As mulheres cegas
                                                                ( texto para 4 vozes )
                                    luciano bonfim

 

 

 

(Neste momento o cântico : A nós descei, divina luz; a nós descei, divina luz; em nossas almas acendei, o amor, o amor de Jesus; o amor, amor de Jesus).


BEATRIZ

Persignar-se é fazer três cruzes com o dedo polegar da mão direita aberta, uma na testa, uma na boca, uma no peito, dizendo: Pelo Sinal da Santa Cruz, livrai-nos Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos.
O cão atenta principalmente a quem não o vê – Dizia a minha mãe, numa ladainha, sem começo nem fim. O cão promete a luz mas...
Sete são os pecados capitais: soberba, avareza, luxúria, ira, gula, inveja e preguiça.
...
Ah! Gabriel, por que me fizestes tão bem? Tão soberba em meus encantos, tão apegada ao teu alumbramento.
...
“O cão atenta mais ainda a quem o ver na escuridão”.
...
Mas ele era tão e tantos.
A minha ira, o teu sexo. Teu sexo , a minha gula. Causa-me inveja não saber o que é o azul, e o diziam em teus olhos incontestes – esta preguiça para a vida não me deixou de toda...
(Neste momento faz o sinal da cruz e em seguida a ‘oração das tentações’.)
“Bendito seja, Senhor para sempre o vosso santo nome, pois permitistes que viessem sobre mim estas tentações. Não as poderei evitar; mas é indispensável que a vos recorra, para que me auxilieis, e as torne em meu proveito.
Eis-me, Senhor, em vexame! Meu coração está desassossegado por causa desta paixão que me atormenta vivamente. E que vos direi, Pai amantíssimo ? Estou entre angústias, salvai-me nesta hora! (...) Assim seja!

GABRIEL

(Como se estivesse em transe, a todo ‘vapor’. Memórias aos borbotões – incansável frenesi, é isto : uma alucinação)

... era manhã, domingo, dezembro, o sol perdera o pino, flamboyant’s riam do céu, ela ria de tudo, sobrava; tinha réstias de lucidez, asa nos ombros, cataventos nos pés; a roupa parecia chumbo, sufocava; calor – o sexo aflorando, resplandecente, tempestade era, quase dilúvio; elevações, reflexos, espelhos, apolos; desabotoou-se – lares horrorizaram-se, pasmaram, trancaram-se em portas e janelas, abriram-se em olhos e espantos, ouvidos e memórias; medo : besteira isso; vento – circulava o feromônio, borboletas reclamavam olhos viajantes; muitos anos de vida : hermenêuticas, benditas, inexatas; rompendo sombras, anunciando luas, divergindo o firmamento; era manhã, domingo, dezembro; surpresa, ela ria de tudo, sobrava, o sol perdera o pino, flamboyant’s riam do céu, ela ria de tudo.

BEATRIZ

“Vai passando um fardo de amor e pecado” – Diante da luz negada aos olhos meus, persegue-me um rastro de solidão e carinho.
Perco-me entre ausências de beijos e afetos.
Nenhum bravo navegador possuidor de desejos eldorados, nenhum destemido pirata e sua bandeira negra assombrando a luz dos faróis, persegue-me repleto de esperanças e iguarias - Decerto é estiagem no mar de meu coração.
...
A cegueira das letras, a cegueira da plebe, das máquinas, músicas e musas, a cegueira dos lares sem expectativa e amor, dos cartões sem afeto, das ruas e becos, a cegueira dos metais e sua vileza...
...
Órfãs de luz e simpatia, prenhes de “escuridão e rutilância”; na borda de todos os ombros, de todos os corpos, olhos e afins, a incerteza. A certeza do tédio de não se tornar o que poderia ter sido, o descompasso por não alcançar, o almejado desde a mais tenra idade. O afastar-se da verdade íntima. Urgente se faz reinventar o tempo, enfrentar o cotidiano – possuir-se da coragem dos desesperados.
...
Cegueira. Intensa luz nos cega. Escuridão. Toda cegueira transborda de luz.
Ancestrais desejos, nossas íntimas cegueiras, carregadas de sublimes segredos; Sonhos soterrados pela ânsia de posses – Cegueira de si próprio na busca de se tornar um outro diferente da antiga visão da perdida infância.
..
Das muitas cegueiras da humanidade, tocou-me a sina do assum preto, cantador de enigmas e mistérios, dores e saudades.

