Angorá
                              júlio lira

 

 

Compor é um negócio espinhoso, porquê você vive compondo sobre
coisas que não quer que os outros saibam, se escondendo atrás de palavras.
Assim você diz as coisas mas ninguém pode jurar que você disse.
( Neil Young )

Escrever é sempre esconder algo de forma
que mais tarde seja descoberto.
( Italo Calvino )

 

Frank (como precocemente engenhou-se, ou Francisco, desde o registro) equilibra as pernas em cordões dispostos em espiral sobre o piso, não vê nada além que fiapos pálidos, alguma coisa dos pés magrelinhos, das havaianas e da claridade amortecida, quase nenhuma, que vem dos fundos. Tatinha rastreando a vela, seu Dinho, a lanterna, talvez nem saibam que no escuro a pessoa giganteia e o mundo se amiúda, ou será o contrário? Contudo, no negrume não tem coisa-má ou assombração: isso são invenções de quem está no claro. A mulher, projetada, segue desmedida nas superfícies do corredor, procurando o que não encontrará: as paredes se contorcem, o chão se reparte, tudo movediço: Tatinha (de Fatinha, começou no menino o costume) com suas sombras medonhas volta, absorvendo sempre bastante espaço, fecha as portas, as janelas, as gavetas. Como se adivinhasse, vai ao banheiro e não fecha a porta, desejando, talvez, jogar lume dentro das próprias reentrâncias e cavernosidades. Na face do espelho, outra mulher, descolada da superfície fria, observa os interiores da casa invadida: muitos outros espectros rondam e mesmo eles se sobressaltam com a ripada de brilho que se aproxima, ora no teto, ora nas paredes, dura, reconstituindo feitios e texturas, para logo em seguida dissolvê-los. É assim, vapt, que materializa a cristaleira, agora repleta de pastorzinhos, anjinhos e senhorinhas de saias rodadas e faces rosadas, cãezinhos e gatinhos em resina, e é assim, vapt, que desaparecem todos os inhos e o monturo de papel-jornal cresce, como se nunca tivessem feito outra coisa naquela vida, naquele cabo do mundo, que não fosse ler jornais, e vapt, sob uma cadeira com seus olhos de diabo ainda no inferno, com uma vigilância maior que a própria escuridão, o gato, Caravaggio [só seu Dinho (por que dinho, um homão desses, sabe deus) chama assim, os outros, quando chamam, chamam mesmo é de gato] estanca bem à frente - fossem outros os tempos, alguém sairia correndo, talvez para a fogueira, mas correndo - e vupt, o banheiro aberto, a saia hasteada, a pelugem exuberante e macia de gato angorá, o rosto paralisado, a pancada de luz penetrante e farta. No segundo seguinte tudo irradia: tudo some: tudo desvela-se: os dois cunhados olham para cima, a luminosidade rompe diques, volta ao curso do cotidiano apagando qualquer bifurcação: voltou, voltou a luz, diz ela, derreando a saia, submergindo o couro peludo e selvagem, é, voltou, desligando a lanterna e procurando reconhecer a ambiência de sempre e o menino que brinca só, a poucos passos. Frank, pare com isso, guarde este cordão, não tem o que fazer?

 

 

 

             

Júlio Lira nasceu em Fortaleza-CE, em 1959. Educador e Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de Fortaleza. Prêmio Domingos Olímpio de Literatura, da Secretaria de Cultura de Sobral, em 2002, e Prêmio Literário Cidade de Fortaleza, da Fundação Cultural de Fortaleza, em 2003. Livros publicados: A História Inacabada de Maria Rapunzel (Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 2002) e Graciano (Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 2003).

 

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