7 poemas da antologia o achamento de portugal

 

 

       ouro preto na voz da minha mãe
                                             josé luiz peixoto



ouro preto, desço ruas e, por baixo dos passos,
um caminho da minha terra: a memória da voz
limpa, fonte, branca, claridade, claridade,
a minha mãe
a minha mãe de encontro a uma parede banca:
vai sempre ao rés da parede, filho.

ouro preto, estendo um abraço para tocar a última
igreja antes do céu.

ouro preto, acabei de nascer no meio da praça.
a minha mãe
a minha mãe cansada diz-me:
esta é a tua terra, filho.

ouro preto, chego pela primeira vez aonde
sempre estive.

 

 

 


                                     trágica
                  ana elisa ribeiro
                                                                                                           



[para meus galegos ficcionais]

meu galego
não conhecia minha ira

era dono do meu corpo
meu espírito de porco

sabia minha ginga
minha pletora, minha míngua

conhecia cada fresta
cada trinca, cada aresta

cada vinco, furo, fissura,
mau humor, amargura

mas da minha ira
condenada ira
ira de maldita

ira de mulher
fêmea exata
ana saliente
uterina, enfezada
ele não sabia de nada

(meu galego dorme esta noite num cemitério improvisado)

 

 

 


         o país que não conheço deu-me um bisavô
                         josé aloise bahia                                            



o país que não conheço deu-me um bisavô,

navegante simples em seu barco cheio
de peixes, que sempre volta à terra firme.
o país que não conheço deu-me um bisavô,
encantador de histórias do céu, fogo e ar.
lá no meio da baía vislumbra um castelo.
lá no meio da baía vislumbra um cardume.
o país que não conheço deu-me um bisavô.
bisavô dourado feito sol em ondas extensas,
bisavô que tarda e não falha a içar as velas,
bisavô que cedo madruga: que faz despertar
o mar que em mim se agita, me embarca
em tamanha travessia e liberta imagens
que chegam num turbilhão de norte a sul...

 

 

 


                  uma alegria
                                           ricardo aleixo



jamais minas gerais
vibrou dentro de mim


o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor

transatlântico negro
como naquele breve maio

ensolarado de alegrias
quando eu deambulava

pelos becos e ladeiras
de coimbra e descobri

em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas

áfricas utópicas
ali em meio aos portugais

 

 

 


                      esportes radicais (1. tiro à língua)
                      fabrício marques
                                                                                                                                                   



Penso, logo tropeço

Nessa língua
à mingua

Portugal
a pique

Som que se vai
Voz que se apaga
Memória que não mais existe

Penso, logo adormeço
E sonho

Certa draga
Retira do fundo do rio
Uma língua em riste
que diz

- Muitas se foram
Muitas hão de ir
Eu ficarei
Eu à prova de mim

 

 

 


                                                     achados e perdidos
                                                    maria esther maciel
                                                                                                                                                                           



Lídia, quando menina, gostava de se sentar à beira do Tejo para
ver os peixes esquivos. Dia após dia, neles via sempre a mesma
vida, o mesmo desassossego, como se, para eles, repetir o

movimento fosse uma espécie de estilo. Isso a surpreendia. Por
que os peixes não era dado o fastio?
– perguntava-se em sigilo.

Lídia, que ainda sente por eles um certo fascínio, hoje, longe do
Tejo, responderia a isso dizendo que as coisas, por mais
repetíveis, contêm, todas elas, um rio – subterrâneo ou de
superfície. Ou seria um ritmo? Mas seja o que for, é isso que
garante ao mesmo uma dose de imprevisto. Ou de viço. Aliás,
toda a história de Lídia se resume de certa forma neste mínimo:
por mais que ela busque a ordem dos peixes, algo a desvia.

 

 

 


                                  a barca lenhada
                                               milton césar pontes
                                                                                                                                                                                      



sou ibérico peninsular caramuru navegado
a barca lênhada a própria esquadra
lusitana velas e mastros casco quilha
eu rasgo a única massa líquida da grega
profecia ciclonírico na corrente marítima
21 22 23 26 sinais de terra achamento
ancoradouro missa sou este selvagem
luso índio afro brasileiro que
faz poemas e se arremessa atado
a âncora com fios de cobre na artéria
do fado que me canta o atlântico o
pacífico e o índico soprará boreas e eu
que sempre fui ulisses latitude e longitude
águas que me atravessam ruindo o corpo
mar de meu barco minhas mãos remos
um náufrago e a maré de calafrios
neste lugar é lucidez a réstia que me fita
no afamado modo figurado de navegar
não de gregos ou romanos
mas sim de lusitanos

 

 

 

             

A Antologia Poética O Achamento de Portugal (anomelivros, 2005) foi organizada pelo editor, ator e poeta Wilmar Silva. É composta por 40 poetas mineiros e portugueses contemporâneos. O livro tem os patrocínios do Consulado de Portugal em Belo Horizonte-MG, Fundação Calouste Gulbenkian (Portugal) e Fundação Camões (Portugal). Será relançada em Lisboa.

José Luiz Peixoto
nasceu em Galveias, Portugal. Vencedor do Prêmio Jovens Criadores do Instituto Português da Juventude (1998 e 2000). Autor de Nenhum Olhar (romance, 2000) e A Criança em Ruínas (poesia, 2001). Em 2002, foi o primeiro autor português convidado para a residência de escritores na Ledig House, Nova Iorque, EUA, a preparar o seu terceiro romance.

Ana Elisa Ribeiro nasceu em Belo Horizonte-MG. Publicou Poesinha (Coleção Poesia Orbital, 1997) e Perversa (Ciência do Acidente, 2002). Doutoranda em Linguística na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

José Aloise Bahia nasceu em Bambuí-MG e reside em BH. Sócio fundador e diretor de jornalismo cultural da ALIPOL (Associação Internacional de Literaturas de Língua Portuguesa e Outras Linguagens). Autor de Pavios Curtos (poesia, anomelivros, 2004) e Em Linha Direta (no prelo).

Ricardo Aleixo nasceu em Belo Horizonte-MG. Autor de Trívio (poesia, 2001) e Máquina Zero (poesia, 2004). Curador da Bienal Internacional de Poesia/BHZIP, função que exercera em 1998.

Fabrício Marques nasceu em Manhuaçu-MG e reside em BH. Jornalista, professor de comunicação social e ex-editor do Suplemento Literário de Minas Gerais. Autor, entre outros, de Samplers (poemas, Relume Dumará, 2000, Prêmio Cultural de Literatura do Estado da Bahia), Meu Pequeno Fim (poemas, Scriptum, 2002) e Dez Conversas (entrevistas, Gutenberg, 2004).

Maria Esther Maciel nasceu em Patos de Minas-MG e reside em BH. Autora, entre outros, de: As Vertigens da Lucidez/poesia e crítica em Octavio Paz (ensaio, 1995), Triz (poesia, 1998) e O Livro de Zenóbia (ficção, 2004). Pós-doutora em literatura comparada e estética pela Universidade de Londres, Inglaterra.

Milton César Pontes nasceu em Ipiaí-SP e reside há mais de 15 anos em BH. Ativista cultural, performer, autor, dentre outros, de Fecundado (poesia, 1994) e Arímicas (poesia, 2003).

 

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