duas leituras para um
                  Corpo Sutil
                                      joca wolff / antonio cicero

 

 

 

 


A poesia depois da paisagem
, por Joca Wolff
 

      Algo me diz pra ser sutil, disse um dia Itamar Assumpção. Igual e diferente, a sutileza esgrimida em Corpo sutil (Iluminuras, 2005) é a da safra recente, século 21, do poeta-cantor Ricardo Corona. O livro - que sucede ao disco Ladrão de fogo (2001), que havia sucedido ao livro Cinemaginário (1999) - começa No lugar que não se respira, seção com 10 poemas cuja epígrafe diz "respirar, esse poema invisível" (Rilke). Todo livro hoje, mais do que um objeto, é uma miragem verbivocovisual. Corpo sutil prossegue a sua celebração dessa miragem na seção Estilo da boca, não-estilo oriundo de Jardelina da Silva, artista do mundo, bruxa da oralidade invocada pelo poeta e em cuja companhia convida o leitor-ouvinte a entrar no vasto território da música das línguas do Brasil. Na seqüência final, Aguafuerte, atento aos sons do Prata, dos Andes, do Amazonas, Corona se insurge contra os demônios da ideologia, optando pelo tráfico de palavras, na típica linhagem de Jardelinas e Beleléus. Com as mandingas desses ociosos operários, festejam-se em suas festas nada menos do que as águas dos intervalos de voz e palavra, de som e sentido, de próprio e proibido.

      Mas elas vêm de longe e têm sido descritas de diferentes modos. Assim, o cine é imaginário, mas alguém disse que foi o cinema que nos ensinou a ver a realidade. Quanto ao ladrão, sempre foi de fogo e flutua, não se afoga: o disco-livro de "poesia sonora" é um marco na melhor tradição da contravenção na história das liras brasilianas. E em relação ao corpus do novo livro, ele é sutil, "infinitamente mais sutil do que o supõe o senso comum", segundo Antonio Cícero.

      Tudo começa com um largo zoom em Zaúm no romper do dique, filme sussurrado sobre o tudo e o nada do mundo, zum-zum primordial, Dogville com base em Khlebnikov, cuja utopia zaumista significava atravessar o sentido, a mente, o intelecto. Partindo do mesmo princípio, Gonzalo Aguilar desenvolveu a sugestão do zaúm a sua maneira ao construir o que chamou de "transpoética" em análise de Haroldo de Campos. A transpoética representa no poeta das Galáxias uma relação íntima, orgânica e permanente com a poesia, as verdades práticas da teoria e as teorias da prática da tradução, que em distintas filigranas se encontra cifrada na trans-criação do Zaúm por Ricardo Corona, no romper do dique da breve aurora orobórica: essas águas piscosas são igualmente frutos da tarefa da tradução, que vai em diálogo transamericano da Argentina ao México, do Prata ao Rio Grande, de Arturo Carrera a Coral Bracho. Desembrulho das águas, o poema nas partes 4 e 5, protesta contra o olho do Ocidente nas telas da televisão do terceiro milênio.

