Conto Nº 3
                                                        eugène ionesco
                             
       geraldo lima
                                                    ( tradução )

 

 

                                                                   Uma manhã, a pequena Josette, como ela havia feito na
                                                       véspera e como ela fazia todas as manhãs, bate à porta do quarto
                                                       dos seus pais para acordá-los. A mamãe já estava acordada; ela já
                                                       havia se levantado; ela já estava tomando banho.  Ela havia
                                                       deitado cedo e ela havia dormido bem.

            O papai dormia ainda porque, na noite anterior, sozinho, ele havia ido ao restaurante, e depois ao cinema, e depois ao restaurante, e depois ao teatro de fantoches, e depois ainda ao restaurante. E agora ele queria dormir, porque ele dizia que era domingo, e porque no domingo não há trabalho e não se vai também procurar o carro para ir ao campo, porque é inverno, e porque há gelo nas estradas.

            Há gelo nas estradas, deu no rádio. Mas em Paris não há. Em Paris, o tempo está quase bom: há algumas nuvens sobre as casas, mas há também um céu azul sobre as árvores da avenida.

            Josette se aproxima do seu papai, ela lhe faz cócegas no nariz, papai faz careta, ela o beija, papai pensa que é um cãozinho. Não é um cãozinho, é sua filhinha.

            “Conte história”, diz Josette ao seu papai.

            Então papai começa uma história...

            “Uma história com você e comigo”, diz Josette.

            E papai conta uma história com Josette e com papai.

            PAPAI — Nós vamos fazer um passeio de avião. Então eu a visto com o seu culote, eu a visto com a sua sainha, eu lhe coloco o cachecol, eu a visto com o seu puloverzinho rosa...

            JOSETTE — Não, este não.

            PAPAI — Este então, o branco?

            JOSETTE — Sim, o branco.

            PAPAI — Eu a visto com o seu puloverzinho branco. Depois eu vou vesti-la com o seu casaquinho, suas luvinhas, ah!, eu tinha esquecido as suas botas!... Eu também lhe coloco o  chapeuzinho.

            Eu me levanto, eu me visto, eu a pego pela mão, e você vai ver, a gente vai bater na porta do banheiro. Mamãe dirá: “Aonde vocês vão, minhas crianças?....”.

            JOSETTE — Eu vou passear de avião com o papai.

            Mamãe dirá: “Divirtam-se bastante, minhas crianças. Sejam sábios, sejam prudentes. Se vocês vão de avião, é preciso ter cuidado para que Josette não se debruce na janela, é perigoso. Ela poderia cair no Sena ou sobre o telhado da vizinha. Ela poderia machucar o bumbum ou fazer um grande galo na testa”.

            PAPAI — Tchau, mamãe.

            JOSETTE — Tchau, mamãe.

            PAPAI — Depois, nós iremos até o fim do corredor e, em seguida, viramos à esquerda. Lá, o corredor não está mais escuro. Ele é iluminado pela luz que entra pelas janelas do salão à esquerda.

            Nós iremos à cozinha. Jacqueline está lá, preparando já o almoço. Nós vamos lhe dizer: “Tchau, Jacqueline”.

            JOSETTE — Tchau, Jacqueline.

            Jacqueline dirá: “Aonde o senhor vai?... Aonde você vai, minha pequena Josette, com seu papai?”.

            JOSETTE — Nós vamos passear. Vamos subir no avião. Nós vamos ao céu. Jacqueline dirá: “Preste atenção na Josette, senhor, quando estiverem no alto. Não é preciso que ela se debruce na janela, é perigoso. Ela poderá cair. Ela poderá fazer um galo na testa ao cair sobre o telhado do vizinho. Ou, então, ela poderá ficar presa nos galhos de uma árvore pelo fundo do culote. Seria  preciso ir retirá-la com uma escada”.

            JOSETTE — Não, eu terei muita atenção.

            PAPAI — Depois, eu pegarei a chave, eu abrirei a porta com a chave.

            JOSETTE — No buraco da porta.

