Zaúm
                                                  no romper do dique
ricardo corona

 

 

 

     1
                

Obra

(estímulos de cilício
atingem o cérebro

                           céu involuntário,
Pós
e bactérias
vazam do envelope de pólvora
entram pelas
narinas e nada
                                      invólucro
                                      ancestral

Está desfeito o embrulho das águas)

Abra

 

 

 


                 2
                   _______  

A vazão nunca imita o músculo
(quando afrouxa
a armadura de carne
) O fluxo da água vai
sem saber pra onde

                            vãos se abrem

                            fissuras urinam

mínimas espumas
fazem sentido
suor pelos poros do corpus

 

 

 


                                 3
                                                                       

KA {
Ouça (
o ideograma de Confúcio
o pigmeu baka batendo n’água seus códigos
a escultura sonora de Zappa
o mar dos Eddas escandinavos
o sal do mar Cáspio
o silêncio da sacristia ao suor dos pedófilos
o último ismo no islã
o sol dos sacerdotes do Egito
a China antiga
a bondade do bonsai
a estampa de Átila
as nove filhas da memória de Heródoto
o sabor da bala de café
a Grécia de Péricles
a Roma de Vírgilio
o Rio de João Gilberto
os Citas de Adi Saka
as Ragas na cítara de Ravi Shankar
o ar do Japão
o sachê perfumado do Buda
) Olhe
} aA

 

 

 

 

                            4
                                 ______                

O Oriente Médio
                     inalado
                     pelos escapes no Ocidente
liquidifica o terceiro milênio

                                                  Amazonian water

                     (logotipo em
                     cores azul
                     e logomarca
                     com simulação translúcida)
:

bebida sagrada da floresta

 

 

 

 

                                                                           5
                                                                                                                                                   

palimpsesto. dia após
dia as imagens discursam no deserto. uma piscadela da tv, a imagem-oração da mãe, o ângulo obtuso de ombro de homem com farda, a grande angular nos escombros
de verão. corte brusco. outro filho em imagem caseira com fuzil e alcorão na mão e visões do paraíso. nas roupas civis, estilhaços ensopados de sangue palestino e israelense lembram escrituras sagradas de velhíssimos papiros. intervalo. lábios róseos e tesos mantêm o índice. o desportista ao lado do astro pop ao lado da estrela de cinema recitam aquela palavra com três letras. uma vogal amordaçada entre duas consoantes. corte brusco para a realidade. um ônibus voa pelos ares. uma mesquita explode. selo egípcio homenageia menino palestino morto e aumenta a coleção serial de outros meninos que brincam. fechamento oblíquo. rol de declarações pipocam em várias partes do mundo. no varal da tela, descem os créditos e o logotipo até sobrepor a cara do âncora.

 

 

 

 

                     6
                                        

Hotel Lautréamont
Aquela para quem se uiva, arma-se de amor.
Céu-olho.
O Canto Sexto embaça o glóbulo
                                        disformetamorfoseia mal
doror
          salt
                             a.

Cravo os dentes na aspereza da página.

De manhã,
                    Macero pele adolescente nas unhas

 

 

 

 

                                 7
                                                        

Corpo semi morto invade o shopping Os
pertencentes do nada
perambulam
escandalosamente pelos arredores da história
do ganha-ganha.

moribundos zumbis
contraem a Mandíbula
do escalpo urbano

Melopéia plangente dos escalonados

Teto marquise banco
(privatizado)

Usura
(Usina
Contra)

Os meninos pixam:

                             Laser para lazer

 

 

 

 

     8
                                                

diáspora anfíbia
em zona líquida

Ichthyostega,
o ancestral

primeiro
vertebrado

tanto na água
quanto na terra

descendente de
peixe pulmonado

e a Quimera,
peixe de milhões de anos

sem nada mudar
(dorso com

nervo exposto,
espinho venenoso ―

duas esculturas
que antecipam o predador)

 

 

 

 

                               9
                                                                                          

O sentido sussurra para o significado:
                                                         “Psiu”

si-si-sim
– cílios d’água
                                       no romper do dique

 

 

             

 

Ricardo Corona (1962) é autor dos livros de poesia Cinemaginário (1999), Corpo sutil (2005) e Tortografia, em parceria com Eliana Borges (2003) – todos pela editora Iluminuras. Em 2001, lançou o CD de poesia Ladrão de fogo (Medusa).  Organizou a antologia Outras praias 13 poetas brasileiros emergentes / Other Shores 13 Emerging Brazilian Poets (edição bilíngüe – ed. Iluminuras, 1998). Traduziu em parceria com Joca Wolff o livro-poema Momento de simetria (Curitiba, Ed. Medusa, 2005), de Arturo Carrera. Integrou as antologias Outras praias (1998), Pindorama 20 poetas de Brasil (Argentina, 2000), Na virada do século Poesia de invenção no Brasil (2002), Passagens – Antologia de poetas contemporâneos do Paraná (2002) e Cities of Chance: New Poetry from the United States and Brazil (Rattapallax, EUA, 2003), acompanhada de CD de poesia, no qual participa com o poema “Ventos e uma alucinação”. Participou também da antologia Os cem menores contos brasileiros do século (org. Marcelino Freire, SP, Ateliê Editorial, 2004) e da mostra “Brasil: Poetry Today”, publicada na revista Slope (EUA, 2004). Tem poemas musicados por Vitor Ramil, Ana Lee, Neuza Pinheiro, entre outros. Em 1998, criou a revista de poesia e arte Medusa, e, em 2004, a revista de poesia e arte Oroboro, a qual edita em parceria com Eliana Borges.

 

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 +

¡  tradução  ¡
¡  Bukowski e Ungaretti por J. T. Parreira  ¡
¡  Eugène Ionesco por Geraldo Lima  ¡
¡  Guy de Maupassant por Amilcar Bettega  ¡
¡  Jüri Talvet por Daniel Glaydson  ¡
¡  Walt Whitman por Luis Benítez  ¡
]  poesia  ]

]  Daniel Faria  Ivaldo Ribeiro Filho  ]
]   José Inácio Vieira de Melo  ]
Marc-Olivier Zimmermann  ]
]  Mario Meléndez  Ricardo Corona  ]
 

}  artigos  }
}}
} André Monteiro caça um método-outro }
} Elisa Rodrigues Moreira
senta entre tela e livro }
} Elisalene Alves equilibra-se em farpas }
} Joca Wolff e Antonio Cicero lêem corpos sutis }
} Nilson Oliveira agencia pensamentos-outros }
} Samara Inácio habita tragédias burguesas }
} Solange Rebuzzi analisa Milton Hatoum }
} Thierry Tremouroux sacrifica pedras, homens, etc }
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