RAFAEL

Nascera e criara-se ali mesmo. Acostumando o nascente, o poente, a melancolia e todos os cantos da casa aos seus olhos, olhos de ofício. Alimenta-se, percebe o passar dos homens e do tempo, vexames e andanças, migalhas de sonhos, restos de pesadelos – as coisas todas - do ângulo da janela; seu olhar vai longe, errante, ultrapassa o cimo da serra.
Suspira profundamente... distante... acreditando nos mistérios confessados pela janela.
Sua infância transformou-se em memória, veio a adolescência : os sinais, o fluxo, lágrimas, paixões, remansos, remorsos...
Aprendeu de cor e salteado quando a paisagem está monótona ou faz bem aos semblantes, aproximando o movimento dos corpos.
Gosta do tempo em que os flamboyant’s estão férteis e dos periquitos que passam em bando anunciando a noite.
Quem passa, pára, olha, nada ver – tudo pergunta.
Ela nem percebe – cardumes dessa natureza não lhe interessam nem afligem.

GABRIEL

O pior cego é o que acredita já ter visto de tudo e tudo.

RACHEL

Tenho minhas próprias vontades e verdades, mas tive que confiar mesmo em quem não via confiança.

RAFAEL

No princípio além do verbo, existia a promessa de paraíso.

BEATRIZ

Que ele saiba : o arco-íris que me deste era vidro. O amor que tu me tinhas se quebrou.

GABRIEL

Roupas, físico, bebidas, ruas, ambiente, tráfego
E no dia seguinte todos deram notícias sobre o casal

RACHEL

O melhor do rio não é apenas correr pro mar : esmola grande, cego desconfia. Que ele não saiba...

RAFAEL

A fome do tempo assaltou nossos abraços.
Relógios. Curvas.
Nasceram cruzes no jardim.

BEATRIZ

Bom dia, meu senhor, que bela manhã, não ?
Desta janela para se ver paisagem o senhor é bem mais simpático.
...
Tudo bem, você!
Não aceitas uma bebida, uma dança, um poema ao pé do ouvido, uma cantiga ao cair da noite, um abraço ao romper do dia – a calmaria dos lençóis, dos lençóis a rebeldia.
Não sei muito sobre geografia ou nome de cores ou flores, destas sei dos odores. Não sei quase nada ou nada, sobre o hábito alimentar dos mastodontes ou sobre a preferência sexual das jibóias.
Aprendi das guerras a saudade e a lamentação dos órfãos.
Espelho, espelho meu... Ah! todas as manhãs quando toco a tua face fria, me arrebata uma ânsia de acontecer-me o céu, o mar, uma certa beleza que só é conhecida dos suicidas e poetas.
Espelho, espelho meu, onde estará no mundo a luz que não me pertenceu.
Bom dia, meu senhor, bom dia. Que bela manhã, não ?

RAFAEL

Meio-dia: o tempo. O mês: janeiro, setembro... não recordo.
Creio não haver relevância de precisão para o que me proponho contar. Lembro isto sim, que o sol ardia desde as primeiras horas da manhã. O guarda, me disseram, regava as flores no canteiro da praça. Ainda não possuía maioridade e constavam alguns pêlos em meu rosto e tórax. Ela procurava uma blusa, sapatos pretos – pois combina com tudo que não vejo – e , um perfume suave.
Não sei se encontrou a todos, apenas os sapatos ou nenhum deles, esquivo-me.
Estava deitado, quase dormindo. Ela beijou a ponta de meus dedos com a sua boca úmida e frugal (carinhosa e lentamente). Meus olhos, frágeis delatores, naufragaram em íntima sensação.
Imagino que poucas mulheres realizam este acontecimento!