            PAPAI — Eu abro a porta, eu fecho a porta. Eu não bato a porta, eu fecho calmamente a porta, eu entro com você no elevador, eu aperto o botão...

            JOSETTE — Não, sou eu que aperto o botão. Me pegue nos braços porque eu sou muito pequena.

            PAPAI — Eu a pego nos braços. Você aperta o botão. O elevador desce. Desce-se primeiro para subir melhor depois. Nós chegamos ao térreo. Nós saímos do elevador e nós encontramos, diante da guarita, a senhora Zeladora, que está  varrendo.

            JOSETTE — Bom-dia, senhora.

            PAPAI — Então a zeladora diz: “Bom-dia, senhor, bom-dia, minha gracinha. Oh! Como ela está linda esta manhã com seu bonito casaquinho, com seus lindos sapatinhos, com suas lindas luvinhas!... Oh! Que mãozinhas!...”.

            JOSETTE — E meu chapéu.

            PAPAI — A zeladora diz: “Aonde vocês vão assim? passear?...”.

            JOSETTE:  De avião.

            PAPAI — Então a zeladora nos diz: “É preciso ter atenção! Não é preciso que sua filhinha, senhor, se debruce na janela do avião, pois ela poderia cair!”.

            JOSETTE — E pode machucar o bumbum, sobre o telhado, ou fazer um enorme galo na testa.

            PAPAI — Ou no nariz... Então a zeladora nos diz: “Divirtam-se bem”.

            PAPAI — E nós saímos para a rua. Encontramos a mamãe de Michou. Passamos diante do açougueiro com suas cabeças de bezerro...

            Josette tapa os olhos: “Eu não quero ver. Açougueiro malvado!”.

            PAPAI — Sim. Se o açougueiro ainda mata bezerros, eu vou matar o açougueiro... Nós chegamos à esquina. Atravessamos a rua: atenção aos “fonfons”!... Atravessamos a outra rua. Nós chegamos à parada de ônibus. Eis o ônibus. Nós pegamos o ônibus...

            JOSETTE — Ele anda, ele pára, ele anda, ele pára.

            PAPAI  — E  aqui estamos nós no aeroporto.  Nós pegamos o avião. Ele sobe, você vê, como minha mão: Vvrrr...

            JOSETTE — Ele sobe vrrr... ele sobe Vrrr... Vrr... Vr...

            PAPAI — Nós olhamos pela janela do avião.

            JOSETTE — Não precisa se debruçar!

            PAPAI — Não tenha medo, eu a seguro. Você vê lá embaixo, nós vemos as ruas, nós vemos nossa casa. Vemos a casa do vizinho.

            JOSETTE — Eu não quero cair sobre o seu telhado!

            PAPAI — Nós vemos lá embaixo, a avenida, os automóveis, eles são muito pequenos; nós vemos as pessoas na rua, elas são pequenininhas. Nós vemos a Porta de Saint-Cloud.  Nós vemos o Bosque de Vincennes. Nós vemos o jardim zoológico com seus animais...

            JOSETTE — Bom-dia, “zanimais”!

            PAPAI — Você vê o leão, você ouve?... Ele faz hon! hon!...

            (E papai mostra como o leão faz com suas garras e faz uma careta má): Hon! hon!...

            JOSETTE — Não, não, não faça assim!... Você não é um leão, não é? Você é um papai, você não é um leão.

            PAPA I— Não, eu não sou um leão, eu sou um papai. Eu fiz assim para lhe mostrar.

            JOSETTE — Não, não faça mais.

            PAPAI — E depois, nós vemos o seu Robert... E depois nós vemos o prado, e depois nós vemos a filhinha do seu Robert!

            JOSETTE — Ela é má, ela sujou meu vestido com seus sapatos sujos.

            PAPAI — E depois nós vemos o castelo do senhor Prefeito. E depois nós vemos a igreja com seus sinos...

            JOSETTE — Ding, dong, ding, dong…

            PAPAI — E depois nós vemos, bem lá em cima do campanário, o senhor Cura...

            JOSETTE — Vai cair! Atenção!...

