Uma Poética da Obsessão
na poesia de Ricardo Lima

                                                                                caio gagliardi

 

 

1.

Livro de estréia de Ricardo Lima, jovem poeta de Jardinópolis, radicado em Campinas, Primeiro Segundo (1994) tem seu lirismo regido pelo signo da transitoriedade. O volume é organizado em duas séries de poemas curtos e silentes, claramente impessoais, e de tonalidade muito tênue, quase transparente. Essa sensação se depreende do sentimento comum que modula a experiência de um eu lírico recorrente, inserido num fluxo de transformação que o impossibilita de encontrar o tempo presente; de fixar-se, melhor dizendo, numa determinada impressão.

Pode-se dizer, para especificar essa constatação, que a percepção do mundo é aqui mediada pelo matiz da perda, seja ela produzida pela mudança ou pela partida.

Como decorrência disso, o sentido da experiência não se aloja no sujeito que experiencia; os poemas o lançam sobre as coisas – quase sempre as coisas miúdas e
domésticas –: “sei que as coisas têm forma / em todos os olhos há como aprendê-las”.

Naquele que experimenta, o que fica não se presta à constatação, menos ainda à análise. O lirismo desse Primeiro Segundo reside, assim, nessa imprecisão.

            Inserido na semântica da fugacidade está, com especial relevo no livro, o fel dos relacionamentos: “espero o telefone / que toca em outro andar”. É essa sua mancha temática mais visível, menos volitiva. O erotismo se revelará naquele instante específico da iminência, “de perfumes sobrepostos / e corpo à beira de um toque”. Em consonância, nada de arroubos, lamentos e exaltações: “Não sentimento de olho ornamental / amor festa de carinho / versos de algazarra”. As vontades são medidas, o desejo dosado a conta-gotas. A perspectiva, de pequeno alcance (“porta da sacada: fechadura e dobradiça. / para a rua: emperrada.”) é, entretanto, calculadamente distanciada: “ter / sobretudo / um casaco fino / que de nada protege // só divide”.

Nesse Primeiro Segundo, uma poética se principia, configurada como espécie de rito de passagem, residente na idéia do antes para o depois, do, como sugere o título, primeiro para o segundo. Mas também como algo que tão somente se insinua. O corpo de poemas que a sustenta produz, para justificar sua dissipação, efeitos desiguais.

Ao que parece, isso ocorre porque, no limiar do silêncio, do nominalismo onipresente dos textos, e da enxutez às vezes excessiva de contextos, a sensação que fica, e que é, a despeito das particularidades do livro, comum de se experimentar em muitos outros poetas contemporâneos, é a de que se transita aqui para a cifra, para a codificação.

O que encontro nesse livro de 1994 é menos um conjunto de bons poemas do que uma poesia em potencial, escondida, ainda, num vale fundo de recusas e silêncio.

 

2.

O reencontro com a escrita do poeta, em Chave de Ferrugem (1999), representa um razoável ganho em relação ao trabalho que o antecede. Já de partida, a opção por intercalar a alguns textos xilogravuras do começo do século XX, de Frans Masereel, convida para uma leitura conjunta texto-imagem. Essa justaposição não é óbvia, dado que entre as gravuras e os poemas estabelecem-se relações que vão, claro está, além da mera ilustração. Mais especificamente, se em alguns casos as gravuras de fato apenas ajudam a ler os textos, em outros os textos as tomam como mote, desenvolvendo, portanto, o que ali se pode observar.

Das treze imagens, três estão relacionadas ao universo algo onírico da infância, da liberdade e da imaginação; as demais carregam uma marca mais escura, em geral associada à solidão e à morte.

É esta última que fornece o tom do livro.

Repara-se que, a exemplo de Primeiro Segundo, em Chave de Ferrugem existe uma transição claro-escuro, cujo sentido mais amplo se traduz na passagem da infância para a velhice, da vida para a morte. Retraça-se aqui um percurso que não é outro senão o da duração da vida.

O tempo, portanto, que é também o tema desta obra, não é metafísico, ou mesmo histórico, mas o tempo biográfico. Sua passagem tem, basicamente, dois significados no livro: 1) a constatação da impossibilidade de se recuperar o passado (“o sol vai e vem, nunca voltamos”, ou, “sonho em outra língua / ou quintal sem infância”), do qual se guarda certa nostalgia (“em móveis / o pó / que arruína”); e 2) a consciência despertada para o envelhecimento (“horas esquentam copos / no corpo plantam brancos”), e, por decorrência, para a morte (“há resumo de sombras no telhado / semblante de roupas vazias / e o semblante do amigo que morreu”, ou ainda, “ao norte / chuva / quando fina / com o laranja da lenha estalando // deixa a vida / com fim”).

