-se nos andares do tempo.
               - Paremos novamente de falar. Não podemos dizer tais coisas. Estamos proibidos.
               - Por quem?
               - Não sei, não sei. Você me pergunta isso porque?
               - Você acabou de dizer que estamos proibidos de mencionar qualquer coisa sobre a grande cidade Terra.
               - Não, não foi eu quem o disse, que isso fique claro. Foi um dos seres que passam por dentro da gente e já desapareceu de mim. Isto é, eles jamais pulsariam como corpos humanos ou outros que por este planeta ainda existam trafegando, perpassando. Pois se propagam apenas em cada uma de nossas palavras. Não que eles habitem no sentido do que dizemos, do que entoamos mas eles usam as grades sonoras, extraem o suco veloz do dizer, saltam de nossa língua, assobiam em nossos dentes. Usam todas as palavras pronunciadas como ultrapassagem, escadaria, filtro de ser.
               - A escadaria dos relâmpagos!
               - Isso mesmo. Você precisa agora escapar do impacto do que eu vou agora dizer. Prepare-se. Essas palavras se moverão como um estampido, uma coluna de ar, derrubarão você da cadeira. Evite bater com a cabeça no chão. Muito bem. Você se salvou. Uma pluma, alguma coisa intervagou.
               - Um ser escapou, pude vislumbrá-lo, ondas de pétalas de fogo, algo num salto, uma espécie de tigre de algas de triste contorno.
               - Chama-se violência e possui muitas outras formas.
               - Estou ficando cada vez mais com sono.
               - Boa viagem. Continue falando comigo de onde você estiver, de qualquer ponto da espiral.
               - Não poderei. É o único modo de fugir para não mais falar coisa alguma, não respirar nenhum arco interpretatório do universo. Na redoma, com a respiração, ideogramas de nuvem de ouro e láser, rapidamente.
               - Suave lugar escondido do dizer...
               - Como é úmido e bom estar consigo mesmo.
               - Yxa outro vetor da estrela X em brilhos.
               - Por teus olhos sonolentos ouço suas pequenas vozes múltiplas, esses gritinhos-fios, fiapos de luz e cor que se desgravitam todas as vezes de tua voz central, caudatários. Essas vozes minúsculas, vozes-cílios, poeira viva do ser, escrita oblíqua silvando imperceptível.Narre-me a viagem-constelação dessas vozes-vagais-mosaicos, vozes-cédulas. Por onde foram? Por onde estão indo?
               - São vozes-olhos. Vozes que fluem dos olhos, ramos independentes em ondas, livres suaves condutos sonoros de luar delicado. Vozes de luz-memória. Cada ponto do olhar em vôo, cada uma destas vozes minúsculas estrelas de cristal em movimento transmitem, emigram, emitem.
               - Escapa doce matéria volátil desses teus olhos em pássaros. Mas canto agora com a voz-sopro de tua pupila azul...
               - São vozes como essa chuva, de uma vez só. Desabando. Esta. Os jatos fortes na calçada. Vamos para aquela outra mesa. Essa aqui em que nós estamos fica muito perto da entrada. Aqui minhas costas estão se molhando.
               - Vamos pra lá.
               - Talvez agora o garçom nos atenda. Ele está vindo.
               - Por favor, amigo, possível pousar uma cerveja sobre esta mesa vazia. Há séculos que estamos esperando.
               - Milênios! Essa cerveja é a nossa salvação. Vitrine comercial, lágrimas desabando, fumos. Nas buzinas vêm transportadas as mães azuis. Elas desabam horizontalmente do céu. Como poderíamos saber que dali, da pressão dos dedos, elas soariam, as buzinas, as trombetas, todas as mães. Verdadeiras. De todo o espaço. À procura de seus filhos, nos discos iluminados das buzinas vagando nos céus sobre os edifícios do tráfego. Choramos. Sentimos. Não gritamos. Passamos por debaixo das marquises, sob a abóbada dos imensos altos sapatos da Grande Senhora. Escorre a chuva naquelas paredes. Chove muito. Até dentro do nariz. Entupido. Choro total. Todas as estrelas que detectamos no céu. Pulo, elevo-me para dizer isso. Que minha voz soe inteligentemente longe de mim! Porque todos deveriam dizer já!
               - O planeta invadido pelas mães invisíveis, tutelares, as brisas as subterrâneas mães de águas volumosas vibrando nos céus, além do mais distante passo que soe em sua perseguição, borda do horizonte da realidade.
               - Veja, desligaram a televisão. A última imagem que vi foi um cavalo saltando sobre o fogo. Depois a luz explodindo silenciosamente para fora do vídeo. Silêncio-tambor, repercutindo. Nos espelhos todas as faces. Revelação.
