Meu tio
o mameluco-malaco
                                   
nelson de oliveira

 

 

para LRG, mamaluco voador

 

Nhem? Apê! Espia cá fora. Lua tá redonda-redonda… Alá ele chegando, alá. O colégio, ele quer mais notícia. Chega de longe, chega do asfalto, sapato limpo, na estica. Sobe a colina, quer ver os rios lá embaixo, feixe de peixe. Quer beijar a mão do Padranchieta. Salve-salve o soldado do papa, Padranchieta de Piratininga, mano meu. Sovou o barro, o estrume, a palha, o sangue de boi, sovou o colégio e a igreja. Hã? Taipa de padre. Nem de pedra nem de Pedro, de Paulo. Vai-vai, some-some moleque, casca fora capeta. Alá ele pedindo informação, logo-logo chegaqui. Hum? Nhor sim. Quer entrar, pode entrar. Meu barraco é barra limpa, é meu seu nosso vosso. Hum-hum, Mameluco Beleza, eu mesmo, quiéqui mecê manda? Manipu vê tudo no fundo da fogueira. Tevê de pobre é a fogueira, pajé adora. Hã? Né da Minerva não, é da dona Eva… Don’Eva do lixão. É, essa erva é da boa, quer cachimbar? E cachaça-onça, mecê bebe também? Camarada sentaí e eu te conto o que aconteceu. O acontecido-cedo no tecido do tempo. Te conto, te mostro no fogo. Mecê veio ver o quê? Tudo-tudo o quê? O pelourinho? A forca mecê já viu? Tá la fora esperando pescoço. Ui, é. Escola das boas, o tronco e a forca. Ixe, mecê tá equivocado. Babel Babilônia foi fundada por jesuíndios. Foi fundada entre ontem e hoje, hontem. Fortificação da cruz tupi: cruzes e credos. Começou como casescola de pau e barro: catorze passos de largura, dez de comprimento. Nhor? Nhor sim, mano meu Tibiriçá ajudou a amassar o mato. A missa veio depois, a missa e a missão, a igreja e o colégio: São Paulo, onde o pau mental comia dia sim dia não. Tô falando bobagem? Axe, mecê não sabe de nada. Nhem? Borba Gato? Borra-botas do diabo, não se encontrou com o Gato de Botas, não. Que disparate! Hum-hum, Manipu Tupinambá não mente não-nunca-jamais, apê! Mecê tá chapado, meu chapa. Tava na taba, no forró-funk, né? Erva de lá não é da Don’Eva não, é do Belzebu, do Brasa-Viva, do Ó do Borogodó. Ih, hem! É menina-veneno tipo bororé, de ponta de flecha, deixa o bocó meio borocoxô. Manipu é mameluco-maluco mas não quebra a cara nas quebradas não. Ui ai, baile punk, balé funk… Forrobodó é nisso que dá. Se mecê marcar bobeira aqui-ali-acolá no Capão, na capital inteira, hum-hum, o capim mecê come pela raiz. Tipo-vacilão? Tipo assim-assim feito freira o bicho pega, tá ligado? Chegaqui cachimba mais, pode cachimbar, essa é da boa. Mas mecê quer saber mais do comprade meu Padranchieta, né? Quer beijar a mão do mano meu, né? Quer conhecer a vila, mexer no barro e na palha, né? Mecê é dotô-professor, né? Ia-nhã? Bom. Gosta de estudar o ontem-hoje, o hontem? Ui, se assuste não: bangue-bangue esse aí é toda noite. Oxente, faroeste de norte a sul. Acerto de conta é toma-lá-da-cá, não pagou o pau comeu: pó-pó-pó, pampampam e tomara-que-caia. Ó o auê aí, ó. Nhem? Ojeriza de jesuíndio, o dotô tem? Assaltestupro? Axe! E de negramarelo, de prêt-à-porteiro, de pé-rapado de Pretória? Mecê tem ojeriza? Pudera, pele boa a sua, brim-branquinha assim feito pó fininho. Cara-pálida dá muita bandeira aqui em cima. Hã-hã. Planalto de Piratininga aqui é matar ou morrer, eta morrão pele-vermelha. Cristo Redentor branco? Estátua da Liberdade branca? Nos barrancos daqui não tem não. Pra todo lado só mulato que late e morde. Mas não se borre não, oi, sangue bom. Barraco de Manipu é do balacobaco, dotô. Se é. Balaço perdido não balança-osso aqui não, o fogo não deixa. Sente a fogueira? A tigrada tem medo, tem respeito. Ninguém bole com Manipu não. Manipu-Xamã, me chamam assim. Manipu-Chama, mamaluco. Malaco louco, eu. Xi, às vezes dá chabu. Até meu padrim-poeta Padranchieta não gosta muito do rosto do fogo. Careta do capeta, ele diz. Ô Deus! Diz que faz mal à alma olhar o futuro, o passado. Hã? Do futuro não gosto, gosto só do passado. Gosto de ver gente assim-assado, de frente. No futuro vejo tudo de costas. Bela bosta, o futuro parece que foge. O