Encontro com os poetas da Geração de 45
                          
(Epistolografia no Neomodernismo Brasileiro)
   vicente martins

 

 

A correspondência constitui uma                                             
das formas mais legítimas e palpitantes de                                             
expressão do humano                                             
( Cassiano Nunes )                                             

 

O presente trabalho refere-se a um estudo de natureza epistolográfica baseado no registro de correspondência, iniciado, em 1985, com poetas da Geração de 45. No início do intercâmbio postal, as cartas nasceram de uma necessidade que tive, então na condição de estudante do Curso de Letras da Universidade Estadual do Ceará (UECE), de dialogar e aprender com os poetas neomodernistas; posteriormente, superada a necessidade dialógica, passei a configurar um interesse acadêmico pela epistolografia enquanto gênero literário, de importância capital na crítica literária contemporânea.

Dividimos nosso texto assim: 1) a sala de leitura como ponto de partida; 2) contexto sócio-cultural da Geração de 45; 3) a neomodernidade da Geração de 45 e  d) cartas dos poetas, onde apresentamos excertos de algumas cartas, fruto do intercâmbio que mantemos com alguns dos  poetas da Geração de 45.

À primeira vista, com o prenúncio da sociedade informática, a idéia que muitos têm é de que o gênero epistolar e a arte de correspondência já estão superados pelas novas tecnologias eletrônicas. Na verdade, a sociedade informática fortalece o intercâmbio através dos recursos on-line de conversação. Como bem assinala Cassiano Nunes, quanto mais a sociedade se moderniza, mais a correspondência se intensifica, se valoriza e se conserva. Daí, dizer-se que a arte de correspondência nasceu do pragmatismo (NUNES: 1982, p.69). Em substância, a carta é expressão do diálogo humano.

Esta nossa preocupação acadêmica com cartas vem se forjando há mais de duas décadas, resultado de intenso e diligente intercâmbio epistolar com poetas e escritores brasileiros. Desde adolescente o  intercâmbio postal me fascina bastante. Cartear também abre (e abriu-me) horizontes.

A consciência de que a melhor forma de ingressar no mundo do trabalho é pela via do concurso público ou processo seletivo veio quando, através de uma carta, em 1982, escrevi para o poeta e escritor cearense Eduardo Campos solicitando emprego no serviço público e recebi um “não” do poeta com a mais providencial justificativa: “(...) Não tenho como abrigar sua inteligência na minha empresa. Nem como remunerá-la. A administração pública, a quem servi com dedicação, falhou-me na única reivindicação que postulei para pessoa de minha família. (...) Participe de quantos concursos aparecerem. E estude. E lute. Não é tempo de depor as luvas. Não sei se o decepciono. Se involuntariamente o faço mais triste, me desculpe. Tenho, em primeiro lugar, compromisso comigo mesmo de ser sincero. Estou convencido de que você vai obter o que deseja. É só questão de paciência e tempo (14.9.1983)

Assim, a carta traduz muito desse diálogo sincero e prazeroso. Tudo começa com a remessa da carta e a partir daí ficamos numa expectativa febril de reposta. Passa o tempo e um dia x, manhã ou tarde, o grito do carteiro do bairro é a síntese do estado de espera: “Correio!”. Começamos, então, a desfrutar o prazer de receber o “pacote”, tocar na folha ainda com cheiro de tinta fresca e recebemos a remessa como se fosse um néctar dos deuses. O diálogo, por meio de cartas, é o milagre da linguagem verbal.
 

1. Tudo começou na Sala de Leitura do Colégio

Em 1979, ainda aluno do ensino fundamental no Colégio Militar de Fortaleza fundei, com o colega de sala de aula Daniel Hortêncio de Medeiros, o Grupo “Jovens da Literatura Moderna”.

O local escolhido para funcionar a sede provisória do grupo foi a biblioteca do Colégio, mas longe dos olhares “tirânicos” do seu Juarez, ex-combatente da Segunda Guerra Mundial e que não admitia um só ruído nas dependências da Biblioteca. A primeira idéia saiu do Hortêncio: “Vamos lançar um Manifesto!”.  Mas a palavra Manifesto era proibida no Colégio Militar (afinal, vivíamos, no País, em pleno clima de ditadura militar) e aí resolvemos de forma silenciosamente “subvertora” escrever para os escritores brasileiros, numa espécie de apelo à solidariedade dos literatos, contando-lhes de nossa “sociedade secreta”.

