A universalidade da poesia cearense
de Patativa do Assaré
joan edessom

 

 

Apresentação realizada na Semana do Curso de Letras
da Universidade Estadual Vale do Acaraú, em 27 de abril de 2005.

 

O tema desta Semana de Letras, cearensidade, ou vozes cearenses, digamos assim, é por demais instigante. Poderíamos começar com uma indagação: há uma cearensidade? Como um sentimento geral, ou mesmo dentro do universo literário, faz sentido falar de uma categoria cearensidade? Penso que sim, que há uma particularidade tão grande neste universo que chamamos Ceará que poderíamos, no campo da cultura, falar de uma cearensidade.

Feito isso, precisamos responder a uma outra pergunta: como se articula essa cearensidade com a universalidade, como se dá a articulação entre local e global, entre este específico e o geral, especialmente na cultura? A esta pergunta, pretendo responder falando um pouco sobre a poesia de Patativa do Assaré.

Primeiro, é preciso que se diga: a poesia de Patativa do Assaré é uma poesia cearense, uma poesia sertaneja. A afirmação, repetida à exaustão, é dele próprio. Eu, Antonio Gonçalves da Silva, filho de Pedro Gonçalves da Silva, e de Maria Pereira da Silva, nasci aqui, no Sítio denominado Serra de Santana, que dista três léguas da cidade de Assaré. Assim escreveu o poeta na sua famosa autobiografia, publicada no livro Cante lá que eu canto cá.

Se aí Patativa faz questão de registrar o lugar onde nasceu, em diversos poemas ele afirma a condição de cearense e sertanejo e, mais do que isso, de poeta cearense e poeta sertanejo.

Eu sou de uma terra que o povo padece
Mas nunca esmorece, procura vencê
Da terra adorada, que a bela caboca
De riso na boca zomba no sofrê. 

Não nego meu sangue, não nego meu nome,
Olho para fome e pergunto: o que há?
Eu sou brasilêro fio do Nordeste,
Sou cabra da peste, sou do Ceará. 

Tem munta beleza minha boa terra,
Derne o vale à serra, da serra ao sertão.
Por ela eu me acabo, dou a própria vida,
É terra querida do meu coração. 

Meu berço adorado tem bravo vaquêro
E tem jangadêro que domina o má.
Eu sou brasilêro fio do Nordeste,
Sou cabra da peste, sou do Ceará. 

Ceará valente que foi munto franco
Ao guerrêro branco Soare Moreno,
Terra estremecida, terra predileta
Do grande poeta Juvená Galeno. 

Sou dos verde mare da cô da esperança,
Que as água balança pra lá e pra cá.
Eu sou brasilêro fio do Nordeste,
Sou cabra da peste, sou do Ceará. 

Ninguém me desmente, pois, é com certeza,
Quem qué vê beleza vem ao Cariri,
Minha terra amada pissui mais ainda,
A muié mais linda que tem o Brasí. 

Terra da jandaia, berço de Iracema,
Dona do poema de Zé de Alencá.
Eu sou brasilêro fio do Nordeste,
Sou cabra da peste, sou do Ceará.

 

Este poema de Patativa, intitulado Sou cabra da peste, revela, ao meu ver, este sentimento de cearensidade presente no poeta. De fato, essa afirmação de que era cearense, de que era um poeta cearense, é recorrente em Patativa, tanto na sua poesia quanto nas suas entrevistas, nas suas falas, nas suas conversas. Patativa se considerava um matuto sertanejo, da Serra de Santana, da serra onde nunca saiu. Os que conviveram de perto com o poeta, e eu sou um desses privilegiados, sabem bem disso, desse sentimento telúrico, de apego à terra, de bem-querença ao seu lugar, esse sentimento profundo, enraizado dentro do poeta, e externado tantas vezes. Mais do que do Ceará, Patativa fazia questão de se afirmar do sertão.

Sou matuto sertanejo,
Daquele matuto pobre
Que não tem gado nem quêjo,
Nem ôro, prata, nem cobre.
Sou sertanejo rocêro,
Eu trabaio o dia intêro,
Que seja inverno ou verão.
Minhas mão é calejada,
Minha péia é bronzeada
Da quintura do sertão.

