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de óbitos                      
léo mackellene               

 

 

 

Deserto. Noite. No palco, duas poltronas e uma mesa redonda de centro entre os dois sofás com uma luminária sobre ela e uma garrafa de vinho do porto. Um aquário redondo de peixes dourados e alguns livros sobre a mesa. Cinzeiro.  Atores sentados em cada poltrona. Eva acende um fósforo pra acender um cigarro. Adão segura uma garrafa verde de vinho e bebe, vez por outra, com certo ar hipnótico, como se fixasse o olhar e o rosto em algum ponto além de si. Um foco suave de luz amarelada sobre eles. Um dos livros é um livro grosso de capa revestida de tecido velho um pouco rasgado e desbotado, O Livro do Destino, que tem as páginas em branco. Um ventilador escondido no lado esquerdo do palco sopra leve e folheia o livro aberto no chão.  

Adão sussurra

A música acabou. É silêncio agora. Pausa. Sussurra. Tá escutando alguma coisa? 

Eva sem levantar os olhos. Negativamente.

            Hum-hum. 

Adão parando. Levantando a coluna, como se com medo de olhar pra trás. Espantado.

            Ói! (entenda-se “olha!”) 

Eva

            Tô ouvindo nada. 

Adão

Nem eu! 

Breve pausa. Toma um gole. 

Adão começando um jogo

O tempo tá lento, hoje!  

Eva depois de uma breve pausa, entendendo o jogo de adão

Mais que lento, parado.  

Adão

Mais que parado, morto. 

Eva

Mais que morto... é.... não-nascido. 

Adão sorri divertido

Mais que isso, inascível. 

Eva

Mais ainda, inconcebível. 

Adão

Mais: ...nem ...sequer ...sonhado. 

Eva pára, olha Adão de soslaio e ri debochada e reprovativa. 

Adão

Que foi?! Você só sabe rir de mim! Já tá achando que é besteira o que eu tô dizendo, é? Que mulher chata! 

Eva dando um trago no cigarro

Eu digo é vaaaalha!!! Que homem louco! prendendo o ar depois soltando a dizer com ar de deboche. Arremedando Adão.  É silêncio agora! A música acabou! 

Adão

            Tô falando sério, mulher!!! pausa Porra!!! Só sabe me criticar, me criticar... 

Eva calmamente

            Você fala demais. 

Adão

            E tu, que num fala é nada?! 

Eva

            Falar o quê? De que adianta falar se não se pode dizer a verdade? 

Adão voltando-se para ela.

Que verdade? 

Eva quase que para si

Ele já disse tudo mesmo! 

Adão

            Ele já disse tudo! Ele já disse tudo! Quem foi que inventou essa história? 

Eva

Meu filho, não acontece nada! Isso não te diz nada, não? Deus morreu ó... estalando os dedos ...faz tempo! 

Adão

            E...? 

Eva sempre brando

            E... que ele já disse tudo. Não deixou mais nada pra ninguém dizer! 

Adão sempre irritado

            Ora, que conversa!!! 

Eva responde com um gesto de boca com desdém 

Pausa. Ficam os dois fumando. Eva vai até o livro do destino e procura uma página qualquer, ao acaso, sem tirá-lo do chão, e lê em tom sereno. 

A criação do mundo não terminou até que Deus morreu. Somente a morte de Deus pôde aperfeiçoar o universo: de seu crânio surgiu a abóbada do céu, e da sua pele a terra que cobre os campos; de seus cabelos veio toda a floresta. Sua respiração se transformou em vento, sua voz, em trovão, seu olho direito se transformou na lua, seu olho esquerdo, no sol. Da sua saliva e do seu suor veio a chuva. E dos vermes que cobriam seu corpo surgiu pronuncia fechando o livro sem olhar para ele. Pronuncia lentamente, como se revelasse uma imensa verdade. a humanidade. 

Eva fumando inclinando-se para trás recostando-se sobre o braço estirado sobre a mão apoiada no chão. Assume um tom mais natural. Depois de uma breve pausa,

            Tu, que gosta de falar, devia contar uma história aí! 

Adão sem tirar os olhos do chão e irritado

Não sei contar histórias. 

Eva com certo ar de admiração

            Não sabe? 

Adão

Não sei contar histórias. Que história? Aos poucos vai voltando-se para dentro de si. Ainda não existe história. Nós é que vamos começar a história. Não foi isso o que Ele disse? Não ouviu não aquilo que Ele falou? Tudo começa agora, com a gente. Recitando alto e caminhando com tom de lamentação de novela mexicana Tudo é agora. Depois não há. Existe apenas essa hora. Existe apenas o que está. 

Eva interrompe-o com um baforejo de desapontamento e reclinando-se para o outro

Essa história não! Outras histórias, homem! Tu não sabe não outras histórias, não, é? Só sabe essa? 

Pausa. 

Adão

            Sei uma piada, quer ouvir? 

Eva sorri

            Vai, diz aí! 