               - Que hora mais desnecessária.
               - Atirou. Contra nós.
               - Quem? O garçom
               - Não, um daqueles homens que saiu de um dos tais carros. Ele não nos via. Viu outra coisa, outros seres.
               - Você imagina?
               - Estamos no solo, caídos, o sangue emana, escorre, desce pela inclinação dos mosaicos do assoalho até a rua. Lá fora o sangue escorre para ser iluminado pela lua. Chega o cigano. Seus sapatos pisam em nosso sangue. Há uma confusão lenta no meio da fumaça do bar. Perfurações no toldo de plástico. Embora continuemos conversando. Soam violinos, somos filmados. Os fótons penetram em nosso ser líquido. Dois rios vermelhos afluentes prontos para a união. O homem que atirou em nós põe o pé entre as duas poças de sangue para evitá-las. De qualquer modo. Vêm pás, vassouras, mais sapatos. Água de canos, água embutida derramada. Buzinas maiores. Abóbadas de som. Vamos soprando nas vozes dos que se aproximam, dos que se amontoam. Vêem os corpos, não seguem a melodia do sangue fluindo entre as nervuras da pedra da calçada. Estão acostumados. Só vêem os corpos.
               - Não me assuste. Isso não aconteceu. Não estamos aqui.
               - Quer experimentar?
               - Veja, chegou chope. Você pediu cerveja, não foi? Garçom, nós não pedimos chope. Nós pedimos...
               - Deu a volta. Acho que ele não percebeu o que estávamos falando. Ainda bem.
               - Um grande ufa, do tamanho do planeta. A grande dança das chamas sobre o mar.
               - Fale de lá, dessa lonjura, com os sopros da grande dança, fale cada vez mais sobre o mar atordoante, do mar um pleno sol, o cantor azul do universo, em espumas no esforço das ondas. Na lua reverberam as chamas.
               - Ou chuva girante, chuva em rodas, ao centro a córnea do sol.
               - Agora mesmo pediria a você todo que não me respondesse através de tua boca. Que essa tua voz desaparecesse, por instantes em silêncio. Quero conversar com a ramaria suspensa, com a fronde em chamas de todas as vozes. O vento soprando fértil, do mar, acenderá a voz da distância, as vozes-cintilações, a árvore das cintilâncias, das vozes transmigrantes, seu exame de pássaros sonoros luminosos.
               - O pássaro dos passos, o pássaro dessa nova cor do mar, a nova cor. Sádil? Libásil? O pássaro em permanência que ao voar sobre o mar, trazendo as vozes, o aplaina em espelho vivo de silêncios. O pássaro cujo coração é o olho, teu olho esquerdo piscando mensagens secretas.
               - Você notou que agora eu sou você e você sou eu?
               - Que mudamos completamente de corpos? Não percebi como aconteceu.
               - Foi de repente. Mas isso não importa neste momento. Olhe para ali: Aspérius, está ali sentado. Ainda não nos viu. Não sabe que também chegamos aqui através da água de vinho. Julga-se uma sombra, sentindo-se no interior de um estranho veludo íntimo, pulsante, em rubro. Olhe agora, rápido! Passa a mão pelo rosto como se procurasse...
               - A cidade, a cidade perdida do universo.
               - Mas, em consciência, Aspérius não sabe que transporta consigo, em algum ponto da face, uma cidade. Veja, está cada vez mais aflito. E sussurra para si mesmo o que vamos escutar.
               - "Suaves noites perdidas", foi o que ouvi.
               - Aspérius, deambulante, o cigano-à-procura-da-Lua. Ouvidos de mosca e veludo. Nariz zumbindor.
               - Escute, um outro carro se aproxima. Procuram pela água de vinho. Veja o reflexo na vidraça do outro lado da rua.
               - Precisamos conversar com ele. Aspérius, o de olhos violetas, com aroma de flor giratória, que roubou uma cidade mágica de um mundo, sem o saber. O que tem aroma de flor giratória, inebriante de todas as distâncias. O que nunca vê a Lua. Ele também está aqui. Você não quer chamá-lo para que venha conversar com a gente?
               - Eu? Por que eu?
               - Para ver se ele nos informa sobre o que está realmente acontecendo?
               - O pássaro cujo aroma é o sonho , diz uma das milhões de vozes vagantes sobre o mar.

 

 

 

Carlos Emílio Corrêa Lima é escritor e editor da revista literária Arraia Pajéurbe.

 

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