No batuque
                     de Massalino
                                                                            miguel carneiro

 

 

Para o Profº Nelson de Araújo,
na cumeeira do céu

 

Personagens
  Zé Carapeta - Poeta popular
  Targino Oliveira - Delegado
  Os Soldados - (três)
  O Capitão - Patente da Guarda Nacional
  Nezito Pio - Caçador
  Terina - A viúva

Ação
  Uma cidadezinha no interior do Brasil

 

I ATO PARA BONECOS


Zé Carapeta – Deixem que em me apresente / neste belo salão / Vou contar uma história /
            que se passou comigo / há muitas léguas daqui / Perto do Riachão / Me chamo Zé
            Carapeta / poeta de profissão. 

Targino – Agora sou eu quem falo / Pare com seu sermão / Sou Targino Oliveira / Delegado de profissão / Você já esteve preso / Deixe de tanta gabação / A personagem principal da peça sou eu / Nezito Pio o velho Capitão. 

Zé Carapeta – Doutor Targino / O senhor é um homem letrado / merece o seu falar / Vamos mudar essa história / vamos falar de outro lugar / Ta rompendo a aurora / Vamos falar de sertão. 

Targino – Desse tema não tenho interesse. 

Zé Carapeta – Está bem doutor delegado / O senhor não muda não / No sertão já tem parabólica, celular e escravidão / Salve São Sebastião. 

Targino – Eu sabia que você era carioca / se passando por baiano / por puma mangação / baiano é um estado / é um estado de espírito / é a alegria / é a comunhão. / Há muito que observo / sua destreza / e eu pelo mato pegando preso com a mão / eu, Nezito Pio estamos aqui para lhe passar um sabão. 

Zé Carapeta – Doutor delegado / Sou apenas Zé Carapeta / um pobre poeta / desempregado no sertão. / Não vejo sentido nessa sua nova armação. / O senhor doutor delegado / não me denigra perante o povo / chame seus soldados e vá embora acompanhado do seu cão. 

Targino – Alto lá seu flibusteiro. / Não dê alcunha ao grande capitão / herói de três guerras / todas com condecoração! 

Zé Carapeta – Não agredi seu velho comandado. / Agora me confirme doutor delegado / se o senhor não faz corpo mole quando o negócio se trata de assombração? 

Targino – Zé Carapeta seu desgraçado / primo carnal de Cancão / isso aqui é uma peça de teatro. / Não é um peleja, não. / E todos os conterrâneos sabem que eu tenho medo mesmo de assombração. / Vamos mudar o enredo / ta ficando um  porre / essa nossa discursão. 

Zé Carapeta – Combinado, doutor delegado. / Vou fazer de novo / minha nova apresentação. / “-Distinto público, meu cordial boa noite” / quero aqui / contar uma história de Riachão / que se passou com Herculano Parido e o mestre Damião. / Ia eu, dirigindo o jeep que foi de Juca Veneno / aquele motorista de valor / Jesus que lhe carregue / com o jeep de seu Godô. / Foi nos idos de vinte e seis / eu ainda aprendia a dirigir / guiando na contramão / o carro entupido de gente / trocando os pés pelas mãos. / Nunca atropelei um pedestre / nunca virei um carro no agreste / nem nunca me esbarrei em cerca no sertão. / A minha preocupação / era como vagalumes / tenho um cebêsta com esses bichinhos de estimação. / Com aquele bundinha fosforescente / querendo clarear o noitão. / No mundo há muita gente / que pensa que os bichos não têm alma, não / pô, pô / matando os bichos do grotão / hoje tô aqui / abrindo uma campanha contra a matação / tem que deixar os bichos vivo. / Porque vai ter um dia / que o diabo vai fugir do inferno / vai ser uma raça em extinção / como ararinha azul / a jandaia / a jaguatirica / esse animais lindos do sertão. / Peço que a viúva se apresente no salão. 

Viúva – Muito abrigado Zé Carapeta / cantador do sertão. / Eu sou apenas uma viúva / viúva temporão. 