            Com evidente impessoalidade, essa abordagem ganha contornos dramáticos, e um tom, por vezes, de epitáfio.

            É preciso explicar melhor essa assertiva: distantes daquela aceitação da passagem do tempo que o acúmulo dos anos muito oferece ao poeta maduro, os poemas aqui não revelam consciência de aprendizado, serenidade contemplativa, ou mesmo especial apego à vida. Qual ferrugem, a passagem do tempo é corrosiva. Mas essa corrosão, nem sempre às claras, tem outros nomes. Trata-se, às vezes, de rotina, da previsibilidade do que está por vir (“esta vida que vou ter / vida que tenho / estes dias / estes dedos // sem anel esta vila diária // inocente, semanalmente, / como galão de água / sempre. até o fim”), noutros momentos, do envelhecimento do corpo (“com a idade / atenção ao corpo // ossos se colocam / cicatriz brota de uma perda”), também da perda do frescor (“começa e termina agora / todo começo // nunca mais ler este verso / pela primeira vez / nunca mais nada pela primeira vez”), e, por fim, da morte como fato isolado, insignificante, diante da continuidade do mundo (“na manhã seguinte à morte / haverá um jornal / deitado na grama como este // latido / abelha silenciosa / rosa).

 

3.

Em seu terceiro volume, Cinza Ensolarada (2003), o poeta permanece às voltas com o que na sua poesia se configura como tópica: o tempo. Suas pontas extremas: a velhice e a infância. De um livro para outro pequenas mudanças são notadas, uma perspectiva que vai se lapidando e se transformando, talvez a presença maior da infância nesse textos, mas sobretudo a constatação de que essa escrita, em linhas gerais, está direcionada para um mesmo ponto. A linguagem, por seu turno, ao recusar o coloquial e o declamatório, bem como as formas métricas e rítmicas tradicionais, quase sempre abolir a pontuação, nunca ultrapassar a fronteira da primeira página, valer-se muito do infinitivo e do verso curto, e manter-se na impessoalidade econômica de antes, permanece basicamente a mesma. Os poemas revelam, assim, uma consciência ocupada com um problema, árvore única desse descampado por onde caminha o poeta.

Diante do sentimento insurgente de dejà vu em quem acompanha a trajetória desta poesia, e que resiste a suas pequenas modalizações, cabe perguntar para onde caminha R. Lima. Ou, ainda, mais objetivamente com base neste livro, o que faz deste Cinza Ensolarada efetivamente um outro livro?

Creio, como antecipei, que, aqui, a presença da infância na idade madura é um tanto mais marcante que antes. A “infância nina acordes sem temor” através da memória acesa pelas coisas (“flor / como espiga / acende memória”). Esse espaço da memória, em que aparecem os adultos e os velhos da infância (“uns de chinelo e banguelas / outros de perfume e fumaça”), e o universo próprio da criança (“domingo ciranda / de galo / e macarrão”) é de tonalidade azul (“brilho de azul / liberta”).

Mas esse acento maior na infância não apaga o traço de ferrugem deixado pela chave poética anterior. Retomadas do livro de 1999 são aqui constantes. Antes, “correr / e pensar correr / para o que é vida e fumegante // correr / sem pensar correr / não somando os dias a sumir”. Agora, a corrida, associada à leitura, é também forma de libertação: “correr / correr os olhos / correr pela página o vento”.

A recuperação da infância, por seu turno, embora a todo tempo exercitada, não se mostra completa, na medida em que o homem maduro, consciente, está distante das coisas da infância. Se em Chave de Ferrugem se lia “dias que quase não terminam / do outro lado desta / mesma lesma vida // sem uva ou pelúcia”, agora se lê: “saudade / é idade de todos // dia cruzando rio / inseto ruivo / ou açafrão // frio rubro / plúvio / uva ou doce limão”.

No livro anterior a maturidade estava relacionada a uma liberdade precavida, em “visto a mochila de cuidados / e de livres luvas a manhã”. Neste, o sentido atribuído à palavra “luva” permanece o mesmo, só que, por se tratar da infância, abandona-se o intermediário, a precaução. A infância é “a vida / sem luva”.

Ainda em Chave de Ferrugem, a rotina previsível de “esta vida que vou ter / vida que tenho (...) // inocente / semanalmente, // como galão de água // sempre. até o fim” se deflagrava na imagem estática, pesada, do galão de água, que esvazia e se enche novamente, sem surpresa. Sem mudança aparente, em Cinza Ensolarada lê-se: “não / atrasar um minuto / às refeições // ajudar na roupa de cama / no galão de água potável // limpar, sempre, a areia / do deserto que bate / à porta”.

