três contemas estrangeiros
                                                    e quiçá dolorosos
                                  jorge pieiro

 

 

           seita noir


A idéia das meninas era bem diferente. Quanto menos melhor. Todos os dias elas investiam em tipos solitários das noites de Las Vegas. Aproximavam-se deles, ganhavam confiança e desejos e, sem titubear, alimentavam esperanças na cabeça deles. Aquela noite não fora diferente. As meninas retocavam os lábios no
toalete, deixando os caras extenuando idéias e minhocas. Eles já admitiam aquela morte, convencidos de felicidade, enquanto tragavam a gole o uísque lento trazido por Armstrong, sempre no mundo da lua. Belas e lívidas, as meninas deixavam impressos seus lábios de batom em suas taças de gin, embutindo um cúmplice sorriso. Ao longo da discussão, a inevitável dama entre eles bebia invisivelmente nas palavras dos casais expostos. E ali ela experimentava o propício instante de realizar-se. E, comumente, dava-se um diálogo: - Você está pronta? - Não duvido mais. - Vamos? - Sem deixar pistas, apenas a dúvida para sempre... Então, as meninas aplicavam ar nas veias dos caras. Depois eles eram encontrados despidos e debruçados, um sobre o outro, numa cama de hotel. E certamente, as meninas repetiam: - Menos dois, Mena... - Menos dois, Lana...

 

 

 

 

           terror em gana


“As pessoas detidas por terem feito desaparecer órgãos genitais
vão responder perante a lei.” ( Rádio Nacional ganense )

O sol parecia uma larva sólida no céu africano. A mulher mais magra do lugar acabara de cuspir a maior aranha de sua boca. Sentira um gosto. Aquela cena fora suficientemente imprópria para os homens ao redor da mesa. Escolhida como uma das feiticeiras, um deles ergueu-se tapando com as duas mãos os testículos e o pênis, e partiu para cima dela, chutando-a, cuspindo nela a saliva mais seca da pedra. A mulher seguindo a teia de seu pranto, correu e escapou do desagravo daquele homem. Aconteceu em Acra. A notícia espalhou-se como os furacões da fúria. Dias depois, sete pessoas morreram linchadas. Os maus-espíritos invadiram a mente dos habitantes do lugar, vítimas de uma psicose coletiva. Os homens passaram a andar com a mão no bolso e outros mais descarados protegiam o sexo abertamente. A notícia corria pela cidade: homens e mulheres dotados de poderes sobrenaturais seriam capazes de fazer desaparecer a genitália masculina e os seios das mulheres com um simples contato físico com suas vítimas. Prenderam dois nigerianos e mais treze ganenses... Um brasileiro passou pela cidade, perdido, invalidado pelo idioma e a rebeldia daquele povo. A cara do doido absorveu os gestos de vários homens e mulheres. Quando tomou por si, estava correndo em desabalada carreira pelas ruas de Acra. Pensou que talvez quisessem cortar sua mão por ter furtado uma fruta para desistir da fome. Quase foi apanhado, não fosse a ajuda daquela mulher macérrima que cuspia aranhas. Entremeados pela cumplicidade, permaneceram escondidos por muito tempo naquele insólito lugar. E sem entender patavinas, descobriram-se apaixonados. Almas-gêmeas. Mas o grave esteve por acontecer e aconteceu. Ela tocou nos bagos do brasileiro, e ele devolveu o prazer. Ao tocá-la os seios murchos, eles desapareceram de vez. No instantâneo, entre as pernas do brasileiro, consumou-se o pacto da tragédia.

 

 

 

 

                   comida para uma cadela


“O último doido que passou por ali escapou
com a vida amputada.” ( Javier Temprano, 43 anos )

