cor, mito
            sombra, mão
            júlio lira

 

 

       jogo de pedras para um jardim japonês
                                                            

no muro alto instalam a cerca elétrica.
na camada suficiente de amarelo,
num subcutâneo cinza
que se dizia branco-gelo,
o recostar ocasional.
também fixo, um choro,
e silêncio amealhado

mucosas regurgitadas
aos pedaços, pois é aos pedaços
que se pede que se morra
– asa da xícara ao chão –
a criança, pele tão fina,
tateia a enciclopédia de mitologia

Perseu brande o escudo
e Medusa, refeita convexa,
cáustico ouriço solar,
desdobradas vezes mais visível
aos circunstantes

paredes empáticas,
no reboco contaminado
sal e umidade por gerações
rui a crosta ao fio dos segundos

a cabeça-ninho apartada e
viva, secretando peças para
o jardim japonês – e um cavalo voador

 

 

 


                                        a partir de Kapa

                                                                         

Azul de granada, amanhã franceses e alemães descerão à praia. Neste instante, um cadáver - o cobertor de barras listradas - com braços e pernas desabadas empurra à frente os ombros circunflexos e a cabeça raspada da menina. Um olhar curto (qualquer desenho de horizonte é desmentido) preso à calçada. Só a sombra, em diagonal, estende-se.

 

 

 


                                                              arquitetura para o bem comum

                                                                                                    

A um foi contraposto o outro – estruturas de um arco pleno, em distância constrangedora. Mãos perdidas, calças curtas, entrincheirados por trás da mesa com toalha de linho e arabescos, em souvenir eucarístico esperando o flash que décadas depois ainda disparava, iluminando a mesma disposição.

 

 

 

             

Júlio Lira nasceu em Fortaleza-CE, em 1959. Educador e Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de Fortaleza. Prêmio Domingos Olímpio de Literatura, da Secretaria de Cultura de Sobral, em 2002, e Prêmio Literário Cidade de Fortaleza, da Fundação Cultural de Fortaleza, em 2003. Livros publicados: A História Inacabada de Maria Rapunzel (Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 2002) e Graciano (Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 2003).

 

;:;;

;;:

+ LITERATURA

  ®  dramaturgia  ®  Aldo Marcozzi & Tania Alice Feix  ®  Geraldo Lima  ®  Luciano Bonfim  ®  Miguel Carneiro
  ]  poesia  ]  Caio Gagliardi  João Tomaz Parreira  Júlio Lira  ]  Os 7 do Achamento  Os 7 da Bahia  Vicente Martins

 

ADJACÊNCIAS

© crítica ©  Caio Gagliardi interpela Ricardo Lima
©  Cândido Rolim lê "primeiro as coisas morrem"
©  Luiz D. Maia assiste Paris no cinema
} artigos } Daniel Glaydson obs. as mãos dos negros
} Vera C.N. e José A.B. pesq. visualidades poéticas
} Vicente Martins escreve a poetas de 45

 

:;;

;;:;

.: editorial :

 Bonfim                        Feix                        Glaydson

.: contato .

 famigerado@famigerado.com