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                                                vera casa nova & josé aloise bahia

 

 

 

                                                             Notas de Pesquisa sobre Poéticas Visuais
                                                            
por Vera Casa Nova

Que direções podem tomar as escrituras?
 Todas as direções.
( Roland Barthes )

Invenções, fricções e experimentalismos são os fios que movem essa máquina do poema visual, na contemporaneidade. Poética cujo impacto estético decorre da forma utilizada, da configuração das letras no espaço da página ou de qualquer outro suporte que a suplemente.

Ora Concreto, Práxis, Semiótico, ora Processo ou que conceito ou nome tenham em seu movimento, é o poema, sua palavra, sua imagem, seu verso, em sua visualidade e mesmo em sua tactilidade, que se tocam, se friccionam, mostrando as infinitas tramas linguageiras do poético entre as artes, nos espaços inter/intra semióticos.

A letra como traço, o traço como letra – “a letra sentida como escrita. A letra vista como sentido” (Escrita para o Emerenciano, E.M. de Melo e Castro. In: Finitos mais finitos) (1), ou ainda a letra sentida como não-letra e o olho perscrutando o espaço da página, ou no ambiente cibernético.

Se há imagens nos ideogramas, há também sob e nas palavras. E isso Mallarmé parece ter nos mostrado em seu poema Um Lance de dados e Apollinaire, em Caligramas, ratificado, para citarmos somente aqueles que são homenageados pelos poetas que exercitam a visualidade da palavra/verso.

Não inventaram, renovaram talvez. Os séculos XVI e XVII na Alemanha, em pleno Barroco, apresentaram poemas figurados, palíndromos e jogos de linguagem. O militante Martin Opitz chamou a atenção de seus contemporâneos quando propôs uma desvalorização da palavra poética e sua revalorização pelo viés da poesia visual. Segundo Jêrome Peignot, o “retorno da imagem escrita a qual assistimos hoje prova que nos encontramos numa situação semelhante a que denunciava Opitz”. (2)

A história das palavras-imagens vai longe. Mas vale lembrar alguns momentos como o Dada de Kurt Shwitters, de Hugo Ball, Max Ernest, Duchamp, F. Picabia e Hans Harp, em que a letra na tela fazia seu percurso de imagem. O poeta Carlo Belloli, que em 1943 estreava seus poemas murais. Ou entre os nossos poetas, o Caderno de Poesia, de Oswald de Andrade, sentimos as novas tendências, desenhando ao lado de seu poema.

Mas a palavra-imagem reinicia seu caminho na década de 1950, com Gomringer (Konstellationem), antologia editada na Suíça, que traz poemas visuais com ressonâncias mallarmaicas, chamados de “poemas concretos”.

Na mesma época o grupo Noigrandes (1956), de Augusto de Haroldo de Campos e Décio Pignatari, faz sua aparição no cenário literário carioca e paulista. A eles se juntam Wlademir Dias Pino – Poema Processo – uma partilha, inicialmente, sensível (3), que envolvia questões poéticas, estéticas e políticas, logo a seguir marcadas pelo desencontro.

Na superfície plana da página, mudando a função da letra e da imagem, a poética verbo-vocovisual proposta pelo Concretismo paulista simultaneamente faria jogo com os entrelaces da tipografia do Poema Processo, que da visualidade extrairia o háptico, conforme podemos ver nos dois livros-objetos Ave e Sólida de W. Dias Pino, ou ainda nos poemas-Móbiles de Julio Plaza e Augusto de Campos. Verdadeiros ideogramas projetados. Ronaldo Azeredo brincava com as letras desenhando figurações.

A mão e o olho do leitor entrariam em conexão para apreender as disjunções. A “anti-representação” inscrevia-se num contexto em que as artes propunham transformação, via pequenos ou grandes riscos, censuras, dobras deslocamentos.

O plano da superfície dos signos escritos conecta-se com o plano da superfície dos signos tipográficos. As interfaces são criadas entre suportes diferentes e estes suplementam-se ou friccionam-se, a ponto de fazerem da letra um design ubíquo que permeia outras e diversas atividades e exercícios linguageiros. Os poemas visuais de Joan Brossa merecem destaque. Esse poeta realiza poemas-objeto que dialogam com o concretismo, tais como Poema-pistola (1969-1971), ou na supressão da palavra, tais como Luva-carta (1967) ou Sem sorte (1988).

Signos de interfaces, design de interfaces, campos de interações redimensionando a poética e a retórica, mutantes a pelo menos um século e meio. Sebastião Nunes brinca nos espaços tipográficos e fotográficos. Seus poemas visuais englobam a propaganda, lida às avessas. Valêncio Xavier recorta sua memória através de revistas de sua infância e adolescência.

