pedaços de uma terceira
                                                                                   romaria
                                                     josé inácio vieira de melo

 

 


        Fiat Lux

                                                  


Era uma vez o escuro,

e fez-se a luz,
a tênue luz de um candeeiro,

então questionei:
– Mal se divulga um vulto?

O candeeiro flamejou:
– Para quem está no breu
qualquer lampejo é alumbramento.

 

 

 


                                                Eu*
                                                    ___   _______                 

Eu não vi o floco solitário de nuvem cruzar o azul.
Não tenho tempo. O mundo me persegue
e preciso encontrar as cifras e os signos,
preciso encontrar as chaves de todas as coisas.
Mas como? Se não acho a chave de mim mesmo!

Em que espelho ficou perdida a minha face?
Creio que em ti os espelhos se estilhaçam:
tu és a flor onde me escondo
e longe de ti os caminhos são tão ermos...

As trombetas clamam: tu e eu somos um,
vamos, então, ver as pedras apascentarem a eternidade,
mas saiba, tu és eu e eu sou tu:
– não há lugar para dois eus em minha morada.




                                                           * Este poema foi feito na Cerca de Pedra, numa noite cheia de
                                                           estrelas, pelos poetas Li Po, José Inácio Vieira de Melo,
                                                           Toukaram, Novalis, Abel Silva, Cecília Meireles, Emily
                                                           Dickinson, Florbela Espanca, Kabir, Hildeberto Barbosa Filho
                                                           e Djalal ud-Din Rumi, que lá estavam todos presentes.

 

 

 


            Dois momentos
                                                              

Entrava no poema como quem entra num bar
e sai bêbado caindo pela falta de chão.
A poesia era um buraco maior que o buraco.

Entro no poema como quem come cuscuz
e sai dia afora para encarar a existência.
A poesia lava os pés e as lágrimas.

 

 

 

 

                                Paz
                                  ________                


Eu,
que venho de tempestades,
anuncio a calmaria.

A violência
que existia em mim
rasguei na bala.

 

 

 


     Poema obscuro (Quadrilha)
                                                                                               

Era uma vez um homem que não sabia mais o que fazer.
Então, de madrugada, um cavalo saiu montado na ventania
e uma formiga pegou a rabeca e nunca mais parou de tocar.
Certo dia, o sol foi embora e o homem acendeu o candeeiro.

O cavalo encontrou vários seguidores na sua peregrinação.
A formiga é solista das principais orquestras das cigarras.
O sol se casou com uma estrela de outra constelação.
O candeeiro se apagou e o homem escreveu um poema obscuro.

 

 

 


                              Romaria
                                                                    

                                              Oh que caminho tão longe
                                              Cheio de pedra e areia

                                                          Domínio popular

                                              Oh que estrada mais comprida
                                              Oh que légua tão tirana

                                                          H. Teixeira e Luiz Gonzaga

Dentro de mim, nas lonjuras,
bem dentro do meu juízo,
um romeiro caminhando
em busca do que preciso.

Oh que caminho tão longo
cheio de pedra e de areia,
tenho que firmar o passo
e romper essas cadeias.

Pergunto, em meu desatino,
aonde ir? Que lugar?
Por que a sina de cigarra
esparramando o cantar?

Certo, sou aquele que parte
numa eterna romaria,
faça sol ou faça chuva,
seja de noite ou de dia.

O caminho que percorro
não é o da Rosa dos Ventos,
pois ele surge do nada,
de acordo com o momento.

Oh que estrada mais comprida,
tanto azul, tanta poeira,
em que plaga do Universo
estará o meu Juazeiro?

Cada qual tem seu destino:
Pedro Vaqueiro tangia
gado pelo mundo afora;
seu Fortunato fazia

forno pra queimar tijolo;
Manezim Tetê, meu tio,
caçava tatu e onça
com o luzeiro dos pavios.

Lá me vou com minha cruz,
são poucos beiços de açude
e tantas léguas tiranas.
Maior e vária é esta sede

que vale cada passada
desta minha romaria.
Peregrino de mim mesmo
no meio da travessia.

 

 

 


     Insônia
                                                    

Em cima do telhado da infância
Tem um chato de um pavão
Que não me deixa dormir
                                            assossegado.

 

 

 


                      Carolina
                                                              

Carolina não fica na janela, vai pro samba.
Sabe de cor e salteado o poema Xenhenhém;
e até quando preto-e-branco, é colorida.
Carolina vive cada estalo do seu tempo.

 

 

 


                                              Oitão
                                                                                            

Deitar debaixo dum pé de algaroba,
cortejar o silêncio e me sentir
suspenso num suspiro.

Ouvir os deuses do campo
pelos bicos dos passarinhos,
sentir o rebuliço do corpo
nas delícias de um imbu-cajá.

Esquecer as chaves,
as palavras,
...

 

 

 

 

        Lajedo e Lua
                                                 

A pedra que piso diz do silêncio
e das águas que molham as plantas dos pés
para que os arvoredos dos passos possam brotar.

A pedra que olho diz do espelho
e da luz que persigo a cada instante,
como palha que busca ser brasa da eterna fogueira.

 

 

 

 

                       Cavaleiro de fogo
                                                                  

                                              Sou de uma raça
                                              Que procede do fogo.

                                              Não podereis calar-me.

                                                           Carlos Nejar

Neste lusco-fusco aprilino
só enxergo o escarlate;
e digo “fogo” e me inauguro,
eu, filho do Sol.

Boneco de barro
regido pelo verbo incandescente,
me alimento com a força da água
e caminho nos braços do vento.

Fogueira encarnada,
dou testemunho dos meus dias:
cicatrizes no lombo,
na cara e pelos braços;

fogo no roçado,
trinta e cinco brasas incendiando,
torrando, apurando, purificando,
lavando o rubi do coração.

Eu, boneco de barro,
cozido nas labaredas do Sertão,
recebo o batismo da estrela rainha:
Ígneo – Ignácio – Inácio.

E um pássaro de prata,
prenhe de encantos e de signos,
vem me saudar com meu destino:
cavaleiro, corcel e dragão.

 

 

 

 

                    Sentido
                                                      

Os homens vinham e havia um caminho.
Continuavam, e o prumo os esperava,
e eles seguiam acreditando nisso:
sempre rumar – sempre sempre sempre.

Os homens nunca chegavam a algum lugar,
mas iam eternamente em busca de,
pois não queriam nem suportariam
entender a verdade do lugar nenhum.

 

 

 

             

 

José Inácio Vieira de Melo nasceu em Olho d'Água do Pai Mané, povoado do município de Dois Riachos, Alagoas, em 16 de abril de 1968. Publicou os livros Códigos do Silêncio (2000), Decifração de Abismos (2002), o livrete Luzeiro (2003) e A Terceira Romaria (2005). Organizador do Concerto lírico a quinze vozes - uma coletânea de novos poetas da Bahia (2004). É jornalista e co-editor da revista de arte, crítica e literatura Iararana.

 

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