Manifesto
                                                       Saudek
                         léo mackellene

 

 

O teatro que eu faço, que eu quero fazer, ainda está muito vinculado, eu diria até preso a experiência que venho tendo desde 1998 com poesia performática. O texto é quase declamado e todo ele figura-se como se fosse um grande monólogo dito em pedaços pelos atores.

A luta por falas substanciais, sem verborragia, advém daí, da percepção do texto como um grande poema. Essa concepção de teatro nos leva aos fundamentos, à estrutura básica do ser: o mito. Ora, o mito é uma experiência estética mas não quer simplesmente contar uma historinha, a historinha de um povo e do surgimento do universo, quer fundar um universo, quer começar de novo e fazer pensar dali em diante através daqueles meios.

Não o pensar abstrato, mas o pensar pelo sentido, pelo sentir, pela experiência. O pensamento sobre algo só pode ser alcançado se for experimentado, ou seja, tudo o que não foi sentido não pode ter sentido.

Um teatro-poesia em que todos, todos são poetas.

O professor Zé Celso, idealizador e diretor da oficina, é quem lembra

Existe aquele conceito de que teatro é um lugar em que se afunda numa cadeira pra ver uma coisa e dorme e tal. Não. O público tem que participar. “Bacante” quer dizer brincante, participante. Quem vê de fora não entende nada. O teatro está preso ao palco, é o teatro do deprimido mesmo, é o espelho da depressão contemporânea: o puritanismo, o maniqueísmo (bem ou mal), o palco italiano, o convencional. É preciso quebrar os cânones que separam a arte do povo. Que o teatro saia da gaiola do pensamento decadente. O capitalismo, o cristianismo, essas culturas que são castradoras, inventaram uma idéia de homem muito limitado que no teatro se manifesta pelo espaço cênico, o palco italiano com enredo pré-sabido dentro de uma sala escura. Não. O público precisa se inquietar na poltrona. Mexer algo dentro da parte recôndita da mente. O resto é passatempo artesanal.

Entendo o teatro como uma arte maior, diretamente ligada ao surgimento do espírito humano: o mítico. Meu teatro resume em si todas as outras artes; resume em si a relação com o público. Não se limita à dança, ou à literatura ou às artes plásticas; traz tudo isso. Uma arte plena que engloba todas as formas de expressão numa só. Todas as forças num único impulso. Quero um arte total, um teatro que, como diz Zé Celso,

Se ligue à multidão, criando uma coisa tão forte quanto a música popular, o cinema, o futebol. Que transforme o próprio espaço cênico que precisa se misturar com vídeo, música, dança, artes plásticas, poesia...

Não quero um teatro abstrato, abstraído. O distanciamento bretchiano nos trouxe ao ascetismo exacerbado, à esterilidade incapaz de tocar o corpo, à náusea do corpo sartriano, à arte castrada. Quero um teatro que se reproduza nas pessoas, que reverbere dentro delas. “hoje me lerás e eu viverei em ti” é o princípio do meu teatro. Não é a visão romântica de plantar uma sementinha dentro do coração de cada pessoa, não. Fecundar o coração das pessoas com monstros e dragões, com fantasmas do passado e espíritos do que virá. Construir dentro delas um castelo assombroso em que elas possam viver. Experimentar o corpo, tocá-lo, vivê-lo, violá-lo. “O teatro, afinal, nasceu na orgia”, lembra Zé Celso.

O palco italiano gera um distanciamento no público, mesmo que esse público perceba que os atores são atores e não pessoas dentro de uma história ¾ que a leitura de hoje sobre Bretch ¾, e esse distanciamento transforma o público em mero espectador; em consumidor, até, pagou? Então merece ver o espetáculo sem que ninguém mexa com ele, se ele quiser dormir, a culpa é sua, é porque o espetáculo não é bom.

