SerOuNãoSer.com
                        
                        tania alice feix & aldo marcozzi

 

 

Pour toi, public!
( Frank Dubosc )

Tu me estás hablando de la revolución, pero
yo quiero que me hablas de tu revolución!
( Sergent Garcia )

 

Personagens da peça
  Apresentador
  Pum Pum girl 1: Maria Amélia
  Pum Pum girl 2: Cidinha / Clovis
  Rosa
  Carmelita
  Boca
  Diretor
Personagens de Antígona
  Ismênia
  Antígona
  (Antígona: adaptação a partir de Sófocles e Jean Anouilh)
Personagens de Circulo de Giz Caucasiano
  A mulher
  A outra mulher
  O juiz
  (Circulo de Giz Caucasiano: adaptação a partir de Bertolt Brecht)
Personagens de Fedra
  Fedra
  Hipólito
  A empregada
  (Fedra: adaptação a partir de Racine e Sarah Kane)

 

ATO ÚNICO

 (Quando o público entra, as luzes do palco estão fracamente acesas permitindo ao espectador entrever o cenário de um show de variedades. A luz da platéia também é tênue. Uma vez que o público já está acomodado no teatro, as luzes da platéia vão se apagando lentamente. Permanece a mesma luz no palco.

ROSA (off) Vem, Carmelita. Deixa de ser frouxa. 

CARMELITA (off): Você tá andando muito rápido, Rosa. Será que é por aqui mesmo? 

ROSA (off): Claro. Na placa tem dizendo: estúdio 1.  

CARMELITA (off): Ai. 

ROSA: (off) O que foi? 

CARMELITA: (off) Você pisou no meu pé. 

ROSA: (off) Porque você não anda! Sai da frente. 

(Entra Rosa agachada como uma fugitiva que não quer ser vista. Atrás dela vem Carmelita apavorada) 

ROSA: (num alívio triunfante) Pronto. Conseguimos. Chegamos ao estúdio 1. Dá o rádio. 

CARMELITA: Eu tô com medo. 

ROSA: Passa esse rádio logo, criatura. 

(Carmelita entrega a Rosa um Walk Talk

ROSA: Raposa vermelha para cão pintado. Câmbio. 

VOZ no WT (off): Cão pintado na escuta. Prossiga raposa vermelha. Câmbio. 

ROSA: O coelho tá na toca, o coelho tá na toca. Câmbio. 

VOZ no WT(off): Bom trabalho, raposa vermelha. Fique a postos. Câmbio. 

ROSA: Positivo. Cambio. Desligo. (a Carmelita) Pronto. Agora é só esperar o sinal. 

CARMELITA: Será que ninguém seguiu a gente? 

ROSA: Claro que não. O plano foi perfeito. 

CARMELITA: E se tiver uma câmara filmando? 

ROSA: Você quer parar de mau agouro?! Que saco! 

CARMELITA: Ainda hoje a gente acaba presa, eu tô falando. 

ROSA: Para com isso, Carmelita. Você é uma das líderes do grupo. Devia ter vergonha de falar uma coisa dessas. Esse é o dia mais importante de nossas vidas. Hoje, os vermes da TV SUPER vão pagar pelas milhões de pessoas que eles alienam todos os dias. Cadê o manifesto? 

CARMELITA: O quê? 

ROSA: O manifesto que você vai ler na frente das câmaras. 

CARMELITA: Como assim? 

ROSA: Não me diga que você esqueceu esse bendito manifesto?! 

CARMELITA: Não. Deve estar aqui na minha bolsa. (Carmelita procura na bolsa que é enorme, retirando as coisas de dentro) Olha se é esse papel? 

ROSA: Isso é uma conta de luz. 

CARMELITA: (procurando na bolsa) Ai, meu Deus. Tava aqui. 

ROSA: Se você não achar esse manifesto, eu sou capaz de te matar, Carmelita. 

CARMELITA: Pronto. Acho que é isso. (entrega um papel sujo à Rosa e se abstrai a contemplar o estúdio

ROSA: É. Tá tudo aqui. Dentro de algumas horas, todos nós vamos entrar para a história e mudar o rumo das comunicações deste país. (pausa) Carmelita! 