BEATRIZ

Gabriel deu notícias?
Bastava alguém perguntar e procura orvalhos ao sol do meio-dia. Parecia o diabo ao ver a cruz.
...
Vá tomar no hino, seu filho da pátria. (‘Trecho’ inspirado em Tom Zé)
...
Xingava! Xingava e pensava em seu pênis em riste. Do céu ao chão: entre girassóis e a escuridão do firmamento.
Todas as manhãs ele estava em minha janela, tornava-se a nossa felicidade, como uma chuva que não nos pertence. Beatriz, ele dizia, como se fosse uma antiga canção de sonoridade incontestável e ritmo terno, conhecida apenas dos iniciados.
Ah! A sua ausência me tornou incompleta, e hoje não te esqueço, para não ficar cada vez mais vazia, haja visto a tua carência completar-me no que não me resta de mim mesmo. Espanto e grandeza, como um córrego que transpira orvalhos.

RAFAEL

Meu amor : olhos pálidos e cansados.
Teu olhar : flores mortas no jardim.
A solidão das cores. A infinita véspera.

RACHEL

(Voz : tateando na escuridão)

O frio veio breve àquela noite e as aves noturnas tiveram um agouro intenso, um discurso prolongado. Poucas folhas mortas roçaram seus corpos no chão ao impulso do vento que trouxe rumores esquisitos. Calafrios assombraram o amanhecer, desaparecendo na brevidade das fugas.
...
Rafael, Rafael...
O paraíso apresenta simetrias.
Rafael, toda prisão é dentro da liberdade. Rafael!
Rafael, Rafael! Que fique ilustrado.

BEATRIZ

Quando a luz penetrou em minha fresta, queimou como de fato dizem queimar a luz nestes casos. Da luz um calor intenso penetrando-me até rebentar-se no ventre. Senti-me detentora e detenta de uma clara e imensa fogueira.
Passei a perceber-me pela sua ausência. A minha realidade pela falta da sua. Todos somos cegos de alguma cegueira. Tornei-me um eterno esperar. Comecei a ser o que não existe em mim e no mundo.

GABRIEL

À noite as casas se recolhem
Orvalhos esmeram folhas
Corpos conjugam-se.

RACHEL

Te quero muito. Demasiadamente. Te esqueço como posso, estou mais calada que d’antes. Te esquecerei pelo excesso.

RAFAEL

Adentro dias e noites afora
Compõe-me apenas uma certeza:
Jamais enxergarei tais mulheres órfãs de luz
E prenhes de claridade e mistério!

(Neste momento Rachel e Beatriz começam a sentir contrações. Parir : aproxima-se o momento.)

RACHEL

Externa luz. Eterna noite sem estrelas !

GABRIEL

Certa água de salgadas memórias
Mina de meus olhos rasos
Trazendo consigo uma ferrugem que ainda não compunha o horizonte
Na imensidão : nem palmeiras ou canto de sabiá.

BEATRIZ

Olhos vazados. Imensurável sol!

GABRIEL

Durmam em paz, mulheres cegas de minha aldeia
Sonhem qualquer que seja o itinerário da morte
Sonhem assim mesmo ou principalmente pela vida.

Fecho a minha noite através da janela de teus olhos incolores

Adormeço a imaginar como são os sonhos das cegas de nascença

(Rachel e Beatriz : intensificam-se as dores e contrações)

RAFAEL/ GABRIEL

(Alternadamente)

A cega abriu as pernas pra luz!
Olha o filho da cega!
A cega vai parir!
Cadê o filho da cega que ela não viu!
A cega ficou mais cega!
As pernas da cega abriram-se pra luz!
A cega tá cheia de luz!
Toda cegueira transborda de luz!
Olha!
Pega!
Cega!
Veja os olhos da cega perderem-se no olho por olho!
Olha o olho nu da cega!
A cega abriu as pernas pra luz !
Olha!
Pega!
Cega!...

- A lua foi testemunha!

(Neste momento o cântico : A nós descei...)

 

Sobral, 7II00. 2:05 a.m.
(a escutar ‘o patrão nosso de cada dia’ : secos e molhados).
Revisão: Sobral, 6XII03 5:38 p.m.
(viajando com ‘sete cidades’ e ‘se fiquei esperando o meu amor passar’ : legião) 

 

 

 

             

Luciano Bonfim, autor de Dançando com sapatos que incomodam (contos, 2002)

 

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