Aliás, a idéia de ser, também, escritor ou poeta, no contexto de Colégio Militar, quando não despertava risos dos colegas de sala gerava um clima de desconfiança de nossa virilidade: “poeta é coisa para baitola” ou coisa do tipo “militar só é pra macho”. Mas onde os escritores? E veio uma resposta óbvia: na biblioteca.

E assim procedemos: começamos a investigar de estante a estante os “escritores disponíveis”, isto é, vivos e com endereço para correspondência postal. A primeira foi Lúcia Pimentel de Sampaio Góes, grande escritora de livros de Literatura Infantil.[1] A partir daí, escrever para os literatos foi um hobby que se transformou interesse acadêmico na fase universitária.  Foi no Curso de Letras da UECE, que, sem Hortêncio (viajou para fazer Direito em Curitiba), entrei em contato com a Literatura Brasileira e travei meus primeiros contatos postais com os poetas da Geração de 45. Mas que contexto geracional foi o de 45 no mundo das letras?                                              

2. Contexto sócio-cultural da Geração de 45

A geração de 45, diferente do movimento de 1922, surgiu num momento histórico significativo no Brasil e no Mundo. Não foi um movimento de ruptura radical com a estética literária do século XIX, da estética do passado, como fizeram os poetas de 22, mas uma revalorização do passado eterno e da valorização da palavra, como instrumento maior da poesia (MARTINS: 1945, P. 147).

No plano político, a história social da geração de 45 é marcada, pois, pelo ano de 1945, em que termina, no mundo, a Segunda Guerra Mundial e, no Brasil, dá-se o fim da ditadura de Vargas. O mundo passa a viver a guerra fria, e o Brasil um período democrático que chegaria à euforia no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961).

Enquanto os escritores de 22 foram mais exigidos politicamente, os poetas de 45 são menos exigidos social e politicamente. Se os poetas de 22 são radicais no trato poético, os poetas de 45 são racionais e têm a sobriedade lírica como atitude poética. Os poetas de 45 buscam uma renovação literária cuja preocupação principal é a própria linguagem.

O caminho, porém, não foi o de reformar, mas o de afirmar valores estéticos. Assim, evidencia-se, desde logo, a tendência formalizante dos poetas da Geração de 45, o que deu margem, segundo alguns críticos literários, a especulação do reaparecimento de um grupo  mais neo-conservador e classicizante, de modo a sugerir uma restauração da estética parnasiana. Gerou-se aí um grande equívoco.

Os poetas da Geração de 45 não são parnasianos nem neoparnasianos. Os parnasianos são neoclássicos e têm suas características bem definidas. Os poetas da geração de 45, ao contrário, são neomodermos e buscam, na herança da modernidade, o universalismo temático, o senso de medida do verso e a dicção literária coerente com o conceito de poesia como arte, caracterizado pelo ritmo e pelo sentido. Para estudiosos como Alfredo Bosi, os poetas de 45 traduzem uma oscilação entre o puro estetismo subjetivo e a poética participante e experimentalista. (BOSI: 1993, p.521)

A palavra escrita (para alguns críticos, o palavreado) é marca substantiva na poesia da Geração de 45. Há uma extremada atenção dada pelos neomodernistas ao problema vocabular da poesia. Concebem a palavra escrita como elemento essencialmente da poesia.

A valorização da palavra, com certeza, tem levado  muitos críticos literários a verem na poesia da Geração de 45 ideais parnasianos.  A afirmação parece se sustentar na constatação de que os poetas de 45 partem da linguagem como ferramenta básica da criação literária. É o que se convencionou denominar de tendência neoparnasiana.  Há uma corrente de críticos literários que asseveram que os escritores da Geração de 45 fizeram uma adesão explícita, no plano poético, à tendência neoparnasiana da época, excepcionalmente rompida com a poema-objeto de João Cabral de Melo Neto. Hoje, porém, teórico como Milton de Godoy Campos relativiza essa associação entre a Geração de 45 e o Parnasianismo. (CAMPOS: 1985, 161).

O cultivo do poema não é decisivo indício de identidade entre a geração de 45 e o movimento parnasiano. O compromisso estético dos poetas da geração de 45 foi o restabelecer o apuro formal e vernacular. Isso não os torna neoparnasianos, mas neomodernos

O weltansechauung[2] da Geração de 45 é radicalmente diferente dos parnasianos . Segundo Milton de Godoy Campos, os parnasianos viam na arte poética um trabalho artesanal como fez Olavo Bical no poema Profissão de Fé, de cunho elitista, a obra da Geração de 45, ao contrário, bem representada pelo poeta Domingos Carvalho da Silva, volta-se a uma atitude de cunho político, reveladora da angústia existencial, do choque de pensamentos contraditórios, os problemas de linguagem e as mazelas sociais e humanas.