(Carmelita parece absorta em pensamentos

ROSA: Carmelita. Acorda. Toma, guarda isso. (Rosa entrega o manifesto a Carmelita) Vê se fica atenta. E qualquer coisa, finge que nada está acontecendo. 

CARMELITA: Bem que me disseram que o estúdio era demais. Olha só esse cenário. Você já viu uma coisa assim? Na TV parece bem menor. Ai, eu nem acredito que estou aqui dentro. Deixa eu tirar uma foto. 

ROSA: Isso lá é hora de pensar em foto, Carmelita. A gente tá fazendo a revolução. 

CARMELITA: Por isso mesmo. É pra nossa biografia. Toma (dá a maquina fotográfica para Rosa). Eu quero uma foto aqui. 

(Carmelita faz pose no meio do cenário e Rosa bate a foto)

CARMELITA: Agora outra pegando os bastidores. 

ROSA: Que merda de bastidores, Carmelita. A gente precisa assumir o nosso posto. (arrastando Carmelita pelo braço) Anda. Vambora.  

CARMELITA: Espera aí. Só mais uma. 

ROSA: Cala essa boca. Que tá vindo gente. 

(As duas saem correndo para os bastidores opostos ao lado que entraram. Entra o contra regra com uma lanterna

DIRETOR: (para a torre de luz) Ok, Moreira. Dá a luz aqui do palco. 

(Sobe uma luz que revela melhor o palco

DIRETOR: OK! Dez minutos para entrar no ar. 

(Entra o Diretor e Apresentador já conversando

APRESENTADOR: Mas Palhano, que pauta estúpida é essa? Um programa sobre teatro. Quem diabo é que se interessa por isso? Quando eu vi, nem acreditei. 

DIRETOR: Ordens são ordens, Bob. E você sabe como é que é se a gente for contra elas. 

APRESENTADOR: E eu que me esculache pra tornar esse troço interessante. Queria ver se fosse você. Tá pensando que é fácil? 

DIRETOR: Eu sei, Bob. Mas o que é que eu posso fazer? Foi uma sugestão da filha do homem, que tá querendo ser atriz. E ela quer por que quer essa pauta, e pronto. A gente aqui é só funcionário. 

APRESENTADOR: Êpa! Alto lá. Funcionário é você. Eu sou Bob Dicman. A emissora é que precisa de mim, não eu da emissora. Além do mais, eu devia ter sido consultado sobre essa pauta, como é de praxe. Não sei por que cargas d’água, dessa vez, ninguém me deu nem um telefonema. 

DIRETOR: Eu já expliquei. Foi uma coisa de última hora. Não houve tempo nem pra piscar, quanto mais pra consultar você. 

(Um tanto aflita, entra a pum pum girl 1, ainda sem peruca e com um roupão por sobre o figurino, é nítido que ela ainda se apronta para o programa

GIRL 1: Bob, eu preciso falar com você, urgente. 

APRESENTADOR: Agora não, meu bem. Eu estou ocupadíssimo. 

GIRL 1: Mas Bob, é um caso de vida ou morte. 

APRESENTADOR: Já disse que agora estou ocupado. 

GIRL 1: Você sempre diz isso quando eu falo em conversa séria. O que é? Por acaso está me evitando, é? 

APRESENTADOR: Mas será possível que não se pode trabalhar nessa espelunca. Tá bom, vá por seu camarim que daqui a pouco eu vazo por lá. 

GIRL 1: Daqui a pouco uma pinóia. Eu quero falar agora. Ou eu não faço o programa. 

APRESENTADOR: Tudo bem, gracinha. Se não quiser fazer não faça. O que não falta lá fora, é gente da sua laia pra macaquear como você faz. 

GIRL 1: Você tá chamando minha profissão de macacada? Pois fique sabendo que eu sou bailarina formada, ouviu bem? Macaca é a senhora sua mãe. E eu não faço esse programa hoje nem a tiro. (sai

DIRETOR: Você ouviu? Ela disse que não ia fazer o programa. 