Adão

            A vida. Ri exageradamente. 

Eva

            Hum?! Como é? 

Adão

            A vida, ora bolas!!! 

Eva

            Não entendi. 

Adão

            Há coisas muito diferentes nessa vida... 

Eva

            Ahn! Tipo o quê? 

Adão

            Tipo a mulher pela qual a gente se apaixona .... e a mulher com a qual a gente se casa. E ri. 

Eva

            Huuum! Sem graça! 

Adão rindo

            Mesmo sendo a mesma pessoa! 

Eva Interrompendo

            Ei! Pra onde é que a gente vai, hein? 

Adão pára de rir 

Breve pausa 

Eva como se refletisse e estivesse de frente pra uma verdade imensa, pausadamente

Há dois deuses acima de nós disputando o controle de nossos atos: balançando a cabeça positivamente o destino Pausa brevíssima. Última frase: término do cigarro. Aperta o cigarro no chão e diz e o acaso.  

Pausa. Adão toma um gole do vinho e começa a sorrir, no meio do gole, depois a rir, a gargalhar... 

Eva olhando-o espantada e já quase rindo

            O que foi?! 

Adão não consegue parar de rir, tentando dizer algo mas não consegue. 

Eva para si

Eu, hein?! Mostra-me um homem capaz de rir sozinho e eu te mostrarei um espírito livre. Voltando-se pra Adão irritada A gente precisa saber o que vai fazer, Adão, já que a gente foi expulso de lá. Pausa. Pr’onde é que a gente vai?! 

Adão rindo

Pra onde a gente vai eu não sei! Mas com falso entusiasmo, irônico não é dos pés que nascem os caminhos? Continua a rir...

Eva

            De que é que tu tá rindo, ô rapaz? 

Adão aumenta o tom da risada. 

Adão tentando se recuperar

            É que não restou mais nada pra gente fazer a não ser... rir. E ri novamente. 

Eva fazendo menção de rir

            ãh?! 

Adão

            Rir, criatura! Rir! Só rir! 

Eva

            Mas de quê? 

Adão rindo

            De nada; só rir, ué! empurrando Eva Vai, ri aí, vai!!! saindo puxado por Eva
            Tá vendo? O riso é contagioso.
 

Pausa em que os dois riem um bocado. 

Eva retomando a devida serenidade

            Eu, hein?! Existem muitas formas de desespero! Rir é a maior delas! 

Adão assumindo tom sério

            Tu acha que Ele receberia a gente depois de toda essa merda? 

Eva

            Ele quem? 

Adão

            Ele, ué!!! Tu já viu ele alguma vez? 

Eva adquirindo um tom sombrio

Dizem que você enlouquece. É sério?                         

Adão

            Dizem, né? Dizem por aí que sim! A gente só ouvia vozes! 

Eva corrigindo. Delay na voz.

A gente ouvia mesmo era a gente! 

Adão deixa repetir a falar de Eva no eco umas três vezes. Fala desolado

Agora nem isso! 

Eva concordando

            Agora nem isso! 

Adão toma um gole. Eva, um trago. Levantam-se e andam por algum tempo. 

Adão com certo desespero

Esse silêncio é ensurdecedor. E sai andando pelo palco. Parece que o silêncio tá o tempo todo dizendo “fale alguma coisa! Faça alguma coisa!” 

Eva olha pra ele meio que mal entendendo e faz uma boca de desdém

             Mas o que há mais pra se fazer? O que mais a gente pode falar? 

Adão

            Recomeçar, talvez! 

Eva

            “Recomeçar” você diz. Começar, você quer dizer, não? 

Adão

            Recomeçar, começar. Tanto faz! Continuar, continuar. Nada mais... 

Eva rindo debochada, como se adão estivesse louco

            Continuar o quê? 

Adão

            A vida. 

Eva

A vida é inevitável, meu querido! Já vem por si só. Agora é ela quem assume um tom de novela mexicana É uma força que vem, que está, aparece e vai. Nos arrasta pra longe, pra fora, pra além. Vamos! Ruge a força a repetir. Vamos! E temos que ir. 

Adão para fora, andando ao redor, espantando-se

            Eu já vim aqui antes, reconheço esse lugar. 

Eva balança a cabeça reprovativa 

Adão

            Não. É sério! 

Eva

            A gente vai mofar aqui, pelo jeito! 

Adão pára e olha pra Eva

            A gente mofa de qualquer jeito, mulher! 

Eva acaricia o próprio rosto, como se na dúvida de que ainda é jovem. Com medo de envelhecer.

            Você me acha bonita?! 

Adão saindo andando. No momento da pergunta, ele pára, olha-a e, retomando a caminhada, diz com seriedade...

A intimidade dilui todas as belezas, Eva! Mudando de assunto e de tom E aí? Pra onde é que a gente vai? 

Eva exaltando-se

            E eu sei lá! Pra lua! 