Por força da natureza,
Sou poeta nordestino,
Porém só canto a pobreza
Do meu mundo pequenino.
Eu não sei cantá as gulora,
Também não canto as vitora
Dos herói com seus brasão,
Nem o má com suas água...
Só sei cantá minhas mágua
E as mágua de meus irmão.

 

Esses versos são de um poema chamado Vida Sertaneja. Num outro poema, intitulado Eu e o sertão, Patativa afirma:

Sertão, arguém te cantô,
Eu sempre tenho cantado
E ainda cantando tô,
Pruquê, meu torrão amado,
Munto te prezo, te quero
E vejo qui os teus mistero
Ninguém sabe decifrá.
A tua beleza é tanta,
Qui o poeta canta, canta,
E inda fica o qui cantá.

No rompê da tua orora,
Meu sertão do Ciará,
Quando escuto as voz sonora
Do sadoso sabiá,
Do canaro e do campina,
Sinto das graça divina
O seu imenso pudê,
E com munta razão vejo,
Que a gente sê sertanejo
É um dos maió prazê.

 

Acho, que pra mostrar esse apego de Patativa ao Ceará e ao sertão, esse sentimento telúrico que eu falei aqui, esses poucos versos bastam. Se fôssemos pinçar, da sua obra, os versos em que ele declara esse amor, em que ele canta esse sentimento, precisaríamos ficar aqui algumas semanas, talvez, a nos deliciarmos com a sua poesia, porque praticamente toda ela é um canto de amor ao Ceará e ao sertão. Mais do que canto de amor, o sertão é fonte permanente de inspiração. Num dos seus poemas mais conhecidos, e mais bonitos, dentre tantos de rara beleza que o poeta fez, no poema Cante lá que eu canto cá, Patativa não apenas declara que a sua inspiração vem do sertão, que ele retira daí a sua poesia, que o sertão, e o sertão cearense, é a matéria prima da sua lira, mas ele também afirma que não se mete com o que não conhece, com a cidade, e aconselha aos poetas citadinos que também não se metam na sua terra, no seu lugar.

Em relação à inspiração, Patativa diz que

Repare que a minha vida
É deferente da sua.
A sua rima pulida
Nasceu no salão da rua.
Já eu sou bem deferente,
Meu verso é como a simente
Que nasce inriba do chão;
Não tenho estudo nem arte,
A minha rima faz parte
Das obra da criação.

Mas porém eu não invejo
O grande tesôro seu,
Os livro do seu colejo,
Onde você aprendeu.
Pra gente aqui sê poeta
E fazê rima compreta,
Não precisa professô;
Basta vê no mês de maio,
Um poema em cada gaio
E um verso em cada fulô.

Seu verso é uma mistura,
É um tá sarapaté,
Que quem tem pôca leitura,
Lê, mais não sabe o que é.
Tem tanta coisa incantada,
Tanta deusa, tanta fada,
Tanto mistéro e condão
E ôtros negoço impossive.
Eu canto as coisa visive
Do meu querido sertão.

Canto as fulô e os abróio
Com todas coisas daqui:
Pra toda parte que eu óio
Vejo um verso se bulí.
Se as vêz andando no vale
Atrás de curá meus male
Quero repará pra serra,
Assim que óio pra cima,
Vejo um diluve de rima
Caindo inriba da terra.

Mas tudo é rima rastêra
De fruita de jatobá,
De fôia de gamelêra
E fulô de trapiá,
De canto de passarinho
E da poêra do caminho,
Quando a ventania vem,
Pois você já tá ciente:
Nossa vida é deferente
E nosso verso também.

 

Se aí Patativa dialoga com o “cantô da rua”, como ele chama, colocando de onde vem sua inspiração, sua rima, afirmando e reafirmando o que é a sua poesia sertaneja, cearense, matuta, vincando bem o seu canto natural, telúrico, como já repeti mais de uma vez, ele abre e fecha esse poema demarcando os campos com os poetas da rua, colocando muito claramente a divisão entre a cidade e o sertão.

Poeta, cantô da rua,
Que na cidade nasceu,
Cante a cidade que é sua,
Que eu canto o sertão que é meu.
Se aí você teve estudo,
Aqui, Deus me ensinou tudo,
Sem de livro precisá
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mêxo aí,
Cante lá, que eu canto cá.

...