O poema Canto em Louvor do livro Rosa Extinta, publicado em 1945, revela bem a atitude neomodernista,  resultante das inquietações do século 20:

Quero a poesia em essência
abrindo as asas incólumes.
Boêmia perdida ou tísica,
quero a poesia liberta,
viva ou morta, amo a poesia.
Poesia lançada ao vento
quero em todos os sentidos.
Despida de forma e cor,
Repudiada, incompreendida,
quero a poesia sem nome,
feita de dramas gigantes.
Quero ouvir na sua voz
o canto dos oprimidos:
usinas estradas campos,
quero a palavra do povo
transfigurada num poema.
Quero o meu canto sobrenade
ondas revoltas do mar
e alcance todos os portos
e beije todas as praias!
Quero a poesia sem pátria
banida pobre extenuada,
a poesia dos proscritos,
negra ou branca, amo a poesia!
Quero a palavra fluente,
viva e inquieta como o sangue.
Pura ou impura eu reclamo
A poesia do momento,
filtrada exata constante
 

3. O neomodernismo da Geração de 45

A construção do conceito de Geração de 45 deve-se a pelo menos quatro personalidades do mundo literário: Sérgio Milliet, Tristão de Ataíde, Péricles Eugênio da Silva Ramos e Domingos Carvalho da Silva.

O ensaísta Sérgio Milliet apontou, em 1946, a presença de poetas de uma nova corrente que tentava voltar ao equilíbrio das construções poéticas.

A poesia do poetas de 45 se consolidou como expressão  de lirismo nobre, sobriedade poética e decantação voluntária. Sérgio Milliet atribuía aos poetas da geração de 45 os seguintes traços: a) revalorização da palavra, b) a criação de novas imagens; c) a revisão dos ritmos e d) a busca de novas soluções formais.

Um ano depois Tristão de Ataíde assinalou a aparição de um movimento neomodernista na literatura brasileira. Coube, também, ao ensaísta classificar a poesia posterior à Semana de Arte Moderna em três fases: a) de 1922, denominada Modernismo; b) 1930, pós-modernismo e c) 1945, neomodernismo. Portanto, a denominação de neomodernistas está respaldada pelo crítico Tristão de Ataúde e tem o respaldo teórico-literário de Domingos Carvalho da Silva, porta-voz do grupo.

Em 1945, artigo de Péricles Eugênio, publicado na Revista Brasileira, confirmando o novo período da poesia moderna, reação veemente de Oswald de Andrade. Já em novembro de 1933, em carta a Afrânio Zuccolotto, que posteriormente veio fazer parte do grupo de 45 (com ele, também  mantive intercâmbio postal), Oswald de Andrade reagia à proposta da revista denominada Ritmo, reagindo assim: “Numa era sincopada e arritmíca, como a nossa, esse nome só podia brotar em gente que atola no creme de ilusões dos antigos compassos”.

Somente a partir de 1948, os neomodernistas adquiriram uma consciência de geração. Tinham uma atitude comum: a) busca de uma expressão pessoal e não repetição do temário e das fórmulas verbais da geração de 1922. Diferente da atitude dos poetas de 22, os poetas da geração de 45 têm quase total desinteresse pelos temas político-sociais.

A Geração de 45 sofreu influência dos poetas de 22, mas, a partir de 1946, exerceu influência nos poetas remanescentes de 1922, que passaram a escrever uma poesia de maior preocupação estética e de amplitude mais universal, mais humana, e menos paisagística.

As tendências neomodernistas foram manifestas, inicialmente, através de Congressos e Revistas. Quatro Congressos foram importantes: os dois primeiros, em Recife, denominado I Congresso de Poesia do Recife, em 1940 e o II, em 1941. Em 1942, houve o Congresso de Poesia do Ceará e em 1948, o I Congresso de Poesia de São Paulo, este último de grande importância na afirmação geracional do grupo.

As Revistas que deram suporte aos poetas foram disseminadas em vários Estados da Federação: no Ceará, a revista José; Região, no Recife; Joaquim, em Curitiba e Orfeu, no Rio.