Qual é a minha convenção? Não sei. Bárbara Heliodora, crítica de teatro, é quem diz que estamos indo muito pelo rótulo e esquecemos a qualidade. Qual é a convenção? Não faço a mínima idéia, mas não a quero, não a busco, porque não busco uma unidade, busco o caos e a compreensão analógica e mecânica desse caos. O acaso não é aleatório, muito menos o caos. Tudo isso é calculado, equilibrado, é força, condensação de energia tentando se equilibrar, se completar. Quero significação em todas as falas. Quero estrutura simbólica em todas elas, nada de graça, nada solto, nada sobrando, nada só pra cumprir rituais urbanos, isentos de significação mais profunda, como por exemplo dois personagens se cumprimentando... não, longe de mim isso. Quero justificação em tudo. Não quero verborragia, quero falas substanciais.

No filme "A dona da história", uma história sobre escolhas bem parecida com "Efeito Borboleta”, acontece no meio da narrativa uma peça interessantíssima: todos os atores estão na platéia; o palco fica no centro, embaixo; de repente, ator por ator se levanta e começa a falar textos expurgando a hipocrisia, a falsidade, a desesperança, o pré-conceito, a indiferença, a soberba das pessoas da platéia para elas mesmas, ou seja, olhando e apontando para as próprias pessoas da platéia.

O teatro que penso tem esse viés: o de causar desconforto, o de causar espanto, o de provocar o indivíduo e fazê-lo sair do lugar, desconcertá-lo até que ele saia correndo do teatro, por exemplo, não porque a peça é ruim, mas porque se viu ali e não gostou do que viu: somos seres cruéis e indiferentes e egoístas e tiranos e etc. etc. etc. Minha arte não procura o belo ¾ nem é ela o próprio belo ¾ minha arte não procura o estético, e pode até procurar o riso se o riso for satírico, sarcástico..., mas minha arte não é pra entreter ou retratar ou apaziguar ou divertir ou pra que as pessoas saiam aplaudindo. Para mim, o melhor e maior aplauso é a compreensão, é o efeito. O que eu procuro com minha arte é a cura, a modificação do que está. Não quero acalentar ou provocar êxtase ou catarse... esses sentimentos acomodam o homem, acalentam o ser. O que eu quero com minha combater é combater. Minha arte não quer ser um travesseiro, quer ser uma pedra.

Vamos dar um jeito de arrumar a vida ou então vamos morrer de uma vez, tá legal? (John FU)

Para mim, arte pela arte é esquizofrenia, hermetismo, é inútil. E quando falo inútil não me refiro ao utilitarismo mercadológico, não. Não diz nada achando que diz alguma coisa às pessoas. Não quero essa arte, quero uma arte que reestruture os órgãos internos das pessoas, que refaça sua cabeça, quero fecundá-las, quero penetrar as pessoas, quero deixar nelas a marca indelével da minha arte. Arte pela arte é uma palavra morta, é uma arte morta. Um cadáver. A arte por ela mesma é um fim, e termina nela, não fecunda. A arte pela arte é uma arte aleijada, sem órgãos sexuais, sem pau, sem buceta; mais ainda, sem braço, sem perna, sem cérebro e pior de tudo: cega. O papel de quem vê é guiar, não confundir. Viemos todos para cuidar um do outro. Veja onde nos trouxe a indiferença européia, a esterilidade científica, o distanciamento: “seus problemas são SEUS problemas. Guarde-os pra si”.

O “Tudo já foi dito” de Göethe é reflexo da percepção de que a palavra está morta. Nem tudo já foi dito. Nossa arrogância foi quem cerrou nossos olhos e ouvidos. E agora, já que não resta mais visão nem audição, resta-nos explorar o tato, ora, a exacerbação das sensações tornará nosso corpo insensível, também. A abstração da ciência já o faz. Nem tudo já foi dito. Nós desaprendemos de conversar; uns com os outros, com as estrelas, com as flores. Opiniões iguais a de Carlos Emílio de que “viemos para terra para falar e falar e falar” são repercussões disso. E o que ainda nem sabemos? E o que ainda não conhecemos? Não falo de futuro, falo até mesmo de passado. O tudo já foi dito nos traz aqui: à completa desesperança. À ilusão de que a luta contra a opressão é vã.

