como a poesia pode voltar a ter
     voz (?)

                 paulo de toledo

 

 

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou — o que é muito pior — por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um
( “Livros”, Caetano Veloso )

 

         No Brasil, quando um fato que causa algum tipo de comoção na sociedade acontece, e a imprensa precisa de alguém para dar um depoimento sobre tal fato, quem é chamado para dar uma opinião? Caetano Veloso. Brincadeiras à parte (brincadeira?), sabemos que em nenhum momento importante da vida brasileira nas últimas décadas (ou seria nos últimos séculos?) nenhum poeta foi chamado para dar a sua contribuição para a discussão de nenhum assunto relevante.

Quando algum político é pego com a boca na botija, quando algum adolescente filho de milionários mata os pais, quando algum jogador de futebol é encontrado portando maconha, quem é chamado para dar opinião? Não, não só o Caetano, mas também atores globais, jogadores de futebol, cantores de música popular, enfim, personalidades, gente famosa, aqueles da Caras, pessoas com “credibilidade” junto ao público.

E por que são essas pessoas as chamadas para declarar seus pontos de vista sobre assuntos que, na maioria das vezes, elas são incapazes de dar qualquer tipo de contribuição significativa?

A resposta seria: porque elas são conhecidas e respeitadas por uma grande parcela da população (aqui não cabe entrar no mérito de discutir o porquê de elas serem respeitadas).

Portanto, os poetas não são chamados para opiniar sobre nada importante porque eles não são conhecidos e, conseqüentemente, não podem ser respeitados por essa mesma parcela da população.

Logicamente, não estamos falando dos poetas mortos (até porque morto não dá opinião), aqueles que se transformaram em livro de vestibular ou em estátua de pracinha. Falamos dos poetas que estão por aí, fazendo seus poemas, publicando livros, escrevendo para revistas especializadas etc. etc. etc.

E por que esses poetas não são conhecidos?

Por que eles publicam seus poemas, basicamente, em livro.

E qual é a tiragem de um livro de poemas no Brasil? Em média, mil, dois mil exemplares, no máximo.

Como ser conhecido e reconhecido sendo lido por apenas dois mil leitores num universo de milhões?

Resumindo: o problema dos poetas é a mídia escolhida por eles para veicular sua arte. 

 

O livro e outras mídias 

Como sabemos, o livro há alguns séculos vem sofrendo a concorrência de várias outras mídias, como o jornal, o rádio, a TV e, hoje, a Internet. Por causa dessa concorrência, o livro tem mudado sua importância e sua função na sociedade.

Em nossa opinião, o livro, que antes era também uma mídia na qual as pessoas buscavam entretenimento (como na época do Romantismo), passou a ser basicamente uma mídia na qual se busca o conhecimento.

(A indústria cultural, se apercebendo desse novo caráter do livro, desenvolveu técnicas de marketing para também fazer do livro um objeto de entretenimento. Mas isso é assunto para outro momento.)

Se o cinema, o rádio e a TV são as mídias basicamente voltadas para o entretenimento, ler um livro foi-se transformando numa atividade ligada ao estudo e, por conseqüência, ligada à idéia de esforço. O que é perfeitamente compreensível, afinal para fruirmos a TV, o rádio e o cinema necessitamos apenas ficar passivos diante deles, deixando que a “informação” atinja nossos sentidos. Por sua vez, o livro exige que o manuseemos, que troquemos de página, que fiquemos atentos a todas as palavras para que não corramos o risco de perder “o fio da meada”. As outras mídias citadas são como uma mãe lendo-nos um livro na hora de irmos para a cama. Ler um livro é não ter a mãe para ler para nós. Com o livro, estamos sozinhos. E com o advento dos grandes veículos de comunicação de massa ninguém quis mais ficar sozinho. Muito menos, ficar sem a mamãe para ler as histórias de ninar.

Voltando: o problema da falta de importância da poesia na nossa sociedade é o livro. Enquanto a poesia ficar enclausurada apenas no livro, os poetas serão sempre aqueles sujeitos especiais mas que ninguém sabe para o que servem (ou mesmo se servem para algo).

 

Parênteses 1 

A poesia, nos últimos séculos, vem-se modificando e tornando-se cada vez mais um discurso voltado à sua própria materialidade, para falar como Jakobson. Principalmente, a partir do Romantismo, o discurso da poesia tem-se afastado da função referencial da linguagem e aprofundando-se mais e mais na função poética (tomamos aqui as definições jakobsonianas). O afastamento da referencialidade por parte da poesia contribuiu para afastá-la ainda mais do grande público, posto que a referencialidade tem a ver com a fabulação, com o “contar histórias”. E a poesia da modernidade, assim como certa prosa (Joyce, por exemplo), tem praticado cada vez mais a chamada “rarefação do enredo”.