Zé Carapeta – Ah, dona viúva / eu já estava me esquecendo / de um velho caminhão com sua lona furada / agora se apresente Nezito Pio e o capitão. 

Capitão – Boa noite distinta platéia. / Eu já peguei Zé Carapeta / escondido embaixo de um Porrão. 

(Entra fundo “Vira e Mexe” instrumental de Luiz Gonzaga)

(Cai a luz)

(Música cessa) 

CENA II

Nezito Pio – Já andei muito de noite. / Todos aqui sabem que sou caçador de profissão. / Peço licença a Leandro Gomes de Barros / a Rodolfo Coelho Cavalcanti / a Cuíca de Santo Amaro / a todos os poetas de cordel / peço a Nossa Senhora que os entronizem no céu. / Pois quando eu ando pelo mato / na verdade eu ando para caçar o cão. / Pego o meu trabuquinho e pô / atiro na escuridão. / E se cair algum vulto / eu já sei que é assombração. 

Zé Carapeta – Pois é Pio, deixa eu falar a história do Boqueirão / tava eu, Herculano Parido e Mestre Damião. / Quando cheguei na cabeça do morro / Herculano gritou: “É aqui o batuque de Massalino / estacione o carro / vamos dançar até ver o clarão”. / Tirei a chave do painel / me encaminhei para o salão / logo Herculano sambava na noite / naquele samba de batuque / proibido pela polícia da região / não é que de madrugada / quando os galos acordavam os pagãos / a polícia baixou na festa / delegado Targino / seus soldados / e o valho Capitão / Mandou parar o tambor / Deu três tiros no corredor / e foi aquela confusão / eu logo pulei a janela / Herculano caiu numa cama de casal / botou um torso na cabeça / pegou um vestido / e começou a gritar. / Targino chegou no quarto / viu Herculano gemendo: “Cadê meu Leal, cadê meu Leal? / Vou parir daqui a pouco / e meu parto não vai ser normal” / Logo Targino desconfiou / viu Herculano de barba grande / gemendo de dor / Lhe deu voz de prisão / “Levante vagabundo, venha sentir o peso de minha mão / Herculano levantou, gritando: “Oh, oh que dor” / Herculano foi preso de vestido / foi aquela esculhambação / no outro dia foi solto / se tornando Herculano Parido, homem que quis parir no sertão / agora se apresente a dona viúva / neste salão. 

Viúva – Boa noite, distinta platéia. / Sou a viúva Terina / Amiga de Maria Alcina / uma amiga minha lá do sertão. / Sou viúva virgem, sou irmã do Capitão. / Na noite de lua de mel / Meu marido morreu do coração. / Depois desse dia, / homem nenhum se encostou. / E hoje eu tô sem amor / povo logo alarmou / e ninguém mais se aproximou. / Já dobrei o cabo da Boa Esperança / tô aqui com o patrimônio falido / mas vou botar no leilão. / Vou abrir uma rifa / cada bilhete vale um milhão. / Quem for o sorteado que levante a mão! 

(Dependendo da interferência da platéia, se ela participar, dar essa fala:) 

Pois então, cavalheiro, meu príncipe encantado / você tem mesmo coragem de dormir com a viúva Terina / lá no seu colchão? / Vou lhe fazer carinhos / vou lhe dar tantos beijinhos / que vai sonhar. / Vamos viver num castelo encantado. / Só vou ouvir Júlio Iglesias. / Vamos se amar com paixão. 

(Outra fala se não participa a platéia:) 

Zé Carapeta me botou nesta peça /
para ver se eu achava um maridão /
mas pelo visto não há pretendentes /
todos os cavalheiros presentes /

estão crentes de que matei marido no sertão. 

Zé Carapeta – O primeiro marido de Terina / foi Getúlio, meu irmão / começou a namorar Terina por pura paixão / não é que morreu entesado / e Terina sem saber o gosto do meu irmão. / Muito obrigado Terina / vá embora para as Coxias / vá fazer lá sua assombração. 