      Mas cuidado: quem for ler O cipó dos espíritos deve se livrar da "última idéia", a fim de se preparar para o "amanhecer da memória antiga" ao som dessa ladainha em ritmo de hino extático. Nas "artérias secas" da Árvore de Tarkovsky, o poeta-cineasta, para quem o cinema significava "esculpir o tempo", a tensão de todos os vórtices imagináveis concentrados em alguma zona à margem de tudo o que se costuma atribuir ao verbo entender, depois e no avesso da paisagem. Como A gargalhada do macaco, que é a de todo mundo, "uivo na memória", estridência sem precedentes. Quanto às "coisas de água" sem tradução, representam a força do elemento líquido na transpoética de Corpo sutil. "Camadas de sentidos em decomposição" compõem Entre sus cosas de agua. Já em Feras da tarde vemos a cidade de dia e à tarde, mote e motivo para uma noite à maneira mínima, quer dizer, máxima de um Dalton Trevisan. Que sem perda de tempo foge em Fugace com a "ninfa d`água, dançarina / fugaz, ondina / de chifres de espuma / - rapidamente se / dissimula - / menino-peixe, meio fauno / meio deus marinho / que Iemanjá devolve ao mar". Com Solidão e tempestade no mirante de Jack Kerouac retorna-se às artérias secas das águas amazônicas de 2005, conforme as calendas do calendário do "Oriente inalado pelos escapes no Ocidente" (do Zaúm do romper do dique). E No lugar que não se respira marca o fim da seção homônima. A utopia desse poema é o golpe de dados mallarmaico mergulhado no líquido amniótico do livro absoluto, para onde se expandiu a miríade de signos da idade da pedra lascada a laser. Faz pensar ao mesmo tempo em Tortografia (2003), precioso álbum de topoemas compartilhado com Eliana Borges.

      "Cantos em busca de palavras / para povoar o silêncio do livro". A epígrafe de Jean-Joseph Rabearivelo, belo poeta natural de Madagascar revelado em Oroboro 5, dá mote e motivo por sua vez ao Estilo da boca, seção que mastiga e rumina a voz dos outros: "Jardelina salvou o mundo / desencantou a lagoa". E Eu ia saber que era eu?, foi esse "eu" minucioso quem falou e disse: "olhe com as costas do globo ocular" (antes mesmo de dizer "deixe a velha poesia / para trás"). Baka e Tambor começam a fazer som com palavras em onomatopoeses dignas de nossos melhores pajés e sacis, "borboletas-bomba" de "coração tam--bor". Tam-tam como Tupi tu és, elástico percutir de fonemas que remete aos versos de Itamar falando alemão em Pretobrás. Dobras da mesma obra em Waris Dirie (canto somali) ou Wã Wã, isto é, o começo do mundo nas mãos do xamã da racha da terra.

      "Ouvis os sons que golpeiam o escuro? / São os ancinhos da aurora pelos prados". Serguei Iessiênin transcriado por Augusto de Campos engendra os tramos fatais, nos sentidos de dramas definitivos e de dramas recortados da vida nua dos dias, através do extravio da boca maldita, mais conforme à reta verdade de que "língua má não cria fungo". Assim é também no rap do Copyright by, lidouvido no Ladrão, que reage à sociedade de controle e seus dilemas de auto-estima e auto-ajuda com verve e valentia oswaldianas.

      Sete vidas para o poeta e Tráfico de palavras têm o tom de contramanifestos e merecem manifestação. Sete vidas faz um frio cálculo ardente a partir da sentença pessoana de que "uma vida inteira cabe em oito versos", no fim do qual se atingem cifras e temperaturas elevadas: todos os traficantes de palavras, num ato único, põem na mesa todas as suas contas, mandam às favas os sigilos evangélicos, batem os seus búzios em público para ninguém nunca vender, dar, trocar nem emprestar nada, já que essas vidas, corpos sutis, foram, são e "serão consumidas com poesia".

 

 

O prefácio, por Antonio Cicero
 

     Corpo sutil: o título deste livro evoca imediatamente a fisiologia tântrica, com sua distinção entre o corpo “grosseiro”, composto de pele, músculos, vísceras etc., que é o que normalmente chamamos “corpo”, e o corpo “sutil”, o corpo perfeito, o microcosmo, do qual o corpo grosseiro não passa de uma cópia defeituosa.

De uma perspectiva inteiramente diferente, o adjetivo “sutil”, quando tomado à maneira dos epítetos homéricos, que exprimem uma característica essencial do sujeito a que se referem, chama a atenção para a sutileza do corpo, de todo corpo: chama a atenção para o fato de que todo corpo é infinitamente mais sutil do que o supõe o senso comum.