APRESENTADOR: Arranja outra pro lugar dessa piranha. (sai furioso

(Entra novamente a pum girl 1

GIRL 1: Olha aqui, Bob Dicman... Cadê aquele pilantra? 

DIRETOR: Calma, Maria Amélia. Ele estava só um pouco nervoso. 

GIRL 1: Nervoso um cacete. Ele é muito é pilantra. O senhor viu a maneira como ele me tratou? Me chamou de macaca. 

DIRETOR: O Bob é assim mesmo. Daqui a pouco a raiva passa e ele vai pedir desculpas. 

GIRL 1: Pois ele que não venha. Porque de mim, o máximo que pode ouvir, é uma praga bem cabeluda. 

DIRETOR: Maria Amélia, largue mão de bobagem, minha filha. Você é uma estrela, e tá quase na hora do programa. Você precisa terminar de se arrumar. 

GIRL 1: Programa! Nem morta que eu entro em cena hoje se ele não vier, de joelho, me pedir desculpa e ouvir o que eu tenho pra dizer. Tá pensando que é o quê? Por cima de mim, ninguém passa, seu Palhano. Nem meu pai. 

VOZ (off): Três minutos para o início do programa. 

DIRETOR: Três minutos? Como assim? Minha filha você só tem três minutos para terminar de se arrumar! 

GIRL 1: Já disse que não ia e não vou. 

DIRETOR: Ah, vai sim. Nem que depois você mate o Bob, mas você vai, ou eu não me chamo Palhano. 

GIRL 1: O senhor mude o tom pra falar comigo. 

DIRETOR: E você vá logo terminar de se arrumar, ou todo o país vai saber de tudo que você fez pra chegar a vedete do “SerOuNãoSer. Com”. 

GIRL: O senhor não seria capaz. 

DIRETOR: Você não me conhece, minha filha, você não me conhece... Agora, vá se arrumar ou eu não respondo por mim. 

(A pum pum girl 1 sai do palco furiosa

DIRETOR: (respirando aliviado) Tudo OK. Dentro de dois minutos o programa vai ao ar. Pode liberar a platéia. 

(Luz na platéia. Palhano pega um microfone e se dirige à platéia

DIRETOR: (em tom cortês, mas frio) Boa noite. Bem vindos à TV SUPER. Eu sou diretor do “SerOuNãoSer.com”. Daqui a uns minutos a gente vai começar a transmissão do programa, ao vivo. Sendo assim, espero que os senhores respeitem as normas de conduta aqui dentro, tomando o cuidado de lerem as placas, principalmente as que têm escrito “APLAUSOS”. Isso indica, obviamente, que vocês são obrigados a aplaudir. Tal atitude é muito importante para a imagem e animação do programa. Convém lembrar também, que neste ambiente é proibido fumar ou fazer qualquer manifestação de repúdio ao programa, sob pena de os infratores serem punidos com expulsão do estúdio. Está bem entendido? Alguma pergunta? Não? Pela atenção, obrigado e bom espetáculo. (para os técnicos) Podem fechar a cortina. 

(As cortinas se fecham. Tateando pela profusão dos panos da cortina, irrompem, exaustas Rosa e Carmelita

CARMELITA: Você acha que ele viu a gente? 

ROSA: Claro que não. Me dá o rádio.  

(Carmelita dá o rádio a Rosa

ROSA: Raposa vermelha para cão pintado. Câmbio. 

VOZ no WT: (off) Prossiga, raposa vermelha. Câmbio. 

ROSA: A situação está sob controle. O programa começa em dois minutos. Câmbio. 

VOZ do WT: (off) Positivo. Atenção para o sinal. Câmbio. 

ROSA: OK. Câmbio final. 

(Diretor aparece pela cortina

DIRETOR: Hei! O que vocês duas estão fazendo aí? 

CARMELITA: Bom, a gente... 

DIRETOR: Já pro lugar de vocês. Não é permitido ficar perambulando pelo estúdio na hora do programa. Desse jeito, vocês vão ser expulsas. 