Os fluxos do contemporâneo povoam a coisa litero-visual, “Novas tecnologias supõem novas imagens” (4) afirmou J. Plaza. Logo, para novas imagens, novas poéticas. Fusão do olho, da mão, da página, da tela. Ou mais: a música cageanamente intensa (o ouvido) implica a interface da página/tela, película/fotograma (o olho). Arnaldo Antunes, por exemplo, faz de seu Nome um outro movimento, um outro jogo – do livro ao disco, ao vídeo. A letra se movimenta. Se antes a letraset resolvia, hoje os programas do computador fazem a festa da linguagem. A escritura deixa o design, a habilidade do escritor em pintar, desenhar a palavra. No interior da linguagem encontros insólitos entre o fonético, a representação gráfica e o movimento das imagens e das palavras. Elipses, aliterações, assonâncias, “rébus”: números, palavras que representam por seu som palavras ou versos, tecnologicamente construídos pelo tecido intersemiótico. Ricardo Aleixo canta e dança seu poema-máquina pós-concreto, mas sobretudo verbovocovisual. Seu trabalho de poética sonora é múltiplo – voz, corpo, imagem.

Os poemas daquilo que se chama a videopoesia ou na experiência multimidiática do cdrom-poesia nos clip-poemas (1997) de Augusto de Campos ou ainda seus Clip-poemas (2003) como Rever, Poema Bomba, SOS, que podem ser vistos na tela do computador, são acontecimentos que desdobram o poético.

Não resta dúvida que se o processo de produção poética mudou, a leitura também. A retórica da leitura que nos obriga a ler em seqüência horizontal, agora nos obriga a fazer outra leitura: a da óptica vertical.

Saímos do papel, do livro, ainda um formato de códice para livros-objetos, em que duchampianamente as folhas se deslocam, se deslocam para o acontecimento das interações. O leitor reescreve o poema, a operação é a do rever/ou ver.

A visibilidade requerida e a sonoridade proposta ao corpo do leitor exigem outros sentidos – o do texto, por exemplo. Estendem-se as expressões da linguagem poética. Melo e Castro inventa a “poética do pixel” e o poético passa ao contexto digital: “infopoemas”, “Hiperescritas”, “fractopixels”. Em Finitos mais finitos, Melo e Castro afirma que esse livro representa um corte transversal na sua atividade criativa diária, mostrando que para ele não há diferença entre a escrita de poemas, de ensaios, de contos e a produção de poemas visuais no computador. O processo da escrita é um/muitos, tal como as vivências de que esse processo é uma emanação visual. (5)

Invenções e experiências vão longe. Eduard Kac com seu coelho transgênico exibe-se em performance, e sua poesia holográfica redimensiona o poético no espaço. Espaços rituais e virtuais se interligam, se integram multimidiaticamente e o lugar do poético aprofunda-se pelo imaginário.

Improvisações de toda ordem, teatro, elementos sonoros, performances fazem parte do cenário
poético visual. Espaço e movimento confluem nas manifestações artísticas. O texto poético
caminha sobre o pictórico, passando pelos sons, pelo corpo. Insinuam-se as cenas.

Tangenciam-se objetos e recortam-se escrituras. A significância das artes só é encontrada quando os limites entre elas se desfazem. A poética visual de Edwin Torres, poeta performático que fricciona poesia, performance, artes gráficas e música apresenta essa dimensão da semiose. Diz ele em entrevista à revista Oroboro: “A forma vem de onde eu estou: no centro de todos esses elementos. Eu ensino em meus workshops a necessidade dos sentidos, a habilidade para despertá-los.” (6)

Cada vez mais estamos diante de uma cisão do ver apontada desde Joyce, Pound, Donald Judd ou Robert Motherwell, para citar alguns dentre tantos. A ausência de limites, espaçamentos, extensões, desdobramentos do poético e todo tipo de interatividade permitem a produção de paisagens variadas: a multiplicidade, a polivalência das formas sugere aos processos poéticos, sejam eles da literatura, do vídeo, das artes gráficas ou no mundo da tela do computador, em sites específicos, aventuras na poética visual contemporânea.

Poemas-videotextos on line em rede, exposições high-tech, hologramas fractais lembram Abraham Palatnik e sua obra cinética, criando possibilidade da luz e movimento ensejando eletropoemas que são viagens do olho e do corpo.

Poéticas do tempo e do espaço contemporâneo que parecem paradoxais, pois o passado coexiste com o presente. Assim sendo, as poéticas visuais reinscrevem em seu suporte a multiplicidade apontada pelos concretismos, tão farta de signos visuais que se atualizam a cada processo.