Adão

Já fomos pra lá. Não tem nada por lá! Uma lua habitada por bandeiras inúteis. É isso o que tem por lá! 

Eva um tanto menos entusiasmada

            E se a gente se beijasse? 

Adão

A gente já fez isso, Eva! Lembra não? E da última vez.. (com certa repulsa) huuuummm! Sei não! Um beijo e o universo começa. 

Eva depois de uma breve pausa e já quase sem vontade

            Quer dançar? 

Adão

            Não tem música, criatura de Deus! A música acabou... é silêncio agora. 

Eva irritando-se. Saindo para sentar no chão.

Sujeito chato!!! Arriégua!!! Como é que eu vou agüentar esse cara a eternidade todinha? 

Adão

Nenhuma canção pode soar para sempre, minha linda! Somos mortais, não lembra, Eva? A eternidade é uma invenção dos contentes. 

Eva

            Graças a nós! 

Adão repete furioso

            Graças a nós! Graças a nós é silêncio agora!
            A música acabou. Não tá ouvindo? 

Eva

Não. 

Adão desiludido

            Pois é! Não tá ouvindo... porque acabou!

Eva

            Como você sabe? 

Adão

            Sabe o quê? 

Eva

Que acabou, ora essa! 

Adão

            Ôxi! É só ouvir! 

Eva

E alguma vez você ouviu alguma coisa além da voz d’Ele? Pausa E se a música nem tiver começado ainda? 

Adão mal acreditando

            Não. Não mesmo! 

Eva faz careta de reprovação. Depois de um tempo razoável, diz

             Ora, como não?! Vai me dizer que isso não é possível? Vai ver, a gente passou a vida
             inteira com tanto medo que nem reparou se de fato havia ou não havia música. E se
             nada ainda tiver sido dito? E se a música, na verdade, ainda nem tiver começado?!
             Espantando-se.
Ói!

Adão

            O quê?! O quê?! 

Eva

            É o fim... 

Adão

            É o quê?! 

Eva

            Posso ouvir o som do futuro chegando. Tu não? 

Adão apruma a audição. 

Eva

            Ouve. 

Adão

Não escuto é nada! 

Eva

            Nem eu! Mudando de tom E aí? Pr’onde é que a gente vai? 

Adão

Temos duas opções. Uma: ficamos juntos. Vivemos juntos. Com gestos obscenos. Multiplicamo-nos! E aí começa a humanidade! 

Eva interrompendo

            A gente já sabe no que isso vai dar, Adão! A gente já sabe! 

Adão

            Você sempre contra os meus planos! Eu não sei não. No que é? 

Eva aponta a platéia com os lábios inferiores. Adão caminha até a ponta do palco e olha, olha de um lado pro outro. Desce, vai até a platéia e vai conversando besteira com as pessoas. Cumprimentando. Elogiando uma camisa ou outra. Elogiando uma gravata. Elogiando a maquiagem exagerada de alguma madame. Elogiando o topete de algum senhor, etc. acordando alguém que esteja dormindo. Depois retorna para o palco e diz para Eva. 

            É! Tem razão! Não vai dar em boa coisa, não! 

Eva desolada

            Pois então! E agora? 

Adão

            Agora só nos resta a segunda opção. 

Eva

            E qual é a segunda opção? 

Adão com entusiasmo

            Vamos todos pro Inferno!!! 

Música de carnaval. Os atores descem do palco e arrastam as pessoas para dançar o carnaval. Música, confete, tambores, serpentina, etc. Depois de algum tempo, os atores voltam pro palco e a música vai cessando lentamente. Os dois se sentam. 

Eva

            Ai! Ai! E agora? 

Adão

            Agora nada. Agora é esperar. 

Pausa grande. Música montagem com o início de “O pulso” de Arnaldo Antunes. A música pára. 

Eva sussurra

A música acabou. É silêncio agora. Pausa. Sussurra. Tá escutando alguma coisa? 

Adão sem levantar os olhos. Negativamente.

            Hum-hum. 

Eva parando. Levantando a coluna, como se com medo de olhar pra trás. Espantado.

            Ói! (entenda-se “olha!”) 

Adão

            Tô ouvindo nada. 

Eva

Nem eu! 

Breve pausa. Toma um gole. 

Adão começando um jogo

O tempo tá lento, hoje!  

Eva depois de uma breve pausa, entendendo o jogo de adão

Mais que lento, parado.  

Adão

Mais que parado, morto. 

Eva

Mais que morto... é.... não-nascido. 

Adão sorri divertido

Mais que isso, inascível. 

Eva

Mais ainda, inconcebível. 

Adão

Mais: ...nem ...sequer ...sonhado.

 

 

 

             

 

Léo Mackellene é professor de Literatura Comparada e de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na Universidade Estadual Vale do Acaraú. Tem poemas publicados na revista Arraia Pajé-Urbe (nº 3) e textos em impressos alternativos.

 

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  Alice                       Arrabal                       Glaydson

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