Aqui findo esta verdade
Toda cheia de razão:
Fique na sua cidade
Que eu fico no meu sertão.
Já lhe mostrei um ispeio,
Já lhe dei grande conseio
Que você deve tomá.
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mêxo aí,
Cante lá que eu canto cá.

 

Bom, até agora temos uma mostra significativa daquilo que eu chamei de cearensidade na poesia de Patativa do Assaré. Essa cearensidade poderia representar uma contradição com o que eu chamei de universalidade. Vamos então, por partes. Primeiro, onde estaria a universalidade da obra de Patativa?

Parece-me que este é um terreno pantanoso, onde a gente não pisa com absoluta segurança. Mas vou tentar fugir das areias movediças e chegar ao outro lado do pântano em segurança. Podemos até falar em cearensidade, em aspectos particulares da cultura cearense, mas não podemos jamais perder de vista que ela está inserida no que eu chamaria de brasilidade, de cultura brasileira. E a cultura brasileira é múltipla por excelência, é mestiça, tem a cara e o caráter do povo brasileiro. Estes cinco séculos desde que aqui aportaram os europeus vindos de Portugal, nos moldaram num povo que é resultado de um verdadeiro caldeirão cultural, um caldeirão mágico, um caldeirão de alquimia, um cadinho do qual nós somos o resultado, do qual nossa cultura, a cultura brasileira, é a expressão mais forte.

Comecemos pelos portugueses. Os portugueses já traziam, quando aqui vieram, a marca da mestiçagem, a presença árabe, mourisca, da península ibérica. Aqueles portugueses dolentes, românticos, traziam uma herança milenar adquirida dos mouros. E nós herdamos isso. Aqui, naqueles três grandes troncos que costumamos dizer que são a nossa origem: brancos europeus, ameríndios e negros africanos, nós construímos a nossa nação, um povo único, mestiço, um povo de vozes polifônicas.

A poesia de Patativa do Assaré é, para mim, muito representativa dessa mestiçagem. Aquele camponês, aquele lavrador, que labuta a terra nos versos de Patativa, vem fazendo isso há milênios, desde que a mão primeira acostumou-se ao amanho da terra nos vales mesopotâmicos. Esse ofício de arar a terra vem até nós do Tigre e do Eufrates, pra ser praticado no Jaguaribe, no Acaraú, no Coreaú, nas margens dos rios, nas várzeas, e nos tabuleiros da sequidão sem fim do sertão cearense.

Essa voz que soa em Patativa é uma voz milenar. É o muezim chamando para a oração na mesquita, de espantosa semelhança com o vaqueiro nordestino aboiando o seu gado. Aboio de homens no outro lado do oceano, aboio de gado no lado de cá.

Na tradição oral da África negra, que ainda hoje perpetua suas histórias, suas memórias, suas lembranças, de geração para geração, oralmente, vem a poesia de Patativa, uma poesia eminentemente oral, feita para ser cantada e contada, não para ser escrita. A poesia de Patativa se escreveu por um dado determinante histórico, mas ela é uma poesia da oralidade, uma poesia para ser cantada, para ser recitada em voz alta nas rodas de conversa, como ensinamento dos mais velhos aos mais moços.

Um traço disso é a memória do próprio Patativa, que não escrevia, por uma condição muito sua, que foi a cegueira. Patativa produzia e repetia de cor a sua produção anos e anos depois, sem que essa produção se perdesse, “esquecendo” apenas o que queria que fosse esquecido. O próprio poeta tinha plena consciência dessa sua memória privilegiada. “Eu tenho uma memória, modéstia a parte, que é uma coisa quase como rara. Aqui na cabeça era como assim um gravador que eu gravava com o maior cuidado para não faltar nada”. E é verdade, a memória do Patativa era uma coisa espantosa, era essa memória universal, milenar, das tradições orais, como já falei aqui.

E Patativa sabia que havia algo na sua poesia que não se podia apreender com a escrita, com o texto, com a gravação.

Gravador que estás gravando
Aqui neste ambiente
Tu gravas a minha voz
O meu verso, o meu repente,
Mas gravador, tu não gravas
A dor que meu peito sente.