Cada processo de atualização dos signos em seus suportes abre possibilidades não só visuais, mas também, auditivas, tácteis. Atualizam-se as propostas do Concretismo em termos verbovocovisuais. Palavra escrita, falada, apalpada em sua visualidade. Do Poema Porcesso ao holograma de Kac trata-se de variações escriturais. Cenas “in progress” ou “in process” que percutem fluxos, sincronicidades, insights, bastando a escolha dos suportes, dos vetores, que transportarão os signos. Todas as formas de mobilidade, deslocamentos e montagens são possíveis: plinthédon, speiredon, kinedon, stoichedon (formas gregas de montagem: sobre tijolos, em espiral, em colunas, nos ladrilhos, ou em qualquer muro).

O muro grafitado evoca a escritura. O apelo dos espaços da cidade, suportes que detêm uma energia da escritura. Rabisco? Letras ideogramáticas? Grafismos que estão na origem das artes visuais, podem ser nomeados como poéticas visuais? O corpo também não escapa. Tatuagens inscrevem-se como poemas visuais pelo viés fotográfico (Rosangela Rennó/série Cicatriz). Regina Vater e seu marido Bill Lundberg fazem vídeo-instalações que são considerados poemas visuais.

Além de outras construções a serem incorporadas a essa poética – a do livro-objeto, livro-arte ou ainda o livro de artista merecem destaque, ao finalizar essas notas.

Apontada como tendência desde M. Duchamp em seu Readymade infeliz (1919) ou em Caixa verde (1934), as últimas décadas do século XX apresentaram um grande número dessa modalidade de livro. Cada uma dessas construções culmina em um objeto de arte que se caracteriza pela interdisciplinaridade. Desde Wlademir Dias Pino, Álvaro e Neide de Sá, Lygia Clark, Lygie Pape, Julio Plaza até Paulo Bruscky, Tunga, Lula Vanderlei, mais recentemente, essas obras propiciam um outro olhar sobre as formas poéticas e sua visibilidade.

São livros em que a leitura não é somente visual, mas também táctil, no sentido em que o contato nos envolve, nos tira do lugar. A experiência de J. Joyce se instala: ver só se experimenta numa experiência do tocar. As poéticas visuais contemporâneas se abrem como espaços de significância, provocando, instigando o olhar, nessa indivisão dos sentidos, ou melhor, quando olhar pode sentir, escutar, tocar. A visualidade sem limite se enriquece.

 

Referências Bibliográficas

(1) MELO E CASTRO, E. M. Finitos mais finitos. Lisboa: Ed. Hugin, 1996.
(2) PEIGNOT, J. Typoésie. Paris: Imprimerie Nationale, 1993. p. 13.
(3) O conceito partilha do sensível aparece usado por Jacques Rancière em seu livro Políticas da escrita. São Paulo: Ed. 34, 1995.
(4) PLAZA, Julio. “Holo x fotográfico”.
In: SAMAIN, E. (Org.) Fotográfico. São Paulo: Hucitec, 2005. p. 330.
(5)
MELO E CASTRO, E. M. op. Cit. P. 30.
(6)
 Oroboro 1, set/2004. Paraná: Medusa. p. 14.

 

 

 

Vera Casa Nova é professora da Faculdade de Letras da UFMG. Reside em Belo Horizonte, MG, Brasil. Doutora em Semiótica pela UFRJ, poeta e ensaísta. Fez pós-doutorado na Ecole des Hautes Études em Sciences Sociales/Paris/França, em Antropologia Visual. Tem diversos trabalhos publicados, entre eles: Lições de Almanaque: um estudo semiótico (Ed. UFMG). Em poesia, entre outros livros, podem ser citados: Lucia Rosa/textos impuros (com Marcelo Kraiser) e mais recentemente Desertos (RJ, Ed. 7 Letras).

José Aloise Bahia
(Belo Horizonte/MG). Jornalista, escritor, ensaísta, pesquisador e colecionador de artes plásticas. Estudou Economia (UFMG). Graduado em Comunicação Social e pós-graduado em Jornalismo Contemporâneo (UNI-BH). Escreve em vários jornais, revistas e sites de imprensa, literatura, artes plásticas e politica no Brasil e exterior. Autor de Pavios Curtos (anomelivros, 2004) e Em Linha Direta (no prelo).

imagens: Alex Flemming (Brasil). "Luciano Pavarotti", acrílica sobre sofá, 1996 / Joan Brossa (Espanha). "Poema Visual", 1970/78 / Gary Hill (Estados Unidos). "Incidence of Catastrophe", cassete vídeo cores som em estéreo, 1987/88 / Rosangela Rennó (Brasil). sem título, 1996.

 

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LITERATURA

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