Faróis
                                                                              do meio dia
                                    
                               joão tomás parreira

 

 

              A tarefa do poeta

                                        « Le poète a fini sa tâche »
                                              Paul Verlaine

O poeta acabou a sua tarefa.

A época não foi de rosas
nem de sonetos que batem
como o coração das amadas
nem de salmos que são a língua
instrumental dos anjos.

A tarefa do poeta não é o desenho
de uma harpa no vento
de uma rosa no papel
irrespirável.

O poeta acabou o seu tempo.
Cansaço dos sonhos que irrigam
o cérebro, com as alegrias
alguns desencontros? o poeta
acolhe o fim com as mãos lentas
da tranquilidade.

O poeta pousou as armas.
Embora o dia continue a subir
na revolução ardente do sol
embora a poesia
continue a nascer, o poeta
cansado, pousou as palavras.

 

 

 

 

             A samaritana


Ao longe

com o vestido como sombra
passava
carregada de mágoa
só as mãos abertas
enfrentavam a vergonha
pendurada no cântaro
passava
É a mulher samaritana
que vai ao poço de Jacob
buscar o silêncio
da água
Ao sol alto e despido
do meio dia
como uma flor impossível
que a sombra do seu vestido
queimava, era nele
que a impura de Samaria
se ocultava.

 

 

 

 

               O que disse o poeta a propósito de faróis

                                                                                            « Solo guardas tinieblas »
                                                                                                 Pablo Neruda

Faróis? São os gumes
da espada
que corta a noite.

Aos gomos parece
que cai, a noite
precipita-se em sombras no mar.

É densa a noite
mas parece elástica
quando o farol

revolve o escuro
das íntimas
gavetas.

Faróis? São os guardas
que emergem
da altura das trevas,

o seu olhar
guia como os olhos
aos pássaros marítimos.

Como o mar
se assombra
ante esses sóis fictícios!

 

 

 

             

João Tomás Parreira nasceu em Lisboa, em 1947. Jornalista free-lancer da imprensa especializada nas áreas da Literatura, Artes Plásticas e Teologia. Poeta. Autor de 5 livros publicados entre 1973 e 1996. Participante em várias Antologias Poéticas, a última das quais editada em 2003. Conferencista, tendo trabalhado nesta área com palestras sobre Vergílio Ferreira e José Saramago, em 2003 e 2004.

 

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