Primeira Epístola
                                                             aos Sobreviventes
                                                             márcia denser

 

 

novembro/1995

 

"Caio meu querido,

 

supondo que eu quisesse te escrever, como de há muito, supondo que finalmente eu escrevesse e remetesse enfim a mensagem ao destinatário, ainda assim seria sempre uma carta boomerang, zummmmm, retornando ao remetente, ao reflexo no espelho, à pergunta que se repete num eco sem respostas, no silêncio de palavras não ditas, de gestos desfeitos.

de qualquer forma, esta não seria realmente a maneira mais gentil de se começar uma carta, mensagem que (supostamente) inclui (deveria incluir) o destinatário, o outro no extremo da corda sobre a qual oscilamos

         você e eu  –  juntos e  irremediavelmente separados em meio a tudo isso em que

estivemos metidos até o pescoço, isto que chamamos vida, ergo literatura e, já que estamos no assunto, o que nos resta dizer um ao outro? nós, que nos traímos e nos perdoamos, irmãos unidos pelos tênues indissolúveis laços daquilo que só posso chamar   literatura (ah, a literatura, assim que escrevo sinto esta espécie de desgosto  que é quase um remorso, ah, a literatura, esse luxo desnecessário, essa palavra tão, este palavrão ) e naturalmente supondo que alguém ainda leia com aquele fervor orvalhado dos 20,30 anos, como líamos  Cortázar, Borges, Mário e Oswald, Faulkner, Elliot, Dottie Parker, Clarice, Rosa, Drummond ou Ana Cristina César (o fato é que nem sempre coincidíamos) sem contar que estou tão distante disso a que chamam literatura –  digo, atualmente – a corda estirada da qual saltamos em 89 – tu e eu – sem rede embaixo.

                                                           porque não fomos os únicos neste braço-de-ferro, neste mano-a-mano com a vida, este ato kamikaze e sem volta, não fomos os únicos a nos arrebentar, mas não quero ser extensiva (basta a corda) bastam dois (nós dois) e o nome será legião.

                                                           sem contar que ninguém desce vivo duma cruz.

                                                           e de quantas maneiras se pode morrer, sem contar o Mercosul? digo, futuramente.

                                                          

 

supondo que haja futuro.

                                                           por exemplo, para o Paulo Coelho há, para a Roseane Collor nem pensar, para os Anjos Angelicais et alli nem falar, and last but no least o pastor Von Helder (aquele que chutou a Santa), O.J.Simpson e a Internet, é claro. Que porra, já nem consigo ser engraçada.

porque não quero falar da inversão de valores. supondo que hajam valores.

logo,  a medida do homem onde?

pensando então em Hermes três vezes Trimegisto,

me diga se esta ponte  de planetas em Capricórnio (supondo o Brasil  Virgem ascendente Aquário, ergo Capricórnio em 12) com Netuno nem fodendo nem saindo de cima, embaçando todas as mutretas, do mais alto ao mais baixo, a lei de Gerson em todas, como princípio e fim ético, além de Saturno entronizado caralhadas de tempo para referendar todos os trambiques na mais perfeita legalidade, de quebra Urano provocando o quebra-quebra geral da classe média, dos "mais sensíveis e lúcidos" (cruzes!), daqueles que prometiam tanto, quebrando aqueles (nós) que acreditaram que o futuro fosse possível, que o milagre brasileiro então se consumasse  (e sem aspas), ainda que por pouco tempo (devíamos estar malucos) nós, que ríamos tanto do alto deste futuro inexpugnável de 20,30 anos.

                                                           contudo se o Brasil não tem História, só Geografia, ONDE entra Alagoas nisso?

                                                            supondo que se encontre Alagoas no mapa da Suiça, é claro. Ao sul do Mercosul.

                                                            naturalmente é melhor enfiar o bom senso no cu, a viola no saco e a cara na revista Caras que é a cara do Brasil/2000. Na capa, Denilma Bulhões & Toalhas Molhadas: A Mãe Pátria.

                                                             enquanto isso, na novela das oito um gerente negro de banco, tão bonzinho e sensível e galã, embrulha pra presente as mesmas tramas e intrigas de quarenta anos luz atrás e ninguém nota, por que, Caio, por que? esse horror à realidade? aliás, onde a realidade?

 

 

                                                              Ok. Me manda pro inferno, cara, diz que estou amarga, estale os dedos e eu sumo, porque, ah, a lucidez - outro luxo - ah, a consciência, e, ah, sim, a leitura destas tuas Ovelhas Desgarradas 1 são vinte anos de lobo e de cão, de amor, de poder, de glória, de dor, em todo caso de pé na estrada por quem sabe onde pisa. Porque ISTO é a realidade, isto é o que importa (me importa). Tua obra, tua essência, tua permanência - isto que pulsará  em qualquer tempo futuro,  reproduzirá eternamente o nosso tempo, este mar aberto ao infinito2 .

                                                                e agora, meu chapa? E meio às hecatombes editoriais vigentes, a medida do escritor onde? ergo, quem vai te decifrar? digo, futuramente? supondo que restem uns longes de lucidez nesses tempos sombrios, clarões no coração da treva3, e por derradeiro,  que a puta vestida de verde ainda durma na cama ao lado ( outra sórdida metáfora que invento pra botar no lugar da esperança).

                                                                 mas no fundo, no fundo, acho que estou te dizendo isso tudo porque estou condenada a viver.

 

                                                                                                          inesquecivelmente"

 


 

1 ABREU, Caio Fernando. Ovelhas Desgarradas.contos. Companhia das Letras, São Paulo, 1995.

2 ABREU, Caio Fernando. Do conto Mar Aberto in Os Dragões Não Conhecem O Paraíso, Companhia das Letras, São Paulo, 1987.

3 CONRAD, Joseph. Coração da Treva. Tradução Hamilton Trevisan. Global, São Paulo, 1984.

 

 

 

             

Márcia Denser nasceu em 1949, em São Paulo. Publicou, entre outros, O animal dos motéis (1981), Exercícios para o pecado (1984), Diana caçadora (1986), A ponte das estrelas (1990), Toda prosa (2002).

 

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