            PAPAI — Não, ele está bem preso com um barbante.  Ele subiu para nos fazer sinal com um lenço... Sobre o campanário, há também o senhor Prefeito e depois senhora Cura...

            JOSETTE — Não é verdade!

            PAPAI — Não, não é verdade, não existe senhora Cura...

            PAPAI — E depois o avião sobe, sobe.

            JOSETTE — Ele sobe, sobe, sobe.

            PAPAI — E nós vemos o campo.

            JOSETTE — Moinho.

            PAPAI — Sim, nós vemos também o moinho da Chapelle-Anthonaise, e depois nós vemos  Marie no galinheiro da fazenda.

            JOSETTE — Os canários.

            PAPAI — O rio.

            JOSETTE — Os peixes que nadam na água.  Não é preciso comer os peixes!

            PAPAI — Não. Nós não comemos os peixes gentis, nós comemos somente os malvados. Os malvados comem os peixes gentis. Então é preciso comer os peixes malvados.

            JOSETTE — Os gentis não!

            PAPAI — Não, os gentis não. Somente os malvados...

            E depois nós subimos, nós subimos... E depois nós estamos nas nuvens, e depois nós estamos acima das nuvens. E depois o céu é ainda mais azul, ainda mais azul, e depois há somente o céu azul, e depois nós vemos a Terra bem lá embaixo como uma esfera. E em seguida: nós chegamos à Lua. Nós passeamos na Lua. Estamos famintos. Vamos comer um pedaço de Lua.

            JOSETTE — Eu como um pedaço de Lua. É bom, é bom!... (E Josette dá um pedaço de Lua a seu pai.)  Os dois comem da Lua!

            PAPAI — É bom, é de melão.

            JOSETTE — Nós colocamos açúcar.

            PAPAI — Só pra você, pra mim não, eu tenho diabetes. Não coma toda a Lua, é preciso deixar para os outros. Não faz mal, isso cresce...

            PAPAI — Agora nós pegamos o avião, nós iremos mais alto... Nós subimos, nós subimos... 

            JOSETTE — Nós subimos, nós subimos...

            PAPAI — Nós chegamos ao Sol. Nós vamos passear no Sol... Ufa! Faz calor!... No Sol, é sempre verão.

            JOSETTE — Ufa!... Quente! quente!…

            PAPAI — Nós pegamos o lenço, nós enxugamos a fronte... Vamos, nós pegamos o avião para descer. Olha!... Onde está o avião?... Ele se derreteu!... Não faz mal. Nós vamos descer a pé.  Nos apressemos, é longe até a nossa casa. É preciso chegar até a hora do jantar, senão mamãe vai nos repreender. Aqui, temos muito calor, no Sol tudo é quente, mas se nós chegarmos atrasados, a comida estará fria.

            Nesse momento, a mamãe entra e diz: “Vamos, desçam da cama e vistam-se”. E a mamãe se dirige ao papai: “Você vai deixá-la idiota com essas tolices!”.

 

 

 

             

 

Eugène Ionesco nasceu em 26.11.1909 (Slatina, Romênia) e faleceu em 28.03.1994 (Paris, França). Escritor e dramaturgo. Autor da peça A Cantora Careca, considerada marco inicial do Teatro do Absurdo.

Geraldo Lima nasceu em Planaltina (GO) em 1959 e vive em Sobradinho (DF). Publicou: A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF, 1997); Baque (contos, LGE Editora/FAC, 2004); Nuvem muda a todo instante (infantil, LGE Editora, 2004). Participou, em 2004, da Antologia do conto brasiliense (Projecto Editorial, org. por Ronaldo Cagiano). Tem textos publicados em revistas eletrônicas e na revista impressa Oroboro, nº 8 (Ed. Medusa).

 

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¡  Eugène Ionesco por Geraldo Lima  ¡
¡  Guy de Maupassant por Amilcar Bettega  ¡
¡  Jüri Talvet por Daniel Glaydson  ¡
¡  Walt Whitman por Luis Benítez  ¡
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