1 crônica e 1 conto
                                                                 ou vice-e-versa

                                           pedro salgueiro

 

 

               te odeio, fortaleza


         E teus vis clubinhos, teus louros de mais, e teu ouro de menos. Teus poetas de mais, e tua poesia de menos. Odeio essa arrogância em inglês — e suas colunas sociais. Os novos ricos, comprando e mal pagos. E toda essa crônica mundana de exaltação a
o Bode Yoyô; e teus palhaços de mais, e teu riso de menos; e teus turistas de mais, e teu conforto de menos.

Odeio essa pose de menina deslumbrada; e teus miss concursinhos de poesia; e teus acadêmicos de mais; e tuas verdades de menos; e essa tua cara de sonsa, e toda a ala feminina da casa de Juvenal Galeno, e as dondocas amicíssimas do livro, e as deslavadas do Ideal.

A te escapar apenas os descuidistas-artistas da 24 de Maio, e os crentes-exigentes da Praça José de Alencar, e os antigos jogadores de Damas da Praça dos Leões (que teimam em mijar nas portas da velha Academia), e os tarados velhinhos de brilhantina e pentinho no bolso da Praça do Ferreira, e as guerras de pedras entre a Leões da TUF e a CEARAMOR nos arredores do famigerado PV, e os ladrões da Praça da Lagoinha, e os camelôs do Beco da Poeira, e as meninas do Passeio, e teus piqueniques na Lagoa do Opaia.

Te odeio, Fortaleza, com a força de teus ventos, e a gasta e surrada imagem de teus jangadeiros, de teus Dragões-do-Mar, de teus coqueiros-anões, e de tuas eternas lembranças das confederações, de teus shopping-centers a céu aberto, de teus esgotos ao vento...

Te odeio com as lembranças de teus casarios derrubados, e de teus coretos de praça, e dos últimos bondes da Praça do Ferreira, e das esvoaçantes sainhas das estudantes da Escola Normal.

 Te odeio, Fortaleza, como aquele marido traído, que te bate e xinga, mas não te deixa.

 

 

 

 

                     madrugada


         Pelo mês de setembro o tempo começa a esquentar. Sinto uma saudade dos ventos de julho, trazendo a frieza do mar distante. Nesses dias escuto, com o ouvido colado à parede, o barulho do trem chegando ao povoado: o chão vibra sob meus pés... Seguro o punho da rede, antecipo um leve tremor. Apresso-me na direção da janela que dá para a linha de ferro e fico esperando que ele cruze nossas ruas.

         Em casa todos dormem, e só deixo de ouvir a respiração difícil de meu pai no instante em que a máquina chacoalha os trilhos, bem pertinho. Na estação ninguém aguarda parentes ou amigos. O trem rasga sozinho o descampado e se aproxima lento... Sem fazer alarde, pulo a janela e subo no benjamim do terreiro, para espiar melhor se alguém desembarca no meio da escuridão. Inutilmente apuro a vista, como sempre faço desde que me entendo por gente. Ao contrário do que era de se esperar, a minha angústia (minha esperança, para melhor dizer) aumenta a cada dia.

         No início eu não compreendia bem o que me atraía à janela; sei que fui me acostumando a diferenciar o barulho do trem dos outros ruídos da noite... e quando ele ainda vinha longe, muito além das montanhas, eu já ficava atento... preparado para correr rumo ao jardim, tomando os devidos cuidados de não acordar os de casa. Fui crescendo e passei a sentir no meu corpo os sinais dessa aproximação, e se colava o ouvido à parede era apenas para entender melhor aquele tremor que somente eu percebia.

         Durante os meses de vento, todos dormiam mais cedo, facilitando a minha espera madrugada adentro; mas, nesse calorão dos últimos dias, as pessoas se demoram nas calçadas, aguardando alguma brisa. Espero ansioso que se recolham e só me acalmo quando escuto o primeiro cantar de galo. Daí a pouco começo a sentir o leve tremor de sempre, então arregalo os olhos e aproveito cada minuto até a chegada da locomotiva.

         De cima da árvore observo a estação deserta, nem parece que há décadas está abandonada... desde a passagem do último trem, quando todos vestiam as melhores roupas, calçavam suas mais finas sandálias e iam esperar parentes e conhecidos, ou simplesmente matar a curiosidade enfiando as cabeças nas janelas entreabertas. Hoje, não... tudo destroçado, a estação vazia, o capim cobrindo a plataforma... sequer os trilhos permanecem no lugar, os dormentes esquecidos no meio do mato.

         Logo avistarei a máquina fazendo a curva da Rua de Baixo, diminuindo devagarinho a marcha ao se aproximar da estação. Apurarei a vista mesmo sem distinguir quase nada naquele escuro. Dentro de casa o mais absoluto silêncio... e, em todo o povoado, apenas eu acompanho a velha máquina a deslizar madrugada afora, afastando-se antes que os galos anunciem um novo dia.

 

 

 

             

Pedro Salgueiro nasceu em 1964, em Tamboril-CE. Publicou O Peso do Morto (contos, 1995; 2ª ed, 1997), O espantalho (contos, 1996) e Brincar com Armas (contos, 2000). Participa das antologias Talento cearense em contos (1996), Geração 90: Manuscritos de computador (2001), Antologia de contos cearenses (2004), Os cem menores contos brasileiros do século (2004) e Contos Cruéis (2005). Dos prêmios que recebeu destacam-se o II Prêmio Ceará de Literatura (1994), o da Fundação Cultural de Fortaleza (1994, 1995 e 1998), a Bolsa para autores brasileiros com obras em fase de conclusão, da Fundação Biblioteca Nacional (1997), e o do Concurso de Contos Guimarães Rosa, patrocinado pela Radio France Internationale (1999).

 

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