A revista Panorama da Nova Poesia Brasileira (Rio, 1951), de Péricles Eugênio da Silva Ramos, foi a primeira antologia de poetas neomodernistas. A partir, de 1947, a Revista Brasileira de Poesia foi porta-voz do movimento neomodernista. Passemos agora a ler excertos de cartas recebidas, por mim, de poetas de 45.
 

4. As cartas dos Poetas da Geração de 45

4.1. Domingos Carvalho da Silva – Nasceu em Portugal, em 21 de junho de 1915. Teve uma atuação destacada na fase polêmica, de afirmação da poesia neomodernista. Durante a realização do 1o Congresso Paulista de Poesia, em 1948, apresentou a tese acerca da “Geração de 45”, designação que foi o primeiro a usar.

Meu primeiro contato com poeta começou em 1985, quando aluno do Curso de Letras da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Durante as aulas de Literatura Brasileira (Modernismo), ministradas pela professora Eurides de Freitas Pitombeira, fui estimulado a iniciar o intercâmbio com os poetas.

A partir do livro Literatura & Linguagem, de Nelly Novaes Coelho, fiz um levantamento dos poetas da geração de 45. Fui estrategicamente à biblioteca e, após uma exaustivo exame de revistas literárias, deparei-me com a Revista de Poesia e Crítica, editada por Domingos Carvalho da Silva e em seguida entrei em contato com os membros da Revista: Cyro Pimentel(SP), Domingos Carvalho da Silva(Brasília, DF), Afrânio Zuccolotto (SP), Anderson Braga Horta(Brasília,DF), José Paulo Morteira da Fonseca (RJ) e Lago Burnett (RJ), que enviaram livros para minha apreciação. Na lista dos nomes, estavam, também, Péricles Eugênio da Silva, Ledo Ivo, Gilberto Mendonça Teles, Diana Bernardes, Artur Eduardo Benevides, Valdemar Lopes, José Jézer de Oliveira e Antônio Fábio Carvalho da Silva, que, por qualquer motivo, não estabeleceram o intercâmbio postal.

Na Biblioteca do Centro de Humanidades da UECE, anotei o endereço do poeta Domingos Carvalho da Silva e remeti-lhe uma carta solicitando suas obras poéticas e propus uma “amizade” por intercâmbio postal. Uma semana depois, o poeta responde assim: “ Meu jovem amigo: foi com satisfação que li a sua carta de 18 do corrente. Vejo, pelas suas palavras, que a “ Revista de Poesia e crítica”, como o trigo da parábola famosa, nem sempre cai em terra sáfara. O objetivo – meu e dos meus companheiros da R.P.C – é justamente atingir o escol intelectual dos jovens, nesta hora em que os princípios da estética literária vêm sofrendo as mais constrangedoras deformações”.

Na Carta, Domingos Carvalho faz ainda referência ao poeta cearense Artur Eduardo Benevides, da Geração de 45, integrante do Conselho da Revista de Poesia e Crítica, para que o procure e solicite números atrasados da revista que havia solicitado na primeira carta. A partir daí, remeto-lhe mais cartas solicitando mais exemplares atrasados e fazendo questionamentos sobre os poetas da Geração de 45, o que acaba gerando a seguinte reação do poeta no início da  carta a mim endereçada a 13 de fevereiro de 1985: “ Meu jovem amigo: não disponho, infelizmente, de condições para dar resposta a todos os temas de sua carta do dia 31 de janeiro. Bastará dizer-lhe o seguinte: de 24 de janeiro até ontem expedi nada menos de sessenta cartas”. O que vem revelar a intensa correspondência que mantém o poeta. Entre os livros recebidos, tenho, autografado, Uma Teoria do Poema, onde são analisadas idéias de todas as épocas, de Aristóteles a Croce, de Hegel a Iuri Lotman, que exerceram forte influência na formação teórica e estética dos poetas da Geração de 45.

O poeta Domingos Carvalho da Silva é o principal porta-voz da Geração de 45. Seu estilo poético é caracterizado por um rigor técnico e expressão de vivência pessoal. Uma das grandes contribuições do poeta talvez está na formulação de uma teoria do poema.

Em entrevista concedida ao jornalista e poeta Carlos Germán Belli, publicada em El Comercio de Lima, o poeta Domingos Carvalho da Silva define poesia como um tipo de linguagem cuja base estrutural é o ritmo do verso. Na concepção do poeta e que reflete também a posição dos poetas da Geração de 45, o ritmo e a semântica dão à linguagem a feição de poesia. O poeta vê na poesia, mais do que produto intuitivo, encontra no poesia resultado da experiência da linguagem e da existência humana.

