Abdelkebir Khatibie
               As cintilações do pensamento-outro
              
nilson oliveira

 

 

Todo mundo louva a identidade                                           
Todo mundo busca a origem                                           
E eu, eu ensino o saber órfão.                                           
( Abdelkebir Khatibi )                                           


 

Pouco se ouve falar de Abdelkebir Khatibi. Dele alcançamos alguns rastros, pistas
essenciais, deixados em um curioso livro: Cultura e subjetividade (Saberes
nômades)
, no belo ensaio Como dizer o Indizível?
[1]. Seguimos adiante,
ao encontro de Khatibi, guiados pela lente de Daniel Lins.


Khatibi é autor de uma obra vastíssima que inclui ensaios, romances, crítica literária. Pensador da diferença, Khatibi nos oferece através dos seus textos, instrumentos indispensáveis para a compreensão de alguns aspectos do pensamento-outro. Mas a princípio é preciso recuar até Maurice Blanchot,  de quem Khatibi foi leitor, para na literatura encontrarmos as primeiras evidências de um pensamento-outro. Blanchot, em O Livro Por Vir, pensando Artaud nos diz: o que é primeiro não é a plenitude do ser, é a fenda e a fissura, a erosão e o esgarçamento, a intermitência e a privação mordente. Nessa esfera, Blanchot descobre, não só em Artaud, mas na literatura de seu tempo, um espaço rarefeito que põe em cheque tanto a soberania do sujeito quanto a ‘autoridade’ do pensamento estabelecido. Pois, segundo Blanchot, o que fala no escritor não é ele mesmo, ele não é ninguém; tal como Joubert, o anônimo, o neutro, o Fora Total. Joubert, contemporâneo de Diderot, se preparou para a literatura e não escreveu um só livro, mas nessa jornada o que buscava era, mais que a escrita, a sensação do escrever. Joubert se espraiou nessa experiência e desapareceu na noite. Sem vestígios ou rastros, dele temos não mais que os seus diários que, depois da sua morte, Chateaubriand, numa edição reservada, fez revelar. Joubert preferiu a sensação da escritura, o gosto pelas experiências do escrever, o mergulho no centro da esfera. O pensamento-outro é a experiência que arrasta toda experiência, que arranca o sujeito de si e do mundo, do ser e da presença, da consciência e da verdade, da união e da totalidade. Vemos isso em Joubert: aqui estou eu fora das coisas civis e na pura região da arte, e mais adiante num caso mais recente em Marguerite Duras: escrever./ Não posso. / Ninguém pode./ É preciso dizer: não se pode./ E se escreve./ É o desconhecido que trazemos conosco; escrever, é isto que se alcança. Isto ou nada. O ser da linguagem só aparece com o desaparecimento do sujeito. Como não pensar em Edmond Jebes: Não se pode falar do deserto como de um lugar; pois ele é, também, um não-lugar. O não lugar de um lugar ou o lugar de um não-lugar. Palavra de lugar nenhum, obscura fala do deserto. Nelas, a escritura nos leva à literatura, mas talvez também a outros caminhos, a um exterior onde desaparece o sujeito da fala. Nada mais estranho e a um só tempo mais definitivo para o esfacelamento do sujeito. Mas seguimos adiante. Foucault, em um livro dedicado a Blanchot, o Pensamento Exterior, nos traz importantes afirmações nessa direção: é preciso passar para “fora de si”, e para finalmente reencontrar, se envolver e se recolher na fascinante interioridade de um pensamento que é legitimamente Ser e Palavra. Discurso, portanto, mesmo se ele é, além de qualquer linguagem, silêncio, além de qualquer ser, nada. Mergulhar na superfície do pensamento-outro significa liberar-se das reminiscências, quer dizer do monolítico e da tensão que ele representa. Pois: Esse pensamento que se mantém fora de qualquer subjetividade para dele fazer surgir