A representação do negro pelo que ele tem de branco:
                                       anotações de literatura comparada

daniel glaydson

 

 

Race d'Abel, ton sacrifice
Flatte le nez du Séraphin !

Race de Caïn, ton supplice
Aura-t-il jamais une fin ?
( "Abel et Caïn", Charles Baudelaire )


Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(Que são quase todos pretos)
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos, quase pretos de tão pobres são tratados
( "Haiti", Gilberto Gil/Caetano Veloso )
 

( 1 )

            Debruçar-se sobre como o ser negro figura nessa espécie de “insconsciente coletivo”, para usar o termo de Jung, criado e mantido a partir de representações calcadas ainda numa estrutura mágica de pensamento, em mitos, em ficções que perduram ao longo dos séculos. Nessas representações, o que há de ingênuo e o que há de imposto? E não será essa ingenuidade a própria imposição?

A isso nos propomos aqui, humildemente.

Para tanto, alçaremos vôo no impulso de duas amostras: uma da literatura oral paraibana, outra da literatura moçambicana – textos que discorrem sobre tentativas de explicação para o fato de serem brancas as palmas das mãos e plantas dos pés dos negros. No limiar dessa curiosidade, surge o que nos interessa: a representação do negro.

Em outras palavras, o homem tentando explicar quase que pré-racionalmente algo que lhe atiça a curiosidade e, a partir daí, fazendo perceber toda uma concepção ideológica. Essa ideologia de que falamos é o racismo, e detemo-nos aqui por acreditar ainda, tal qual Octavio Ianni, que 

a questão racial revela, de forma particularmente evidente, nuançada e estridente, como funciona a fábrica da sociedade, compreendendo identidade e alteridade, diversidade e desigualdade, cooperação e hierarquização, dominação e alienação.[i] 

 

( 2 )

            Nada mais pertinente, numa tentativa de detectar a representação do negro, do que trabalhar com contos orais. É neles que está exposto o pensamento do homem simples, do povo mesmo, na sua essência. “Por que o negro é preto”[ii] é estória registrada por Ademar Vidal, de João Pessoa (PB). Aqui, da intrigante questão: “Por que o negro tem a sola dos pés e a palma das mãos inteiramente brancas?”, o personagem Mestre Alípio, vaqueiro, toma fôlego para contar uma espécie de gênesis do homem negro:

            Uma mãe, com vergonha por ter tantos filhos, esconde alguns de Jesus, que “costumava passear por todos os recantos numa como visita da inspeção”, e à guisa de castigo divino, as crianças ficam pretas. “Por causa de uma mentira se tornara mãe de oito filhos negros. Seu desgosto não podia ser senão enorme. Revoltada consigo mesma, não escondia a sua tristeza”.

            É absurdamente evidente. Sem quaisquer peripécias, o racismo está escancarado: o negro surge originalmente de um castigo, de uma mentira; e a mãe, exaspera-se. Pedro vem ajudar-lhe: “– Leve os meninos ao Jordão e faça-os banhar nas suas águas que eles ficarão brancos”.

            Jordão é “rio sagrado”. Logo, notemos que o tornar-se branco é nada mais nada menos que ritual de purificação.

            Para infelicidade da mãe, o rio estará “quase seco, com um fiozinho de nada correndo, mal chegando para que as crianças pudessem molhar a sola dos pés e a palma das mãos”. Neste ponto, a narrativa se assemelha à explicação mais conhecida, folclórica, dessa questão: a de que Deus teria feito o homem do barro escuro, e este, para ficar “pronto”, banhar-se-ia num lago e ficaria branco. “Os primeiros que mergulharam obtêm alvura e beleza, os outros ficam mulatos e os derradeiros tendo apenas lama para chapinhar os pés e borrifar as mãos, lugares que branquejaram, palma da mão e sola dos pés, são os negros”[iii].

            Fechando sua palestra, Mestre Alípio, o “vaqueiro conceituado, administrador do Engenho Itaipu”, acrescenta detalhe essencial à nossa discussão: “Os escravos da Várzea costumavam contar essa história nas suas reuniões domésticas das senzalas e também da Casa Grande”. Ou seja, não se trata apenas daqueles que mandavam nos escravos, administradores de Engenho, brancos (ou mesmo mulatos) espalhando uma estória para fazer com que os negros assimilassem sua posição de inferioridade, sentindo-a explicada e explicitada desde a origem: o próprio negro era justamente quem difundia os contos – contos estes arraigadamente expositores de uma representação racista do homem negro.

Aqui entra uma das questões essenciais deste breve estudo: a ingenuidade do negro ao difundir essa ideologia prejudicial a ele mesmo, seu desconhecimento de que 

as representações são idéias, conceitos, concepções, valores, princípios e imagens com os quais pensamos sobre a realidade, sobre nossas condições de existência. As nossas práticas, as nossas atitudes cotidianas são orientadas pelas representações que formamos em nossas mentes sobre quem somos, o que devemos fazer e como devemos interagir com as outras pessoas.[iv] 

            Isto é, o negro escravo, quando repetia aquela história nas senzalas e na Casa Grande, estava “ensinando” a si próprio que: (i) era um ser inferior; (ii) sua função, logo, estava relacionada ao servilismo; e (iii) sua interação com o outro seria pautada pela submissão.