 

Essa dor é outro traço da condição universal de Patativa. A injustiça, a dor, a miséria, estas condições humanas que Patativa canta como sendo condições do sertão do Ceará, são próprias nossas, fazem parte da nossa realidade, mas são ao mesmo tempo universais, revestem-se de uma condição humana que transcende as fronteiras de cada país. Quando Patativa canta dessa forma, ele sai do sertão do Assaré e se irmana, se ombreia, se iguala, aos grandes nomes da poesia brasileira e da poesia universal. Nomes que ele conheceu bem. Aos treze anos Patativa leu o Tratado de Versificação, de Olavo Bilac e Guimarães Passos, e leu Camões. E leu muito mais, Castro Alves, muito mais, Patativa, apesar de não ter freqüentado escola, leu muito. “Li Cassimiro de Abreu, Artur de Azevedo, Aluísio de Azevedo, Raimundo Correia, Olavo Bilac e Castro Alves, o maior poeta brasileiro. Na poesia matuta: Catulo da Paixão Cearense”. Patativa tem sonetos de causar inveja aos parnasianos. O soneto O peixe é um desses.

Tendo por berço o lago cristalino,
Folga o peixe, a nadar todo inocente,
Medo ou receio do porvir não sente,
Pois vive incauto do fatal destino.

Se na ponta de um fio longo e fino
A isca avista, ferra-a inconsciente,
Ficando o pobre peixe, de repente,
Preso ao anzol do pescador ladino.

O camponês também do nosso Estado
Ante a campanha eleitoral, coitado!
Daquele peixe tem a mesma sorte.

Antes do pleito, festa, riso e gosto,
Depois do pleito, imposto e mais imposto.
Pobre matuto do sertão do norte!

 

É um soneto perfeito, impecável na forma e no domínio da língua. Vejam bem, domínio absoluto da língua portuguesa, num poeta que é chamado de matuto, de analfabeto, quase sempre de forma pejorativa. Patativa manejava e dominava a língua portuguesa como poucos na nossa literatura. Um outro soneto muito representativo disso é o soneto O que mais dói.

O que mais dói não é sofrer saudade
Do amor querido que se encontra ausente
Nem a lembrança que o coração sente
Dos belos sonhos da primeira idade.

Não é também a dura crueldade
Do falso amigo, quando engana a gente,
Nem os martírios de uma dor latente,
Quando a moléstia o nosso corpo invade.

O que mais dói e o peito nos oprime,
E nos revolta mais que o próprio crime,
Não é perder da posição um grau.

É ver os votos de um país inteiro,
Desde o praciano ao camponês roceiro,
Pra eleger um presidente mau.

 

Estes dois sonetos, além de perfeitos, além do que eu já falei, da perfeição da forma, da métrica exata, da correção da linguagem, do impressionante manejo da língua, trazem uma outra característica. Neles se revela o poeta social, político, a voz poderosa, altissonante, que se fez ouvir tantas vezes contra a injustiça, em defesa dos mais pobres, em defesa do povo sertanejo, do sofrido povo cearense e nordestino. Cantou a união do povo em mais de uma vez, em mais de um poema, participando ativamente, no final dos anos de 1970, da campanha pela anistia. Num comício em favor da anistia Patativa recitou o poema Lição do pinto, que foi reproduzido como um dos símbolos da campanha.

Vamos meu irmão,
A grande lição
Vamos aprender,
É belo o instinto
Do pequeno pinto
Antes de nascer.

O pinto dentro do ovo
Está ensinando ao povo
Que é preciso trabalhar,
Bate o bico, bate o bico
Bate o bico tico tico
Pra poder se libertar.

Vamos minha gente,
Vamos para a frente
Arrastando a cruz
Atrás da verdade,
Da fraternidade
Que pregou Jesus.

O pinto prisioneiro
Pra sair do cativeiro
Vive bastante a lutar,
Bate o bico, bate o bico
Bate o bico tico tico
Pra poder se libertar.

Se direito temos,
Todos nós queremos,
Liberdade e paz,
No direito humano
Não existe engano,
Todos são iguais.

O pinto dentro do ovo
Aspirando um mundo novo
Não deixa de beliscar
Bate o bico, bate o bico
Bate o bico tico tico
Pra poder se libertar.