os limites como vindo do exterior, enunciam seu fim, fazer cintilar sua dispersão e acolher apenas sua invisível ausência, e que ao mesmo tempo se mantém no limiar de qualquer positividade. O pensamento-outro não é nem pensar para o outro nem no outro nem na união nauseante do ‘eu’ com o ‘outro’. O pensamento-outro é não mais que um pensamento plural que só é possível no espaço do diverso, onde se prolifera, mais do que a agregação das diferenças, a duplicidade dos entendimentos, num saber bilíngüe, que como nos diz Khatibi: é um pensamento em línguas, uma mundialização tradutora de códigos, de sistemas e de constelações de signos que circulam no mundo, e isso não dá com base em um isolamento, de uma periferia do saber ocidental ou no exílio interior de uma cultura do impensado. Khatibi, em seu livro, o Amor Bilíngüe, encontra a língua não como identidade selvagem, mas como uma profusão, uma variação para dentro e fora de si, numa situação bilíngüe que pensa o outro traduzindo-o. A tradução supõe um atravessamento de línguas na múltipla compreensão de uma polissemia infinita. Assim poderá opor o saber ocidental, seu fora impensado, radicalizando ao mesmo tempo a margem, alcançando um pensamento-outro que fale em línguas, pondo-se à escuta de todas as palavras de onde quer que elas venham
. Kafka, antecipando o bilingüismo, em seu diário nos diz: Vejam vocês, eu falo todas as línguas em iídiche. Deleuze, nos Diálogos com Clarie Pernet, pensando o saber bilíngüe acrescenta: toda língua é tão bilíngüe em si mesma, multilingüe em si mesma, que se pode ser estrangeiro em sua própria língua, ou seja, levar sempre mais longe as pontas de desterritorialização dos agenciamentos. O bilingüismo é um pensamento encontrado nas margens, na distância e nas questões silenciosas, em um silêncio que não é a intimidade de um segredo, mas o puro exterior onde as palavras se desenrolam infinitamente, porque nele experimenta-se o que Deleuze, em Crítica e Clínica, chama de terceira possibilidade. Nesse caso Já não se trata mais de simplesmente, fazer no texto, ou dizer sem fazer, mas de uma outra dicção, quando dizer é fazer aquilo que acontece quando o balbucio (gagueira) não se dirige mais às palavras preexistentes, mas introduz, ele próprio, as palavras que ele afeta (...). Não é mais o personagem que é gago de palavras, é o escritor que se torna gago de línguas: ele faz a linguagem gaguejar quanto tal (...). Fazer gaguejar a língua e, ao mesmo tempo, levar a linguagem a seu limite, a seu exterior, a seu silêncio. Levar a linguagem a seu limite, a seu exterior, a um pensamento-outro. Curiosamente, este seria também o projeto de alguns pensadores, escritores e artistas da contemporaneidade. Fazendo brotar em seus ensaios, romances, novelas, contos, poemas, as cintilações de um pensamento-outro. Dessa comunidade fizeram parte, cada um a sua maneira, Jabés, Ponge, Joyce, Celine, Cummings, Beckett e alguns outros.


 


[1] ( Daniel Lins (org). Cultura e subjetividade – saberes nômades. Campinas. Papirus, 1987. 

 

 

 

 

Nilson Oliveira reside em Belém-PA. Ensaísta, contista e editor da revista literária Polichinello. Recentemente agraciado com o Prêmio IAP de Literatura pelo livro A outra morte de Haroldo Maranhão e outros contos.

 

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¡  Bukowski e Ungaretti por J. T. Parreira  ¡
¡  Eugène Ionesco por Geraldo Lima  ¡
¡  Guy de Maupassant por Amilcar Bettega  ¡
¡  Jüri Talvet por Daniel Glaydson  ¡
¡  Walt Whitman por Luis Benítez  ¡
]  poesia  ]

]  Daniel Faria  Ivaldo Ribeiro Filho  ]
]   José Inácio Vieira de Melo  ]
Marc-Olivier Zimmermann  ]
]  Mario Meléndez  Ricardo Corona  ]
 

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