            Essa questão da ingenuidade é das mais sérias. Osmundo de Araujo Pinho, tratando do movimento negro em pleno séc. XXI, descreve “a luta pela emancipação racial como atravessada pela emergência de uma consciência insurgente afrodescendente que se materializa sob duas formas”[v]. Uma dessas formas é exatamente 

esta consciência insurgente ensaia[ndo] manifestar-se como a coagulação de uma perspectiva crítica que em alto grau de reflexividade faz a crítica radical das políticas de representação racial como instrumentos de consolidação hegemônica nas artes e nos discursos eruditos ou competentes.[vi] 

            Tal citação reverbera a voz do movimento negro, consciente de que, sem vencer e destruir tais representações racistas que estão incutidas no âmago das pessoas, lá depositadas minuciosamente por instrumentos de consolidação hegemônica, tais quais o conto oral de que tratamos, a superação da questão racial torna-se um objetivo inatingível.

            Chegamos então ao problema da representação enquanto ingenuidade e imposição. Esta imposição apresenta-se óbvia quando notamos que todas aquelas variações populares da gênesis do homem negro (aliás nunca desvinculadas de conteúdo religioso) têm sua matriz na própria Bíblia. São, de um certo modo, apenas simplificações e releituras da trama mais complexa que se apresenta no livro sagrado dos cristãos.

            Sobre essa trama, encontrada no Gênesis, 9, 18-27, discorre Alfredo Bosi em sua Dialética da colonização: 

O destino do povo africano, cumprido através dos milênios, depende de um evento único, remoto, mas irreversível: a maldição de Cam, de seu filho Canaã e de todos os seus descendentes. O povo africano será negro e será escravo: eis tudo.[vii] 

            O que fica, tanto na trama originária, bíblica, quanto nas suas variações populares, é que, nas palavras de Cornel West, sempre “a pele negra é uma maldição divina devido ao desrespeito e à rejeição da autoridade paterna”[viii]

 

( 3 )

            Vejamos, então, a segunda amostra literária inicialmente citada: “As Mãos dos Pretos”[ix], conto do escritor moçambicano Bernardo Honwana, em que sintetiza muitas das questões aqui trabalhadas.

Por ser praticamente uma coletânea de várias tentativas de explicação para a tal “coisa de as mãos dos pretos serem mais claras”, o conto apresenta uma riqueza inestimável nesse estudo das representações, pois que traz das mais variadas vertentes de comentários sobre o tema.

No texto, um jovem estudante, provocado por opiniões completamente diversas entre o Senhor Professor e o Senhor Padre, sai perguntando a tudo e todos sobre a claridade das mãos dos pretos. O Senhor Professor assevera que é “porque ainda há poucos séculos os avós deles andavam com elas apoiadas ao chão, como os bichos do mato”; e o Senhor Padre, “porque eles, às escondidas, andavam sempre de mãos postas, a rezar”.

No primeiro, vê-se explicitada uma idéia que está no cerne da aceitação da escravidão como algo natural: o negro como um animal num estágio de evolução muito anterior ao branco, logo não tendo qualquer outra utilidade além do aproveitamento irracional de sua força. Já a concepção do padre, se parece mais positiva à primeira vista, mostra na verdade o clero num posicionamento político estratégico a fim de cristianizar o negro africano, tradicionalmente adepto a outras religiões ou seitas, como o islamismo ou o candomblé.

No conto de Honwana, há também exemplos de explicações que remetem, de forma explícita, à questão do negro como um ser originariamente criado para servir o branco: Dona Dores diz que “Deus fez-lhes as mãos assim mais claras para não sujarem a comida que fazem para os seus patrões ou qualquer outra coisa que lhes mandem fazer e que não deva ficar senão limpa”; e um certo livro informa, mais tarde, “que os pretos têm as mãos assim mais claras por viverem encurvados, sempre a apanhar o algodão branco de Virgínia e de mais não sei onde”.

Nota-se a recorrência, em todas as amostras citadas, do branco como sendo algo puro, belo, limpo – e do negro, conseqüentemente, impuro, feio, sujo (significação que se comprovaria numa pesquisa etimológica do “negro” – fato que impressiona por explicitar uma ideologia que a própria palavra carrega ao ser pronunciada). Vejamos um exercício interessante: tentemos isolar essas duas “cores” da questão de pele, racial, e visualizar nossa concepção sobre elas em outros campos da experiência – seja estética, semântica, metafórica, enfim.