Essas retomadas não parecem conduzir os poemas para um novo lugar. Estamos ainda nadando nas mesmas águas, experimentado os avatares da passagem do tempo, as mortes dos demais (“agora e o minuto / da próxima morte”, ou “amigos / deixam na agenda / o telefone quando morrem”) e o envelhecimento (“água cala / barba cresce / e prosseguimos”).

Aqui e ali, por outro lado, recuperam-se ecos de poetas que talvez tenham servido a R. Lima, como os versos drummondianos de “no retrato prata / dos antepassados / uma rua / que não leva mais / pra casa”, e que desfazem a idéia de recusa a uma tendência específica, disposta no livro anterior: “sem prumo / tolerância ou palco ?/ sem tendência”.

Essa repetição, traço de evidente obsessão poética, não seria má em si mesma não fosse, a essa altura, refratária nesse percurso poético que, por se tornar estacionário, resiste à transição.

 

4. 

A leitura do mais recente livro do poeta, Impuro Silêncio (2005), oferece subsídios para que se reafirme a assertiva anterior, embora seja mais sugestivo pensar num outro aspecto de sua escrita, que talvez oriente melhor a leitura.

Sem exceção, os poemas de R. Lima não são intitulados. Além disso, são textos que se iniciam com letra minúscula, e que não se encerram com ponto final. A sensação visual que transmitem é de estarem algo soltos na página. E talvez seja mesmo esse o “x” da questão aqui.

Considero que essa constatação leva a pensar numa espécie de apelo dos poemas para um modo de leitura. Isso porque se, isolados uns dos outros, os poemas muitas vezes constituem enigmas, indícios obtusos de uma mensagem subliminar, quando aproximados eles passam a desenhar um trajeto mais visível, e, acrescente-se a isso, instigante.

Os poemas de R. Lima estão profundamente coligados.

Daí o que me parece crucial nessa escrita: ela está pautada na concepção de livros. R. Lima é poeta, portanto, que trabalha sob uma orientação estrutural (pouco importa se mais ou menos consciente). Bem por isso, o único título com que nos deparamos é o do livro; título de cada uma de suas partes, que passamos a juntar em busca do poema todo, neste caso, Impuro Silêncio.

O que se pode argumentar aqui é que essa poética reclama um leitor especialmente atento ao mesmo tempo para o detalhe e para o conjunto, e que, o mais importante, não perde de vista a composição do todo na passagem para cada texto. 

Durante a tarefa de recomposição de Impuro SIlêncio, reparo novamente na importância do tema da velhice nesses textos. Seu tratamento não tem como herança o caldo da sabedoria, no sentido tradicional de Da Velhice, de Cícero, ou a profundidade psicológica do apaixonado Emiliano Brentani, protagonista de Italo Svevo, em Senilidade, ou mesmo a recorrente expectativa da morte, em M. Bandeira, tampouco a sensualidade de Kaváfis. A velhice aqui é erosão – decrepitude do corpo e solidão da alma. Escorre um amargor desses versos, e o que se extrai disso é um lamento metafísico e nadificante. Mas também uma mitologia pessoal, como um armazém de sentidos ocultos que se desvela aos poucos.

Confesso que é difícil para mim contornar o fato de que trato aqui de um poeta jovem, por ser tão obcecado e às voltas com a velhice. Penso no seu decurso poético, e, muito a seu exemplo, isto é, como forma de recusar o ponto final, e de abrir diálogo entre os textos, ocorre-me um poema que, trazido até aqui, faz contraponto com as ruínas da velhice de Impuro Silêncio. E é com este texto que gostaria mesmo de encerrar esta leitura:
 

Fazer 70 Anos

                                        A José Carlos Lisboa 

Fazer 70 anos não é simples.
                                          A vida exige, para o conseguirmos,
                                          perdas e perdas no íntimo do ser,
                                          como, em volta do ser, mil outras perdas.

                                          Fazer 70 anos é fazer
                                          catálogo de esquecimentos e ruínas.
                                          Viajar entre o já-foi e o não-será.
                                          É, sobretudo, fazer 70 anos,
                                          Alegria pojada de tristeza.

                                          Ó José Carlos, irmão-em-Escorpião!
                                          Nós o conseguimos...
                                          E sorrimos
                                          de uma vitória comprada por que preço?
                                          Quem jamais o saberá?

                                          À sombra dos 70 anos, dois mineiros
                                          Em silêncio se abraçam, conferindo
                                          a estranha felicidade da velhice.  

Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

 

Caio Gagliardi, Doutor em Teoria e História Literária pelo IEL – UNICAMP. É editor da revista de poesia Lagartixa e do site www.criticaecompanhia.com

 

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