O poeta Domingos Carvalho da Silva diz, na referida entrevista, que seu processo de criação poética se realizada por impulso intuitivo e inesperado, mas em seguida se faz necessária a intervenção de mecanismos racionais de estruturação e polimento do poema. A poesia de Domingos Carvalho tem influência de poetas como Góngora, Baudelaire, T.S. Eliot, Castro Alves, Camões e Neruda.

4.2. José Paulo Moreira da Fonseca – Nasceu a 13 de junho de 1922, no Rio de janeiro. O poeta, também pintor, cursou Direito e Filosofia na universidade Católica do Rio. É um dos fundadores da revista Tempo Brasileiro. Seu livro de estréia Elegia Diurna, publicado em 1947, colocou-o entre os poetas mais característicos do movimento neomodernista.       

O contato com o poeta também começou em janeiro de 1985. Dez dias depois de ter-lhe enviado minha primeira carta, de cunho muito formal, o poeta me responde assim, de forma bem informal: “Recebi sua carta de 18 de janeiro e tenho todo interêsse em travar diálogo sobre literatura, porque este diálogo mantém acesa a alma de nosso país. Peço todavia que não me chame de “ excelência”, nada mais sou que um simples homem, como diria UNAMUNO, e a excelência autêntica é sermos bem humanos, ilimitadamente humanos, o resto pouco importa, são frações decimais

4.3. Ciro Pimentel – Os dados bibliográficos, não registrado no Pequeno Dicionário de Literatura Brasileira, de Massaud Moisés, foram enviados a mim pelo próprio poeta, em carta data de 24 de abril de 1985: “Em atenção à sua carta de 18 de março p.p. envio-lhe alguns dados pessoais: nasci aos 22 de outubro de 1926, em São Paulo, Estado de São Paulo. Sou autodidata, apesar de Ter cursado “ Ciências Contábeis”. Todos os meus livros citados, em “Poemas Atonais”, foram publicados pelo Clube de Poesia de São Paulo. De 1979 para cá, nada publiquei. Tenho pronta, uma antologia poética, dos meus cinco livros, que estão esgotados.” E continua o poeta no parágrafo seguinte: “ O Clube de Poesia de São Paulo (e não Clube de Poesia e Crítica, que é de Brasília) foi fundado em 1948, sendo seu 1o presidente o poeta Cassiano Ricardo. O meu primeiro livro, em 1948, foi editado pelo Clube, que revelou também poetas como Décio Pignatari e Haroldo de Campos, em 1949, entre outros”. Os parágrafos seguintes da carta são indicações de contato para que possa conseguir revistas e livros do grupo. Dos livros autografados, tenho Paisagem Céltica (antologia poética), dedicado a Domingos Carvalho da Silva, e que traz um estudo introdutório sobre a poesia do poeta feito pelo ensaísta Gilberto Mendonça Teles.

4.4. João Manuel Simões - Entre os poetas ligados à geração de 45, travo contato com o poeta Simões. Nosso primeiro contato aconteceu em janeiro de 1986.  Na primeira carta, sente-se o grau de liberalidade e generosidade do poeta: “Prezado Amigo Vicente Martins: Apresso-me a responder-lhe, atendendo o seu pedido, aliás muito honroso para mim. Estou anexando ao presente uma primeira “dose” dos meus trabalhos (daqueles, naturalmente, de que possuo exemplar disponível). Oportunamente, se a primeira dose não o desgostar demais, terei de encaminhar uma Segunda dose... Abraços “ex corde” do Simões”

Depois de ler os livros da primeira, senti uma grande influência do poeta português Fernando Pessoa na poesia de Simões, o que mereceu a seguinte observação do poeta: “Começo por agradecer a nota generosa sobre os meus apontamentos balzaquianos e, de modo especial, a associação do meu nome modesto ao imenso Pessoa (que, ao lado de Drummond e de Camões) integra aquele que eu considero a Santíssima Trindade Poética da Língua. É uma suprema generosidade que eu [ autoconsciente, embora, do valor da minha obra poética – absolutamente não mereço.