ROSA: Tá, desculpa. A gente só queria um autógrafo do Bob Dicman. 

DIRETOR: Isso é depois do programa, minha filha. Só depois é que ele vai receber as fãs. Agora ele está se preparando. Agora, já para os lugares de vocês. 

(As duas saem pela platéia e somem

DIRETOR: (com microfone) Muito bem. Todos a postos? Bob, tudo pronto aí? 

GIRL 1: (por trás das cortinas) Bob, eu preciso falar com você antes do programa. É urgente. 

DIRETOR: Ok. Luz do palco. 

(Cai luz sobre a platéia. Sobem canhões seguidores sobre a cortina

DIRETOR: Ação. (sai)

(Inicia-se a vinheta do programa. Abrem-se as cortinas. As pum pum girls evoluem numa coreografia estúpida em volta do apresentador. Confetes jorram do teto. A pum pum Girl 1 parece furiosa) 

APRESENTADOR: Boa noite, senhoras e senhores, hello boys, hello girls, sejam todos bem vindos ao nosso grande “SerOuNãoSer.com”, yesss! 

 (As pum pum girls erguem a placa “Aplausos”. Sonoplastia de aplausos

APRESENTADOR: (entusiasmado) Yeah, thank youu!!!. Se você está aflito e não sabe o que escolher, se ligue já nesse programa e saiba logo o que fazer. That´s it!!! Por que esse programa foi pensado pra isso: ajudar o nosso telespectador a resolver os seus mais profundos conflitos, yes, you can do it! Tudo isso com o apoio da “Maionese Corpo Dourado” e do anti-depressivo “Stress Stop”!!! 

PUM PUM GIRLS: (juntas)

Maionese Corpo Dourado
Anti depressivo Stress Stop
Agora nas melhores casas do ramo!
Pague duas, leve três
A escolha é sua, você é que fez!
 

APRESENTADOR: Yeah, você que fez, claro!!! Aqui quem escolhe é você, you choose, yess!!! E como o tema do programa hoje é Teatro, vamos logo começar apresentando os celebres, os grandes, os maravilhosos participantes do show “SerOuNãoSer.com” de hoje, (em tom mais eufórico) o pessoal descolado da Cia Atemporal 33!!! 

(Entra música da vinheta do programa, bem como luzes coloridas e sonoplastia de aplausos. Jorram confetes coloridos e brilhantes do teto. Os atores da companhia, porém, não entram) 

APRESENTADOR (com sorriso amarelo): E eles já devem estar chegando, com vocês, o Atemporal 33!! Boys? Girls? Salve o teatro, essa arte secular que nos brinda a todos com obras maravilhosas e nos dá o prazer de encontrarmos gente tão saudável, bonita e bem disposta como esse pessoal, que... que... que deve estar se aprontando para dar o melhor de si mesmo!!!

Alguém aqui da platéia gostaria de falar alguma coisa? Mandar um recado, ou dar o seu testemunho sobre a Maionese Corpo Dourado? Yess, you can do it!!! Ou então mandar um beijo pra vovó que está nos assistindo lá no ponto mais alto da serra? Não? Pois então vamos dar início ao primeiro trecho de hoje, por que afinal “Se você está aflito e não sabe o que escolher, se ligue já nesse programa e saiba logo o que fazer”! Num oferecimento da Maionese Corpo Dourado e do Anti depressivo natural Stress Stop: “SerOuNãoSer.com”!!!

(Entra vinheta do programa e sonoplastia de aplausos. Numa coreografia, as pum pum girls trazem uma urna para o sorteio da cena. O apresentador retira da urna um papel. Rufar de tambores) 

APRESENTADOR: E a primeira cena apresentada hoje é de... Antigôna! 

(Breve vinheta. As pum pum girsl levantam a placa de APLAUSOS. Sonoplastia de aplausos

APRESENTADOR: Mas, Boca, o que é Antigôna? 

