uma estação
                          no aquário
                          carlos besen

 

 

 

 

para Fabrício Carpinejar                                                                                 



Pisando como criança incauta,
o trem organiza a água.

Abrindo de luz a boca,
anda como riacho indiferente ao mar.

O trem ergue a crista
do assobio de metal,

é um galo que esqueceu o pátio
em que desperta apitando para o milho.

O trem marinho se move
como arcada dentária,

se dobra como isca à guisa.
José, João, Maria:

nós fisgamos o trem,
desjejum da manhã na cor do rio.

Há uma vergonha de vapor,
o trem fecha as portas para esconder

que tem café com céu
para prosseguir com fome.

O trem se isola como mão fechada,
anel de limbo.
 


João na pele de José,
cada passageiro se encosta

no fio da respiração.
Maria canta chão, cada som

(uma tosse, um suspiro)
já é ruído, punhal.

Cada gomo de água demarca
território, gula de sede.

As línguas só se mostram como faca,
João, Maria e José

se contentam em sentar e permanecer
eretos como tubos de coral

que pendulam como alga.
João espera a sala de desembarque,

José na paisagem toma o trem
como sala de espera,

Maria desponta: aquário,
a sala de espera do trem

é uma televisão de barco.
A saída que não se aproxima

é lâmina engolida,
a língua devolvida à carne

sela, silêncio, as cinzas dos trilhos.
O trem não encontra luz no fim do túnel,

Maria, José, João,
o trem é a luz azul do túnel.
 


Sem frear a água da memória,
a lucidez, João, Maria, José,

abre portas como janelas
sem escuro no convexo.

A vida resfolega em atropelos,
logo a lucidez reencontra porão.

A água que balança
imita a onda do fogo,

Maria levita como pluma de brasa,
Maria se pendura nos ferrolhos do trem

como peixe em árvore de prata.
O trem abrindo o rio

corre os caminhos de seiva
na copa de Maria,

e José e João despertencidos
são sementes sobre o redemoinho.

Maria tem galhos
para interrogar os vidros,

Maria tem dedos de folha vária
que se decepam no irrespondido,

Maria não se distingue
entre raiz e tronco e caule e musgo,

Maria ébria como um fruto
conservado na calda,

Maria vasculha seu rosto
no vento que se afoga,

Maria perde os sapatos de concha,
Maria descalça em seu vestido de água,

Maria, uma árvore sem avesso:

Mariárvore, âncora esquecida de começo.
 


O trem pára seco,
estanque como fotografia,

a água é um negativo:
João, José,

o trem é uma árvore deitada
seguindo caminho de estação:

José, João, o trem desarvorado
na gaveta da espuma:

- O que não guardamos
ainda nos aguarda.

 

 

             

 

Projeto Transeuntes - Intervenção de música e dança que acontece ao vivo uma única vez em determinado espaço público de Porto Alegre (no presente caso, na estação rodoviária do Trensurb), quando é então gravada, fotografada e registrada por um escritor. Depois, no mesmo local, ocorre a exposição desse material, deixando ali aberta a janela poética criada naquele instante. Ficha técnica - Thais Petzhold (dança) e Laura Leiner (música); Fernanda Chemale (fotografias); Cassiano Griesang, Paulo Figura e Paula Paz (cinegrafistas); Carlos Besen (texto); Renata Nascimento e Paulo Figura (produção de set); Tiago da Rosa (edição de vídeo); Paula Lix (arte final); Manoel Zanini (produção executiva); Thais Petzhold e Laura Leiner (direção geral, criação e produção).

Carlos Besen (Porto Alegre-RS, 1980). É bacharel em Filosofia pela UFRGS, onde também realiza pós-graduação. Detentor do Prêmio Palco Habitasul - Revelação Literária na Feira do Livro, em 2004 e 2005. Livros inéditos: Desarvorar e Uma luz, água Láctea. Blogs: naselva.com/besen e algaravaria.blogspot.com

 

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