Eu criava vira-latas, tinha em média 15, nunca menos de 10. Voltavam sempre à tardinha, na hora dos ossos. Com o tempo, fui acostumando as pessoas a aceitá-los e os moradores da vila passaram também a cuidar deles. Um banhava, outro revezava o dia da distribuição de ossos, outro catava as pulgas ou recolhia os alívios e havia aqueles que tratavam do divertimento dos cães ou instalavam postes em locais adequados às necessidades diuréticas ou de demarcação de territórios. Aos poucos, todos os cães passaram a ser reconhecidos na vila por nomes próprios, pelos quais atendiam, fiéis, ao chamado de onde quer que viesse, abanando o rabo ou emitindo um latido de cumprimento. Como não podia deixar de ser, é claro, com o tempo o governo passou a exigir medalhas de identificação dos cães, nome, idade e tipo de sangue, e notificar com multas aqueles que maltratassem os animais, além de exigir outras taxas importantes para o desenvolvimento do país, tendo em vista o emergente e promissor futuro no setor de turismo. Pois assim a vila ficou famosa na cidade inteira, no país inteiro. Delegações de turistas fretavam vôos charters para conhecer a cidade de Esquimal, a 100 quilômetros ao sul de Tegucigalpa, capital hondurenha. Era um espetáculo deparar-se com caravanas de japoneses e suas imbatíveis máquinas fotográficas digitais, grupos de terceira idade provenientes dos mais diversos países da Europa, franceses em sua maioria, e em menor quantidade, uns gordos americanos com filmadoras portáteis e uns insuportáveis turistas brasileiros, universalmente reconhecidos por uma genética falta de educação... e todos eles voltados para as poses daqueles cães, especialmente amestrados para estrangeiros. Eu já nem ligava tanto para os cães, posto que a boa ação diária havia se transformado em negócio. Tinha, é claro, alguns fiéis amigos, mas por infelicidade, cheguei a pagar uma multa por desagravar um deles, que tivera a ousadia de me confundir com um poste. Por tantas, angustiado, deixei a vila, resolvido a esquecer de tudo. Fugi sem me despedir dos fiéis. E até de Liliana, por quem nutria um carinho mui especial. A angústia aumentou e, longe daquele mundo maravilhoso, deixei de sair de casa, como normalmente fazia. Até que uma vez, resolvi deixar a bronca de lado e fui passear pela vila. Infelicidade. A vila não era mais a mesma. Os cães eram outros, as pessoas também. Com uma ponta de medo, pensei em Liliana. E não foi sem remorso que, tomando o caminho por ruelas antes queridíssimas, dei de cara com ela, tremia de frio. Tirei meu casaco. Ela me reconheceu, grunhiu. Nossos olhos choraram. Ela sentia fome. O que fizeram com você, Liliana?, eu me perguntei, mas no mesmo instante, a resposta pairava sobre um mundo cruel que se vinga com unhas quando administra a vida, isso valendo para o rei e para o cão. Filosofia sem nenhum gosto, despedi-me de Liliana, prometendo nunca mais voltar. Certamente ela morreria de frio e fome, e eu me livraria do pesadelo e do remorso. No entanto, disposto a sacrificar toda a minha vida, passei noites em claro. Estava ferrado, a unha me tomara. Que fazer? Dias depois, retornei à vila com um machado. Não tinha dinheiro, não tinha mais nada. Havia me deixado também ser administrado. Era um doido a mais, apenas. E no mesmo local onde a havia deixado, consegui reencontrar Liliana. Ela estava nas últimas, agasalhada ainda no meu casaco. A alguns metros de distância, olhei em seus olhos de gaze. Peguei o machado e tirei toda a roupa. Com cuidado, me aproximei, me ajoelhei diante de sua cabeça, cobri-a com imenso carinho e, acertadamente... - Ai! A dor foi imensa!!! ... cortei o pênis e joguei-o para Liliana, come, pequena, come!

 

 

 

             

Jorge Pieiro  nasceu em 1961, em Limoeiro do Norte (CE). Escritor, mestre em literatura brasileira (UFC); professor de Literatura e sócio-diretor da Letra & Música Comunicação Ltda. Publicou Ofícios de desdita (novela, 1987), Fragmentos de Panaplo (contemas, 1989), O tange/dor (poemas, 1991), Neverness (poemas, 1996), Galeria de murmúrios (ensaio, 1995) e Caos portátil (contos, 1999). Possui contos, crônicas, ensaios e resenhas publicados no jornal O Povo, de Fortaleza, e em outras publicações nacionais e estrangeiras. Integra as antologias Geração 90: manuscritos de computador (Boitempo, 2001), Geração 90: os transgressores (Boitempo, 2003), Os cem menores contos brasileiros do século (Ateliê, 2004), Antologia de contos cearenses (FUNCET/Imprensa Universitária/UFC, 2004).

 

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