Trinta gatos
                                               e um cão envenenado

                                                                  geraldo lima

 

 

Personagens
  Dona Altina
  José
  Zeza
  Augusto
  Consciência ideal de Zeza
  Coro das máscaras

Cenário
  Interior de uma casa simples. Deve-se evitar, porém, a caracterização
puramente realista do ambiente. Mesclar o espaço real e o onírico.

 

1º ATO 

CENA I 

            Escuro. Vozes aflitas dentro das trevas. Acende-se uma vela. Dona Altina e Zeza aparecem dentro da penumbra. Ouvem-se sons de rádio patrulha, trovões etc. A apreensão e o medo são visíveis no rosto de Dona Altina: teme pelo filho que saiu de casa para ir ao encontro da namorada. Zeza, no entanto, parece tranqüila, até mesmo satisfeita.  

DONA ALTINA 

            Que hora o seu irmão foi escolher pra sair. 

ZEZA 

            Ele sai todas as noites, a essa hora, já se esqueceu? 

            (O estrondo de um trovão faz Dona Altina estremecer, encolhendo-se ainda mais. Zeza não se abala, permanece tranqüila, fria, como que saboreando o terrível espetáculo da natureza.) 

DONA ALTINA 

            A pessoa não ter temor de nada é uma lástima. Põe-se a vida em risco por nada, por uma sirigaitazinha qualquer. A cidade nessa violência absurda, e o Augusto andando por aí... 

ZEZA

(atropelando as palavras da mãe)  

            Gosto, gosto de noites assim, sem luz, breu total, com tempestade, raio, trovão, árvore sendo arrancada... 

DONA ALTINA

(perplexa) 

            Meu Deus, parece que só tem louco nesta casa! 

ZEZA

(quase em êxtase) 

...telhado voando longe, o vento urrando por cima da casa, o desespero das pessoas, a violência da natureza... 

DONA ALTINA 

            Chega,  Zeza... 

ZEZA 

            ...desde pequena eu gosto disso, o vento esmurrando a porta, parecendo que quer arrancar a casa pela raiz... escuta, mãe, o barulho de galho sendo partido no meio... os trovões.... 

DONA ALTINA 

            Você quer me deixar louca... Não basta a luz ter acabado logo agora? 

ZEZA

(arfando, num jorro só) 

            ...o Augusto deve estar se borrando de medo lá com a namoradinha dele... lembra, mãe,  quando ele era pequeno, como se agarrava nas suas pernas quando vinha uma tempestade violenta? O coitado se desmanchava de  medo... A ventania arregaçando a copa das árvores... Eu, não... eu nasci pra gostar disso, das tempestades...

DONA ALTINA

(cobrindo o rosto com a mão direita, angustiada) 

Chega, Zeza! Chega de falar asneira! Respeita a minha dor, o meu desespero de mãe. Quando você for mãe, vai entender o que estou sentindo.  

ZEZA 

            Nunca, nunca vou ser mãe.  

DONA ALTINA 

            Nunca diga: desta água jamais beberei. Vai querer ser como uma pedra coberta de lodo? Como uma árvore seca no meio do cemitério? Um nada?! Você nasceu pra quê, minha filha? Para ser nada? 

ZEZA 

            Nada. O nada... 

( Pausa. Cerra os olhos como se meditasse sobre essa idéia, como se estivesse saboreando a palavra. Então ascende-se ao fundo a Consciência Ideal de Zeza, letrada, culta, capaz de articular num nível mais elevado tudo o que ela pensa ou gostaria de expressar.)  

CONSCIÊNCIA IDEAL DE ZEZA 

            Esvaziaram-me de tudo, de todo e qualquer desejo de progredir, de ascender, de ter o futuro como algo a ser conquistado. O meu ser, aniquilado brutalmente, refugia-se desde então numa gruta secreta, cavada no mais íntimo da  carne e dos ossos. Essa recusa de ir adiante, de transpor os muros que separam os dias, pode muito bem ser denominada de um profundo desejo de nada.  Le néant  existencialista, um bocado de niilismo, de revolta contra tudo etc. etc. etc..  

            (Apaga-se a Consciência Ideal de Zeza. ) 

ZEZA

(retomando a palavra) 

É, nasci pra ser nada. Nada... NADA! E isso já é o bastante, Dona Altina.  

DONA ALTINA 

            Esse não é o propósito de Deus. 

ZEZA

            Pode não ser, mas é o meu.

continua...

 

 

 

             

Geraldo Lima nasceu em Planaltina (GO) em 1959 e vive em Sobradinho (DF). Publicou: A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF, 1997); Baque (contos, LGE Editora/FAC, 2004); Nuvem muda a todo instante (infantil, LGE Editora, 2004). Participou, em 2004, da Antologia do conto brasiliense (Projecto Editorial, org. por Ronaldo Cagiano). É autor das peças de teatro Error (encenada pela Oficina do Teatro de Periferia) e Trinta gatos e um cão envenenado.

 

;:;;

;;:

+ LITERATURA

  ®  dramaturgia  ®  Aldo Marcozzi & Tania Alice Feix  ®  Geraldo Lima  ®  Luciano Bonfim  ®  Miguel Carneiro
  ]  poesia  ]  Caio Gagliardi  João Tomaz Parreira  Júlio Lira  ]  Os 7 do Achamento  Os 7 da Bahia  Vicente Martins

 

ADJACÊNCIAS

© crítica ©  Caio Gagliardi interpela Ricardo Lima
©  Cândido Rolim lê "primeiro as coisas morrem"
©  Luiz D. Maia assiste Paris no cinema
} artigos } Daniel Glaydson obs. as mãos dos negros
} Vera C.N. e José A.B. pesq. visualidades poéticas
} Vicente Martins escreve a poetas de 45

 

:;;

;;:;

.: editorial :

 Bonfim                        Feix                        Glaydson

.: contato .

 famigerado@famigerado.com