O desmonte das convenções romanescas em
                     O equilibrista do arame farpado,
                                 de Flávio Moreira da Costa
           elisalene alves

 

 

A ficção que se desenvolve na década de 90 é marcada por uma
estrutura caótica (desaparecimento do enredo, fragmentação da narrativa,
superposição de situações ocorridas em tempo e espaço diferentes, indefi-
nições das personagens, destruição arbitrária das relações normais entre
homem e realidade). Essa literatura não tem nome e não se situa nos câno-
nes literários, criando, assim, outras regras. Há, ainda, a presença de uma
diversidade de temáticas, em virtude de uma visão de um mundo sem fron-
teiras, ou seja, um mundo globalizado.

                  Enquadrado nessas características está O Equilibrista do Arame Farpado, de Flávio Moreira da Costa, publicado em 1996. Vencedora de dois prêmios em 1997 (Prêmio Jabuti e Prêmio Biblioteca Nacional), essa obra caracteriza-se pelo desmonte das convenções romanescas e também por sua narrativa não seguir uma seqüência lógica. A história inicia-se sendo contada por Kid Skizofrenik, relatando dois crimes bárbaros presenciados por ele. Estes dois casos mencionados não tem nenhuma ligação com o enredo que será desenvolvido posteriormente. É o próprio narrador quem nos fornece essa informação: “(...) vá se acostumando, provável leitor: conosco ninguém podemos e quase nada tem a ver com a história (...) ( OEAF, p.18)”[1]. Em seguida, o narrador expõe um outro relato: o encontro de “sete autores” discutindo o conteúdo de O Equilibrista do Arame Farpado, bem como seu título e o sumário.

Quando, finalmente, acreditamos que se inicia a história romanesca propriamente dita, acontece o inesperado: Brás Cubas, personagem criado por Machado de Assis, aparece na obra. A personagem “baixa” na história depois de os “autores/narradores/personagens” do livro se concentrarem em um rito sobrenatural, recorrendo às forças do além para que os ajudem a concluir o livro. Após esse episódio, o narrador tenta prosseguir a narrativa, no entanto, ela é interrompida mais uma vez. Isso se deve porque ele perde o fio da meada e busca a ajuda de um investigador particular.

Percebemos, através do relato acima, que a narrativa rompe com todos os padrões romanescos estabelecidos até então. Há grandes quebras na seqüência linear: começo, meio e fim. Verificamos com clareza a presença da fragmentação, ou seja, do corte no decorrer da narrativa. Observamos que o sentido da história não se encontra no todo e sim nas partes, pois não temos uma história única, temos várias histórias sobrepostas.

A falta de sentido é uma constante na obra; primeiro, porque o enredo traz uma história escrita por “sete autores” e os mesmos não conseguem iniciar a narrativa; segundo, pelo súbito aparecimento de Brás Cubas, personagem de Machado de Assis; terceiro, porque os autores/narradores/personagens perdem o fio da meada, tendo que pedir ajuda a um investigador particular, Philip Marlowe, para dar continuidade à fabulação: 

- Bem – disse o autor -, acontece que eu perdi o fio da meada.
-    
Pois então retome-o – disse Marlowe. – Não tenha pressa...
-    
Temo que o senhor não entendeu – disse o Autor, em tradução de tevê.
-    
Então comece pelo princípio – disse Marlowe.
-    
Sim, pelo princípio – disse o Autor, lembrando-se de que o princípio era a chave de tudo. – É exatamente esse o problema, Mr. Marlowe. Meu editor, e suponho que meus leitores também, espera um novo original de minha autoria, e no meio do caminho, ou no princípio, como o senhor disse, perdi e não consegui achar mais o fio da meada, entende? (OEAF, p.68). 

Há, ainda, em O equilibrista do arame farpado, um traço que caracteriza a literatura contemporânea: a metaficção. Ela está presente em obras que refletem conscientemente sobre sua própria condição de ficção, acentuando a figura do autor e o ato de escrever. Em O equilibrista do arame farpado, o narrador faz interrupções constantes para refletir sobre a elaboração dessa obra: “(...) este é o livro que está sendo feito, ao ritmo dos passos bêbados do autor-narrador-personagem de cabeça de filósofo e alma de sambista, ao som do mar profundo cadenciando na praia e na vida tudo aquilo que sobra e tudo aquilo que falta: este é o livro do que nos falta” (OEAF, p.111).

 Destacamos também o fato de o narrador insuflar a imaginação do leitor, deixando que o mesmo elabore o capítulo da maneira que lhe convier (sirvam de exemplo os capítulos “Fragmentos de uma Cena Familiar” e “Três pontinhos, ou o Menor Capítulo da Literatura Mundial”).

Outro aspecto a ser ressaltado é o fato de o leitor, algumas vezes, ser convidado a fazer parte da construção da narrativa, tornando-se, desta forma, co-autor do livro: “Se alguém tiver uma idéia de como poderia ser o enredo, favor escrever ou telefonar. Seremos eternamente gratos (OEAF, p.24)”. Esse recurso reforça a nítida dificuldade do narrador em prosseguir com a fabulação.

