Juízo
                                                              Final
                                                      nilto maciel

 


 

 

                          A cena representa praça de pequena cidade, totalmente às escuras, exceto o lugar onde se encontra o Mumificador, iluminado por vela ou lampião rústico. Aqui e ali, na penumbra, vêem-se pessoas imóveis, como estátuas, algumas bem vestidas, outras maltrapilhas.
A ação começa com o Mumificador sentado no chão, pensativo. Sua aparência é desleixada e pobre: descalço, cabelos compridos e desalinhados, mal vestido e sujo.
Da escuridão surge um vulto, vagaroso, que se aproxima da claridade e caminha em direção ao Mumificador. É o Mágico.


MUMIFICADOR:
Quem é você, criatura,
que tão mansamente chega,
feito visão, diabrura,
a me tirar meu sossego?

Não, não pode ser visagem,
não creio em assombração.
Deve ser homem em viagem,
perdido na escuridão.

MÁGICO:
Primeiro me apresento
– sou peregrino do Bem,
meu companheiro é o vento,
a chuva e o sol também.

Não me encontro perdido
nem fujo de lei nenhuma.
Se crime hei cometido,
perdoe-me a humana suma.

MUMIFICADOR:
Assim com palavras tantas,
todas estranhas a mim,
não sei se são de gargantas
ou de uma só que elas saltam.

Não me interessa seu nome,
se é Jesus ou Benjamim,
nem se carne você come
ou proteínas lhe faltam.

Na verdade, estrangeiro,
meu desejo é viver só.
Se você é viageiro,
suma já ou vira pó.

MÁGICO:
Se você não se aborrece,
digo, se agora cala:
uma palavra acontece
de comum na nossa fala.

Não bastasse esse indício,
sua rua realiza
de meu grande sonho o início,
de minha busca a baliza.

Não quero entrar de logo
no rol da estatuaria,
porque primeiro lhe rogo:
aplauda a minha alegria.

Deuses, como sou feliz!
Meu tempo, muito obrigado!
Mundo, por tudo o que fiz,
vivo o sonho mais sonhado.

Abrace-me, solitário,
comigo se alegre, ria.
Venha cá, estatuário,
curar a melancolia.

               (Como o Mumificador não sai de seu lugar, nem compreende a causa de tamanho
               júbilo, o Mágico, sempre a rir, como um louco, corre ao seu encontro e o abraça e o  
               ergue do solo.)

Mumificador (a debater-se nos braços do Mágico e aos gritos):
Largue-me, doido palhaço!
Solte-me, seu estrangeiro,
senão eu lhe mordo o braço.
Deixe-me em paz, ligeiro.

(O Mágico, assustado, larga o Mumificador, que, ofegante, põe-se a bradar):
Você deve ser demente,
quem sabe, vindo do asilo.

(0 Mágico sorri e se aproxima de novo do Mumificador, que se afasta e grita):
Nem um passo mais à frente.
Por favor, fique tranqüilo.

MÁGICO:
Está bem, medroso artista,
sou mesmo doido varrido.
Não devia dar na vista
meu júbilo incontido.

Adeus abraços e risos;
gritos, pulos, vivas, fora!
Não preciso mais de avisos,
sou visitante agora.

A culpa é toda minha,
não soube ser comedido.
Não peço uma desculpinha;
perdões rogo, arrependido.

Meu senhor estatuário,
grave erro cometi:
fui um grande salafrário,
com egoísmo apareci.

Eu lhe peço mil desculpas
por não dar os parabéns.
Como estou cheio de culpas!
Onde ando com a cabeça!

Você é também culpado.
Por que não me disse antes
ter tudo isto talhado,
estes eternos semblantes?

As aparências enganam,
como diz o próprio povo.
Vejo, de você promanam
as artes de um Fídias novo.

Se fosse Olímpia esta via
e o tempo o grego de antanho,
você esculpido teria
aquele Zeus sem tamanho.

Comparo você ao mito
de Praxíteles de Hermes,
a Escopas e a Lisito,
da escultura os germes.

Estas humanas figuras,
como lembram Laocoonte!
Que beleza de esculturas,
aquelas ali defronte.

Não vejo Vênus de Milo
encostada ao parapeito?
Meu amigo, seu estilo
é grego, não tem defeito.

(Corre a vista pelas figuras humanas imóveis.)
Aqueloutra é de Atena,
nenhuma dúvida vejo.
Que figura mais serena
de deusa em seu enlevo!

Desculpe a sinceridade,
mas juro que imaginei
quando entrei na cidade:
aquele é o zelador.

Ora, com esta aparência
de guarda de cemitério,
ninguém de boa ciência
vê em você um escultor.

Mas se você é artista,
aliás dos geniais,
eu me digo cientista,
como verá logo mais.