(Foco em Boca

BOCA: (mecanicamente) Antígona, de Sófocles. Tragédia grega em que uma irmã quer enterrar o irmão considerado traidor, contra as ordens do rei. Antígona, a personagem principal, é condenada à morte por levar à cabo seu intento, guiada pela lei do coração. Esta peça nos ajuda a refletir sobre o que vale mais: as vontades guiadas pelo nosso amor, ou aquelas guiadas pelas exigências sociais. (sonoplastia de aplausos)

(Apaga-se o foco sobre Boca. Sobe a luz do show

APRESENTADOR: Essa boca sabe tudo. Mas o que ela esqueceu de dizer, foi que esta peça também pode nos ajudar a escolher como fazer para se livrar da sua irmã chata, ou como se comportar num enterro. Então vamos lá. Com vocês, Antígona. 

(Breve vinheta. Numa coreografia, a urna é retirada do palco e todos vão saindo. Ao fim da vinheta, muda a luz. Todos saem do palco, ficando apenas as duas atrizes que fazem a cena.

ISMENIA: Antígona, eu pensei bem... 

ANTIGONA: Sim. 

ISMENIA: Eu fiquei pensando a noite toda. Eu não consegui dormir. Você é louca. 

ANTIGONA: Sim. 

ISMENIA: Não podemos. 

ANTIGONA, após um silêncio: Por quê? 

ISMENIA: Ele nos mataria. 

ANTIGONA: Claro! E papel dele. Ele deve nos matar e nos devemos enterrar o nosso irmão. É assim que os papeis foram distribuídos. O que você quer mudar nisso? 

ISMENIA: Eu não quero morrer. 

ANTIGONA, com ternura: Eu também preferiria não morrer. 

ISMENIA: Escute, Antígona... Eu passei a noite toda pensando. Eu sou mais velha, eu penso mais do que você... Você é impulsiva demais! Eu sou mais calma, eu penso mais do que você. 

ANTIGONA: Às vezes, é melhor não pensar demais. 

ISMENIA: Claro, Antígona. Eu entendo perfeitamente. Eu também fico com pena do nosso irmão, mas eu confesso que eu entendo um pouco o nosso tio também. 

ANTIGONA: Eu não quero entender ninguém um pouco, um pouco só. 

ISMENIA: Ele é o rei. Ele tem que dar o exemplo. 

ANTIGONA: Eu não sou rei, nem rainha. Eu não quero dar exemplo para ninguém. Ah, coitada da Antígona, a louca, a impulsiva, aquela que faz tudo o que quer... Depois é só colocá-la dentro de um buraco, dentro da terra. Também, ela não podia pensar antes? 

ISMENIA: Olha só a tua cara! Você não sabe que eu tenho razão muito mais vezes do que você?! 

ANTIGONA: É verdade. Mas eu não quero ter razão.  

ISMENIA: Tenta entender, pelo menos! 

ANTIGONA: Entender, entender! E a única palavra que vocês conhecem, todos, desde que eu sou criança! A gente tem que entender que não se pode brincar com a água, aquela água fria e linda, porque tem que economizar, e não se pode brincar com a terra porque suja a roupa. Tem que entender que não se pode comer tudo de uma vez, não se pode dar tudo o que a gente tem no bolso pro mendigo sentado em frente da padaria, não se pode correr, correr no vento até cair de cansaço, beber quando a gente está com calor demais, se banhar quando é tarde, ou cedo demais, mas não exatamente quando a gente sente vontade. Entender. Sempre tem que entender. Eu não quero entender. Eu vou entender quando eu for velha (Ela termina devagar). Se um dia eu for velha... Mas agora... Não.  

ISMENIA: Ele é mais forte do que a gente, Antígona. Ele é o rei! E todos pensam com ele em Tebas. São milhares e milhares ao nosso redor, milhares nas ruas da cidade. 

ANTIGONA: Não estou prestando atenção. 