Atualmente, uma das discussões que está sempre em pauta é a crise de identidade do sujeito. Outrora, o homem tinha uma identidade bem definida e localizada no mundo social e cultural. Hoje, em conseqüência das profundas mudanças econômicas, sociais e culturais que acontecem em nossa sociedade, encontramos um sujeito em crise.

Inserido nesse contexto, encontra-se o personagem principal de O Equilibrista do Arame Farpado, de nome Francisco, mas também conhecido por Chiquinho, Seu-cara-de-todos-os-bichos e, por fim, Capitão Poeira[2]. Diferentemente do romance convencional, cujo personagem principal é caracterizado como herói, Chiquinho assume características de um anti-herói..

Conforme Bakhtin (1997, p.170), “A aspiração de glória organiza a vida do herói (...). Aspirar à glória é ter consciência de pertencer à história da humanidade cultural (grifo do autor)”. No caso de Capitão Poeira, não detectamos essa aspiração pela glória. As aventuras realizadas por ele e que conseqüentemente o levam à fama em Pedra Ramada, sua cidade natal, nem sempre são premeditadas, ao contrário, muitas acontecem por acaso. Aliás, o acaso exerce grande papel na vida de Capitão Poeira, pois é ele o responsável pelo envolvimento do nosso herói nas lutas contra a ditadura militar e pelo seu encontro com Geny (sua mãe) no final da narrativa. Capitão Poeira também é individualista. Faz o que deseja e o que gosta, sem preocupações sociais. Ele não dispõe de um objetivo na vida, por isso vive a angústia de um projeto pessoal. Esse tipo de sujeito, segundo Hall, é conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. Hall (1998, p.9) ainda acrescenta: 

                                     Um tipo diferente de mudança estrutural está transformando as sociedades
                                     modernas no final do século XX. Isso está fragmentando as paisagens culturais de
                                     classe, gênero, sexualidade, etnia, raça e nacionalidade, que, no passado, nos tinham
                                     fornecido sólidas localizações como indivíduos sociais. Estas transformações estão
                                     também mudando nossas identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós
                                     próprios como sujeitos integrados. Esta perda de um “sentido de si” estável é
                                     chamada, algumas vezes, de deslocamento ou descentração do sujeito.
 

  No começo da obra, a descrição feita de Capitão Poeira, ao nascer, já nos fornece um perfil de como será o garoto no futuro: “Haveriam de dizer que, ainda no colo da parteira, se parteira houvesse, assim que abriu os olhos o bebê pôs-se a passar a mão em seus – dela, parteira – fartos seios (OEAF, p.31)”. E mais adiante, quando o pai lhe proíbe de sair de casa por causa da aventura do rio Avanhandava. Como não tem o que fazer, aborrece a cozinheira,  D. Benta: “Enquanto isso, implicava com D. Benta – ‘Sai, capeta! Benza Deus!’ – e era só descuidar e lá estava ele no quintal, assustando galinhas, patos e marrecos (OEAF p.45)”.

Outro ponto relevante na obra é o fato de ela não se adequar em nenhuma classificação convencional. O Equilibrista do Arame Farpado sofre a angústia de classificação, sendo perceptível nas reflexões do narrador:

(...) essa é a minha história, essa é a história de nós todos:
romance?
autobiografia? 
memórias?
ensaios?
relatos?
relatório?
lenda?
fantasia?
depoimento?
Pois eu e os fantasmas de mim não nos damos bem com as classificações – mesmo assim existimos (OEAF, p.114).
 

Também destacamos nessa obra, a presença da carnavalização, ou seja, a transposição para a arte do espírito do carnaval. Sem dúvida a vertente satírica e burlesca de O Equilibrista do Arame Farpado pode ser compreendida como uma literatura do riso. Tomemos como exemplo o fato de a história ter sido escrita por “sete autores”: Kid Skizofrenik (narra a maior parte da narrativa), Antônio Carlos Patto (filho da Patta e da PUC), Bustrefedón Infante Gatica (ex-cantor de guarânias no interior de São Paulo, conhecido como Paraguaio, embora peruano), Cláudio C. (o humanista), Capitão Poeira (personagem principal do enredo), Flávio Vian (o intelectual anglo-saxofônico) e Wittgenstein de Oliveira (filósofo de Quixeramobim). “Em discussão crescente, retomamos os trabalhos preliminares – e eram sete autores à procura de um personagem! Sete Édipos, sete Sísifos, sete Narcisos, sete cavaleiros do Apocalipse? (OEAF, p.25)” [3]. Percebemos o tom de galhofa na descrição dos “autores”, trazendo cada nome uma característica que provoca riso. É feita inclusive uma alusão ao filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein.

Outro momento da obra em que o leitor dificilmente controlará o riso diz respeito ao surgimento do espírito de Brás Cubas, personagem de Machado de Assis. Ele aparece no capítulo intitulado “Prólogo à moda antiga”, parodiando o prólogo na obra Memórias Póstumas de Brás Cubas: 

                              (...)  A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te
                              não agradar, pago-te com um piparote, e adeus (Memórias Póstumas de Brás Cubas, p.16). 