Nezito Pio – Zé Carapeta deixa eu agora falar. / Não me interrompa, não. Eu estava numa caçada / há três noites e naquela solidão. / A madrugada avançava sem nenhma lua naquele catingão / A caipora começou a assoviar / eu fiquei logo perdido / os cachorros acuavam / e não havia caça, não / Logo deduzi que aquilo era arte de Cão. / Por três noites eu vaguei / feito um cego / no meio daquela escuridão. / Foi quando eu já cansado / botei o farolete / e apareceu aquela assombração. / Berrava feito um bicho / tinha cifre / tinha rabo / era vermelho feito um tição. / Eu gritei com medo / “Quem é você?” / E a voz anasalada falou: “Sou o Cão / sou o Cão” / Eu não tive escolha / peguei o trabuquinho / e papoquei ele no chão. / O Cão ficou lá estirado / os olhos brilhando parecendo uma tocha de fogo no sertão. / Quando o dia clareou / sumiu de vez a assombração. / Ainda deu tempo de eu perguntar qual era a graça dele / ele respondeu: / “Sou a encarnação de Targino / Targino, delegado de Profissão. 

(Luz cai) 

CENA III 

Capitão – Deixem que eu me apresente de novo. / Sou o velho capitão. / Herói de três guerras / todas três com condecoração / é por isso que deixo minhas medalhas à vista / que é para o povo rememorar. / Já lutei em muitas guerras / vi tanto horror / que dá vontade de chorar. / O homem ainda não aprendeu / que o que move o mundo é o amor. / Ficam a guerrear / nenhuma guerra vale a pena / no fim são seus filhos que ficam a penar / se destroem um país / deixam a população se arrasar / eu proponho a paz com bandeira universal / reinando entre os povos / como o amor fraternal. / Mas nem sempre é assim / há governantes insanos / que só pensam em guerrear / mas como velho Capitão, esses olhos hão de notar / o planeta terra se tornar / fartura / trabalho e pão / quem vos fala é o experiente Capitão. 

Zé Carapeta – Gostei de seu discurso. / Uma coisa você se esqueceu de falar / que em suas andanças / o senhor não é esse santo todo / deve ter feito alguma aprontação, / ou não? 

Capitão – Mais respeito comigo / seu Pedro Malazarte! / Seu primo de Canção / sou soldado de três guerras / já dei muito tiro de canhão. / Você Zé Carapeta não passa de um bundão. 

Zé Carapeta – Não quis lhe magoar com a minha suposição. / Eu sou apenas um trabalhador honrado / poeta de profissão. 

Capitão – Como se a poesia mudasse o mundo / numa guerra os poetas representassem a nação. 

Zé Carapeta – A poesia nasceu com Homero. / Veio com Dante e Salomão. / O senhor fique com os seus tiros / que eu vou me ajeitar com os meus versos / às vezes ele surge quebrado / mas vem do meu íntimo / vem do coração. 

Capitão – Todo passarinho cantadô / caga no chão. 

Zé Carapeta – Tá certo a sua afirmação. / Porém lhe digo: sem a poesia não sobrevive qualquer nação. 

Capitão – Deixe de tanta bobagem / todo poeta é vagabundo / morre com a cuia na mão. 

Zé Carapeta – Se riqueza fosse algo especial / rico não morria / rico não fedia / rico não adoecia. / Ficava aí a encantar / meus versos são verdadeiros / sou um poeta popular. 

Capitão – E daí? Quem é mais importante para o lugar? Eu, o herói de três guerras, / ou tu, poeta vulgar? 

Zé Carapeta – Eu nada lhe respondo. / Deixe o povo julgar. / Cada qual tem a sua importância, / o delegado, Nezito, a viúva e o pobre poeta popular. / Vá se deitar, meu velho capitão. / Seus óculos estão para cair / cuidado para não se espatifar no chão. 

(Sai o Capitão) 

Bom, distinta platéia / já que ele foi dormir / vou relatar aqui / uma passagem do velho capitão / quando ainda era novo / bom galo de briga lá no sertão. / Corria uma festa na casa de Saturnino / tinha tanto menino / que parecia festa de São Cosme e São Damião / capitão todo arrogante / chamava as moças para dançar no salão / ninguém podia dar mala / para o velho garanhão. / Já de madrugada / a cachaça corria de mão em mão / e capitão bêbado resolveu fazer sermão. 