Seria essa inclinação da poesia para um “voltar-se sobre si mesma” uma reação à maior capacidade das outras mídias de contar histórias? Para que a poesia iria narrar a guerra do Iraque, se a CNN pode fazer isso com maior naturalismo?

(Não queremos dizer com isso que o poeta não possa “abordar” o assunto que quiser, acreditamos apenas que a poesia deve ter outra função que não a de apenas “retratar” a realidade. Se Homero tivesse uma câmera, ele teria, provavelmente, feito um longa-metragem.)

 

Parênteses 2 

Apesar de a poesia não ter a importância na sociedade que pensamos que ela deveria ter, sabemos que a atividade de poeta ainda pode render algum tipo de poder a alguns poucos “escolhidos” (o problema é quem escolheu os escolhidos, quais os critérios etc. etc. etc.).

Mesmo publicando livros que não são lidos nem por 1% da população, há poetas que, com o seu “prestígio” entre editores, professores universitários e instituições de fomento à cultura (privadas, muitas vezes, e que fomentam com dinheiro público, como sabemos), conseguem converter esse prestígio em boas colocações profissionais, como, por exemplo, cronistas, resenhistas, palestrantes, oficineiros etc.

Mas aparentemente não há problema algum com isso. O poeta também tem que comer, não?

Porém, há, sim, um problema. O poeta, ao aceitar fazer parte desse mercado literário, ele apenas instrumentaliza a sua “aura” de poeta (sorry, Benjamin) para se tornar mais uma engrenagem da máquina capitalista. Afinal, ele, na sua função de resenhista / palestrante / cronista / oficineiro / etc., não mais desempenha a radicalidade subversiva de poeta. Ele é poeta apenas enquanto uma marca, uma distinção que lhe dá legitimidade para desempenhar seu papel de funcionário do mercado literário.

Alguém já viu algum poeta funcionário-do-mercado-literário questionar o mercado do qual ele próprio estaria participando?

Alguém já viu algum poeta ser pago (por uma daqueles instituições de fomento à cultura, p.ex.) para escrever um livro de poemas?

 

Propostas 

Posto que o problema da falta de importância da poesia na nossa sociedade é causado por ela, a poesia, ter o livro como seu veículo quase que exclusivo (sim, eu sei, há a Internet), a solução para este problema só pode passar por uma migração de veículo. 

        A POESIA DEVE ESTAR PRESENTE NOS VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA SENÃO ELA CONTINUARÁ SENDO UM OBJETO SEM FUNÇÃO NA SOCIEDADE. 

E como fazer isso?

Na minha opinião, os poetas devem deixar de pensar apenas em incentivos para a publicação de livros e de revistas de poesia (o que também é legítimo) e também começarem a pensar em criar espaços em outros veículos como a TV, o rádio e a Internet.

Por que os poetas não se unem para criar um programa de poesia semanal em alguma TV pública?

Por que não pressionar os grandes jornais para criarem espaços para a poesia?

Por que o Uol e o Terra não possuem uma página só para poesia?

Por que a Globo não coloca poemas nos intervalos comerciais, assim como faz com aquelas vinhetinhas assinadas por cartunistas?

Por que a TV Cultura não cria o “Poemas do Meio-Dia”?

Eu sei, vocês devem pensar que eu estou falando bobagem, que nunca a Globo ou o Estadão cederiam um espaço (que custa caro!) para a poesia. Eu sei também que os grandes veículos apenas utilizam a poesia como um produto “chique”, sofisticado, que serve apenas como “perfumaria”.

        Mas, pô, não custa tentar. Vamos falar alto. Vamos ao Ministério da Cultura. Vamos acreditar. “Andar com fé eu vou que a fé não costuma falhar”.

Enquanto a poesia ficar exilada nas páginas do livro, os poetas vão ter que se contentar em ver o “leãozinho” dando seus pitacos em pleno horário nobre.

E, o que é pior, a poesia vai-se tornar cada vez mais um produto para iniciados, um produto para uma elite. E isso só interessa àqueles que querem a alienação do povo e sabem que a poesia é a mais subversiva das artes.

 

 

[   intromissão famigerada: talvez seja necessário registrar aqui,
[    pela primeiríssima vez, que a posição do autor não reflete
[                     necessariamente a posição do presente sítio...

 

 

 

Paulo de Toledo (Santos/SP, 1970). Tem poemas, contos, traduções e ensaios publicados em vários sites literários e nas revista de poesia Babel e Sítio. Blog: paulodtoledo.blog.uol.com.br

 

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