passado não, tá sempre presente o assanhado. Nhem? Outra cachimbada? Manda brasa, maria-fumaça da boa, né? Padranchieta amassou a palha e empalhou o barro pra amansar a indiarada. E mecê acha que hoje tá todo mundo manso-manso? Tá nada! Borba Gato não deixa. Axe, Borba Gato Barbazul quer índio flechando índio. Quer índio de quatro, esfolado. Vendendo crack no asfalto. Borba Gato faz gato-sapato de bugre. Até crucifica, se dá na telha. Esse tipo de cruz compadre meu Padranchieta não aprecia não. Hum-hum. Cruz apressada, sem prece. Borba Gato e mano meu Padranchieta, os dois batem boca direto. Cá entre nós… É, à boca pequena: o Borba é só bom de bico. Nhem? Faz chaça mas não dá coice. Boca-de-fumo mesmo cadê? Ainda não tomou nenhuma. Hã? Chacina? Quioquê!? Chacrinha! Só ameaça-choca, salto em falso. Veio cheio de cinema e nada, deu em chacota. Viciado em ópio, ele? Não, pior. Em ódio. Manipu Tupinambá sacou logo, hum, a bandeira dele. Com tupi-tampinha e crioulo-doido o bacana encana. Mete bronca. No branco não. Se o papa fosse preto? Se o Pelé fosse o papa? Vixe, desfalque no Santos: tava ferrada sua santidade. Mas o dotô-professor não crê nisso, né? Hã-hã. Crê descrendo, sei sei. Tudo culpa do ouro. Do ouro pra Europa. Ouropa, um roubo. Mameluco Beleza sabe-sempre-soube: o ouro rouba o siso da gente. Ah-hi. Mas não. O Gatuno de Barba, barbaridade, não surrupia sozinho. Tem esse Raposa também, esse aí, vê na fogueira? O do olho de ouro. Gato-raposa. Hontem atacaram, se atracaram com o mestre-de-obras, mano Manoel. Manoel da Nóbrega. No Tamanduateí. Danou-se, deu nó. Ié, hum-hum. Meu padrim Padranchieta ouviu o chá-chá-chá d’água gelada, o sururu. Mas, ô céus, errou de rio. Mergulhou no Anhangabaú. Pulou pelado. As cunhatãs lá lavando as partes ui ui. Mó mico. Nem arca nem baú: fuzarca no Anhangabaú. Rio bom de peixe, esse. Oi? Boa boa: de peixe e prexeca. O dotô pesca, aprecia? Rê rê, peixe, ô! Isca? Neca? Tá vidrado na fogueira, hein? Tá de olho na cidadela, labaredazeda. Mire veja, mire no fundo do fogo. Sampa é isso, mecê sabe: tudo certo-incerto, samba e banzo. Tudo é e não é. Tudo-mestiço, tudo gato-pardo no lusco-fusco. Alá a briga de galo: polícia-ladrão. Alá o tiroteio, bala-varejeira no vaivém. Ó só o pipoco. Alá a pá de panaca empapado de sangue. Pó pó pó de pirlimpimpim, desfile de rifle, fuzuê de fuzil. Tiro zumbindo, Zumbi. Sampa-Canudos-Palmares alá é aqui. Apê! Mameluco Beleza nessa hora ajoelha e reza. Mecê não sabe rezar? Avemaria-painosso, ia-nhã? Oxente, então reza. Reza pra El-Rei dom Lusitano lançar luz na nossa Vera Cruz. Os orixás, ai ai oxalá se juntem pra ajudar. Mas mecê tá muito branco. Nhem? Tá passando mal? Outra cachimbada? Cachacinha-onça, boa de bochechar né? Ei ei, não se assuste não. Axi, Manipu é de paz, não quer roubar não. Nem ouro nem couro não quero não. Quiéqui mecê tá fazendo, hã? Vira esse cano pra lá! Mecê não brinca não, epa. O bangue-bangue não sai da fogueira não, é só passado. Cristo-jesus, quase me furou! Nonada. Tiros que mecê ouviu foram de briga não, Deus esteja. Precisa do tresoitão não. Aé, guarda a arma, guarda. O dotô-professor tá doente, tá variando. Hã-hã. A fogueira afaga assim sim. Se mexe não, fica quieto. Isso, fecha o olho. Já-já o fogo-fátuo mastiga-engole mecê.

 

 

 

             

Nelson de Oliveira nasceu em 1966, em Guaíra (SP). Diretor de arte, publicou Fábulas (contos, 1995), Os saltitantes seres da lua (contos, 1997), Quem é quem nesse vaivém? (novela infantil, 1998), Naquela época tínhamos um gato (contos, 1998), Treze (contos, 1999), Subsolo infinito (romance, 2000), Às moscas, armas! (contos, 2000), O leão que achava que era domador (conto infantil, 2001), O sumiço das palavras (novela infantil, 2001) e O filho do Crucificado (contos, 2001). Participou da antologia Dois zero zero zero, da Komedi (2000). Dos prêmios que recebeu destacam-se o Casa de las Americas (1995) e o da Fundação Cultural da Bahia (1996).

 

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