Alguns me chamam de mago,
feiticeiro, bruxo, diabo.
Não transformo vinho em lago,
nem carrego nenhum rabo.

Já sofri perseguição,
feito um público inimigo.
Não faltou condenação
a este seu futuro amigo.

Hoje sou judeu errante,
me desculpe a expressão,
a seguir sempre adiante,
desvalido o coração.

MUMIFICADOR:
Momentos antes falei
não querer saber de nomes,
porém agora mudei
totalmente de idéia.

Por acaso você é
o do milagre dos pães,
o Cristo de Nazaré,
o açoitado por cães?

Ou você é Galileu,
aquele da Inquisição?
Não me diga que é o judeu
da grande repartição.

MÁGICO:
Meu nome não interessa,
mas nenhum dos três sou não.
Minha ciência expressa
coisa diversa de pão.

MUMIFICADOR:
Nunca gostei de charada,
nem de adivinhação.
Diga de uma lapada
qual a sua profissão.

MÁGICO:
Então ouça: sou um deus,
pois dou vida às estátuas,
sejam de ouro dos judeus,
de barro e pau, como as suas.

Consegui este milagre
nos próprios templos sagrados.
Cristo bebia vinagre
na espada dos celerados.

Percorri as praças públicas,
busquei os grandes heróis
de monarquias, repúblicas
e transformei-os em nós.

Nos jardins das casas nobres
fiz de Vênus e Dianas
mulheres ricas e pobres,
bem casadas e mundanas.

Presenciei nos museus
mil outras transformações,
fossem eles europeus
ou das Unidas Nações.

Com isso, os adoradores
de ídolos se sentiram
feridos nos seus amores
e de insultos me feriram.

Zangados, os sacerdotes
revivem a Inquisição.
Não querem perder seus dotes,
seu poder de aquisição.

Pior do que isso tudo
é o mundo em pandemônio.
E como andarão de estudo
com Deus vivo e o Demônio?

Joanas D’Arc andam soltas,
ao lado de Tiradentes;
Minervas vivem envoltas
com antepassados tridentes.

Lampiões vingam suas mortes,
vivem Marias Bonitas
nos Nordestes e nos Nortes,
terras de suas desditas.

Sem supor as conseqüências
de meus milagres malditos,
revivi as existências
de ditadores proscritos.

Não são poucos os tiranos
ressuscitados e vivos,
persas, gregos e romanos,
todos eles muito ativos.

São Nicolaus e Luíses,
Henriques e Fredericos,
sem contar outros juizes
das causas dos sempre ricos.
(Pausa)

E o meu feitiço acabou,
virando contra mim mesmo.
Se feiticeiro eu sou,
já me fizeram torresmo.
(Pausa mais longa)

Mas todo mal traz um bem
em sua própria raiz.
Se me expulsaram de além,
aqui me acho feliz.

E eu que trago o sopro mágico,
dos deuses sabedoria,
encontro o homem mais trágico
da nova estatuaria.

São humanas, na verdade,
estas divinas figuras.
São de uma realidade
tanta que me dão agruras.

No entanto, não são vivas,
são apenas esculturas.
E eu fazê-las posso ativas,
soprar-lhes vidas futuras.

MUMIFICADOR:
Ouça agora de permeio
minha história de trancoso,
de vez que já não me creio
tão cruel e criminoso.
(Pausa)

Esta cidade sem nome
já teve ruas e praças,
escolas, padres, renome,
igrejas, dores, desgraças.

Teve também alegrias,
festas, comemorações,
em suas antigas vias,
a pulsar mil corações.
(Pausa)

Um jeito eu quis inventar
de me ver na solidão,
sem deixar de aqui estar,
sem fugir deste sertão.

Estudei artes do Egito,
em livros, com paciência,
a mumificação dita,
dos bálsamos a ciência.

Experiências tentei
em animais vertebrados,
e a todos eu transformei
em seres inanimados.

A seguir passei dos bichos
à minha velha mulher,
que hoje não tem caprichos,
nem me chama de qualquer.

Chegada a vez de meus filhos,
não tive nenhum receio
e apaguei-lhes os brilhos
de seus olhos de recreio.

Os mais íntimos amigos,
os compadres de batismo,
seduzi-os aos perigos
com livros de comunismo.

Os inimigos mortais
fulminei-os sem discurso,
e com os cidadãos demais
usei o mesmo recurso.

Não deixei ninguém de pé
nesta chacina de horror.
Veja, parecem até
estátuas de escultor.
(Ri, gargalha e, de repente, se faz sério)

Para um estranho qualquer
isto cheira a solidão.
No entanto, pode crer,
sinto-me na multidão.