Seja como for, a falta de artigo definido ou indefinido nesse título sugere ser o corpo sutil em questão, em primeiro lugar, o próprio livro, o próprio corpus de poemas intitulado Corpo sutil: o que parece apontar para uma poética que leva a sério a materialidade do poema, já que o toma como corpo, ainda que sutil.

Sendo o livro dividido em três partes, é na sua parte central (intitulada “Estilo da boca”) que essa materialidade se manifesta com maior evidência, em poemas fonopaicos como “Baka”, “Tupi tu és”, “Wãwã” etc., cuja sonoridade singular resulta da imbricação de fragmentos temáticos, palavras e ritmos pertencentes a culturas orais primárias e fragmentos temáticos, palavras e ritmos (e arritmias) contemporâneos. No nível semântico, o equilíbrio precário, porém controlado, entre tradição e inovação, e entre contemporaneidade e extemporaneidade, provoca, no nosso mundo de primitivismos desencantados e futurismos ultrapassados, uma desconcertante porém estimulante sensação de estranhamento justamente onde seria de se esperar acolhimento: ou de acolhimento, onde seria de se esperar estranhamento. Pois bem, a meu ver, essa parte central funciona como o eixo do livro. Ela é o ponto em que se encontram e fundem a primeira e a terceira partes dele; ou então, de um outro ponto de vista, é o ponto em que se dá a fissão que produz cada uma dessas duas partes: o ponto de fusão/fissão do livro.

“Aguafuerte”, a terceira parte, culminando no belo poema “Sete vidas para o poeta” e no quase-manifesto “Tráfico de palavras”, é a mais logopaica, a mais reflexiva (embora não sem ironia: leia-se “Rumble fish”), a mais política, a mais metalingüística do livro.

A primeira parte – “No lugar que não se respira” é o oposto. A primeira palavra do título do primeiro poema dessa parte, “Zaúm no romper do dique” já indica que, aqui, não estamos lidando com a linguagem no seu sentido corriqueiro. Cunhada pelo poeta russo Khlebnikov, a expressão zaúm significa algo como “trans-mente”, “trans-intelecto” ou “trans-sentido”. Evidentemente, não se trata, para Ricardo Corona, de uma retomada da utopia lingüístico-poética de Khlebnikov, mas, sob o signo dessa utopia, de um experimento poético que se situa aquém ou além do uso convencional da linguagem e da conseqüente categorização, compartimentalização e reificação instrumental do mundo. Por isso rompe-se o dique: por isso é a água, o elemento do fluxo, do movimento e da mudança, que domina essa parte do livro, que exalta, entre todos os animais, os anfíbios, que não pertencem a nenhum reino particular, mas se encontram em casa em todos; ou em nenhum. Apropriadamente, essa parte culmina no que talvez seja o mais belo poema de um livro de muitos poemas belos: “No lugar que não se respira”.

Contra o espírito grosseiro da linguagem utilitária, o Corpo Sutil da linguagem poética: eis um livro que faz jus ao seu título.

 

 

 

 

Joca Wolff é autor de Mário Avancini: Poeta da pedra, Julio Cortázar: A viagem como metáfora produtiva e Pateta em Nova Yorque (publicados pela Letras Contemporâneas).

Antonio Cicero é poeta e filósofo. Em 1994, junto com Waly Salomão, organizou o livro O relativismo enquanto visão do mundo. Publicou: O mundo desde o fim (ensaio, 1995) e Guardar (poesia, 1996). Em 1997, lançou o disco Antonio Cicero por Antonio Cicero. Participa das antologias Outras praias / Other Shores (1998), Esses poetas (1999), 41 poetas do Rio (1999), e Mais poesia hoje (1999). Tem poemas musicados por Marina Lima, Adriana Calcanhoto, João Bosco, etc.

 

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¡  Eugène Ionesco por Geraldo Lima  ¡
¡  Guy de Maupassant por Amilcar Bettega  ¡
¡  Jüri Talvet por Daniel Glaydson  ¡
¡  Walt Whitman por Luis Benítez  ¡
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