                              (...) Sim, pois o livro é tudo em si mesmo, caro e preclaro leitor – que ele bem lhe
                              agrade. Do contrário, encontrar-me-ei convosco à meia-noite em ponto de uma sexta-                              feira, em vossa própria morada ou numa encruzilhada qualquer da cidade (OEAF, p.60).

                   Para “anarquizar” mais ainda o fluxo da narrativa, os “autores-narradorores-personagens” perdem a sua lógica, a sua estrutura causal/temporal. Abrem então o capítulo “Em busca do fio da meada”. Os autores-narradores-personagens” tentam contratar um detetive particular para reaver a urdidura perdida da história. A literatura policial é parodiada ao mesmo tempo em que há uma reflexão sobre a arte de construir uma ficção. Sobre esse lado cômico da obra, Lucas (1996, p.9 e 10) escreve: 

                                 O Equilibrista do Arame Farpado de Flávio Moreira da Costa não chega a ser o
                                 memorial de um louco, embora subverta o romance por dentro e por fora. Falta-lhe a
                                 lógica dos predicados, refúgio do discurso esquizofrênico. (...) Não se iluda leitor com
                                 o caráter lúdico, quase picaresco do romance. Ele é armado para divertir, como um
                                 circo. E diverte. E, como um circo (ou uma corte), traz dentro de si um palhaço (ou
                                 um bobo-do-rei), ou seja, uma vítima da chalaça e, igualmente, um trocista, um
                                 vagabundo, um implacável acusador.
 

A narrativa em O Equilibrista do Arame Farpado é plurifacetada, ou seja, várias vozes culturais dialogam, num processo contínuo de intertextualidade. O autor monta a narrativa com base nessa estrutura dialógica, fazendo referência à arte fílmica, utilizando nome de novela para nomear seus capítulos (“O Direito de Nascer”), citando músicas (“Diane”, de Paul Anka e “A deusa da minha rua”, de Nelson Rodrigues) e bandas famosas (Beatles e Rolling Stones), usando frases conhecidas de grandes filósofos (Nietzsche e Marx), além da intertextualidade com escritores como Drummond, Olavo Bilac, Edgar Allan Poe, James Joyce e, principalmente, Machado de Assis, que é mencionado, primeiramente, na dedicatória do livro:

Ao verme
que
primeiro roeu as frias carnes do cadáver
de
Joaquim Maria Machado de Assis
dedicamos
com saudosa lembrança
este
              ROMANÇÁRIO PÓS-ANTIGO  (OEAF, p.5)

                   A literatura carnavalizante tem como recurso fundamental de expressão a paródia. Esse discurso paródico, pleno de inversões, ironias, ambivalências, reverte para a literatura as formas sincréticas do espetáculo carnavalesco, estudado com profundidade por Bakhtin em seu livro sobre Rabelais.

 De acordo com Machado (1995, p.138), a paródia acontece quando “O autor serve-se do discurso do outro e muda-lhe a intenção. O discurso se transforma numa composição para duas vozes, uma não esconde nem elimina a outra”. No romance em discussão, verificamos a utilização do discurso paródico, principalmente no que diz respeito à atualização dos provérbios: “O pior cego é aquele que não quer usar lente de contato”(OEAF, p.18), “Pretensão e água benta batem até que furam”(OEAF, p.19) e “(...) quem é viúvo sempre aparece (...)”(OEAF, p.24)

Enquanto considerações finais, O Equilibrista do Arame Farpado caracteriza-se por apresentar uma narrativa anticonvencional e também pela diversidade de temas a serem investigados, sem que se chegue a esgotá-los. Enveredamos na ficção de Flávio Moreira da Costa, numa tentativa de explicar uma obra que, inicialmente, apresenta-se complexa e sem sentido. Porém, com a repetição das leituras, tornamo-nos parceiros da mesma esquizofrenia.

 




BIBLIOGRAFIA
 

ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. 28ª ed. São Paulo: Ática, 2000.
BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação Verbal. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
COSTA, Flávio Moreira da. O Equilibrista do Arame Farpado. Rio de Janeiro: Record, 1996. 
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 2ª ed. Rio de Janeiro: DP&A, 1998. 
LUCAS, Fábio. As entranhas expostas do romance. In: COSTA, Flávio Moreira da. O Equilibrista do Arame Farpado. Rio de Janeiro: Record, 1996. 
MACHADO, Irene A. O romance e a voz: a prosaica dialógica de M. Bakhtin. Rio de Janeiro: Imago Ed., São Paulo: FAPESP, 1995.

 

 


 

[1] Convencionamos a sigla OEAF, seguida do devido número de página, para aludir, daqui por diante, à obra O Equilibrista do Arame Farpado conforme indicação bibliográfica.

[2] Poeira: indivíduo brigão, irritadiço.

[3] Notamos a ênfase ao numeral “sete”, visto como um número cabalístico.

 

 

 

 

Elisalene Alves é Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade Federal do Ceará - UFC e Professora de Literatura Portuguesa na Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA.

 

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