Em 1987, posicionando-se a respeito de artigo meu publicado em O Estado (Fortaleza, CE) , sobre a Geração de 45, assim observa o poeta: Pondero apenas que não pertenço á geração de 45, com a qual me sinto apenas identificado, em termos de estrutura poemática & substância poética. Sou nascido em 1939. Sou, portanto, da geração de 70 (a grosso modo, é claro..). Curioso é que a reação de Simões nos faz lembrar também a de João Cabral de Mello Neto que era taxativo em dizer “ eu não sou de 45”, sem levar em conta que o movimento neomodernista é uma afirmação de tendência estética e clássica do Modernismo deflagrado em 1922 e que perdura ainda nos nossos dias. Não é o tempo que define um estilo de época, mas a filosofia da época e a estética literária. (MARTINS: 1990)

4.5. Lago Burnett – Já falecido, mantive contato com o poeta somente em 1985. Na época, estudante, queria ser (imaginem só!) um crítico literário, o que me levou a receber a seguinte lição do escritor e jornalista: “Agora, vamos aos assuntos de sua carta. Você quer saber o que acho de “pensar em ser um crítico literário” – naturalmente referindo-se a você próprio. Se, é claro, sente que tem embocadura e equipamento cultural para tanto, não há por que conter a vocação. E os nossos críticos são sempre muito escassos. Mais do que as teorias literárias, separam-nos a eles as convicções ideológicas”. (20.03.1985). O livro A Língua Envergonhada tem sido um livro de cabeceira na minha prática docente.
 

5. À guisa de Conclusão

A epistolografia na Literatura Brasileira revela de forma verdadeira a atividade intelectual e literária dos escritores e poetas. O intercâmbio postal é um forma de escritor e leitor prolongarem a conversação. Minhas correspondências com escritores e poetas brasileiros, reunidas no que denominei Cenáculo Postal, marcam uma época no processo de formação escolar. Sinto-me honrado em ter trocado com escritores como Eduardo Campos, Nertan Macedo, Lúcia Pimentel de Sampaio Góes, Ciro Pimentel, Márcio Catunda, César Olímpio Ribeiro Magalhães, Elpídio Reis, Ademir Antônio Bacca, Stela Maris Rezende, Veríssimo de Melo, Aloísio Bezerra, entre outros.

Foi nesse intercâmbio postal, especialmente durante a década de 80, que recebi e aceitei convite para ser membro correspondente de instituições como Academia Eldoradense de Letras (Eldorado – São Paulo), por indicação do escritor João Albano Mendes da Silva e do Centro de Letras do Paraná, por indicação do poeta João Manuel Simões, este último, inclusive, enviou-me quase todas suas publicações para que pudesse não apenas ler, mas avaliá-la na condição de especialista em Literatura Brasileira. O desafio maior, agora, é transformar este material em importante fonte de estudos epistolográficos e literários.
 

Bibliografia:

1. BOSI, Alfredo. Literatura brasileira. SP: Cultrix, 1993.

2. CAMPOS, Milton de Godoy. A geração de 45 e o parnasianismo. Revista da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo. V. 53. p. 161-166. Jan/dez. 1995

3. CARNEIRO, André. A geração de 45. Revista da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo. V. 53. p. 155-160. Jan/dez. 1995

4. COELHO, Nelly Novaes. Literatura & Linguagem. São Paulo: Quíron, 1980.

5. HOLLANDA, Sérgio Buarque de. Literatura e poesia. Revista de poesia e crítica. Ano VI – No 8 – Brasília – setembro – 1982. p. 2-12. NUNES, Cassiano. A correspondência de Monteiro Lobato. Boletim bibliográfico da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo. V.43. n ½. P. 67 a 87. Jan/jun.1982

6. MARTINS, Ives Gandra da Silva. Geração de 45: cinqüenta anos. Revista da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo. V. 53. p. 147-149. Jan/dez. 1995

7. MARTINS, Vicente. A questão da periodização na literatura brasileira. Fortaleza: UECE, 1990. (monografia de especialização).

8. PAES, José Paulo e MOISÉS, Massaud. Pequeno dicionário de literatura brasileira. SP: Cultrix, 1969.

9. RODRIGUES, Geraldo Pinto. Os poetas e o clube de poesia. Revista da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo. V. 53. p. 151-153. Jan/dez. 1995

10. SAMPAIO, Maria Lúcia Pinheiro. A geração de 45: variadas vertentes. Revista da Biblioteca Mário de Andrade. São Paulo. V. 53. p. 167-172. Jan/dez. 199

11. SILVA, Domingos Carvalho. Verbete neomodernismo. PAES, José Paulo e MOISÉS, Massaud. Pequeno dicionário de literatura brasileira. SP: Cultrix, 1969.

 

 

 

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA, em Sobral-CE.

 

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