O (i) maculado
                                   Cordeiro
                                                   dênis melo

 

 

            Antes de começarmos a discutir o tema deste artigo, gostaria de deixar
explícito o lugar de onde falo, uma vez que considero essa questão de vital
importância para o entendimento de minhas reflexões. Sou historiador, com
trabalhos de pesquisa que envolvem principalmente discussões entre a história,
literatura e religiosidade popular. O grande desafio proposto, seguindo as consi-
derações do historiador Nicolau Sevcenko, livre docente da USP, em seu livro
Literatura como missão, é entender “como determinadas mudanças se transformam
em literatura”. Nesse sentido, gostaria de acenar para algumas considerações em
torno de um escritor e jornalista sobralense – Cordeiro de Andrade –, autor de
Cassacos
, Brejo, Anjo Negro, Tônio Borja (considerada sua obra prima), entre outros.

            Cordeiro de Andrade nasceu numa Sobral de 7 mil habitantes, no ano de 1908. Começo do século XX. Sobral passava por mudanças significativas e de certo modo vivia o esplendor de uma cidade que ensaiava os arroubos da Belle Époque, com uma elite refinada, cultivadora de um bem visível projeto de civilização, que ficava claro nos casarões erguidos e nos objetos utilizados em seu dia a dia, tais como pianos, por exemplo. Cordeiro de Andrade começou a trabalhar muito cedo na tipografia de um dos mais combativos jornalistas da cidade – Deolindo Barreto e sua A Lucta. É no mundo do jornal e do combate das letras que C. A. iniciará sua trajetória, que culminará com a fundação de um jornal na década de 30, em cujo título, O Debate,  já se anunciava a dimensão de seus propósitos e a carnadura de sua pena.

            O foco de nossa análise, no entanto, será mais especificamente a obra Cassacos, publicada em 1934 no Rio de Janeiro, quando do exílio do escritor depois de muitos conflitos em torno de suas declarações em O Debate. Ao tratar da obra, a intenção é inseri-la “no movimento da sociedade, investigando suas redes de interlocução social, destrinchando não a sua suposta autonomia em relação à sociedade, mas sim a forma como constrói ou representa a sua relação com a realidade social” (CHALHOUB.1998,p.32).

            Em Cassacos temos um texto cuja dinâmica reside na dimensão histórica da mesma, já que o próprio C. A. enfatiza essa dimensão na apresentação da obra, ao citar que “na seca de 19, eu andava pelos meus dez anos de idade. Ouvi muitas coisas aos retirantes, observei outras que àquela época eu não entendia direito. (...) Olhamos, então, as figuras que se movem longe numa tela pobre e poída, e que despertam em nós uma ternura exagerada, quase religiosa. (...) Quase quinze anos. Aí, fui recordando e fui escrevendo. (...) Coordenando tudo, depois tentei um romance. Assim nasceu esse livro.” Pelo que é dito compreende-se que C. A. pretendeu historicizar a sua trama a partir da grande seca. A pergunta que o historiador faz é: qual a seca que o escritor pretendeu mostrar, a seca de 19 “como realmente aconteceu”, ou o que ele lembrava sobre o que aconteceu em 1919? O que há, por exemplo, por trás da “tradição” que ele expõe em seu livro sobre a procissão do Menino Deus, e que diz que se durante a procissão a coroa que o Menino Deus usa cair, será um prenúncio de uma grande seca no ano seguinte? Em sua narrativa, a coroa cai exatamente no final do ano de 1918, mais especificamente no Natal, período das novenas. O resultado do “presságio” é que o ano seguinte foi marcado por uma grande seca...

            Cassacos é uma obra que, muito mais do que a Luzia-Homem, de Domingos Olímpio, consegue dar visibilidade a uma cidade em suas múltiplas e perigosas tensões. Além do mais, os personagens construídos por C. A. apresentam uma dimensão menos imagética e mais “real”, por mais que a palavra real guarde em sua denominação um escorregadio entendimento, o autor de Cassacos consegue nos tocar com uma certa fúria inocente e uma eloqüência jornalística que depõe de certo modo contra a forma da obra. Mesmo assim, a obra resiste ao tempo e abre diante de nós um importante canal de interlocução social com a cidade de Sobral do começo do “breve século XX”.

            Há quem afirme que o principal personagem de Cassacos é a seca. Sob esse aspecto a obra se insere dentro de um contexto de invenção do Nordeste, tendo no “flagelo da seca” o seu mote e a sua justificativa. Sabemos muito bem que o Nordeste é uma invenção de uma elite local (do Norte) que começa a construir uma identidade na diferença, ou seja, começa a pensar que essa região é absolutamente diferente de todas as outras, devido a seca. O resultado disso é a fabulação de uma sociedade em que a miséria de certa forma rima com a bravura e com a resistência, ao mesmo tempo em que a “dignidade de toda uma região” começa a ser maculada pela ausência de políticas públicas capazes de solucionar os problemas. Até hoje, diga-se de passagem, uma outra elite continua a bradar pelos quatro cantos que o Nordeste é uma região esquecida e penalizada pelos inúmeros governos ao longo de sua “penosa” história...

            Por essa razão um dos cenários do livro é exatamente o canteiro de obras do açude de Forquilha. Aqui, encontramos “nas fronteiras das palavras as fronteiras da história”, de modo que temos uma narrativa sólida, envolvente, posto que jornalística em sua essência. Hoje nós sabemos que o jornalista “é o historiador do instante”, o que implica dizer que o ofício já vem de longe, e que fazer a história é também lavrar a vida com palavras e iras... Mas... podemos perguntar com Roland, “o que representam [os] livros em face de uma existência histórica que lhes dá suporte, perante o corpo social com o qual pretendem dialogar?” Até que ponto C. A. subverte o real para torná-lo verossímil? E mais: o que há de real por trás do livro, quando sabemos que a “realidade” é sempre o discurso hegemônico?

            O historiador busca nas margens do texto literário, o itinerário de uma escritura que garanta um suporte para a história que os homens contam e vivem, entendendo a linguagem como o epicentro dos eventos. É aqui que os sentidos gerados se manifestam e, num exercício constante de reinvenção, possibilitam a sua própria ressignificação na complexidade das relações sociais discursivas. Por isso, no dizer de Sevcenko, “as potencialidades do homem só fluem sobre a realidade através das fissuras abertas pelas palavras”. C. A. com o seu livro abre algumas perspectivas para o entendimento de uma cidade, entendimento esse que vai além da historiografia oficial e de caráter meramente laudatório, ao mesmo tempo em que relativiza a obra Luzia-Homem, já que em Cassacos temos uma cidade muito mais plural do que pretendeu o egrégio Dr. Domingos Olímpio...

 

 

 

Dênis Melo, nasceu em 1968, em Sobral-CE. Professor do curso de História na Universidade Estadual Vale do Acaraú. Publicou Memória de Pássaros (poemas adolescentes, 1990).

 

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