 

São muitos os poemas “políticos”, digamos assim, de Patativa. Patativa foi um homem do seu tempo, voz do seu tempo, expressão da consciência popular, dos anseios do povo, cantador, menestrel, porta-voz. Patativa foi, através da sua poesia, um tribuno do povo, um Caio Graco sertanejo. Patativa, esse tribuno, fez poemas belíssimos com a temática da liberdade política, ativista do seu tempo, comprometido com sua época histórica. Nordestino sim, nordestinado não, O boi zebu e as formigas, Inleição Direta 84, O agregado e o operário, e tantos outros. Estava antenado com os problemas sociais da sua época. Um exemplo disso é o soneto Reforma agrária.

Pobre agregado, força de gigante,
Escuta amigo o que te digo agora,
Depois da treva vem a linda aurora
E a tua estrela surgirá brilhante.

Pensando em ti eu vivo a todo instante,
Minha alma triste desolada chora
Quando te vejo pelo mundo afora
Vagando incerto qual judeu errante.

Para saíres da fatal fadiga,
Do horrível jugo que cruel te obriga
A padecer situação precária

Lutai altivo, corajoso e esperto
Pois só verás o teu país liberto
Se conseguires a reforma agrária.

 

Voltando ao tema da universalidade em Patativa do Assaré, e das influências em sua poesia, o professor Gilmar de Carvalho chama a atenção para a dicção camoniana em alguns poemas, como O inferno, o purgatório e o paraíso.

Pela estrada da vida nós seguimos,
Cada qual procurando melhorar,
Tudo aquilo, que vemos e que ouvimos,
Desejamos, na mente, interpretar,
Pois nós todos na terra possuímos
O sagrado direito de pensar,
Neste mundo de Deus, olho e diviso
O Purgatório, o Inferno e o Paraíso.

 

Creio ter chegado ao fim dessa fala, que não foi tão breve, conseguindo estabelecer um pouco daquilo que anunciei no começo, da característica cearense e ao mesmo universal da poesia de Patativa.

O poeta Oswald Barroso, em um poema recitado na reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, em 1979, fazendo a apresentação de Patativa, disse o seguinte:

Escutai cientistas e senhores
cá chegados de todo esse Brasil
nesta noite, o cantar forte e viril
a ciência, o saber dos cantadores
dos poetas do povo, dos cantores
da minha gente sofrida e humilhada
esse encanto, esse canto em disparada
não nasceu do saber de uma escola
mas do som do ponteio da viola
do gorjeio de toda a passarada.

Ouvi bem o cantar dos passarinhos
eles falam do sol da minha terra
do riacho correndo pela serra
da pobreza perdida nos caminhos.
Escutai, eles falam dos seus ninhos
e a cantar entre eles não demora
triste ave de voz doce e canora
que ao cantar sempre o faz com mais beleza.
E calai, porque toda a natureza
silencia quando a patativa chora.

 

A poesia de Patativa continua, porque continua o cantar dos passarinhos, o sol na minha terra, o riacho correndo pela serra e a pobreza perdida nos caminhos. Mas os últimos versos talvez devessem sofrer uma pequena inversão. Hoje, é tempo de chorarmos, porque a natureza pranteia a voz ausente da patativa, a voz que não mais canta e chora.

Patativa se definia como sendo “não mais do que o agricultor com capacidade de dizer em versos aquilo que sentia e em versos denunciar as coisas que revoltam”. Se tivesse sido apenas isso, já seria muito. Mas foi mais, muito mais. Poeta cearense, poeta universal. Não cabia em rótulos. Nenhum daria conta da sua grandeza. Patativa foi poeta, e dos bons, dos grandes da literatura brasileira, dos maiores da literatura universal em todos os tempos. Sua poesia, nesse sentido, já é clássica, perene, destinada ao futuro como poesia de todos os tempos e de todos os lugares. Do Ceará para o mundo, a cearensidade e a universalidade de Patativa do Assaré. É só. É pouco para a grandeza de Patativa, mas já é muito para o tempo e a paciência que tomei de todos vocês.

 

 

 

 

Joan Edessom, nasceu em Cedro-CE, em 1965. É poeta, contista e professor de Pedagogia da Universidade Estadual Vale do Acaraú. Publicou, em 1999, Com margaridas nos olhos (poemas), obra agraciada em 1997 com o Prêmio Farias Brito de Literatura, e editada pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará.

 

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