O

VLADIMIR
              Não se pode fazer nada.

 ESTRAGON
              Não adianta lutar.

 VLADIMIR
              A gente é o que é.

 ESTRAGON
              Não adianta resistir.

 VLADIMIR
              O essencial não muda nunca.

 ESTRAGON
              Nada a fazer.
[1]

do teatro do absurdo traduz bem esse sentimento pessimista. Esse pessimismo que hoje se leva a culto pelos intelectuais pós-modernos.

Como o filósofo português contemporâneo Eugênio Lisboa[2],

Não sou de opinião que o pessimismo seja necessariamente prova de inteligência. Anunciar o apocalipse, todas as semanas, ou todas as manhãs, não dá estatuto de lucidez, nem confere sequer diploma de maioridade mental, pelo contrário. Eu sei que o pessimismo é de regra: está na moda. Nenhum intelectual que se preze pode dar-se, hoje em dia, ao luxo atrevido de anunciar um bocadinho de esperança. O otimismo [é claro que] não passa de um logo provinciano de neo-realistas retardado. O fino é ver tudo negro e rebolarmo-nos narcisística e quase incestuosamente na delícia dos crimes que horrorosamente praticamos, na circunvolta e deleitosa consciência de culpa que nos serve de almofada, e no negrume espesso de um apocalíptico futuro que, apesar de tudo, não há meio de nos tirar o apetite. Tudo extremamente confuso, logo, profundo, tudo extremamente à la page, logo verdadeiro, tudo extremamente sinistro e eminentemente estéril, logo promovível ¾ e premiável.

(...)

O pessimismo rende felicidade, glória e, às vezes, dinheiro. Entroniza-se o sujeito de carão fechado, voz sombria e previsões categóricas de fim iminente. O tipo que anuncia para amanhã a morte de nós todos é um tipo lúcido, suja lucidez se inveja e cuja amizade se cultiva. O mal não é nosso, é um pouco o mal dos nossos dias: “só o homem”, afirmava há muito tempo o grande economista americano John Galbraith, “[só o homem] que acha que tudo vai mal e espera que tudo vá de mal a pior é julgado detentor de um espírito claro”. Só esse, portanto, merece ser ouvido. (risos)

“Você me faria rir, se não fosse proibido” diz Vladimir a Estragon.

A arte, obviamente que não sozinha, porque sozinho nem deus pode qualquer coisa, a arte é que foi responsável pela insurreição da alma africana, o que veio culminar nos grandes movimentos pela independência dos países africanos que aconteceram a partir da segunda metade do século XX. A arte é que foi responsável, e mais uma vez pode-se dizer que não ela sozinha, pela insurreição dos Malês, escravos negros letrados em árabe que durou semanas na Bahia de 1835. A arte foi responsável pelos movimentos mundiais contra a opressão portuguesa no Timor Leste, também na segunda metade do século XX, início do século XXI. A arte foi, novamente não sozinha, responsável pela conscientização política do maio de 68 na França, da revolução de 1917 na Rússia, enfim. A arte é que foi responsável pelo nascimento das culturas. Como é que pode-se dizer que ela não pode nada? Se as insurreições não surtem efeito não se pode pôr a culpa no meio. O problema é da mensagem. Nossa cultura, por exemplo, não tem tido grande sucesso. Nossa educação, nossa política, nossa economia, levam à guerra. Nossa medicina não põe fim às moléstias. Nossa religião não aboliu a usura, o roubo... os progressos da época são progressos da mecânica em rádio e televisão, em eletrônica, em aviões a jato. Ameaçam-nos novas guerras mundiais, pois a consciência social do mundo ainda é primitiva, ainda é infantil.

Quem não quer mudar nada, são os satisfeitos. São os espíritos que se deitam à noite e lêem um livro porque a história é uma boa história. Pensam na arte como algo para o simples deleite, coisa pra passar o tempo ou pra ficar só divagando sobre algum belo tema como um bom aristocrata fazendo a sua digestão. Paulo Coelho é quem faz isso. O teatro comercial é quem faz isso. E muito bem inclusive, prestam um maravilhoso serviço ao sistema.