ISMENIA: Eles vão gritar, eles vão cuspir na nossa cara. Os guardas com as mãos grossas, com aquele olhar bovino deles, a gente vai saber que só se pode gritar, gritar, gritar, mas que isso não vai mudar nada, eles vão fazer o que eles tem que fazer. E sofrer. Vamos ter que sofrer, sentir que a dor está aumentando, sentir que ela chegou no ponto onde não é mais suportável, mas ela vai continuar se intensificando, não eu não posso, não posso... 

ANTIGONA: Como você pensou bem! 

ISMENIA: A noite inteira. Você não? 

ANTIGONA: Sim, claro. Também! 

ISMENIA: Antígona... Eu não sou muito corajosa.  

ANTIGONA: Eu também não. E daí? 

ISMENIA: Você não tem vontade de viver? 

ANTIGONA, murmurando: Vontade de viver... (murmurando mais ainda). Quem sempre levantou, de manhã cedo, para sentir o frio em cima da pele nua? Quem sempre deitou por ultimo, quando ela não agüentava mais o cansaço, só para viver um pouco mais da noite? Quem chorava, criança, porque tinha tantos bichinhos, tantas ervas no campo e que não dava para pegar todas? 

ISMENIA, indo para ela: Minha irmã querida... 

ANTIGONA, levanta, grita: Ah, não! Deixe-me! Não me dê caricias! Não vamos começar a chorar juntas, agora. Você pensou bem, não é? Você pensou na cidade toda gritando contra ti, você pensou que a dor e o medo de morrer são argumentos suficientes? 

ISMENIA: Sim. 

ANTIGONA: Use estes pretextos, então.  

ISMENIA, se jogando contra ela: Antígona! Por favor! Acreditar em idéias e morrer por elas vale para os homens! Você é uma menina! 

ANTIGONA: Uma menina, sim... Já chorei tanto por ser uma menina! 

ISMENIA: A tua felicidade está aqui, na tua frente. Você é noiva, nova, linda... 

ANTIGONA: Não... Eu não sou linda. 

ISMENIA: Não linda como a gente, mas linda de outra forma. Você sabe que é pra ti que os mendigos olham quando você passa, é você que as menininhas seguem na rua, silenciosas até ti verem desaparecendo na esquina.... 

ANTIGONA, sorrindo: Mendigos, menininhas... 

ISMENIA: E Hêmon, Antígona? 

ANTIGONA: Falarei com Hêmon daqui a pouco. Hêmon será uma historia acabada hoje a noite mesmo. 

ISMENIA: Você é louca. 

ANTIGONA: Você sempre disse isso... Mas por favor, Ismênia, vá dormir ou você não estará bela amanhã. 

ISMENIA: Você vai me deixar te convencer ainda? 

ANTIGONA: Claro... 

Ismênia sai. 

... Claro que não. Coitada... 

(Antígona fica olhando pra platéia um tempo. Ouve-se a vinheta do programa. Entra o apresentador e as pum pum girls com sorrisos amarelos. Enquanto o apresentador fala, a pum pum girl 1 retira de cena, à força, a atriz que fez Antígona. Esta sai argumentando coisas inaudíveis, mas que sugerem espanto)

continua...

 

 

 

             

A peça SerOuNãoSer.com foi montada em 2005 pela Cia de Teatro Atemporal33, com direção dos próprios autores.

Tania Alice Feix
é atriz, diretora teatral, escritora e professora-doutora de Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto. Publicou em 2005, pela Omni Editora, o livro infantil Todo mundo sabe!, com ilustrações de Christophe Esnault.

Aldo Marcozzi é dramaturgo e professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú.

 

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+ LITERATURA

  ®  dramaturgia  ®  Aldo Marcozzi & Tania Alice Feix  ®  Geraldo Lima  ®  Luciano Bonfim  ®  Miguel Carneiro
  ]  poesia  ]  Caio Gagliardi  João Tomaz Parreira  Júlio Lira  ]  Os 7 do Achamento  Os 7 da Bahia  Vicente Martins

 

ADJACÊNCIAS

© crítica ©  Caio Gagliardi interpela Ricardo Lima
©  Cândido Rolim lê "primeiro as coisas morrem"
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.: editorial :

 Bonfim                        Feix                        Glaydson

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