Zé Carapeta – Dizia ele que queria arrumar uma moça que passasse / gomasse e fosse boa de fogão. / Saturnino fazia careta / já tava cheio o sue tampão. / O capitão trocava as pernas / a cachaça é inimiga do cidadão / ou lhe bota nas alturas / ou puxa seu tapete do chão. / Pois bem! Juntou a molecada / cada qual com sua marmelada / foi aquela palhaçada / com o velho capitão / ele bêbado / dizendo: “cadê a moça, para me casar em Riachão”. / Logo apareceu um gaiato e gritou: / eu quero me casar com você / meu garanhão / que dia marcamos o casório? / Você quer no civil / ou vai ser sem recepção. / Ah! Distinta platéia / foi aquela chiada / logo o velho ficou intrevado / disse que aceitava aquela comunhão / o gaiato lhe estendia a mão / o capitão beijava / era aquela esculhambação / quando a festa acabou / o capitão estava todo cagado / sujo com as calças na mão / agora vocês me respondam / se o capitão tem mais moral / para botar ordem neste salão / que diga o gaiato / vamos esquecer o capitão. 

Targino – Você está preso / preso por difamação. / Desde a fala de Nezito / que quero lhe dar um safanão / sue novo Cancão. / Cala a boca Carapeta / para eu não lhe exterminar / te fazer de frango assado / tu ir parar num caixão. 

Zé Carapeta – Tá bem doutor Targino / neste país não se respeita a constituição / a Carta Magna / soberana de uma nação. / Doutor delegado, a censura já acabou no Brasil / nenhuma obra / passa mais pelo crivo da tesoura, / seu telhado é de vidro / não me aporrinhe mais não. 

Targino – Se você botar chocalho, ninguém mais dorme nessa nação. 

Zé Carapeta – Distinta platéia / vou pegar os meus versos e sufocar dentro do meu coração / a gente vive num país que não tem direito de falar os podres, não. / Boa noite distinta platéia / sou apenas Zé Carapeta / primo carnal de Cuíca / breve poeta popular. / Salve São Sebastião. / Salve Cancão. 

(Cai a luz) 

FIM

Santo Antônio Além do Carmo, Inverno de 1995.

 

 

 

             

Miguel Carneiro nasceu em Riachão do Jacuípe, em 1957. Ator, poeta, ficcionista, dramaturgo. Fez o curso de Formação do Ator na Escola de Teatro da UFBa e estudou Letras com Português, na Université de La Sorbone Nouvelle, Secção Paris III. Em teatro, como ator: A Casa de Bernarda Alba, Tito Andrônico, Álbum de Família (com direção de José Possi Neto), Um, Três Alegrias e O Patinho Feio (ambas dirigidas por Deolindo Checucci). Em cinema, como ator: Jubiabá de Nelson Pereira dos Santos; como Assistente de Direção: Riachão de Jacuípe, documento em 16mm, direção de Ilya Flarerti São Paulo. Em Dramaturgia escreveu: Pan: Rebum, Quem é o Pivô?; Cabra Cega, Tamatião Fumega. O Anacoreta; Sob o Olhar do Cordeiro; La nona de Palermo; Os Dragões da China; Onde se escondeu Rasgaluna que não quis ver o luar; Mamãe, os morcegos estão lá fora; No batuque de Massalino; Gare Du Nord.

 

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+ LITERATURA

  ®  dramaturgia  ®  Aldo Marcozzi & Tania Alice Feix  ®  Geraldo Lima  ®  Luciano Bonfim  ®  Miguel Carneiro
  ]  poesia  ]  Caio Gagliardi  João Tomaz Parreira  Júlio Lira  ]  Os 7 do Achamento  Os 7 da Bahia  Vicente Martins

 

ADJACÊNCIAS

© crítica ©  Caio Gagliardi interpela Ricardo Lima
©  Cândido Rolim lê "primeiro as coisas morrem"
©  Luiz D. Maia assiste Paris no cinema
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