Calar-se, quando se sabe a verdade, é uma traição. Eu não sou maniqueísta mas o mercado é totalitário. Vivemos, como bem lembrou Saramago, numa ditadura econômica e quem não trabalha, não pode comer. Quem não pode vender seu trabalho não merece o pão de cada dia. Quem não consegue vender sua força de trabalho é considerado “supérfluo” e é jogado no aterro sanitário social. “É melhor qualquer trabalho do que nenhum” tornou-se a profissão de fé exigida por todos, diz Robert Kurz, filósofo alemão contemporâneo. Calar-se diante disso, é estar do lado deles. É ser um deles: um bom pequeno burguês mamando nas tetas eternas do estado, pagando a sua conta de celular e bebendo todas as noites Campari ou Whisky com guaraná.

Até o teatro do absurdo e o existencialismo dos anos 60 sabia disso e queria isso. É a tentativa de fazer prestar atenção nesses detalhes. Quando Estragon pergunta se nós perdemos nossos direitos ao qual Vladimir responde, “nós renunciamos a eles”, o que está latente aqui não vejo como sendo uma desesperança. Pode ser que sim, mas não a desesperança de Beckett, mas a desesperança dos miseráveis; miseráveis esses que, Victor Hugo já provou, somos todos nós.

Se a palavra, se a arte, se o teatro está morto, se o mundo perdeu o significado, re-signifiquemos o mundo. Há novos ídolos, e nem todos morreram de overdose ou suicidaram, alguns estão vivos e lutam sem fim, como dizia Drummond

Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue

entretanto, eu luto. 

Arte pela arte é o mais alto grau a que pode chegar a loucura humana. Arte pela arte é estar longe, bem longe de perceber o potencial que a arte tem. Quer saber? Eu preciso é manter a calma, afinal, como diz Pato FU, “A necrofilia da arte tem adeptos em toda parte”.

A arte não é necessária pra vida? Há há há há. Rir é a única coisa que posso fazer para combater essa bur... ou melhor, sejamos educados, essa ignorância. Tirem do mundo os poetas e veremos o que sobrará: um Estados Unidos da vida com seu utilitarismo exacerbado, sua falta de sentido, seus altíssimos índices de suicídio. E mais: vá até a janela, ande pelas favelas e veremos o que é um mundo sem arte: um mundo carente de sentido. Críticos é que são completamente descartáveis pra vida; é como diz Jean Sibelius, “não se preocupe com os críticos, nunca em tempo algum se ergueu uma estátua sequer a um crítico”, ou seja, eles nem fedem nem cheiram. Pobre do artista a que a crítica de seu tempo aclamar. Ou como diz ainda Lisboa,

Toda criação vigorosa é sempre obra de um espírito crítico igualmente vigoroso e não de complacências que em nós assassinam os próprios ingredientes da alegria e da vida. As literaturas nascem vivas, do que em nós é vivo e intenso; e nascem mortas do que em nós é morto e corrupto. Nenhum grande criador é confortável para um regime, seja este reacionário ou revolucionário. O criador verdadeiro, por natureza, é incômodo e inquieta. Ai do autor que o poder acolhe de braços abetos! Ai do autor que acolhe o poder de braços abertos! Ai do poder e ai do autor que mutuamente se acolhem!

Meu teatro é um teatro não do onírico, o onírico é o aprisionamento dos deuses na cabeça dos homens, o onírico é a limitação rasteiríssima da energia do cosmos. Meu teatro é o teatro do mito fundador, da palavra criadora, do universo refeito, do mundo reiniciado, ou, se preferir, do mundo resetado.


 

[1] Esperando Godot. Samuel Beckett.

[2] Em “A doença infantil do pessimismo”. In: Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. ACARTE: Lisboa, 1987. p. 68

 

 

 

 

Léo Mackellene é professor de Literatura Comparada e de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade Estadual Vale do Acaraú. Tem poemas publicados na revista Arraia Pajé-Urbe (nº 3) e textos em impressos alternativos.

 

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