A “pedra mágica” do poeta Francis Ponge
                                        ou reflexões em tempos disformes

                solange rebuzzi


 

 

Desde o título, enigmático na simplicidade, o ensaio-poema Le Savon / O Sabão guarda um lugar de perda. Nomeado por Ponge “pedra mágica”, Le Savon reserva uma existência a ser perseguida em leituras cuidadosas. Na apresentação do livro, o poeta comparece, e dirige-se ao leitor, pedindo para ser escutado com “orelhas alemãs”. A época era a década de 40, durante a Segunda Grande Guerra. Portanto, o poeta insiste em ruídos radiofônicos que marcam um tempo de horror e pesadelo transmitidos pelos rádios: 

 “Le lecteur, d’emblée, soit prié (il comprendra très vite pourquoi)
- nous voulons dire: pour le décollage – de se doter, par
l’imagination, d’oreilles allemandes.” 

“O leitor, de imediato, seja rogado (ele compreenderá muito rápido porque)
- nós queremos dizer: para a decolagem – de dotar-se, pela
imaginação, de orelhas alemãs.
 
 

Orelhas alemãs? Que sentidos elas abririam ao estranho que se instala em um texto escrito em francês?  

Quando começou a escrever Le Savon, Ponge em carta a Jean Paulhan - amigo e editor - partilhou sua angústia e dificuldade em terminá-lo. Chegou a pensar em abandoná-lo, mais de uma vez, e persistiu escrevendo e revendo o texto durante vinte e cinco anos (de 1942 a 1967, data de sua publicação). É fato, que alguns poetas insistem em alguns escritos sem saber bem o porquê. O que é da ordem da pulsão faz seu espaço no “que não cessa de não se inscrever”. Ou seja, no que pode ser nomeado como algo da ordem do impossível, que insiste.   

Jacques Derrida disse que Ponge assumia, neste escrito, uma perda não declarada até então. Pois, o que ele falava havia sido “esquecido” por muitos de seus contemporâneos. Hoje podemos remexer nestas letras, e pensá-las como um desejo de testemunho. E, ainda podemos perceber que o poeta  escreveu um texto para além do poético. Algo que, em meio ao impossível de se dizer, fizesse ruídos em orelhas torturantes.

            

Ouvimos os sons dos aviões de bombardeio nos primeiros instantes do poema (Boum!).

A palavra em ato na intenção de produzir uma luz, que possa fazer buraco – na memória. Assim estamos na trilha do real, e do faltoso; o que não pode ser dito todo.

Do poeta Francis Ponge a palavra é constante gestação. Neste texto, ele faz a relação entre la boue et l’homme (a poeira e o homem). A autodescrição do autor na obra é, então, um efeito autobiográfico. Alguns traços do biográfico circulam, como traços; à maneira de Roger Laporte (escritor que construiu toda uma obra e uma teoria sobre o autobiográfico).

Podemos também aproximar seus textos dos Essais de Montaigne e, em alguns momentos, dos diários de alguns escritores, pois o poeta insere-se no trabalho dando um testemunho. Ele escreve colocando-se na experiência da escrita.

Francis Ponge em Le Savon assim nos fala. Embarquemos no tom de discurso, e ouçamos como ele nos abre este texto: 

“Mesdames et Messieurs” 

Le savon a beaucoup à dire. Qu’íl le dise avec volubilité,
enthousiasme. Quand il a fini de le dire, il n’existe plus.” 

“Senhoras e Senhores” 

O sabão tem muito a dizer. Que o diga com abundância,
entusiasmo. Quando terminou de dizê-lo, não mais existe.”
 
 

Quem não mais existe após dizer o que tem a dizer? Reconhecemos um certo apagamento do autor. Em plena guerra, o poeta realiza algo de uma falta. Roanne é o lugar no qual ele e sua família se encontravam refugiados, no mês de abril de 1942. Uma cidade pequena francesa.  

“Nous étions donc, alors, en pleine guerre, c’est-à-dire en pleine restrictions, de tous genres, et le savon, le vrai savon, en particulier, nous manquait”. 

“Estávamos pois, então, em plena guerra, quer dizer em plenas restrições, de todos os gêneros, e o sabão, o verdadeiro sabão, em particular, nos faltava”.  
 

Há muito a dizer, com certeza, sobre o que falta ou faltou durante uma guerra. Francis Ponge escolhe falar sobre o objeto Sabão. Um objeto que desaparece. “Uma espécie de pedra”. Ao menos, uma pedra de memória. Embora escorregue e desapareça, o sabão tem seu lugar; marcado de falta. Assim o poeta o descreve como fazendo parte de um exercício com as mãos: 

                      “PRÉLUDE AU SAVON”. 

    Pour la toilette intellectuelle, un petit morceau
 
de savon. Bien manié suffit. Où des torrents d’eau
 simple ne décrasseraient rien. Ni le silence. Ni ton
 suicide en la plus noire source, ô lecteur absolu.”

 

                      “PRELÚDIO AO SABÃO”. 

     Para o toalete intelectual, um pequeno pedaço
  de sabão. Bem manipulado satisfaz. Onde torrentes de água
  simples não lavariam nada. Nem o silêncio. Nem teu
  suicídio na mais negra fonte, ó leitor absoluto.”

 

Do PRELÚDIO AO SABÃO extraímos a presença do silêncio e o desejo de escrita. Quem sabe em luta, em p r e l ú d i o (nos primeiros passos).

A guerra apresenta ao homem sua face hostil. A guerra, a corrosão que rói o mundo! Ponge contava com alguns leitores, neste momento: os amigos Albert Camus e Jean Paulhan. Trechos de cartas estão inseridos no texto. Em uma das cartas recebidas, Camus comenta que, talvez Le Savon traga um excesso de elipses. E sugere que Ponge possa suprimir “les charnières”.

Sobre les charnières, o dicionário Le Robert Micro, nos diz: “2.Abstrait: point de jonction”. O sentido de ponto de junção permanece no texto, e o comentário de Camus fica mais interessante, se o pensarmos como sendo dirigido às dobradiças do texto. As dobradiças, que se apresentam em movimento, e que podem abrir sentidos novos: encobrem velando, despertam desvendando, no vai e vem do pensamento do leitor. Um pouco antes, e no mesmo poema (em junho de 1943), o poeta dizia que o homem não se limpa na água pura, nem no silêncio ou na prece.   

Se permanecermos apenas com o que foi dito até agora, já temos inúmeras razões para lermos Le Savon do poeta Francis Ponge. Deixo-os no exercício intelectual desta leitura, e desejo que seja possível a reflexão, muitas vezes.

 

 

 

 

Solange Rebuzzi nasceu em 1951 na cidade do Rio de Janeiro, onde vive. Trabalha com Literatura e Psicanálise. Publicou os seguintes livros de poesia: Contornos (Massao Ohno, 1991), Canto de Sombras (7Letras, 1997), Pó de borboleta (7Letras, 2002), Vestes e vestígios (edições Sol, 2002), Leblon, voz e chão (7Letras 2004), além do ensaio Leminski, guerreiro da linguagem (7Letras, 2003).

 

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