2 resenhas
luiz d. maia

 

 

OS SONHADORES
(The dreamers - dir: Bernardo Bertolucci - Itália/França/Reino Unido/EUA - 2003)

            Numa Paris agitada, no efervescente mês de maio (ano de 1968), três jovens alheios a tudo e reclusos em seus sonhos - projetados e modelados por cenas de muitos filmes vistos por eles -, vivem distanciados dessa realidade inquietantemente política.

            Esse é o cenário de “Os Sonhadores”, de Bernardo Bertolucci. O filme começa com manifestações públicas, em Paris, em repúdio a demissão de Henri Langlois da Cinemateca Francesa. Era tempo de manifestações. O jovem americano Matthew, que estava na França e que freqüentava assiduamente a cinemateca, conheceu os irmãos Isabelle e Theo nessa manifestação. A polícia confronta; todos fogem, os três ficam juntos e se tornam parceiros.

            Eis o início de uma relação. A empatia se dá pela singularidade de visões acerca do mundo: para eles tudo perpassa por imagens cinematográficas. Em jogos e disputas, com temáticas relacionadas a filmes, os três constroem um tipo distinto de contato. Matthew fica na casa dos irmãos - os pais deles viajaram. Aliás, algo proveitoso para os irmãos, seres misantropos por opção, pois nunca depararam com alguém que pensasse como eles. O encontro com Matthew, então, fora muito salutar para os irmãos, pela simbiose de idéias e por achá-lo original e surpreendente. Até o pai dos irmãos, escritor ranzinza, achara isso!

            Parêntese aberto: os jovens irmãos desenvolvem outro mundo - em um mundo que buscava outro mundo. Para eles tudo era cinema: suas falas e gestos eram pontuados por falas e gestos vistos no cinema (agora fechado) e em um universo libidinoso ao extremo. Mas eles não eram livres, mesmo nessa relação libertina. Pois mesmo com um forte e tácito amor entre eles (sem incesto) - e despudoradamente unidos -, eles são como siameses: “presos” e em dependências mútuas. E são autodestrutivos também! Parêntese fechado.

            No filme, Bernardo Bertolucci corta as cenas com cenas de outros filmes, intercalando-as, para reforçar a idéia de continuidade indissociável entre uma coisa e outra. Nas disputas e atos cotidianos vemos Charles Chaplin, no estupendo filme “Luzes da Cidade”; Marlene Dietrich, fantasiada de gorila em “Vênus Loira”; além de cenas de “Scarface, a Vergonha de uma Nação”; “Rainha Cristina”; “O Picolino” e outros. Existe também as imitações que os protagonistas fazem de vários filmes, como a corrida pelo Louvre, para bater o recorde dos protagonistas de “Band à Part”, de Godard. A própria história sensual dos três personagens jovens, remete-nos a “Jules et Jim”, de Truffaut. O filme é conduzido por músicas maravilhosas: de Jimi Hendrix, The Doors, Janis Joplin...

            O filme é isso: um deleite para quem gosta de cinema - e de música. Uma ode ao cinema – e a arte de maneira geral - como forma de intervenção na vida. A arte como algo que se confunde e é mais importante que a vida; algo libertador e desinibidor por natureza.

            Mas acontece que existe a vida concreta (mesmo que aquém ou, além disso). E essa exige participação ativa. Os jovens franceses gritam nas ruas. Ou melhor, todos gritam nas ruas, não só os jovens – ou os intelectuais. Esse momento clama pela participação dos protagonistas de “Os Sonhadores”. Eles já não podem ficar mais encarcerados, em seus jogos e sonhos pequeno-burgueses. Os gritos revolucionários incitam-nos à participação.

            Em irrupção eles aderem à causa e partem contra o sistema opressor. Saem da casa, entregam-se aos discursos inflamados. Mas esses são desvinculados de poesia, ou arte: algo que não tem nas imagens de cinema. Só o americano tenta conter os ímpetos. Em vão. Os irmãos aderem à realidade escura, que vai apagando suas vidas clarividentes - e luxuriantes. Eles entregam-se a realidade catártica. Para a decepção de Matthew, o mais sonhador e inquietantemente político dentre todos: os irmãos e os que protestam nas ruas de Paris.