É como se eu tivesse
altas horas acordado.
A você não lhe parece
ver o mundo dominado?
(Pausa)

Somos um ao outro opostos.
Você revive passados,
dá vida a formas mortas,
muda das gentes os fados,

de estátuas pessoas faz,
tem do sopro a ciência,
tal qual o Deus que se refaz,
e domina a onisciência.

O passado imobilizo,
trago a morte embalsamada,
o destino realizo
e dou forma esculturada

às pessoas e animais.
O meu sopro é de apagar
a chama dos vis mortais,
não da vida, é de matar.
(Pausa)

Somos, assim, inimigos,
na vida em tudo contrários,
embora tão parecidos,
mas sempre distintos, vários.

Vai além do impossível
a idéia de vivermos
unidos, no mesmo nível,
quer no mundo ou nestes ermos.

Assim, procure outro pouso
e me deixe sossegado,
no meu canto, meu repouso,
só, feito um mumificado.

MÁGICO:
Eu lhe peço uma dormida,
só por hoje, companheiro,
já que a noite vai perdida
e eu não tenho paradeiro.

MUMIFICADOR:
Durma ao pé desta parede
e não tente me enganar,
que eu deitar vou nesta rede
minha fome de sonhar.
(Põe-se a armar a rede entre as paredes do beco,
enquanto o Mágico procura se acomodar no chão)

MÁGICO:
Dormirei feito um menino,
sem malícia no olhar,
sonharei o meu destino,
meu incerto caminhar.

MUMIFICADOR (deitado na rede):
Último aviso vou lhe dar:
não se chegue aos mortos meus.
Se o fizer, vou transformar
em estátua os ossos seus.
(Pausa longa)

MÁGICO (sorrateiramente deixa seu canto,
aproxima-se da rede do Mumificador, olha-o e se dirige à platéia):
Ele dorme, o desgraçado,
esse monstro terrível,
esse homem desalmado,
cruel, bestial e incrível.

Sou de agir na claridade,
mas não vou deixar perdida
a rara oportunidade
de a estátuas tantas dar vida.

Cadáveres sei que são
todas estas criaturas,
mais humanas que o Adão
das sagradas escrituras.

Entretanto minha arte,
que outros chamam de magia,
já deu vida em toda parte,
mesmo ao barro de olaria.

               (Dirige-se novamente ao interior do ambiente, passa pela rede e se aproxima das
               pessoas mumificadas. Olha de cima a baixo a primeira múmia, toca-lhe as vestes, o
               corpo, faz gestos, como os de mágico, com as mãos. A suposta estátua desmorona aos
               seus pés, encolhida, morta. A mesma cena se repete com as demais múmias.
               Desiludido, o mágico caminha para junto à rede e se põe a bradar):

Eu fracassei, fracassei,
em meu saber pioneiro.
E eu que me julgava rei,
entre todos o primeiro.

Mumificador (saltando da rede):
Que diabo de gritaria
é essa, seu idiota?
Vá gritar em Alexandria,
ou tome já sua rota.

Não dormi com tanto grito,
com tanto palavreado.

(Percebendo as múmias no chão):
E que fez você, maldito?
Diga logo, desgraçado!

Onde estão minhas pessoas,
meus filhos e a mulher minha,
queridas amigas boas
e os inimigos que eu tinha?

(Agarra o Mágico; sacode-o)
Vamos, responda, urgente,
magicozinho chué,
o que fez da minha gente,
seu filho de pangaré?

(Pausa breve. O Mágico permanece
cabisbaixo e mudo. O Mumificador sorri):

Nada precisa dizer
como agiu com sua parca,
que eu sei bem o que fazer
de gente da sua marca.

(Lança sobre o Mágico um pó)
Tome lá sua poção,
aquela que me sobrou,
de seu direito o quinhão
do veneno que restou.

(O Mágico se petrifica)
Agora é você que jaz,
feito uma estátua de Atena.
Viverá perpétua paz,
eternamente serena.

Suas estátuas serão
de barro ou bronze de novo,
aos seus museus voltarão,
como galinhas ao ovo.

E você, de carne e osso,
será figura só minha,
maravilhoso colosso,
gênio que mágica tinha.
 

(Brasília, abril de 1983)

 

 

 

             

 

Nilto Maciel nasceu em Baturité-CE, em 1945. Foi um dos criadores, em 1976, da revista O Saco. Publicou, entre outros, Itinerário (contos, 1974); A guerra da donzela (novela, 1982); Estaca zero (romance, 1987); O cabra que virou bode (romance, 1991); Navegador (poemas, 1996); A rosa gótica (romance, 1997); Pescoço de girafa na poeira (contos, 1999); A última noite de Helena (romance, 2003). Edita a revista Literatura desde 1991.

 

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