O Vestido
                                                                     ( começa assim )
                        
    carlos herculano

 

 

... Aquilo que tu mais amas não será tirado de ti
Aquilo que tu mais amas é tua verdadeira herança
( Ezra Pound )

 

I

Minhas Filhas, vocês dizem, esse vestido, tanta renda, esse segredo! Mas fiquem sabendo, que a mulher que o usava, eu nem sei por onde anda, e se está morta ou viva, pois há muito não tenho notícias. Esse vestido, então, é apenas uma lembrança de sofrimentos passados, de coisas que hoje já estão a sete palmos enterradas, e se às vezes voltam, em frias noites de insônia, são apenas sombras, e nada mais. Dela não guardo mais ódio, e nem sei se cheguei a tê-lo, já que a moça, a coitada, não passava de uma perdida, e em todo o seu ser, hoje eu vejo, só existia o sofrimento, daquela que apenas pensava, em preencher seu vazio, mesmo que para isso, em qualquer cabeça pisasse. Mas se vocês insistem, e de tudo querem saber, eu vou então lhes contar, e da história desse vestido, aqui vocês vão se inteirar: Bárbara foi uma mulher que uma vez, no início de um mês de setembro, apareceu por aqui. Veio trazida por Fausto, de quem era conhecida. E o vosso pai, no dia em que ela chegou, foi com ele, que era seu primo, busca-la lá na estação, pois ainda havia o trem, que só depois eles tiraram. Ela era uma moça bonita, diferente; vestia saias ousadas, que quase não cobriam os joelhos; tinha uma boca jeitosa, bem talhada e carnuda, e também usava cabelos curtos, igual ao que eu, na época, só tinha muita vontade, mas não coragem de ter. Dizem que quando desceu do trem, de óculos escuros e, naquele dia, com uma calça bem justa, que mais realçava suas formas, todos os olhares se voltaram para ela, enquanto Fausto e vosso pai pegavam as suas malas. A sua simpatia, não há como negar, a todos contagiava, e sobre ela, que também era atriz, e até em jornais já havia saído, há muito Fausto vinha falando. Elogiava a sua beleza e os bons modos, além de outros atributos, que agora não vêm ao caso e que ela, no tempo certo, quando viu que estava na hora, soube usar com maestria. Mas dentro do carro, e depois de pedir a ela que falasse sobre Belo Horizonte e das coisas que estavam acontecendo por lá, Fausto também já convidava ao vosso pai para uma recepção que, à noite, em sua casa, ele e sua mãe iriam oferecer em homenagem à recém-chegada, que com um sorriso agradeceu, dizendo que não merecia. Espero você e Ângela, Fausto ainda disse, quando o deixou aqui na porta da nossa casa, e o vosso pai, ao se despedir, ganhou um olhar daquela moça, que outra vez, como havia acontecido na estação, voltou a deixá-lo encabulado, fazendo-a passar a mão no bigode, como era seu costume, quando aflito se sentia. Mas minhas filhas, escutai palavras de minha boca, pois algumas horas depois, quando havíamos acabado de almoçar, o vosso pai, fazendo um certo mistério, mas se mostrando muito atencioso comigo, me levou até o nosso quarto, onde beijou o meu pescoço, a minha boca, e após acariciar também os meus cabelos, como até gosta de fazer, abriu devagar a porta do guarda-roupa e tirou bem lá do fundo uma caixa de papelão redonda, que ali, e sem que eu soubesse, há muitos dias estava guardada...

 

 

 

             

Carlos Herculano Lopes nasceu em Coluna, Minas Gerais. Reside em Belo Horizonte. Formado em jornalismo, já publicou nove livros, participou de várias antologias e recebeu prêmios importantes, como o Guimarães Rosa, o Cidade de Belo Horizonte, o Lei Sarney, como autor revelação de 1987, e a Quinta Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, de 1990. Recebeu o Prêmio Especial do Júri da União Brasileira de Escritores pelo livro de contos Coração aos Pulos. O livro O Vestido, um dos finalistas do Jabuti/ABL deste ano de 2005, tem como base 150 versos das 75 estrofes de “O Caso do Vestido”, um dos mais famosos poemas de Carlos Drummond de Andrade.

 

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