 

ANTES DO PÔR-DO-SOL
(Before Sunset - dir: Richard Linklater - EUA - 2004)

            À moda de Eric Rohmer, Richard Linklater expõe como a vida é, através de diálogos, e mais diálogos, entre os íntimos, mas desconhecidos, Celine (Julie Delpy) e Jesse (Ethan Hawke). Eles dão ritmo ao filme - e organizam suas vidas - através de suas falas saborosas. E essas falas nos apresentam imagens. Ah! As imagens! São elas que nos conduzem a Paris - como ela é. A vida como ela é, através do jeito da cidade, seus confins e becos, que os cartões postais, “vendedores” da cidade para os turistas, não mostram.

            Esse encontro é um reencontro. Em 1995 eles se conheceram na estação ferroviária de Viena, com destinos diferentes: Celine para França (ela é francesa) e Jesse para EUA (ele é americano). Mas ficaram juntos por uma noite - com muitas conversas também e andanças pela Europa. Isso fora narrado em “Antes do Amanhecer”, também de Linklater.

            O reencontro é “Antes do Pôr-do-Sol”, depois de nove anos. No encontro anterior fora combinado um encontro, seis meses depois. Parece que eles não foram a esse encontro. Então Jesse escreveu um livro, um best seller, narrando isso tudo. Ele está em Paris para o lançamento da obra, e Celine vai vê-lo, discretamente, enquanto ele fala com jornalistas. Jesse a vê, apressa a entrevista e vai encontrá-la. Seu objetivo parece que fora alcançado...

            E é aqui que o filme começa. Jesse tem horário marcado (no pôr-do-sol) para viajar em seu périplo de divulgação do livro: coisa necessária e chata, que todo escritor se presta para ampliação de leitores. E ele parece não querer isso: queria apenas uma leitora e essa já havia lido o livro (e por duas vezes), conforme fica sabendo por Celine, sua leitora querida.

            O filme assim vai afunilando sentimentos à medida que o tempo passa - e o horário do vôo de Jesse se aproxima. No início eles aparentam descomprometer-se o tempo todo com o antigo encontro, revendo-o de forma espirituosa. Mas, à medida do tempo e da fluência das falas, as dores e amarguras vão surgindo. Não há brigas – até por que eles não são um casal! Não há lamentos, culpas ou cobranças. E esse é o grande dilema da relação, pois tudo poderia ser diferente (poderia ser ruim ou não), e eles não tentaram. Isso é culpa de ambos? Não e sim: foi culpa da juventude que tinham; de acreditarem na ação do acaso. Ora, isso quase sempre não acontece. E olha que eles chegaram a morar “perto” - em Nova York entre 1998 e 1999 -, no período de mestrado de Celine. Ela é cientista social.

            Mas disse que “Antes do Pôr-do-Sol” remete-nos a Eric Rohmer. E é verdade, pela abundância da falas (não será possível reproduzi-las, pois contaria o mistério do filme para quem não o assistiu). Apenas ressalto que tudo é exposto e dito com ênfase (e é isso que o difere do filme anterior), mas deixa lacunas (as coisas sempre parecem que são, ou que foram, de determinada forma). Os sentimentos – ou os medos de expô-los – aparentam travar o que está no âmago dos personagens. E ademais, se pouco foi revelado quando eram mais jovens e com menos compromissos, não seria agora - nas auroras das vidas – e mais compromissados (ele é casado e tem filho; ela tem um namorado), que eles iriam se expor?

            Mas o filme não é para lamentos. E tem um final magnífico: ela é deixada em casa; ele entra para ouvir uma música da moça (ela também registrara o antigo encontro). Ele sempre postergando a viagem... Claro! O motorista que espere! Entram na casa da moça, nos fundos de uma vila simpaticíssima (Ai, que vontade de largar tudo para morar nesse lugar!). Ele põe um CD de Nina Simone; ela imita-a ao som de Just in Time; fazendo biquinho e tudo mais. Nossa! Quanta sensualidade de Julie Delpy! E o sol se pondo; e Ethan Hawke parecendo (é sempre assim) mandar a viagem e o motorista às favas...

 

 

 

 

Luiz Divino Maia, historiador, escritor e professor.

 

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