O Homem
       e o Viaduto
                          
rogério miranda

 

 

   Um ser humano atravessa a minha mente e as passarelas do Viaduto Santa Tereza – locais que lhe reservei. Afinal, recriado por mim, ele é uma espécie de ator, num filme projetado por minha mente, na tela que se transforma em viaduto.

   Tem o tal indivíduo nenhuma origem e muitas marcas. É um mendigo apenas, embora o veja como se fosse um gênio marginal e teimoso, que não se chama Carlitos. È o espírito de um vate inteligente e generoso, vagueando na solidão, e não se chama Carlos. Embora misericordioso, de Cristo jamais se poderia chamá-lo. Não sei o seu nome. Só sei que atravessa a velha ponte.

   De noitinha, ele aparece onde a Rua da Bahia deságua no viaduto. E o que parece ser apenas um detalhe não é: ele compra um cigarro picado na esquina, garimpando moedinhas em sua calça surrada. E rompe a passarela, a passarela dos sonhos. Só quando é madrugada, seu vulto retorna à cidade. Não se sabe aonde vai, nem de onde volta. Vem assim, devagar e teatral, sob as luzes desse meu templo.

   Supõe-se que ele more à beira do Ribeirão do Arrudas, ou dentro de suas galerias. Que mergulhe nas águas espessas e ali se ensaboe, de quando em vez. Que à noite pegue da viola e cante cantigas para a lua. Que faça fogueiras, fumaça, para enfeitar o seu rio.

   Há dias em que faz diferente: anda pra lá e pra cá sobre a ponte, até que a noite em prantos se mate. Depois, é claro, de ter comprado o mesmo cigarro, na mesma hora, do mesmo camelô. Não fala nem ouve; observa, religiosamente, as luminárias que ali se instalam. Não recebe encomendas nem as faz. Refaz, ao fim da noite, o mesmo percurso solitário ao longo do viaduto, numa cena insólita para os outros mortais. Santa Teresa: monumento de poesia esquisita.

   É notória sua mania de ter ilusões as mais fidalgas. Passa noites a gesticular, a ter com gente da mais diversa espécie. Quem será que o visita nessas noites de frio? O mendigo que mora embaixo? Madre Teresa de Calcutá? Tudo ilusão? Assiste também a grandes espetáculos de orquestra, de samba ou de bailarinas – que, reluzentes, dominam e desanuviam seus olhos. Tudo ali, no chão do viaduto, que é todo seu.

   Nosso herói atravessa o viaduto, como se atravessasse um século. E nem percebe que as pessoas reclamam do lixo, dos buracos ou das propagandas políticas. Seu tempo parece ser outro: o de contemplar algo além da realidade. Perambula. Pisa lentamente em seu sonho, em sua sina e em seu lar – o viaduto.

 

 

 

             

Rogério Miranda (Belo Horizonte/MG). Bancário, jornalista e escritor. Tem textos em jornais, revistas e sites de literatura. Autor de Belo (Maza Edições, 2004), livro de crônicas, onde se encontra “O Homem e o Viaduto”.

 

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