E agora, qual o resultado dessa abstração? Talvez não tenha diferido muito dos conceitos de “branco = puro, belo, limpo” e “negro = impuro, feio, sujo”. Questões que permanecem: até que ponto esses conceitos são naturais da própria “cor” e até onde eles são uma imposição social que invadiu inclusive nosso olhar? será a nossa relação com o outro pautada por esses símbolos da “cor”?

Cabe ainda, do último trecho citado, uma digressão importante: quem vai dizer ao jovem “que os pretos têm as mãos assim mais claras por viverem encurvados” é, simplesmente: um livro. Este livro desconhecido, na verdade, é um Livro. Metáfora do livro enquanto objeto de manipulação política, enquanto instrumento de consolidação hegemônica. É o “colonizador” quem detém as editoras, a imprensa, o poder mesmo da palavra (relembremos o problema da etimologia).

Essa questão remete às origens católicas de todas essas representações do negro, como tratamos anteriormente. A imposição do Livro sagrado, inquestionável: a Bíblia. Tal símbolo do livro é fatal, definitivo, usado de forma sagaz por Bernardo Honwana, escritor consciente, engajado nas lutas pela independência do seu país, independência da palavra do colonizador – colonizador agora sem aspas.

E assim o texto de Honwana segue, apresentando ainda várias outras explicações para a claridade das “mãos dos pretos”, algumas ridicularizando mesmo a origem do negro, como uma que é contada logo por um “Senhor Antunes da Coca-Cola” (!).

Então, depois de tanta informação dispersa, o jovem estudante recorre à mãe. Enquanto ele contava todas as explicações que já tinha ouvido, a mãe fartava-se de rir,  

e mesmo assim a chorar, agarrada à barriga como quem não pode mais de tanto rir. O que ela disse foi mais ou menos isto:
“Deus fez os pretos porque tinha de os haver. Tinha de os haver, meu filho. Ele pensou que realmente tinha de os haver... Depois arrependeu-se de os ter feito porque os outros homens se riam deles e levavam-nos para as casas deles para os pôr a servir como escravos ou pouco mais. Mas como Ele já os não pudesse fazer ficar todos brancos porque os que já se tinham habituado a vê-los pretos reclamariam, fez com que as palmas das mãos deles ficassem exactamente como as palmas das mãos dos outros homens. E sabes por que é que foi? Claro que não sabes e não admira porque muitos e muitos não sabem. Pois olha: foi para mostrar que o que os homens fazem, é apenas obra de homens... Que o que os homens fazem, é feito por mãos iguais, mãos de pessoas que, se tiverem juízo, sabem que antes de serem qualquer outra coisa são homens. Deve ter sido a pensar assim que Ele fez com que as mãos dos pretos fossem iguais às mãos dos homens que dão graças a Deus por não serem pretos.
 

            A mãe surge como a única voz consciente do conto, que é o universo todo. Consciente não só dos problemas mais concretos, como a escravidão, mas também de toda a sutil engrenagem que sustenta as infames representações do negro. No trecho “E sabes por que é que foi? Claro que não sabes e não admira porque muitos e muitos não sabem”, a mãe aborda exatamente os problemas da ingenuidade e da imposição, fazendo perceber que a ingenuidade é, antes de tudo, a principal das imposições.

            As duas raízes do problema da representação do negro, como vínhamos mostrando: a imposição de hierarquias supostamente naturais, como quer o texto bíblico; e a ingenuidade do negro ao difundir esse ideal nocivo a si próprio, não são enfim problemas estanques. A condição não-crítica do negro seria também uma imposição do branco – ditador e detentor do “conhecimento”.

            Dentre vozes representando o ideal capitalista, vozes pela manutenção do status quo do branco, dentre tudo isso, a mãe é a voz do movimento negro.


 

[i] IANNI, Octavio. “A dialética das relações raciais”. In: http:// www.antropologia.com.br/arti/colab/a16-oianni.pdf

[ii] CASCUDO, Luís da Câmara (compilado por). Contos tradicionais do Brasil. 8. ed. São Paulo: Global, 2000. p. 262-4.

[iii] Ibidem, p. 265

[iv] PRAXEDES, Rosângela Rosa, PRAXEDES, Walter. “Representações sobre o negro e um novo senso comum”. In: Revista Espaço Acadêmico, n. 32, jan/04.

[v] PINHO, Osmundo de Araujo. “‘O sol da liberdade’: movimento negro e a crítica das representações raciais”. In: http://www.comciencia.br/reportagens/negros/15.shtml

[vi] Ibidem.

[vii] BOSI, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Cia das Letras, 1996. p. 257-258.

[viii] Apud GIROUX, Henry A. Cruzando as fronteiras do discurso educacional: novas políticas em educação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1999. p. 136.

[ix] RAMOS, Ricardo (seleção, prefácio e notas). Contos moçambicanos. São Paulo: Global (Moçambique: Livraria Universal), 1990. p. 43-7.

 

 

 

 

Daniel Glaydson (Picos-PI). Poeta, tradutor, funcionário público federal e graduando em Letras - Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Estadual Vale do Acaraú.

 

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