7 poemas da antologia
                                                          sete cantares de amigos

 

 

                      dever de casa
                                 adelmo oliveira

                                                                                                                         


Eu sou um velho ator sem palco e sem platéia
Que traz no cais do peito antigas ilusões
E do pouco que sabe interpreta lições
De palhaço que alegra os meninos da aldeia

Basta o dia raiar pelas bandas da aurora
– Levanta – bate a porta – e vai ganhar a rua
– Tropeça no silêncio em que flutua a lua
Restos de solidão caminhando lá fora

Esqueço a dor – o espelho – as marcas do meu rosto
– Produtos de salário em que se paga imposto
Cobrado pelo tempo e pelas fantasias

Andarilho do vento atravessando o acaso
Deixo a tarde no céu – o meu relógio atraso
E assim faço de mim a profissão dos dias

 

 

 


                                   anjo de luz
             affonso manta                                          



E como um ser de forte claridade,

Anjo de luz do sacrosanto empíreo,
Eu sentia nas asas do delírio
A dimensão da grande liberdade.

Passava nos lugares rotineiros
Colhendo todo mundo em meu abraço,
Confundindo noções de tempo e espaço,
Embaralhado fatos verdadeiros.

Ia nos quatro pontos cardeais.
Andava sobre a Linha do Equador.
Via o céu de manhã mudar de cor.
Percorria os espaços siderais.

Ia mais longe do que qualquer nave.
Voava mais depressa do que a luz.
Entendia as palavras de Jesus
Como uma criancinha entende uma ave.

Achincalhava todas as mentiras.
Todos os fariseus desmascarava.
Os ídolos do hipócrita quebrava.
A roupa do impostor deixava em tiras.

E como um ser de etérea realeza,
Adornado de estrelas e de luas,
Saía a percorrer todas as ruas
À procura da forma da beleza.

E encerrava meu curso luminoso
Num lugar pelos homens habitado,
Onde era pelos guardas algemado
E preso como um louco furioso.

 

 

 


                pedra
    elizeu moreira paranaguá
                                                                                                                   



         I

Pedra, no plural,
move a morte,
e a morte

traz
a morada,
na diversidade
da vida humana.

Espírito, na cor,
de ouro
que se mistura
ao fogo
que não se derrete.

         II

Pedra selvática
ao não-diálogo com Deus,
ao silêncio.

Pedra selvática
é silêncio insofismável
à margem do pensamento.

 

 

 


                dois momentos
                        josé inácio vieira de melo
                                                                                        



Entrava no poema como quem entra num bar
e sai bêbado caindo pela falta de chão.
A poesia era um buraco maior que o buraco.

Entro no poema como quem come cuscuz

e sai dia afora para encarar a existência.
A poesia lava os pés e as lágrimas.

 

 

 


                      namoro
              kátia borges
                                                                                        



Vamos?
Minha pergunta é um convite.
Arrisco e me belisco, pois é sonho.

A tua mão envolve a minha, e vamos,
noite adentro e até bem cedo.

Teus dedos entrelaçam meus dedos
E até o sexo, esse pecado condenado pelos bispos, é um bem divino.

 

 

 


     elegia de março
                                     miguel carneiro



Tempo sem memória, tempo sem lei.

Fico circunscrito a meu território.
Lembro de meus mortos
e com o peito conturbado de fantasmas
refaço na memória o eterno desejo.
Não há mais nada a declarar nesses tempos,
a guelra vem de mercúrio e chumbo.
O homem que me saudava na esquina
traz na face uma estranha cicatriz de cobalto 60.
É março, é março e não há mais tempo para dormir.
Em sentinela permaneço ao farol,
vislumbrando almas de bandidos e piratas.
Há uma gravura esquecida
na mesa de um gravador sem buril.
O conde ainda fala de guerras
e neste carnaval veranico
há um homem com uma teia de aranha no céu da boca.
É março, é março, é março
ponho-me a pensar na simetria concreta das bundas da Bahia.
O jovem belo e pacato traz no rosto a marca da dilaceração.
Já não faz mais o dever para a casa,
já não recita sua lição para o amanhã.
Em vão, numa auto-estrada,
seu corpo esguio jaz, à espera do rabecão.
É março, é março, é março, é março
caminhando para o abril de um dia
sem guia.
Busco na bússola que fabrico
um prumo, um rumo,
procurando os ponteiros do futuro.
A bailarina feérica dança uma canção de Jorge Bonfim
e o arquiteto aprendiz rabisca a nova Babilônia,
arrodeada de uma grande favela na suja metrópole.
O grande rei está deposto e nu
carrega em uma das mãos
à Constituição que ele mesmo outorgou.
Nessa desordem de março já não delimito um espaço,
ponho-me a chorar.
O reflexo dos rostos dos mortos transcendendo-se em pavor.
É março, é março, é março, é março, é março
desfaço o laço de meus sapatos
encharcados de lama e pesadelo.
Ausculto o tempo em minha memória,
Atado,
vejo-me numa longa rua.
É tarde
e nessa madrugada
os galos esporam meus sonhos.

 

 

 


                                           Para Eric
                            pedro vianna
                                                                                                                                                      



perder-se
deixar-se levar ao sabor do tempo
sentir o instante que passa
e que já deixou de ser
fazer jorrar o todo
da carícia fundadora
que aniquila o nada
encafuado nas fastuosas ruínas
dos amargores daquele passado
que a gente nunca esquece
mas do qual se pode então zombar

 

 

 

             

Sete cantares de amigos (edições Arpoador, egba, 2003). Organização: Miguel Antônio Carneiro. Seleção e Notas: José Inácio Vieira de Melo. Apresentação: Maria da Conceição Paranhos. Contracapa: Dom Pedro Casaldáliga. Exemplares à venda no sítio: www.vitrineliteraria.com.br

Adelmo Oliveira
(Itabuna-BA, 1934). Autor de Canto da hora indefinida (1960), O som dos cavalos selvagens (1971), Cântico para o Deus dos Ventos e das Águas (1987), Espelho das horas (1991), Canto Mínimo (2000).

Affonso Manta (Salvador-BA, 1939). Autor de A cidade mística e outros poemas (1980), O retrato de um poeta (1983), No meio da estrada (1991), O estranho na terra (1995).

Elizeu Moreira Paranaguá (Castro Alves-BA, 1963). Autor de Poema Terra Castro Alves (1992).

José Inácio Vieira de Melo (Dois Riachos-AL, 1968). Autor de Códigos do silêncio (2000), Decifração de Abismo (2002) e Luzeiro (2003).

Kátia Borges (1968). Autora de De volta à caixa de abelhas (2002).

Miguel Carneiro (Riachão do Jacuípe-BA, 1957). Autor de Pelas Lupas do Jaguaracambé e Outros Poemas (1986), No País dos Kiriris (1991), Os Cânticos (1993), Esconso e Outras Histórias (1994), O Diabo em Desordem (1999) e Boca do Tempo (2002).

Pedro Vianna (Rio de Janeiro-RJ, 1948). Autor de dezenas de livros editados em vários países (Canadá, Finlândia, França, Suécia).

 

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+ LITERATURA

  ®  dramaturgia  ®  Aldo Marcozzi & Tania Alice Feix  ®  Geraldo Lima  ®  Luciano Bonfim  ®  Miguel Carneiro
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  Vicente Martins
 

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